A água é um bem essencial à vida e constituiu desde sempre uma das
principais aspirações dos nisenses, devido à sua escassez. Longe estão os tempos
em que a população recorria às fontes, algumas distanciadas da vila e de fracas
nascentes. Garantir a água para o consumo familiar, o básico, era um martírio constante,
principalmente para as mulheres que, de cântaro à cabeça, demandavam esses lugares e
aguardavam, por vezes, em longa espera, a sua vez de acesso à bica e ao enchimento do
recipiente.
A falta de água é registada em diversos documentos municipais e deles
faz eco, por exemplo, Motta e Moura, na "Memória Histórica da Notável Vila
de Nisa". Assim, refere o autor que a falta de água sempre foi grande em Nisa, mas
no ano de 1725, que foi de prolongada seca, tornou-se insuportável; e porque eram muitos os clamores,
o bacharel José Pereira Leitão, juiz de fora da vila, convocou nos Paços do
Concelho, no dia 4 de Novembro, uma reunião do clero, nobreza e povo, para se lhe procurar
remédio, foram todos de parecer unânime, que se procurasse água a todo o custo, e se
fizessem os maiores sacrifícios para a alcançar.

Foi a partir desta reunião que se mandou vir do Crato, um frade do
convento de S. António, com fama de entendido vèdor e com tão bom desempenho que em
1726 se concluía a Fonte do Frade. Era uma solução, entre outras, de recurso. A água continuava a faltar
em Nisa e em 1779, a Câmara (1) atendendo à grave precisão de água para beber que a vila
tinha, acordaram se fizesse uma fonte no sítio da Devesa, mas em 1794 e tendo-se
constatado que o flagelo da falta de água continuava, a edilidade determinou a continuação da
obra da fonte nova do Mártir e se fizesse toda a diligência pela necessidade que há da
mesma água. (2).
Em 1832 - sessão de 5 de Outubro - enfrenta de novo o problema e
determina que visto existir em outro tempo um começo de fonte no Rossio Público desta
vila, se fizessem escavações naquele sítio, concorrendo a este trabalho aqueles
habitantes que de sua livre e espontânea vontade quisessem ter parte em tão justo serviço. (3) Tão precária situação, diz-nos o prof. José Francisco Figueiredo na
sua Monografia, foi-se agravando no rodar dos anos e em 1909, o presidente da Câmara, Dr.
Mário Miranda Monteiro, fez a primeira tentativa de aproveitamento da Galiana, mas o
seu empenhamento esbarrou em obstáculos intransponíveis e a grande
aspiração de Nisa esboroou-se.

Em 1929 foi feita nova tentativa para dotar Nisa de água potável, mas
os dois engenheiros enviados pelo Ministério do Comércio desprezaram a hipótese mais viável e concentraram-se na lameira de Santo António, junto ao Figueiró. Foi
ali que, em 1932, a Comissão Administrativa liderada pelo tenente Falcão, procedeu a
obras de captação de água destinada a alimentar quatro marcos fontenários, dois de mármore,
entre estes a "famosa" Fonte do Rossio e dois em ferro fundido,
que se instalaram em diversos pontos da vila.
Inaugurada com pompa e circunstância pelo Presidente da República,
Marechal Óscar Carmona, a obra viria a revelar-se um completo fiasco, pois dos inestéticos fontenários, apenas saía, com intermitências, débil fio de água suspeita, enquanto
centenas de bilhas, em volta daquela irrisão, escancaravam as bocas sôfregas para as
torneiras gotejantes. (4).

E foi preciso esperar quase vinte anos até que a 24 de Setembro de
1940, a Câmara sob a presidência do Dr. José Augusto Fraústo Basso, iniciasse as obras de
captação das várias nascentes da Galiana. Uma obra, a todos os títulos gigantesca, não só
pela escassez de verbas que eram, escrupulosamente, mendigadas junto do poder central, como pelo impacto geral dos trabalhos que, além das captações, obrigaram à
implantação de uma conduta até à estação elevatória, a construção desta infra-estrutura
com reservatório subterrâneo com capacidade para cerca de 700 metros cúbicos. O
empreendimento, o maior de âmbito municipal até então realizado no concelho, obrigou
ainda à instalação de uma linha eléctrica de alta tensão, posto de transformação, bombas
elevatórias, conduta até à vila de Nisa e aqui a implantação de um imponente depósito,
situado num dos pontos mais altos da vila, de onde passou a ser distribuída à
população.
Em 1944 foi feita a inauguração deste importante melhoramento. Ao acto
se refere o prof. José Francisco Figueiredo na Monografia, deste
modo pujante: Foi a 17 de Abril daquele ano que a linfa cristalina, brotando da serra de S. Simão em
límpidos borbotões, jorrou pela primeira vez das fontes públicas. E se já houve em Nisa,
motivo para festas, foi então! Simples e sem espavento decorreu, porém, a cerimónia
inaugural. Coube ao Dr. José Beato Caldeira Miguéns, então presidente da Câmara, accionar
o automático que pôs em movimento o corpo da bomba. Na altura, circularam algumas quadras de sabor popular, em louvor do
melhoramento e criticando a anterior inauguração presidencial das águas em
1932. Ei-las:
Hino das águas
Em sossego, sem espalhafato,
Foi feita a inauguração;
A segunda, em Nisa, das águas,
Sem de tropa haver aparato.
Apenas um major à paisana,
A música e pouca gente;
Veio a água da Galiana,
Mostrou-se o povo indiferente!
Ingratos nos poderão chamar,
E para isso há forte razão,
Nenhum viva se ouviu dar,
Em sinal de satisfação!
Não houve espada a oferecer,
Nem jantarada a pagar;
Mas ficou o povo a dever
A quem a água lhe veio dar!
Não houve (creio eu) discussão,
Fez-se a festa sem toiros;
Bem merece coroas de loiros
Quem conseguiu noss´aspiração.
Água da serra, espelhadinha,
Vem nossas bocas refrescar;
Não és leitosas como a outra,
Que só serve para lavar.
Um milagre se fez, pois, agora,
Que santos de casa não costumam fazer;
Não foi precisa gente de fora,
E a água aí está a correr.
Sem autoridades e sem esquadrão,
Sem ministros e sem presidente,
Deu-se água boa a toda a Vila.
E vêde, ó grande Átila, ó cruel gente!
Tudo se fez, afinal, sem haver questão!

As redes de distribuição de água e de saneamento vieram mais tarde,
mas o empreendimento da Galiana garantiu durante 40 anos, o abastecimento de
águas públicas para consumo humano em quantidade e qualidade, até que no início dos
anos 70, a expansão urbana da vila, a modificação dos hábitos de higiene e consumo
como a introdução das máquinas de lavar, roupa e louça, vieram aumentar as
necessidades de um maior fornecimento do precioso líquido. A Galiana continuou a
desempenhar o seu importante papel, mesmo quando a urgência de novas soluções para o
abastecimento de água à vila se impôs. Os primeiros executivos municipais após o 25 de
Abril tiveram de encarar este problema. Houve vários estudos, voltaram a implementar-se soluções antigas, de recurso, adicionando águas de captações à da Galiana,
paliativos que não resolviam as necessidades da população. A Câmara, liderada por outro
Basso - Dr. José Manuel Semedo Basso - obteve, no mandato de 1982 - 1985 a aquiescência
da EDP para a utilização das águas do açude do Poio, captadas no Tarabau e
canalizadas até ao Santo António, instalações antigas e que foram acrescentadas para acolher a
estação de tratamento. A qualidade da água, já não era a mesma, mas os habitantes
da vila tinham água em quantidade suficiente para as suas necessidades. Água pública,
suportando a Câmara os custos de gestão das redes de água e saneamento, situação
que se foi mantendo até que os recursos hídrico passaram a ser alvo do apetite de
grandes empresas e passaram a ser encaradas não como um bem público, mas como um
negócio, chorudo, privado.
Executivos e assembleias municipais alinhadas com estes interesses
empresariais, tornaram fácil o negócio numa primeira fase, a
captação e transporte até aos reservatórios para distribuição na rede (alta). Era um passo essencial
para o domínio, total, da comercialização da água, até aqui, pública. Sem surpresa e
sustentada nos mesmos apoios partidários (PS e PSD) não foi difícil a entrega da
exploração em baixa numa segunda fase, a actual, com todos os custos e inconvenientes, a
serem suportados pelos munícipes, agora designados como clientes. Água e saneamento passaram a ser geridos por interesses privados, ainda que misturados com sigla de intermunicipal.

Nalguns municípios do país, esta experiência empresarial não correu
bem e, devido aos constantes protestos dos seus habitantes, face ao aumento brutal dos
tarifários, tiveram que retornar ao modelo inicial. Mas a pressão é muita e a ambição
desses grupos económicos é privatizar todas as redes de água e saneamento do país,
agrupando-as numa empresa única.
Os municípios deixam de gerir um bem público, a preços sociais e ao
alcance das bolsas dos seus munícipes, uma responsabilidade que assumiram durante quase
um século e vêem algumas infra-estruturas que serviram e foram essenciais, como a
Galiana em Nisa, a Fonte Velha em Alpalhão ou S. Gens em Tolosa, serem votadas ao
abandono e sem qualquer préstimo. Pese embora as apregoadas intenções de trazer a água da Galiana - que já está em Nisa há mais de 80 anos - para rega de jardins. E as
fontes públicas, vão desaparecer ou serem fechadas, como aconteceu com duas em Montalvão? As
fontes que antigamente complementavam o abastecimento público, fora da vila,
nomeadamente, para beber, quem as protege? Quem analisa as suas águas e garante que
continuam a saciar a sede à população, respeitando todas as características
físicas, químicas e biológicas, inerentes à sua potabilidade? A água é um bem essencial à vida, tal como o ar que respitamos. Lutar
para que se mantenha na esfera pública, é um dever de todos os cidadãos.
* Mário Mendes
NOTAS
(1) Figueiredo, José Francisco - "Monografia da Notável Vila
de Nisa"
(2) idem
(3) idem
(4) idem
ALGUNS DOCUMENTOS
Seca em Nisa (1835)
Do auto da vereação da Câmara Municipal de Nisa de 1 de Abril de 1835,
pode ler-se: " Mais acordarão que em consequencia do flagelo da seca que
nos afligeo não só o anno passado, mas o prezente que decorre, temendo por falta das chuvas
amesma esterelidade da colheita passada, etendo em atenção o requerimento de varias
pessoas deste Povo que pedirão se mandace vir para a Igreja Matriz desta Villa a imagem da
Senhora da Graça que em cazos taes muito nos tem valido o seu patrocinio, se mandace
vir a referida imagem com toda a decencia e decoro e piedade que sempre se praticou,
e que isto se fizesse saber ao provedor para a sua devida execução, sendo amanhã
dois do corrente que deverá ter lugar".
Presidente da Camara: João Matheus de Carvalhaes e Brito; Vereadores:
Thomaz Cardoso Vieira e Manuel António da Costa Fragoso
Fornecimento de Água - 1930
Mario Diniz Vieira, Administrador do Concelho de Niza faz saber e
determino que o abastecimento de agua nas fontes desta vila, terá logar nas condiçõe
seguintes:
1º Ninguem poderá encher mais que um cantaro de cada vez, a não ser
que ninguem mais se encontre para se fornecer de agua, devendo, quem leva mais que um
cantaro para encher, dar, em seguida a cada cantaro a vez a quem de direito.
2º Na Fonte da Cruz só poderá ser enchido o segundo cantaro do mesmo
dono depois de enchidos dois outros de diferentes donos, conforme a sua vez.
(a) M. Vieira - Março 1930
Sessão da Câmara de 12 Set. 1940
Presenças: José Augsto Fraústo Basso (presidente - José Beato Caldeira
Miguéns e António Carita Ribeirinho (vereadores)
1 - Concedida à Câmara a comparticipação do Estado de 275.967 escudos
para a obra de uma nova captação de águas destinada ao abastecimento da vila de Nisa,
a qual deve ser executada no prazo de 21 meses pelos respectivos Serviços
Municipalizados.