5.5.26
MAIO é mês de sensibilização para as Doenças Inflamatórias do Intestino
Em Portugal, estas doenças - como a Doença de Crohn e a Colite Ulcerosa
- afetam mais de 25 mil pessoas. São crónicas e muitas vezes invisíveis, mas
com impacto real no dia a dia, na vida pessoal e no trabalho.
📌 Esta campanha pretende:
▪ Aumentar o conhecimento sobre as DII
▪ Promover o diagnóstico precoce
▪ Combater o estigma associado a sintomas como dor, fadiga ou urgência
intestinal
Ao longo do mês, várias entidades juntam-se a esta iniciativa,
reforçando a importância da literacia em saúde e de uma sociedade mais
informada e empática.
VILA VELHA DE RÓDÃO: Casa de Artes e Cultura do Tejo celebra 20 anos com concerto de Rita Guerra
Com uma carreira iniciada no final da década de 80 e conhecida pela sua
versatilidade e voz única, Rita Guerra percorreu diversos géneros musicais,
incluindo pop e baladas, entre outros. Enquanto cantora e compositora
destacou-se pela longevidade na música portuguesa, mantendo-se ativa com
espetáculos ao vivo e novas produções e uma discografia que inclui múltiplos
álbuns de estúdio e compilações, que a consolidaram como um nome incontornável
no panorama musical.
Os bilhetes para este concerto têm um custo de 10 euros e podem ser adquiridos, já a partir da próxima segunda-feira, dia 11 de maio, no balcão da Casa de Artes e Cultura do Tejo, em Vila Velha de Ródão e, no dia seguinte, em ticketline.sapo.pt.
In maisbeiras.sapo.pt - 4 de Maio de 2026
4.5.26
SINES: Espectáculo “50 Madrugadas”
Numa noite de trabalho, um grupo de jornalistas tenta escrever um
artigo sobre o tema “Fado e Democracia”. Ao revisitarem autores marcantes
ligados ao 25 de Abril através das suas obras, cruzam-se inevitavelmente com o
nome de Ary dos Santos.
Com encenação e dramaturgia de Jorge Gomes Ribeiro, este espetáculo
convida o público a refletir sobre a memória, a liberdade e a força da palavra.
🎟
Bilhetes:
5€ – público em geral
3€ – menores de 21 anos e maiores de 65 anos
Gratuito – sócios AJAGATO
A venda de bilhetes decorre durante a próxima semana, no Centro de
Artes.
OPINIÃO: O meu país
José Oliveira Mendes
Portalegre, 4 de Maio de 2026
PORTALEGRE: Musical “Musical D’Artagnan e as 3 Mosqueteiras” no CAEP
Musical D’Artagnan e as 3 Mosqueteiras
Teatro | GA | 6€ | M/6 anos
Duração: 60 minutos
O Reino de França é governado por uma Rainha, de seu nome Ana.
Há muito que o cardeal Richelieu planeia roubar o trono à Rainha, por
pensar que uma mulher jamais terá condições de governar um reino.
Assim, cria um plano, juntamente com Milady, para fazerem desaparecer
os três mosqueteiros da Rainha e a restante guarda do reino.
D’Artagnan oferece ajuda à Rainha e à sua Aia Julieta, para que juntos,
salvem os três Mosqueteiros e o Reino.
Será D’Artagnan capaz de salvar o Reino?
E o que fazem três mosqueteiras nesta história, não eram três
mosqueteiros?
O que é a corrente de favores e o que faz nesta história?
Preparem-se para embarcar numa emocionante história sobre o Amor, a
valentia, e empatia e onde também não faltaram as peripécias do Pinguim das
botas altas e seus amigos!
Texto, Conceção e Encenação:
Miguel Ruivo Duarte
Direção Musical: Leonor
Carvalheira
Coreografias: Sara Vicêncio
Produção, Booking: Liliana Pereira
Figurinos: Marina Mansura
Elenco: Sara Batista, Sofia Lopes, Laura Ramos, Leonor Alegria, Diogo
Lemos, Celso Zanini, Leonor Carvalheira, Sara Vivêncio, Alexandra Caldeira,
Anita Clemente.
OPINIÃO: A festa do futebol
Sim, o futebol é tudo isso e, como todas as atividades humanas, tanto
atrai os piores como os melhores. Mas para o adepto comum, o futebol ainda é
sobretudo arte e festa. Uma arte com solistas que são capazes de nos fazer
abrir a boca de espanto (pensem no nosso Ronaldo ou no que nos promete um
Rodrigo Mora), com coreógrafos que são capazes de transformar onze
instrumentistas numa orquestra bem afinada (pensem em Guardiola ou em Farioli),
com produtores que conseguem reunir o capital e os recursos humanos capazes de
montar e executar um grandioso espetáculo (pensem em Laporta ou em
Villas-Boas). A associação de nomes grandes do mundo da bola a personagens do
F. C. Porto não é um acaso. Porque, mesmo que não possam ser comparados em
prestígio e títulos, já deram o seu contributo para a paixão popular pelo
futebol. Perguntem aos milhares e milhares de adeptos dos dragões que na noite
passada encheram a alameda. O futebol é festa. Parabéns aos campeões!
Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 3 de maio, 2026
SARDOAL: Exposição ”Ter Abril na Mão”
3.5.26
EM MAIO, O FLORIR DE ABRIL - Baptista Bastos
Contarás de Abril o assombro, o desassossego, as súbitas visões de
beleza longamente sonhadas, a hora vesperal; o renascer, meu e teu. Contarás de
Abril instantes serenos, salivados de paz, o perfil de casas, as ruas docemente
nossas que rimam connosco, as ternuras vagabundas, a utilidade dos gestos, o
murmúrio discreto e comovido.
Contarás de Abril os gritos, as imprecações, as cóleras, o idioma
ressurrecto na fraternidade de frases efusivas, no estertor.
Contarás de Abril aquele haver viagem, aquele cheiro antigo de chuva de
infância, a peca sombra, o chouto curto, o bêbado de rua que te assustou,
temulento, a frugal manhã.
Contarás de Abril o lado esquerdo da madrugada; cíclicos, os sismos: o
chão em fissuras laceradas; devagarosa, a capa da terra a recobrir o oco, as
galerias naturais do ódio, onde rebramia o mar, sobre o qual haviam colocado o
pinho e a pedra e reconstruído a cidade, longa história de uma frustração.
Contarás de Abril os passos.
Contarás de Abril os sons, ínsitos na paisagem nocturna, nas betesgas.
Contarás de Abril que me viste trajado de estrelas, seteira ao ombro,
num baixel de antigamente, soletrando palavras felizes, sem direcção nem
sentido, como tudo o que é feliz.
Contarás de Abril, aos meus filhos, filhos teus, que os meus olhos
míopes, ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de dizer coisas singelas,
humildes e absurdas: como amor, liberdade.
Contarás de Abril os idos e os que voltaram; os que ficaram e ficam.
Contarás de Abril as pequenas pilhas de palavras, armazenadas numa
necessidade que inventei; e as nossas almas ledas e limpas; e os braços que se
estendem a outros abraços; e a cordialidade de anotarmos um nome, um número,
numa flor; e os balaios sem reticências de mágoas, cheios, os balaios, de
trissos de aves, de pássaros remotos de que ignoramos a voz ou havíamos
esquecido o toque e a fímbria.
Contarás de Abril que na nossa terra já não apodrecem as raízes e que
já não adiamos o coração; e que nascem crianças insubmissas e claras e livres;
que já não nos dói a velhice e que os rios são todos nossos e íntimos e que já
não perdemos a infância e que nascem crianças insubmissas e claras e livres.
Contarás de Abril a espessura mágica, o punho reflexo, o dia d'água, a
lágrima, a vontade de sermos e de estarmos, o límpido grito, a forma
inconsútil, o beijo proliferante, o vermelho e a brisa, as bambinelas vagantes
nos sopros, o livor das coisas, a maravilha discreta de assear a vida, o
caminhar, os semideiros, os rostos nesta dócil pausa e neste imenso perdão.
Contarás de Abril as casas de mil sóis, a imponderável descoberta dos
sussurros, a brancura inadiável da perseverança, o resplendente varar dos dias,
a feira alvoroçada das horas.
Contarás de Abril a visão e o visto.
Contarás de Abril as mãos dadas. Contarás de Abril o renascer da
essencial frescura.
Contarás de Abril. Contarás, meu amor.
Baptista-Bastos
MÃE - Luz que não apaga...
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um
laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
CASTELO DE VIDE: 𝐃𝐢𝐚 𝐌𝐮𝐧𝐝𝐢𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐋𝐢́𝐧𝐠𝐮𝐚 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞𝐬𝐚
Uma data oficialmente estabelecida em 2009 pela CPLP (Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa) para celebrar a língua portuguesa e as culturas
lusófonas e proclamada em 2019 na 40.ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO.
A data vai ser celebrada na Biblioteca Municipal Laranjo Coelho, a
partir das 10h30, com um Atelier Didático a cargo da Professora Antónia
Palmeiro, numa iniciativa do Grupo de Amigos de Castelo de Vide.
2.5.26
OPINIÃO: Um canibal ao meu lado
Refere a artista que, numa existência em que tudo mexe, a via láctea, a
terra à volta do sol, a nossa corrente sanguínea, parar é de facto o mais
difícil dos desafios. Por isso, uma das propostas que faz aos alunos é que se
sentem numa cadeira e fiquem a olhar para uma parede em branco durante uma
hora. Ridículo? Depende da perspetiva. Difícil? Sem dúvida. Quanto tempo
consegue o leitor ficar sem fazer absolutamente nada? Quanto tempo resiste sem
pegar no telemóvel assim que enfrenta um momento de espera, por mais breve que
este possa parecer?
Marina está certa ao dizer que a tecnologia, que nos foi apresentada
como sendo uma ferramenta mágica que nos daria mais tempo para o lazer se
transformou, afinal, no "maior canibal" dos nossos apressados dias.
O L. contou-me no outro dia que os seus alunos não conseguiam parar,
que precisavam de estímulos contínuos, o que estava a impactar de forma negativa
a sua capacidade de concentração e de aproveitamento. O alarme foi também dado
pelo Conselho de Escolas que relacionou a diminuição de alunos a concluir o
ensino secundário com a ligação exacerbada dos jovens com o mundo digital.
O "detox" tecnológico que Marina Abramovic propõe, mais não é que parar, quando tudo o mais parece pensado para nos manter na roda do rato.
Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias -30 de abril, 2026
UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - José Carlos Ary dos Santos
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinhiero estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos dos passado
se chamava esse país
Portugal suicidado
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é a força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados “páras”
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer
E em Lisboa capital
dos nosvos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua prórpia pobreza
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
Mas era olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
– cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabrões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opões àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
Em em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pédo Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viesses ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós
povro soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser reoubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
José Carlos Ary dos Santos





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