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13.12.21

NISA: JOÃO FRANCISCO LOPES (1936-2020) - 1

 


A MÚSICA: A "MENINA DOS SEUS OLHOS"
Após o êxodo dos anos 60, com a Emigração e a Guerra Colonial, a Banda de Nisa sofreu uma grande "razia" e parou a sua actividade. No início dos anos 80, JOÃO FRANCISCO LOPES, teve um papel preponderante na REACTIVAÇÃO DA BANDA. Nasceu uma Escola de Música e em 1988 constituiu-se a Sociedade Musical Nisense, da qual foi dirigente durante 20 anos, a maior parte dos quais como Presidente da Direcção. As fotos "falam" desse tempo de activo participante na divulgação e consolidação da sua "Menina dos Olhos": a Música.

7.12.21

NISA: Conferência e Exposição de Homenagem a João Francisco Lopes

 
Os alunos do 6º ano do Agrupamento de Escolas de Nisa, promovem uma Conferência de Homenagem a João Francisco Lopes, grande defensor do património local, no próximo dia 9 de Dezembro, às 15 horas, no auditório da referida escola. 
Depois da Conferência terá lugar a Inauguração da Exposição de Homenagem a João Francisco Lopes, na sede da União de Freguesias de Nisa, a qual ficará aberta ao público até 31 de Dezembro.

2.2.21

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (21): Orgulho e Preconceito versus Sensibilidade e Bom Senso

 

Dois títulos, duas obras literárias de grande valor, de uma mesma autora; Jane Austen, romancista de primeira água.
Tarefa difícil, é retratar seja quem for e encaixá-lo em um qualquer dos dois títulos. Mais difícil ainda é o destinatário, havendo-o, aceitá-lo, se o dito brigar com o conceito que faz de si próprio, não poucas vezes alicerçado na vaidade, num preconceito assumido antes de tempo e nada fundamentado.
E se esta conversa se aplica ao primeiro dos títulos (“Orgulho e Preconceito”), já sobre o segundo (“Sensibilidade e Bom Senso”), o saldo é deveras negativo para o concelho, por não ouvirem para bem julgarem, ao não praticarem o raciocínio prudente, ao não aprenderem a gostar do que é lindo, do que é nosso.
Voltaremos tantas vezes quantas as necessárias, abordando as intervenções (requalificações) que a mais das vezes mais não são que crimes de lesa-património.
É este um tipo de intervencionismo que deixará por certo, felizes da vida, os soberanos e respectivos séquitos instalados no trono, mas deixa a nós, munícipes do concelho, mais tristes e arruinados.
Por vezes, ocorre-nos fazer perguntas, mas logo esquecemos. Porquê fazê-las se por tradição, não são respondidas?
A que propósito esta ou aquela operação? Está agora mais bonito, mais prático?
É assim tanta a riqueza que nos permitamos gastar desta maneira, destruindo o que vem de trás para lhe dar nova “cara”? Vão os nossos “bilhetes-postais” turísticos continuar, quais jogos do lego para criancinhas, a ser oferecidos como “cobaias” para aquilatar da competência e originalidade de uns quantos “artistas”?
Será que neste concelho alguém vai parar para ouvir? Para aprender?
Serão as freguesias do concelho coutadas onde alguns se arrogam o direito de nelas “caçar” sem conhecimento das espécies indígenas, protegidas, senão pela lei, ao menos pela moral, pela tradição e pela memória. A continuarem, assim, “estamos aviados”...
Entretanto, o Alto de Santa Luzia continua como depósito de entulhos, apesar da proposta de embelezamento para o sítio, ter sido aprovada, por unanimidade, pelo executivo da Freguesia de Nossa Senhora da Graça, há mais de cinco anos.
Por que não vai em frente esta “Requalificação”, com custos insignificantes?
Nós, sabemo-lo...
A “Árvore das Mentiras” ou o fóssil que dela resta lá continua de pé, numa clara provocação, num insulto permanente aos cidadãos com sensibilidade, com bom senso. De pé devia estar, isso sim e já há anos, o Menir do Patalou e já agora também o da Fonte do Cão, idem para os do Vale das Leves, da Tapada da Meia Légua e dos Saragonheiros, todos eles caídos a não mais de meia dúzia de quilómetros em redor de Nisa.
Estivessem estes megalíticos aqui ao lado, em Castelo de Vide ou Marvão e outro galo cantaria.
É o sentimento afectivo que induz estas acções e eles têm, julgamos, menos a ver com o primeiro dos títulos desta crónica e mais com o segundo: Sensibilidade e Bom Senso. 
João Francisco Lopes in “O Distrito de Portalegre” - 22/4/2010

27.1.21

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (20) - Os Predadores e o Património

 

Os tesouros arqueológicos e os detectores de metais no Museu Britânico de Londres
“No Reino Unido há mais de 30 mil arqueólogos amadores que percorrem os campos com os seus detectores de metais. Noventa por cento dos tesouros arqueológicos são descobertos assim. Há quem os acuse de serem apenas caçadores de tesouros, mais interessados no valor que um pote de moedas da Idade Média pode atingir no mercado negro das antiguidades do que na sua importância científica. Mas, muitas vezes, os “arqueólogos amadores” que percorrem os campos com detectores de metais não estão interessados em vender os artefactos que encontram, preferindo devolvê-los às autoridades para serem estudados e, mais tarde, apresentados ao público.” - (“Público” – 9 de Dezembro de 2003 – Lucinda Canelas)
Fica a pergunta: É predador quem recolhe e preserva algo para legar ao concelho de Nisa e seus naturais? Se sim, então temo-los por aí, uns quantos predadores; se não, interrogam-se eles, para quando a pesquisa e recolha do legado que gerações passadas aqui nos deixaram e uns tantos teimam em salvaguardar?
Vai sendo tempo de alguém pensar em criar um “Museu de Arqueologia” em Nisa, onde se juntem e exponham as centenas de “peças” já encontradas e disponíveis, até mesmo já “oferecidas” ao município, há seis anos, por ocasião da exposição que teve lugar na Biblioteca Municipal, visitada com muito agrado por muitos conterrâneos nossos e naturais de concelhos vizinhos. Não nos agrada nada assistir ao saque e destruição, quase diária, destes bens, sem que nada aconteça. Mas, cuidado: há que saber separar o trigo do joio e, no mínimo, não acusar quem protege.
Aquando da última intervenção para obras, em 2004, no exterior da Escola do Convento, que se sabe ser um “sítio arqueológico” muito importante, procurámos saber (e soubemos!) onde seria despejada parte da terra sobrante, local de imediato por nós visitado (Centro de Saúde de Nisa), devidamente autorizados, resultando da visita a recolha de uns tantos artefactos e de algumas moedas romanas do Imperador Constantino.
Não fosse este material recolhido e para ali ficaria mais uns séculos ou milénios, apodrecendo, o que não acontece agora, registado que está com a indicação do local de origem e data da recolha.
Infelizmente, o problema vai sendo geral, diferente será a forma de o enxergar e às pessoas envolvidas. Os títulos e os sub-títulos na nacional imprensa são bem elucidativos.
“Caçadores de tesouros saqueiam Sul do país”, “O Alentejo e o Algarve estão a ser pilhados” (…) “Sítios arqueológicos são os locais preferidos para esta devassa” (…) “Chega a haver pessoas ligadas às forças policiais que estão a saquear”.
Mimos deste tipo são infindáveis e de um senhor do Instituto Português de Arqueologia (IPA) lemos este lamento:
“Qualquer dia não temos moedas romanas nas estações arqueológicas”. Estas verdades até nos fariam rir, não fosse o problema realmente muito sério, só é pena que os visados sejam sempre os “caçadores de tesouros… que procuram moedas raras e outros objectos metálicos para, clandestinamente, enriquecer colecções particulares”.
É positiva esta preocupação, mas já não fica bem a ninguém eleger-se “mais papista que o Papa”, ensacando toda a farinha no mesmo saco. Nós, que nunca afagámos tal “bicho”, o detector, e, eventualmente só o faremos com as regras bem definidas, nem por isso deixamos de compreender e dar razão a alguns amigos, esperando até, que alguém no futuro, recuperando valores éticos em perigo de extinção, encontre, sim, motivos para agradecer em nome do Município de Nisa, que foi o que fizeram no vizinho concelho de castelo de Vide quando, propositadamente, ali se deslocaram dois dos “predadores” de Nisa, a informar da presença de peças importantes em pedra, a necessitar serem recolhidas antes da sua transferência “para lá do rio Sever”, como de costume.
Ao menos, por aqui, no concelho de Nisa, ninguém saqueia “sítios arqueológicos”, pois estes, havendo-os como os há e em bom número, com excepção de um (1), não estão inventariados, logo não estão classificados nem em vias disso, de que resulta não estarem protegidos pela lei.
Porque não é nossa a culpa, dormimos bem, sonhando coisas bonitas, como aquela em que “vemos” erguer da terra, onde permanece caído provavelmente há séculos ou milénios, aquele “tesouro arqueológico” que é o Menir do Patalou, com 6/7 mil anos de idade e que ali espera, desalentado, a visita de um qualquer Obélix que o carregue às costas.
Voltemos aos predadores e também aqueles que sabem ver mais longe e prestemos atenção às suas opiniões:
Richard Hobbs, comissário do Museu Britânico, em Londres, diz-nos que “ as leis são importantes, mas no final, tudo se resume à atitude de cada um. Alguns amadores entregam tudo, outros não. Alguns países baniram por completo os detectores de metais ou ameaçam os que os utilizam; nós não os vemos como descendentes do diabo. Estamos todos à procura da mesma coisa. Estes objectos não pertencem a nenhuma das partes. Em princípio, todos caminhamos no mesmo sentido”. Gente sábia emite sábias opiniões, deduzimos nós.
“O optimismo de Richard Hobbs deve-se ao facto de 90 por cento dos tesouros arqueológicos britânicos serem descobertos por detectores de metais, muitos deles utilizados por não especialistas”, lemos no mesmo artigo.
Tem o concelho de Nisa, nos “sítios”, moedas romanas? Tem e às centenas. Tem outros objectos? Claro que sim, de bronze, chumbo, ferro, cobre, também de vidro, pedra, cerâmica, aqui deixados por romanos, visigodos, árabes e outros povos que os antecederam, como atestam os especialistas a quem são mostrados.
Aqui há uns anos atrás a convite do professor Jorge Oliveira visitámos os locais onde decorriam as intervenções arqueológicas na Anta 2 de S. Gens e no Cabecinho da Senhora da Graça. Vamos aguardar, convictos de que se fará o mesmo noutros sítios. Quem conhece, em Nisa, a Anta do Patalou? A número 3 do Alfaiate ou ainda a das Fontainhas? E, se aquela “pedra” que o professor Jorge Oliveira visitou connosco for mesmo um menir, como ele próprio admitiu?
Bem, se for, temos mais um menir colossal, não como o do Patalou, com os seus 4,10 metros de altura, mas com pelo menos mais um metro. Não conhecem, porquê? Porque recusam ouvir e aprender com a “componente popular”!
Da falta de diálogo e consequente informação a terceiros resulta, não poucas vezes, a destruição destes “bens” que vimos tratando, destruição tantas vezes inconsciente, nunca criminosa. 
Haverá quem não se aperceba que nos “sítios arqueológicos”, o arroteamento das terras para as plantações de arvoredo “mexe” com as coisas antigas por ali espalhadas? É que o velho arado não ia além dos 20 centímetros em profundidade, já as modernas máquinas vão bem mais fundo.
Afinal, os sonhos são mais que um. Também sonhamos ver criar em Nisa, o Museu de Arqueologia. Se daqui a um ano, dez ou vinte, não sabemos. Mas que vai haver Museu, vai.
É uma questão de tempo, pois material disponível existe e até “dá para dois”, como opinam os eruditos na matéria.

João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" nº 213 -  23 de Agosto 2006

Notas
(1) – Sítio de Nossa Senhora da Graça
Legendas para as fotos
1 – Fivela de cinturão visigodo
2 – Peças diversas
3 – Galo de bronze

10.1.21

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (18) - Homenagens

Desengane-se quem pretender “apanhar” neste escrito uma qualquer discordância relativa ao critério dos “homenageantes” ou sobre a justeza do galardão atribuído aos homenageados. Não é disso que se trata.
Estivemos lá e não gostámos. Foi no 25 de Abril 08. Aconteceu no Cine Teatro de Nisa. Foram homenageados “quatro cidadãos e exemplos de dedicação à Comunidade” (1).
Foram eles o Dr. Celestino Ventura Rodolfo, o José Maria Casimiro, o Pedro da Piedade Mendes Mourato e o António Maria de Oliveira Charrinho.
No sítio e à hora errada, como soe dizer-se, aconteceu a nossa presença ali, abusiva, confessamos ( “a casamentos e baptizados só vão os convidados”), pois não tínhamos que estar lá, mas, uma vez quebrado o protocolo, lá fomos “dar fé”, saindo mais tarde defraudados pela pobreza das homenagens, por mais justas que fossem.
Antevemos a dificuldade que os homenageados, ou os seus descendentes vindouros terão, num futuro próximo ou longínquo, em justificar lá em casa, a presença da medalha recebida, não havendo, como não há, uma qualquer referência escrita sobre os méritos dos homenageados por parte de quem os preiteou. Se ficou algo, deve-se ao director do Jornal de Nisa, que, sendo pouco, já foi muito, mas nunca o suficiente. Nem seria difícil encontrar, para cada um dos quatro homenageados (a escolha seria deles) alguém capaz de, com justiça e verdade, lhes referir o currículo justificativo da escolha.
“Bastaria ler as suas biografias”, e aqui citamos Vences Cordeiro, a propósito das homenagens em 1987, em documento emanado da Comissão Municipal de Cultura e Património, por si elaborado. Ou se faz bem feito ou não se faz.
Pensamos de há muito tempo assim e daí que já em Outubro de 2001, no nº 92 do Jornal de Nisa, em crónica sob o título “Homenagens (Hoje e Sempre)”, abordávamos esta temática e referíamos a solenidade que estes actos devem merecer por parte dos intervenientes. Sobre os homenageados referíamos então o Dr. Granja, em 1981, cujo busto foi descerrado pelo Presidente da República, Ramalho Eanes.
Igualmente referíamos os homenageados de 1987, em dia de romaria a Nossa Senhora da Graça, feriado municipal, e que foram os doutores João Maria Porto, professores Joaquim Mendes dos Remédios, Alexandre de Carvalho Costa e Manuel da Cruz Malpique e ainda o pintor Augusto Pinheiro.
Em 1993 coube a vez ao jornalista e grande cineasta que foi Baptista Rosa. “Chamava-se Júlia e fazia flores” é nome da colectânea de contos por si escrita, obra prefaciada por Baptista Bastos, “ um dos oradores presentes na Casa da Cultura em Nisa”, escrevíamos nós na altura na referida crónica.
Ainda em 1993 e também no ano seguinte (1994), ao cineasta seguiu-se um músico, senhor Luís do Rosário Matias, e uma instituição, a Banda de Nisa. Por se tratar destas duas figuras e devido ao nosso envolvimento nesta área no passado recente e particularmente nestes dois acontecimentos que decorreram com muito brilho, cremos não ser abuso nosso discordar agora da forma como outro músico, António Maria Charrinho, “não” foi homenageado, e nem sequer culpamos o Município de Nisa.
Em 1999 e 2006 foi a vez de perpetuar os nomes do Dr. Jaime de Almeida e Prof. José Francisco Figueiredo, atribuindo-os a duas ruas do Bairro da Cevadeira. Sempre, mas sempre, estes actos tiveram a anteceder-lhe a protocolar sessão solene onde, fruto de brilhantes intervenções se ficou a conhecer mais e melhor os homenageados. Assim e só no que à actividade musical respeita, aconteceu na Conferência proferida em 8 de Outubro de 1982, por ocasião da apresentação pública dos primeiros alunos da Escola de Música da Sociedade Artística Nisense, também na comunicação proferida na sessão de homenagem póstuma prestada pela Câmara Municipal de Nisa a Luís do Rosário Matias (Mestre Félix) em 9 de Outubro de 1993, e ainda na conferência proferida na sessão solene comemorativa do 150º aniversário da Banda de Nisa, a 22 de Outubro de 1994.
Três acontecimentos, todos em anos diferentes, mas sempre e não por acaso, no mês de Outubro. Como, também, não por acaso, sempre com o mesmo orador e por alguma razão o foi, intervenções brilhantes do nosso conterrâneo e amigo, Carlos Tomás Cebola.
Bem merecia o António Maria contar com ele, referindo-lhe os méritos, muitos e não só na área musical, como foi referido, mas também como pintor e poeta, vocação que esqueceram referir.
Especulando: na impossibilidade do Insp. Carlos Tomás Cebola, haveria mais alguém apto a substituí-lo, ainda que com limitações?
Bem, parafraseando um de dois compadres naturais de Amieira do Tejo, diríamos: só conhecemos outra pessoa para além deste senhor, capaz de falar, com conhecimento de causa, do António Maria, mas a este, desculpem, não lhe citamos o nome...
Já agora e porque estamos “com a mão na massa”, informamos, as três intervenções atrás referidas, constam de um livrinho a nós oferecido em 1995 por aquele nosso amigo, livrinho que recomendo à nossa Presidente da Câmara como merecedor de publicação.
Atentos, com certeza repararam os leitores, não falámos na homenagem já prestada aos músicos senhores João Diogo Figueiredo e João de Matos Bizarro, que nos dizem ter acontecido...
Ambos mereciam mais e então o senhor João Diogo, caramba, foram só 75 anos a servir a “Música de Nisa”.
Até a mensagem enviada pela Câmara de Nisa e que deveria ter sido lida, desapareceu ali, em cima do acontecimento, no palco do Cine Teatro de Nisa.
Porque é que acontecem estas coisas?

*João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" nº 255 - 14/5/2008


6.1.21

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (17 ) - Especiais Particularidades (7)

Sirgadouros do Tejo - Um encanto para fruir
No princípio era o rio, torrencial e de cristalinas águas, chegado aqui percorridos iam 120 léguas, descendo a Ibérica Península desde Albarracin, como ensinava o mestre na Primária, frente ao mapa. Rio de fascinante beleza, variada e abundante fauna, talvez por isso os primeiros homens aqui chegados, olharam, gostaram do que viram e fixaram-se. Ao rio atribuíram-lhe um nome. Tejo, lhe chamam agora e pela abastança acreditaram estar a sobrevivência assegurada.
Em tempos ainda pré-históricos, nos finais do neolítico, diz quem sabe, que os homens, provavelmente agradecidos aos deuses, gravaram nas pedras do leito ou das margens do rio, milhares de notáveis figuras, imagens observadas por eles no dia a dia, palmilhando a terra, ou contemplando o céu. É a Arte Rupestre que temos por ali, nossa, porque na margem esquerda, que os nossos autarcas, em parceria com os de Vila Velha de Ródão se aprestam em valorizar para atrair os turistas.
Entretanto, outros povos foram chegando, novos hábitos foram sendo adquiridos, diferentes formas de viver, de explorar, de olhar em volta e sempre mais longe.
É um prazer contemplar e agradável de passear aquele corredor empedrado que acompanha o Tejo na margem esquerda, desde a Barca da Amieira até por perto da foz do Figueiró (200 metros para jusante).
Lageado com pedras dispostas na horizontal, tem em média, de largura, cerca de dois metros e eleva-se aproximadamente 6/7 metros acima do nível das águas.
Estas "estradas", por alguns habitantes de Amieira chamadas de "fachina", são os designados muros de Sirga, ou Sirgadouros, se bem que em Malpica do Tejo os apelidem de "Estradinha", preferindo os espanhóis nossos vizinhos e do rio, chamar-lhe "Estrada Velha" ou "Caminho do Rei", como nos foi dito por um amigo de natural de Cedillo, o senhor Francisco Negrito Gonzales, cujos avós eram portugueses, nascidos em Nisa.
Estes caminhos eram utilizados desde há séculos por homens e animais, no reboque rio acima dos barcos, principalmente nos cachões, impeditivos de utilizar os remos. É certo que não exercem hoje aquela função, ainda assim é sempre aprazível percorrer passeando aqueles curtos quilómetros, da Barca da Amieira até ao Figueiró, tanto mais que o Sirgadouro se encontra agora perfeitamente restaurado, graças a uma decisão louvável do actual executivo municipal, que com esta acção não só defendeu o património concelhio, mas igualmente investiu no turismoque acabará por render.
Quando e por quem foram mandados construir os Sirgadouros? Foi a obra executada de uma só vez ou foi-o por fases?
Vários são os autores que nos falam da beleza e riqueza do rio, da sua extensão, dos seus desníveis, da turbulência ou sossego das suas águas, mas sobre os sirgadouros pouco nos dizem e quando o fazem nem sempre afinam pelo mesmo diapasão, daí resultando uma "música" confusa.
Não terá aquela obra sido executada por fases e sujeita ao longo dos anos a intervenções de restauro e ampliação, justificando assim e de certo modo, o desencontro na informação?
Araújo Correia, na obra de que é autor - O Tejo - , a pág. 61 cita o ten.-coronel de Engenharia, Anastácio Rodrigues, que em 1812 estudou a navegabilidade do Tejo, de Abrantes a Malpica, por mandado real, informando dos embaraços naturais e artificiais, realçando a falta total de sirgadouros, que ele entendia como caminhos cómodos, de três ou quatro palmos de largo, ao menos. É esta a única referência a sirgadouros que se encontra naquela valiosa obra, o que nos parece manifestamente pouco.
Em "Viagens do Olhar", obra editada pelo Centro Municipal de Cultura e Desenvolvimento de Vila Velha de Ródão, refere-se que em 1849, um decreto de D. Maria II autorizava o Governo a "despender durante o próximo futuro ano económico até à quantia de dez contos de réis em trabalhos de demarcação do alveo do Tejo, na parte que decorre de Valada até Abrantes, como também nas obras de quebramento de rochedos, da desobstrução do alveo do mesmo rio e da construção de caminhos de sirga, na parte que decorre de Abrantes até Vila Velha de Ródão". Efectivamente, estes caminhos foram construídos e ali estão hoje ainda nas duas margens do rio, a jusante da Barragem do Fratel.
Na revista Estudos de Castelo Branco, nº 27 de 1 de Julho de 1968, volta-se a citar o ofício do coronel Anastácio Rodrigues, enviado a 17 de Julho de 1812 a D. Miguel Pereira Forjaz, acerca da navegação do Tejo, de Abrantes a Malpica. No que concerne ao nosso concelho de Nisa, a página 164 é feita uma chamada para a necessidade, junto da Barca da Amieira, de "abrir quinhentos passos, ao menos, de sirgadouro nesta margem esquerda".
Ainda num estudo publicado no diário de Badajoz, "Hoy", de 22 de Agosto de 1964 e no ano seguinte em separata de "Terra Alta", nº 406, extraído da obra "As ordens militares, aquém e além Sever", o seu autor, dr. José Martins Barata, ao referir-se ao vasto território da Açafa, que incluía a quase totalidade do actual concelho de Nisa e que foi doado por D. Sancho I à Ordem do Templo, escreveu o seguinte: "Outro ponto a considerar diz respeito à população que dispersa e escassa, era homogénea, como sempre temos defendido. Nem de outra forma convinha aos Templários que precisavam ter assegurada a navegação no Tejo, a favor da corrente ou utilizando os caminhos de sirga marginais, romanos, que ainda hoje se podem reconhecer. O Tejo fornecia um excelente meio de comunicação naquele tempo de poucos e maus caminhos".
Autores há que referem a construção dos sirgadouros no período filipino. Este últimos autor recua muito mais no tempo e atribui a obra aos romanos, o que não se estranha, sendo o Tejo, como menciona Estrabão, "um rio productor de ouro" que eles exploraram. O Conhal é um bom exemplo.
É de louvar a actividade da Associação de Estudos do Alto Tejo, de Vila Velha de Ródão, pela constante promoção do rio. Lembramos, a propósito, que há meia dúzia de anos, organizaram o 1º passeio pelos muros de sirga, nas duas margens, da Barragem do Fratel à Barca da Amieira, iniciativa já continuada entre nós por parte da Inijovem e se deseja seja repetida regularmente, permitindo aos passeantes apreciar a beleza do rio e eventualmente descobrir-lhe alguns dos seus segredos e da sua história, história onde Nisa ocupa o seu espaço.
Documentos há ("Beira Baixa" - Pág. 144) atestando que há 130 anos (1875), entre Vila Velha de Ródão e Abrantes ainda se moviam 278 barcos, com um fluxo, nos dois sentidos que, globalmente, representava 1360 toneladas.
Vieram os barcos porque havia um rio; foram-se os barcos porque chegou o comboio, "o comboio da Beira Baixa", o comboio do nosso rio.
Rio que vai ser factor de desenvolvimento turístico no nosso Concelho de Nisa.
* João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" - nº 195 - 23/11/2005

25.12.20

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (15): A Última Arruada

 

João Diogo Figueiredo, o “Ti João Diogo”, do Contrabaixo na “Música” de Nisa, viu chegada a sua hora e partiu para o outro lado da vida. Foi a 18 de Março último, dia da Procissão do Senhor dos Passos.
Tivesse o senhor João Diogo chegado à Igreja da Misericórdia um pouquinho mais cedo e teria “pressentido e ouvido” pela última vez, a “sua” Banda passar tão perto de si, interpretando fúnebres acordes.
Tinha 97 anos, o senhor João Diogo, feitos no dia 31 de Outubro e porque era um homem respeitável, sempre na “Música de Nisa” o tiveram em grande consideração e estima.
Apraz-nos recordar, aqui e agora, o teor de uma proposta apresentada em reunião de direcção da Sociedade Musical Nisense, de 6 de Janeiro de 2000, que viria a ser aprovada por unanimidade.
Homenagem – Ti João Diogo
Sobre ele, no nº 3 do “Notas e Notícias” de Março de 1997, alguém escreveu:
“Terá chegado a altura de também ele “dizer adeus” àquela Dama que amou e serviu com a dedicação de uma vida inteira, com a ternura e o carinho de quem vive um sonho lindo, com o entusiasmo de quem mantém aceso o fogo de uma paixão ardente.
(...) E, durante setenta e cinco anos, o tio Diogo serviu a Música. É bonito.
(...) O ti Diogo não voltará a envergar aquela farda que, tantas vezes vestiu, com o entusiasmo garboso de um jovem. 
(...) Terá chegado a ocasião de todas as referias gerações testemunharem, publicamente, o reconhecimento de que ele é merecedor.”

A proposta de homenagem, citada, aparece na sequência de uma crónica inserida no órgão informativo da Sociedade Musical Nisense, já referido em cima e que é da autoria do nosso conterrâneo e amigo, Carlos Tomás Cebola, sócio nº 413, a quem a “Música de Nisa”muito deve.
A homenagem proposta foi prestada no dia 28 de Outubro de 2000 e teve lugar no Cine Teatro de Nisa.
A “última arruada” fê-la o senhor João Diogo percorrendo ruas por demais suas conhecidas, só que, desta vez, infelizmente, sem a companhia do seu adorado instrumento musical, mas ainda assim e como derradeira homenagem, envolvido pela bandeira da Sociedade Musical Nisense e acompanhado pelo presidente e o maestro da associação, respectivamente, João Maia e António Charrinho, bem como por alguns músicos e alguns dirigentes do passado.
Descanse em paz, senhor João Diogo.
* João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" nº 228 - 28/3/2007 

20.12.20

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (14)- Fábula: O falcão peregrino

Em dia impreciso, não recordamos se caía chuva ou brilhava o sol, olhámos o céu e demos por “ele”.
Envolto em auréola, qual Deus, por um momento pairou no espaço, agitando as asas e também o “rabo”, espreitando o chão.
Terá vindo do norte? Ou seria do sul? Bem tratado e emplumado ensaiou poisar. Agradava-lhe o sítio, de largos horizontes e sem concorrência à vista, logo anteviu caça abundante e vai dai, desceu.
Era um tempo em que todas as aves falavam e não só os papagaios, assim ninguém na vila estranhou que este falcão, recém-chegado, o fizesse com excessiva vivacidade até, diz quem o ouviu.
Insinuante para os da sua natureza, era um “duro”: estabelecia regras que adorava romper, ainda assim era tolerante porque temido, no fim de contas era um milhafre.
Caprichoso quando voava alto e para longe, nem cuidava dissimular sentimentos emergidos da alma (têm alma os falcões?).
Do crepúsculo ao ocaso, adorava ouvir músicas este falcão peregrino, fossem elas sopradas, cantadas ou dançadas.
De intelecto apertado, este passarão não era dado, antes detestava, voar em grupo. Ao voo elevado, sublime, preferia o rasante, que impunha porque arrogante, incapaz de ser pioneiro, construindo um qualquer ninho, comportava-se como os cucos, sacudindo borda fora os indígenas, semente construtora, aos quais exigia, pasme-se, lhe piassem louvaminhas  e pagassem tributo.
Nas suas deambulações pelo território, para poupar energias, tinha por hábito atrelar-se aos comboios já com estes a pleno vapor, não atinando depois com a “estação” certa para descer, viajando incomodado e incomodando.
A um papagaio seu conhecido, ouvimos nós dizer que era agora menos assíduo por aqui, que estará até perdendo o pio, bicadas já quase nenhumas, confessou até sentir-se menos apreciado, embora na mesma adulado.
Estará de regresso às origens? Muita sorte e votos para que conserve por muitos anos a “Plumagem”!

João Francisco Lopes in "O Distrito de Portalegre" - 18/3/2010

15.12.20

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (13): Quem cala..., ou como subir o Tejo até à Idade do Bronze

Este é um título de reportagem, publicado no Diário de Notícias de 13/7/2006. Da impressão causada nos dois repórteres, passeando o Tejo é bem elucidativo o que então escreveram e nós reproduzimos.
O que aqui prende qualquer viajante e o fará seguramente voltar é a situação única de uma paisagem quase comovente”
Sabe-se, de Vila velha de Ródão, descendo o rio, os repórteres, ultrapassaram as Portas de Ródão, deliciaram-se com o “lago”, viram um pouco do Conhal, mas não o passearam, referem os abutres mas, adivinha-se, não os terem visto, deduz-se ainda que uma garça e outras espécies se expuseram à curiosidade dos visitantes.
Invertida a marcha, vão agora subir o rio, olhar as margens e os ribeiros que ali terminam a sua actividade. Aqui, o Enxarrique, “paredes-meias” com o Açafal na margem direita. Um pouco acima, na margem oposto o Fivelro e mais além, finalmente, o ribeiro de S. Simão, na freguesia de Montalvão, a dois passos do rio Sever, fronteira com a Extremadura espanhola. É aqui, nas imediações da foz deste ribeiro, que pode ser vista a maior concentração de figuras de arte rupestre não submersas (estação de S. Simão).
Vila de Ródão/Porto do Tejo é terra muito bonita e da qual muito gostamos, logo após, enquanto jovens e aos fins de semana, nós e outros amigos para lá rolávamos, pedalando e ali chegados, alguns teimavam em desafiar o rio a nado, tempos em que o dito, com correntes inconstantes e por vezes rápidas, não poucas vezes nos assustou.
Tinha, então, o Tejo,  belíssima e muito frequentada praia de areia fina, na margem esquerda, onde por perto vivia – e cremos que ainda vive – uma grande e bem sombreada nogueira onde aconteciam os lanches. Por perto e a montante algumas figueiras estiveiras que pelo S. João tinham por hábito “provocar-nos”, acabando por nos oferecer os seus saborosos e “arregoados” frutos.
Sempre o Tejo nos fascinou, ali ou na confluência do Sever; na Lomba da barca ou no Arneiro, na foz do Figueiró e também na Barca da Amieira. O Tejo é o elo de uma corrente
que não separa, antes une, duas províncias, dois distritos, dois concelhos, meia dúzia de freguesias no nosso território. Dois concelhos com uma história, em muitos aspectos, comum, que se espera ir continuar, pois ambos integram a Naturtejo, o Geoparque e ambos dividem, entre si, o recentemente classificado monumento natural Portas de Ródão.
A exemplo do acontecido com as referências à presença templária em Idanha, que abordámos num escrito anterior (ver “O Santo Graal”- 17/1/07), também neste caso estranhámos que em toda aquela curta mas bem conseguida reportagem, não estivesse presente uma única referência ao concelho de Nisa, tanto mais estranho se for tido em conta que a Arte Rupestre visitada se encontra na margem esquerda do rio, na freguesia de Montalvão (Nisa), o mesmo sucedendo com o Conhal em Santana, e que até os grifos referenciados “namoram” preferencialmente nos penhascos a sul, na Serra da Corga (S. Miguel), voltada ao Arneiro, onde muitos casais nidificam.
Mais justos foram os antigos contadores de histórias dos tempos idos, que souberam e quiseram interligar o território das duas margens, inclusive, através da “Lenda da Faiopa”, belíssima lenda que nos fala de “absorventes paixões” envolvendo mouros e cristãos.
Terminada a reportagem sobre o Tejo, que também é “nosso”, mas não parece, “sobrevoaram” Nisa os repórteres, passando por aqui como “cão por vinha vindimada”, a caminho de um concelho vizinho, mais a sul (1) onde abordaram (mas que atrevimentos!) a temática dos “Bordados”, de que Nisa – dizem “eles” por aí – é capital do Norte Alentejano.
Bons parceiros tem Nisa, mas a estas “maldades” bom seria denunciá-las. Endereçá-las para as calendas gregas é que não!
Mais do mesmo
“De um lado chove, do outro faz vento”. E nós aqui no meio... Quiseram os deuses colocar-nos bem nos extremos. Extremo sul da Naturtejo, extremo norte da Região de Turismo do Norte Alentejano.
Assim sendo, “nós aqui no meio”, seríamos “Centro”, lugar de convergência, semelhança... entre organismos..., tendência para um mesmo resultado.
Uma ova! Até parece, isso sim, voltarmos novamente à era do “salve-se quem puder!”, utilizando a velha fórmula de puxar cada vez mais “a brasa à sua sardinha”.
Em Janeiro deste ano, publicava o jornal Fonte Nova pela pena de António Barradinhas, uma reportagem sob o título “Castelo de Vide, Marvão e Portalegre – Triângulo Turístico”, onde se escreve que o conceito não é recente, “já vem dos anos 60”. 
Documentos dos anos 40 temos nós que atestam que já se usava e abusava da expressão, vinte anos antes. Sempre estranhámos o entusiasmo assumido na mensagem divulgada através dos tempos, como se nos restantes 12 concelhos do distrito pouco ou nada exista em termos turísticos, monumentais ou históricos.
Têm razão os “autarcas do Triângulo” quando referem que “o turismo e designadamente as regiões mais pequenas devem começar a ser vistas de uma forma integrada, já que só em conjunto é que poderá haver alguma expressão, alguma força”. 
Sendo esta uma grande verdade, há que praticar a coerência do discurso, além do mais foi esta a razão e o espírito que presidiu à junção de todos os 15 concelhos na Região de Turismo do Norte Alentejano. Ou não terá sido?
Diz-se estar nos plano do Governo acabar com as regiões de turismo, minguá-las em número e rebaptizá-las com outros nomes. Muito bem. Na nova fórmula, só podemos esperar ser tratados como iguais, pode até acontecer inventarem uma nova forma geométrica para o espaço e finalmente, possamos assistir, por mais justa, à promoção por igual de todos os concelhos que formam o distrito de Portalegre.
Como é sabido – pelos vistos, não por toda a gente – o Norte do Distrito começa no Tejo, nunca na Ribeira de S. João ou no Ribeiro do Sor. 
Quem de direito, deve estar atento e denunciar, tomar posição. Calar, não vale, pois, “quem cala...”.
Notas
(1) Castelo de Vide

EFEMÉRIDE
Em 23 de Fevereiro de 1927, segundo a “Revista Turismo – Janeiro/Março de 1947”, a Câmara de Nisa, sob a presidência do dr. Mourato Peliquito, celebrava festivamente a inauguração da luz eléctrica. Fez, agora, 80 anos.
João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" - nº 232 - 23/5/2007

12.12.20

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (12) : Pontes do Passado – Ligações ao Futuro (6)

Eis aqui um tema que já devia ter sido esgotado há uma boa meia dúzia de meses. Mas tal não foi possível, por motivos que não vêm agora ao caso. Vamos agora fechar esta figura das “Pontes do Passado”, testemunhos e guardiãs de acontecimentos e memórias já distantes no tempo, e por via disso, a caminho do esquecimento.
O Ribeiro de Fevelro tem uma ponte (entre outras) que referimos a seguir pela sua originalidade e antiguidade.
Vamos encontrá-la no antigo caminho do Pé da Serra para Salavessa, cerca de 200 metros a jusante do actual em serviço, na estrada que liga as duas povoações. Tem simples mas robustos pilares (2) que suportam, ou suportavam, o tabuleiro, como se vê nas fotografias que ilustram o texto. São construídos em pedra (xisto), razoavelmente altos, unidos por grossos troncos de madeira aparelhada em quadrado, quatro em cada arco.
É a típica ponte por aqui chamada de madeira, sendo certo não o ser na totalidade, bem pelo contrário.
Por aqui, o Fevelro corre sereno, em parte porque alguns açudes, bonitas e bem concebidas obras de arte, lhe refreiam a pressa, pressentindo já por perto a presença do majestoso rio Tejo, seu destino final, ali pertinho do “Buraco”.
Grandes pescarias se fizeram por ali, imediações da Foz, tanto maiores se contadas pelos próprios, sabidos pescadores da nossa terra que para o sítio se deslocavam, em bicicleta ou motorizada, ocasionalmente em grupo um qualquer “pó-pó” já idoso, gasolina paga por todos, recorrendo ao velho e sempre actual processo da “vaquinha”, contas feitas logo ali no Monte do José dos Santos.
Também nós algumas vezes, poucas, por lá andámos pescando, o que não acontecia mais a montante, sítios do Monte Queimado, do Pai Lázaro, do Pinheiro, onde também fomos parceiros na destruição de espécies como o Bordalo, menos espertos que as esguias enguias que nunca capturámos e que eram abundantes naquelas límpidas e espelhadas águas do Ribeiro de Fevelro.
Neste espaço existem dois pontões de pedra, bem pertinhos um do outro (70 metros), estreitos porque só para pessoas ou animais, estilo antigo, mas que nos garantem não ser bem assim (terão menos de 100 anos), informação que aceitamos, embora duvidando, ao menos, de um deles, já o outro garantimos até ter sido construído por alguém da família “Estudante” de Pé da Serra. Um deles tem tabuleiro, o outro, somente os pilares.
Ao longo do ribeiro, contemplando-o e às pontes, muitas “coisas do tempo dos mouros” por lá existem, espreitando quem por ali passeia, esperando alguns artefactos serem transferidos para um qualquer Museu Municipal de Nisa, que um dia nascerá.
Pontão do Vale da Boga
“Joinha”, assim lhe chama o professor Jorge de Oliveira, distinto arqueólogo da Universidade de Évora.
Finalmente restaurada em 2006, aguarda e agradece a visita dos apreciadores destas “coisas”. O ribeiro que sob o dito pontão corre é o da Bruceira, ou Vale da Boga, nome adquirido após a junção, ali pertinho e a montante, dos regatos das Romãs e do Retiro.
Tem este ribeiro, dois conjuntos de passadeiras (poldras) que se avistam mutuamente pela proximidade (80 metros).
O primeiro conjunto após o pontão e no sentido descendente serve a Azinhaga da Fonte do Cão, o outro situa-se na antiga via romana que ligava a antiga cidade de Ammaia (S. Salvador da Aramenha) ao norte de Portugal, descendo até aqui após passagem pela Fonte do cego, sendo que ambos os caminhos, tal qual o do pontão do Vale da Boga, feitos já um só, se encaminhavam para vários destinos após entroncarem na “Carreira Velha”. Das passadeiras descendo com o ribeiro, seguia vereda não pública, utilizada a “butes” pelos funcionários da Hidra (HEAA) que se deslocavam para as oficinas da Central da Bruceira.
O troço final desta caminhada diária de 3,5 Km era feito até à estrada para Montalvão pela tapada da Fonte da Bica, que tinha, não sabemos se ainda tem, uma fonte com este nome.
O pontão do Vale da Boga é muito bonito, estreito, um pouco arqueado, pena é que por ali corram as águas da ETAR de Nisa, não fosse isso e bem que o espaço poderia ser alindado e aproveitado para ali passear, “matando” um pouco do tempo que vai sobrando.
Junto à Foz, na Ribeira de Nisa, conhecemo-lo bem, a este ribeiro, andámos por ali 40 anos, vimo-lo correr somente águas provindas do céu, e era um espectáculo ver as bogas saltar junto à ponte e nadar apressadas corrente acima aquando da desova. Esta ponte que referimos, na Estrada para Montalvão, conhece-a o leitor? Quantas vezes, a transpôs? Provavelmente muitas e já parou para a olhar? Faça-o e vai ver que valeu a pena, tem muito mais de 100 anos e não resistimos a fazer-lhe referência pelo estilo, originalidade das linhas, é toda ela em granito, toda ela uma riquíssima obra de arte do património concelhio.
O pontão do Vale da Boga, sabe-se agora, no sítio não está só, faz-lhe companhia, uma outra valiosa peça do nosso património, um recém descoberto Menir no alto da colina volta a poente, descoberta que fica a dever-se aos arqueólogos João Caninas e Francisco Henriques, nossos vizinhos de Vila Velha de Ródão, menir que já visitámos na companhia  do professor Jorge de Oliveira que ali se deslocou a confirmar a autenticidade do achado.
Tem este menir, a que os autores da descoberta baptizaram da “Fonte do Cão”, cerca de metade do tamanho do outro, o do Patalou, sendo que ambos, fazendo jus à condição de bons alentejanos, teimam em permanecer deitados dormindo o sono dos justos.

João Francisco Lopes - “Jornal de Nisa” - 19/3/2008


10.12.20

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (11) - Histórias Fragmentadas -A Carreira Velha / Estrada Mourisca

O prometido é devido. Na última crónica ficou a promessa de em seguida falarmos um pouco sobre este antiquíssimo caminho, designado ainda hoje, entre nós, por Carreira Velha.
Não fora o caso de termos lido na Revista Cultural,  editada pela Câmara Municipal de Nisa em 2001, uma narração histórica ali incerta, da autoria do Prof. Carlos Tomás Cebola, sob o título " O Castelo dos Templários" e, provavelmente, não estaríamos agora às voltas com este assunto, posto que ali se descreve a passagem por perto de Nisa, de uma antiga estrada mourisca ligando Cória, em Espanha, à ribatejana cidade de Santarém.
Esta cidade espanhola, "regalo del passado", como lhe chamam os nossos vizinhos, era conhecida na antiguidade como Cauria, de origem céltica, conserva ainda muralhas do Baixo Império, dista 70 Kms para noroeste de Cáceres e fez parte a partir do séc. XV do senhorio dos Duques de Alba.
Poucos haverá que o não saibam, a Carreira Velha é aquele antigo caminho que cruzamos após passarmos ao alto do Retiro, quando seguimos de Nisa para a Senhora da Graça pela Fonte do Frade, e que aqui nos chega pela direita vindo do Racheiro, Couto de Santo André, seguindo em frente na direcção de Palhais. Vem de longe e para igual distância segue este caminho. Aonde adquire a designação de Carreira Velha? E onde a perde? Vá lá saber-se, quando muito conjecturar, percorrendo-o.
Voltando à Estrada Mourisca, é o nosso conterrâneo Carlos Tomás Cebola quem nos diz, socorrendo-se para tal de mapas e itinerários de autores árabes, que cruzava o Tejo a jusante da Foz do Sever, passava por terras de Nisa, termo de Arez, entroncando por ali na Vereda da Sardinheira, seguindo para terras de Santarém. Certo. O mapa que ilustra o trabalho do Inspector Cebola o confirma, só que, passados tantos séculos,, não é possível pegar em estacas, espetá-las por aí no terreno e garantir: era por aqui que seguia!
Sendo o atravessamento do Tejo feito por perto da Foz do Sever, fácil é adivinhar que sê-lo-ia na Lomba da Barca (1), ou, como diriam os nossos vizinhos beirões, na Barca de Perais.
Daqui, infalivelmente, a Estrada Mourisca viria passar onde hoje se ergue a Ermida da Senhora dos Remédios, com o castelo de Montalvão em frente e bem lá no alto do morro para onde seguia. Já o percurso para sul, procurando Nisa, não o podemos garantir, pese embora as muitas voltas dadas, os quilómetros percorridos nas visitas aos sítios, envolvendo gente de Montalvão, Salavessa e Pé da Serra. Porque pensamos que a estrada vinha por Montalvão? Por duas razões, a saber. É Jorge Rosa, em "Montalvão - Ecos duma História Milenar", quem nos diz, a páginas 41, que Montalvão, ou pelo menos o seu castelo, "já era conhecido durante o período árabe", admitindo o autor ter o dito sido construído antes pelos visigodos.
A segunda razão tem a ver com a configuração do terreno, muito acidentado, não havendo a mínima hipótese de tal estrada, vinda da Barca de Montalvão, seguir outro rumo que não o da Ermida antes referida. Agora, como adivinhar o ponto onde entroncava esta estrada Mourisca na Carreira Velha, que certamente na sua passagem a norte de Nisa, eram já uma só e a mesma? Duas hipóteses são plausíveis: uma, descia de Montalvão ao Ribeiro de Favelro pelo Porto de Alpalhão, subia à Cumeada, para logo descer à quebrada da Ribeira de Nisa, que galgava junto ao Caratão, daí seguindo, já com o nome de Carreira Velha (2) até Palhais.
A outra hipótese seria vir de Montalvão pelo caminho anterior até à Cumeada, e seguir com ela pela direita até Pé da Serra e introduzir-se por ali na Estrada Romana, seguindo pela Ponte da Senhora da Graça para apanhar a Carreira Velha no cruzamento já referido, junto ao Cancelão, início da Barroca do Vale Louro.
Chegados ao Alto Palhais, olhamos o horizonte para oeste e seguimos pelo caminho público de Entre Coutos (muito provavelmente a Estrada Mourisca), que confronta para sul com o Couto do Vale Cardoso, que em 1936 viu os seus 91,635 hectares divididos em 109 parcelas.
Seguindo, cerca de mil metros percorridos vai ele curvando à direita e embrenhar-se na densa mata de pinheiros e eucaliptos, só a deixando quando alcança, por perto de um imponente açude, o Ribeiro de Palhais.
Ao caminho vamos chamar-lhe Vereda da Chamorra, nome pelo qual é conhecido, e acompanhá-lo até ao Monte Branco e daqui à estrada e ao velho caminho do Monte Claro à Velada, que cortamos, iniciando a descida para o Ribeiro de Filipe, ainda e sempre pelo mesmo caminho, mas já chamado por aqui Caminho dos Almocreves.
Transposto o ribeiro junto a um renque de passadeiras de pedra, saúda-nos o Monte Claro e novamente as dúvidas nos assaltam: por onde segue e se aproxima do Figueiró? Até há pouco acreditávamos que seria pela Alagoinha; hoje não pensamos assim e admitimos que esta importante via corria procurando a Ponte Medieval de Albarrol, após passar próximo da actual subestação eléctrica da Falagueira e por perto de Albarrol, indo daqui a Vila Flor, e encaminhando-se de seguida para a Charneca, por perto da Ermida de S. João, ao encontro dos terrenos de Gavião, entroncando por perto, no termo de Arez, na Vereda da Sardinheira, confirmando deste modo o que o nosso amigo Insp. Carlos Cebola afirma.
Naturalmente que este trabalho, necessariamente alicerçado nalguma pesquisa, quer no terreno, quer em obras literárias e também junto dos mais idosos, tem acima de tudo, na base, muita curiosidade, que nos conduziram em pensamento a hipóteses com as quais jogamos, especulando, sempre e unicamente com o propósito de motivar, no mínimo, um ou outro dos naturais onde ocorreram os acontecimentos.
E porque a prosa vai longa e o espaço é curto, no jornal, vamos sobrevoando S. Miguel na serra, pular de Montalvão ao Monte Branco (S. Matias) e aí parados, olhando as novas e bonitas vinhas que vão nascendo, recordar que, não por acaso,, por ali, junto à Estrada Mourisca, houve ou há, na memória do povo, o Poço do Alcaide, a Fonte dos Mouros, o Caminho dos Almocreves, e que bem pertinho, como nos diz José Francisco Figueiredo, a página 3 da "Monografia da Notável Vila de Nisa" da dominação árabe, apareceram, em 1946, na Tapada do Severino (...) cerca de uma centena de moedas de prata dentro de uma panela de barro (...) que o numismata dr. Pedro Batalha Reis classificou as moedas de dirhemes, do tempo do emir de Córdova, Abderrahman, nos anos de 821 a 852 da nossa era".
A mesma notícia, esta publicada no extinto jornal "O Século", da época, temo-la nós no nosso arquivo, é acompanhada por fotografia de uma das moedas e titula assim: "Uma panela com moedas árabes de há doze séculos foi encontrada numa herdade alentejana".
Nesta notícia fica-se a saber que a Tapada do Severino era pertença do sr. José de Oliveira Bispo (hoje é do seu neto, sr. Anselmo Bispo) e que também o ilustre catedrático sr. dr. Damião Peres, o qual, examinando uma das moedas, esclareceu que se trata dum diréme, do emirado de Córdova, que foi cunhado no Andaluz no ano de 127 da Hegira (745 de J.C).
É assim, os mapas dos sítios, a toponímia dos lugares, a memória quase perdida das gentes, são como um puzzle. Uma vez unidas as peças, sucedem-se conclusões interessantes. 
Notas
(1) - Barca de Montalvão
(2) - Carreira Velha já é referenciada em documentos de 1412.

* João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" nº 125 - 5/2/2003


7.12.20

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (10) - Pontes do Passado – Ligação ao futuro (5)

A ponte da Figueira Doida
Contemple-se esta ponte e de imediato algo sentimos. Estamos perante um estilo de arquitectura diferente de qualquer outra no concelho de Nisa, é bem bonita e não menos estranha, com dois arcos de volta redonda, largos e altos, o que nos surpreende se somente pensarmos em termo de caudal do ribeiro que corre sob ela, ou será que a imponência da ponte tem menos a ver com as cheias e mais com a importância do caminho que serviria?
Ficalho é o nome do ribeiro onde se encontra o dito, nome “adquirido na confluência dos regatos do Mártir e Arrafaneiros” e que tem a foz no Tejo, no “Cachão do Algarve”.
Algarve ou Algar? Na verdade, anda por aí grafado de ambas as formas, mas Fernando Portugal, no Índice Toponímico do Concelho de Nisa, chama-lhe “Cachão do Algar”, o que ao autor parece ser mais correcto, pois “Algar tem que ver com Poço…, originado pela acção das águas”, como é o caso. Acresce que também na obra Tombos da Ordem de Cristo – Comendas a Sul do Tejo, na página 21, ao delimitar-se uma coutada da Ordem, no Tejo, aparece novamente a referência ao Algar e isto num documento de Dezembro de 1505, vão já passados 500 anos.
Ponte da Figueira Doida, como os montalvanenses lhe chamam, povoação onde alguns naturais nos afirmam ser ela romana, enquanto em Salavessa, a algumas pessoas, nos dizem ser “dos tempos dos mouros”.
E se não for assim, mas de uma época intermédia? Visigótica, por exemplo. Não andaram eles por aqui, durante três séculos após os romanos e antes do árabes? Claro que sim. Não têm alguns nisenses para ceder ao concelho de Nisa, quando houver Museu, muitas “peças” de entre as quais algumas visigóticas? O autor da Monografia da Notável Vila de Nisa, prof. José Francisco Figueiredo, também lá nos diz terem sido encontradas moedas em ouro, visigóticas, em S. Gens (1929), na Fonte da Clã e na Coutadinha (1948), e temos ainda as muitas sepulturas (cistas) por aí construídas nos campos do Cadete e Dona Mariana, e outras já destruídas na Bajanca e na Coutadinha, peças estas – admitem os entendidos – serem obra daquele povo.
Curioso, no mínimo, é referir o que Jorge Rosa nos lega na obra de que é autor "Montalvão – Ecos duma história milenar", quando, na página 41, escreve que Montalvão, ou pelo menos o seu castelo, “já era conhecido durante o período árabe”, admitindo o autor ter o dito sido construído antes pelos visigodos.
Na separata da Revista Cultural de Marvão, nº 3, de 1993, sob o título O Castelo de Montalvão, da autoria do Dr. José Dinis Murta, em nota inserida na pág. 157, ali escreve: “Em investigações efectuadas (…) constatámos que o castelo de Montalvão já é referido na Crónica do Mouro Rasis (séc. X)”.
Algumas vezes foi esta ponte por nós visitada, só ou acompanhados por gente que sabe do “ofício”, aos quais ouvimos curiosas opiniões, que resumiremos deste modo. Sendo antiga, “foge um pouco ao protótipo das pontes romanas”, mais se aproximando do estilo árabe, ainda assim houve quem, pelo estilo e comparação com coisa já vista, admita ser ela visigótica.
Em que ficamos? É esta ponte muito antiga ou, pelo contrário, será moderna? Lá iremos. Para já, parece-nos oportuno transcrever o que um documento precioso nos diz sobre o tema e em referência a Montalvão, e que tem por título Manuscritos do Arquivo Histórico de Vincennes – Paris – referentes a Portugal (1803-1806), de António Pedro Vicente.
Este documento, com 200 anos, descreve as comunicações (caminhos) entre Montalvão e as vilas e lugares da vizinhança, descrição pormenorizada que hoje ainda se confirma. Experimente, perguntar quer em Montalvão quer na Salavessa, sobre a ponte da Figueira Doida e obterá como resposta que a dita fica no antigo caminho que ligava as duas povoações. Certo, mas perguntamos nós: desde que data e até quando? É que no citado documento, escrito há dois séculos, lê-se:
“ Para Celavessa – Caminhos de Carretas. Há hum de Montalvão que sai pela rua de S. João e toma logo à direita por entre as tapadas da Villa, atravessa depois os regatos do Martyr e Arrafaneiros que ambos formão o de Ficalho, e sobe depois aos altos da Charneca de Val-de-Melhorado, onde se reúne com outra estrada de carretas que vem de Niza, e percorrendo a planície desta charneca desce depois para chegar a Celavessa.”
Porque interessa ao tema, também aqui se escreve o que o documento refere sobre “Caminhos de Besta” entre estas duas povoações e que diz assim: “Há vários atalhos que de Montalvão saem para Celavessa, os quais porem se reúnem ao caminho de carretas antes desta povoação. (…) Depois do confluente dos ribeiros de Martyr e Arrafaneiros há sobre o ribeiro de Ficalho huma pequena ponte de pedra perto da estrada de carretas, e a qual ponte serve só para gente de pé e cavalgaduras; mas actualmente se acha arruinada e impraticável.”
Acontece e nós podemos testemunhá-lo, que agora não está assim tão arruinada e até está praticável.
Reparem neste pormenor. Hoje, quem vai de Montalvão para Salavessa fá-lo saindo para Norte, voltado ao Tejo, descendo pela Rua da Barca, quando há 200 anos o percurso era em sentido inverso, para Sul, lados de Nisa, descendo pela rua de S. João, já com este nome na altura. Pela leitura do citado documento, depreende-se que há 200 anos o único caminho de carretas para Salavessa não utilizava a ponte da “Figueira Doida”, situada a uns bons 500 metros abaixo da outra mais pequena, “de pedra”, já referida.
Daí a pergunta anterior: desde que data, o novo caminho para Salavessa, agora também já fora de uso, utilizou aquela ponte? E até quando, pois já não se utiliza?
Não pretendemos fazer, menos ainda alterar, muito menos inventar História, quanto muito deixar pistas a quem um dia se disponha a fazê-la, a de todo o concelho, pistas que resultam tão só da curiosidade, que nos leva a “andar por aí”, espreitando o nosso território.
Terá aquela elegante ponte algo a ver com a estrada mourisca de Cória (Espanha) para Santarém? Estrada já mencionada em escritos pelo nosso amigo Insp. Carlos Tomás Cebola, que cita e nos mostra um mapa do século X, do geógrafo árabe, Al- Istakhri pelo qual se conclui ser a travessia do Tejo na actual freguesia de Montalvão, na Lomba da Barca, frente a Perais.
Fantasiar, à vezes, ajuda, em referência a Montalvão, consulte-se a “Carta Militar do Instituto Geográfico do Exército, folha 315, edição de 1999”, junte-lhe a prosa citada do documento de Vincennes (Paris) e arrisque tirar conclusões, ou, no mínimo, sonhar. Que a ponte não era, há 200 anos (1803-1806) utilizada como passagem para Salavessa atesta-o documento de Paris, e que, posteriormente, a esta data foi por aí já caminho, comprova-o a memória recente do povo dos dois lugares.
Que o caminho, atravessada a ponte, seguia em frente, é por demais evidente e sabido, mas é também evidente que logo ali bem junto à ponte, há vestígios de um caminho, saindo para a esquerda que termina emparedado, após percorrer escassos 15 metros. Por onde corria? Que caminho era este? A estrada mourisca? Vamos passeá-la? Venha daí, mas antes vamos até admitir que apesar do estilo, pode a ponte não ser romana nem visigótica, nem árabe ou medieval, e possa até ser moderna (200 anos). Contudo e estranhamente, na memória dos povos da área ela é “muito antiga, do tempo dos mouros”.
Observe-se o mapa do geógrafo árabe Al-Istakhri e acredite-se que, ao menos a estrada mourisca de Cória – Santarém, corria por ali, vinda do Tejo, da Lomba da barca (Montalvão-Perais).
A estrada viria, infalivelmente, ao lugar onde se ergue a ermida da Senhora dos Remédios, daqui subindo ao castelo de Montalvão ou ladeando-o (estão lá os antigos caminhos), dirigia-se para a Figueira Doida, onde sobre o ribeiro, estaria ou não a “misteriosa” ponte. E depois? Bem, na sequência de algumas visitas ao local, observando, não é difícil conjecturar que a via fazia “caras” ao actual Monte da Feia, subindo a colina frente à fonte com o mesmo nome, “da Feia”, sendo embora bonito.
Já no alto, no já referido caminho de carretas da charneca, seguindo-o no sentido nascente, e após correr com ele cerca de 1000 metros, deixava-o para se dirigir ao Pae Lázaro, onde no alto e para norte, paredes-meias, temos o Pêro Galego”, território de deuses pré romanos e romanos, divindades veneradas pelos nossos antepassados concelhios. Consulte-se, a propósito, José d´Encarnação em “Nisa ao tempo dos Romanos”, onde este autor e sobre o tema, realça ainda a “pesquisa efectuada pelo Dr. José Dinis Murta, que apresentou ao 1º Encontro de História Regional e Local de Portalegre”, em Setembro de 1987 (1).
Unindo os sítios do Pai Lázaro e Pêro Galego, podem ver-se hoje, ainda, as ruínas da igreja de Santa Maria Madalena (faz sentido), construída com grandes blocos de granito, em terras de xisto, cinzelados, tão do agrado dos romanos, espalhados por ali nos portais das herdades, nos umbrais das portas dos montes, nas paredes dos currais e das tapadas.
Terminada a visita, vamos continuar. Um safurdão um pouco arruinado, contempla-nos, como que nos acusando… a nós que não temos culpa, é bom de perceber, da “moléstia” que o atacou. Novamente no Pai Lázaro, iniciámos a descida para o Porto Pinheiro, no ribeiro de Fivelro, voltando a subir até à Cumeada, não sem antes olharmos a cratera ali deixada, quando caiu, explodindo, um avião a jacto da Força Aérea.
Já na Cumeada, frente à Lameira Larga, assaltaram-nos as dúvidas, sobre por onde seguiria, a partir daqui, a estrada mourisca “até entroncar na estrada romana da Ammaia”, para, seguindo juntas, rodearem a Senhora da Graça e irem ao encontro, logo ali, adiante, da Carreira Velha, com a qual segue para poente, tendo em mira a cidade de Santarém.
Eis, aqui, um tema para colóquio. Professores de História no concelho, temo-los, com saber e sentimento. Por que não conceder-lhes a palavra?

João Francisco Lopes in "Jornal de Nisa" -  28/2/2007

(1) –Consulte-se a citada obra.