A igreja Matriz de
Nisa tem um órgão. Organistas, quantos terão sido? Que idade tem o órgão? Desde
quando ali permanece? Foi adquirido novo ou já usado? Terá sido oferecido?
Desde há quantas décadas se não ouvem os harmoniosos acordes do nosso órgão?Falemos
um pouco dele, do triste órgão condenado ao silêncio. Na “Memória Histórica da Notável
Vila de Nisa”, o autor, Motta e Moura, na pág. 46, informa:
“Tem alem d´isto a
nova Egreja um bello coro… e n´elle um pequeno, mas harmonioso órgão, com que
se acompanhavam os cânticos sagrados (…) É o órgão o maior e mais complicado
dos instrumentos de vento, que se conhecem, porque constam de teclado, folles e
canudos (…). Não podemos dizer o anno em que o nosso foi comprado, mas devia
ser pouco depois da sua introdução no reino, porque achamos noticia d´elle em
mui remota antiguidade. Por alvará de 4 de Outubro de 1582 foi o ordenado do
organista, que era de dois mil Réis, elevado a quatro, e mandado pagar pelas
rendas da Comenda”.
O
autor, na mesma página, diz-nos que o uso dos órgãos se começou a generalizar
nos templos no século XIII.
Já
vem dos tempos da fundação de Nisa, o órgão da Matriz? Por que não? Nestas
coisas da “cultura e património” não andou Nisa sempre entre os primeiros? Rui
Cascão, na História de Portugal (1), em referência ao
teatro amador não aponta um exemplo?. Escreve, este autor: “Em algumas zonas a
paixão pelo teatro era antiga. Em Nisa, já em 1826 os amadores da época haviam
improvisado um palco no Celeiro do Concelho, onde exibiam a sua razoável
vocação para a arte cénica” (2).
Não
é a banda de Nisa uma das mais antigas, senão a mais antiga, a sul do Tejo?
Claro que sim. Em toda a nação portuguesa e num total de seis, não foi Nisa a
primeira vila a quem foi atribuído o
título de Notável, em 1427, por D. João I?
Não
terá sido a pujança e o desenvolvimento da nossa terra, naqueles tempos, factor
decisivo na escolha, por parte da do Almirante Vasco da Gama, para aqui viver
durante alguns anos, onde foi alcaide-mor? Naturalmente que sim.
Diz-nos
a história ter sido D. Vasco Fernandes o último Mestre dos Templários em
Portugal e também nos diz ter-se refugiado em Montalvão quando da extinção da
Ordem do Templo. Ali viveu de 1307 a 1323, ano do falecimento, era então já
Comendador de Montalvão, nomeado que foi pelo 1º Mestre da Ordem de Cristo, D.
Gil Martins. Este episódio fez de D. Vasco Fernandes, um dos elos da corrente
que uniu as ordens do Templo e a de Cristo, ambas diferentes só no nome, por
decisão do “nosso” rei D. Dinis, fundador de Nisa.
Voltemos
ao órgão da Matriz de Nisa. Na Monografia da Notável Vila de Nisa, pág. 62,
José Francisco Figueiredo fala do órgão.
“Para
maior brilhantismo das solenidades religiosas, existe no coro da Matriz um órgão,
que apesar de ter séculos de serviço, ainda se ouve com muito agrado. A sua
aquisição deve datar do século XVI ou antes, porque em 1550, segundo se lê no
segundo livro do tombo da Ordem de Cristo, era de dois mil réis o ordenado do
organista”.
Outras
referências do órgão, temo-las por aí? Claro que temos. Atente-se no que segue.
Na conferência proferida na sessão solene comemorativa do 150º aniversário da
Banda de Nisa, em 22 de Outubro de 1994, o conferencista Carlos Tomás Cebola,
nosso conterrâneo, trata deste modo o assunto:

“Quando
há cerca de de um ano na homenagem póstuma aqui prestada ao mestre Luís Félix,
entendi – e parece que em boa hora – que devia chamar a atenção para a
existência e estado de conservação de um órgão de tubos do século XVII – se não
me engano existente na Igreja Matriz. Seis meses depois recebi a grata notícia
das primeiras diligências encetadas por uma comissão, organizada para tal fim.
Mas, também, tenho conhecimento de que, apesar das festas e peditórios já
levados a efeito, as verbas arrecadadas não chegam e – continuo a pensar – que
ninguém deseja que se perca aquela peça valiosíssima do património cultural de
Nisa. Volto a pôr o assunto à consideração de quem de direito. Pela minha
modestíssima parte, posso anunciar desde já que, para a reinauguração, com
pompa e circunstancia, do velho órgão – e eu creio, firmemente, na sua
recuperação, porque as verbas hão-de aparecer, nem que seja no fim do arco íris
– se à data, a Igreja, a Câmara, a Sociedade Musical Nisense e o senhor
vereador da Cultura forem concordes, posso anunciar aqui a oferta de um
organista para a realização de um concerto público, na Igreja Matriz”.
Célere
corre o tempo. Talvez, por isso, já passaram uma dúzia de anos. As verbas
obtidas com a festa que teve lugar na Alameda e que nos diziam ter ultrapassado
os 200 contos, não foram utilizadas nos fins para que foram angariadas: o
restauro do órgão.
Estranhamente,
à Sociedade Musical Nisense – que colaborou, graciosamente, com os seus grupos
musicais – não foi prestada qualquer informação sobre o facto. Soubemos, há
pouco tempo, que o organista então disponível, cremos que estrangeiro,
entretanto, faleceu.
Mas,
de entre as várias referências sobre o órgão da Matriz, uma há que consideramos
especial, com a particularidade de nos lembrar, às gentes de agora que “melhor
que falar, por vezes demais, em Património e Cultura como valores a preservar,
será agir, preservando”.
Afinal,
já o era, assim, há muitos, muitos anos, tanto como meio milénio, cinco
séculos.
Aspirem,
só, e provem o sabor da prosa que vai seguir-se, escrita há vão já 500 anos e
que nos chegou às mãos por deferência do senhor Aurélio Bengala, nisense de
adopção, o que não o impede – bem pelo contrário – de ser um apaixonado pelas
coisas da nossa terra, que tanto tem investigado.
Visitações na Ordem de Cristo até
finais do século XVI – Pág. 427
- Regimento das
visitações às igrejas da Ordem de Cristo que el-rei D. João III, como seu
governado e perpétuo administrador, mandou fazer ao Pe. Frei António de Lisboa
(Évora, 2.5.1536) .
“Eu el.Rey faço saber
a vós, padre frey António de Lisboa, governador do convento da hordem de Nosso
Senhor Jhesu Christo, que ora envyo visitar as igrejas do meestrado da dicta
hordem, que este he o regimento que ey por bem que guardaees na dita visitação.
Primeiramente, vós correrees todas as igrejas do dito meestrado e visitarees
cada huuma nas cousas seguyntes, a saber”.
Segue-se
uma página com instruções para aplicar em todas as igrejas da Ordem, sem
indicação dos nomes das povoações, com uma única excepção, que a Nisa diz
respeito.
“ (…) E nas egrejas
em que ouver órgãos verees se estam concertados e se tem tamgedor que hás tamja
e, se o tiver, se he auto per os tamger e que salário por isso tem e quem lho
paga, porque sam imfformado que na egreja de Nisa estam huuns órgãos boons e
que os tamge huum clérigo, que por isso leva premyo, que nom sabe dar tom ao
coro e por os não saber tamger os desafina e estam o mais do tempo danados;
enformarees-vos disso e verees se este que os tamge he auto pêra isso ou nam e
nom ho sendo se se achara outro que seja auto pelo premyo que esse leva ou por
mais ou menos e me escreverees o que achardes no vosso parecer pêra nisso
prover.”
Como
por certo repararam, este documento emanado de Évora em 1536, acrescenta alguns
anos à presença na Matriz do nosso órgão.
Concluindo,
é incrível como um rei de Portugal, há 500 anos, sabia existir em Nisa, “uns
órgãos bons”, tocados por quem “não sabe dar tom ao coro”, e que ainda por cima
“leva prémio por isso”.
Como
é possível esta preocupação com o património por parte de um Rei, quando agora,
500 anos depois, vassalo, algum, se preocupa com isso. Será que, naquele tempo,
eram melhores os conselheiros?
Notas
(1) – História de Portugal – José Matoso – 5º Volume – Pág.
532
(2) – Terá bebido o autor esta informação na Memória Histórica da Vila de Nisa? É
possível.
Efeméride
* 27 de
Março de 1986
O
tempo corre veloz. Sobre esta data, a do falecimento do senhor Fernando da Cruz
Bicho, músico da “velha guarda” passaram já 20 anos. No princípio do ano de
1984, no pós-restauração, a Banda saiu à rua cumprimentando a população. Os
acordes faziam-se ouvir, 1º de Janeiro se chamava a marcha. O sr. Fernando
Bicho, comovido, ria e chorava em simultâneo.
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FOTOS
1
– Cruz de Cristo da frontaria da Igreja Matriz
2
– Órgão da Igreja Matriz tem 500 anos
3
– Outro aspecto do órgão (tubos)
4
– Pormenor artístico – parte superior