Se não fossem os imponderáveis da vida, as circunstâncias
que não dominamos e estabelecem os mecanismos da morte, António Manuel Rebordão
Montalvo, teria completado, ontem, três quartos de século.
Nasceu em 1951 e apenas pelos tais imponderáveis, não
conheceu a luz do dia em Nisa, a terra que viria a ser a sua por opção. Nisa
onde foi criança e brincou, conheceu amigos, os terrenos baldios em roda da
Fonte da Cruz, o célebre campo do Celeiro, um “estádio” na fértil imaginação
infantil e cenário de duras refregas futebolísticas e de outras brincadeiras
que anteciparam a entrada na Escola do Rossio. Já nessa altura, o António
Montalvo era alvo de educação esmerada, um “menino”, como os pobres chamavam
aos filhos das pessoas endinheiradas da vila. Algumas, nem tanto, como o pai do
António Manuel, chefe de secretaria da Câmara Municipal de Nisa, onde o seu prestígio
e a qualidade do seu trabalho, suplantavam, largamente, o salário auferido.
Encontrei-o na 3ª e 4ª classe na Escola do Rossio, uma fila
de carteiras a separar-nos, silêncio mantido a respeito imposto pelas famosas
reguadas.
O meu primo António Pires, o professor, nem era muito utilizador
do método, fosse porque a idade não lhe sorrisse já muito ou porque a “alegria”
de um branquinho bebido, nos intervalos, no estabelecimento do senhor António
Alberto, lhe acalmasse o espírito. Certo e sabido é que o nome do António
Montalvo nunca foi escrito no quadro preto da sala do piso superior da escola,
ao contrário do meu, vezes sem conta, escarrapanchado logo na primeira linha
pelo “vigilante de turno”, como perturbador do silêncio imposto após o recreio,
o que, de vez em quando, levava o professor a comentar:
- Outra vez, tu, Mário? Vá lá, vão-se lá sentar!
A palmatória ficava adiada para o dia seguinte ou outro,
porque tanta rapaziada nova calados e fechados numa sala, não era para o meu
feitio.
Terminada a escola primária, cada um foi à sua vida. O
António Montalvo seguiu os estudos secundários e o exemplo do pai inculcava-se
nele. Acabou os estudos liceais, entrou na Universidade, cursou direito e
especializou-se em Direito Administrativo.
Estabeleceu-se com escritório em Lisboa, coadjuvou o pai em
vários estudos e pareceres e a paixão pelos temas ligados ao Poder Local ficou
para sempre.
Não se estranhou, por isso e devido à fama que granjeou que
fosse escolhido para presidente da Comissão Coordenadora Regional de Lisboa e
Vale do Tejo (CCRLVT), a par da do Porto, as duas mais importantes do país.
Tornou-se um dos maiores especialistas na área das
Autarquias Locais, consolidando esse prestígio com a publicação de diversos livros
e de uma revista dedicada à temática do Poder Local. A todo este trabalho veio a corresponder o
convite do Conselho da Europa para perito e observador de eleições locais em
vários países comunitários.
Às regiões (Vale do Tejo e Alto Alentejo) vinha com a
frequência determinada pelos vários estudos e pareceres solicitados pelas
autarquias locais que nele depositavam a sua confiança. Mas, nunca esqueceu
Nisa, a terra onde foi criança e se fez adulto. Onde estudou e conheceu pessoas
e histórias de vida que contribuíram para lhe moldar o carácter e tornar sempre
presente a sua condição de homem do “interior”.
Na chamada “curva da vida”, orientados os filhos, dedica-se
a valorizar a vila e o concelho que tinha como o “seu”. Cria a Nisa Viva – Associação dos Amigos e Naturais
do Município de Nisa e a partir desta Associação lança um alargado conjunto de
iniciativas de promoção sócio-cultural, culminando na reconstrução da ermida de
Santo André, feita com verbas obtidas na venda do seu livro “Retratos de Nisa
com Gentes da Terra” e a colaboração da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da
Graça e da Paróquia de Nisa.
A sua acção foi determinante para desbloquear a situação
familiar que impediu durante anos, o projecto da erecção do Menir do Patalou. A
divulgação e preservação do património foi sempre um dos objectivos do programa
de acção da Nisa Viva, nome que era também o de uma revista cultural e de que
foram publicados 35 números, o último dos quais em 2022. A organização de
variadas exposições sobre temas do património local e concelhio, a promoção de
caminhadas abertas a toda a gente visando dar a conhecer os caminhos rurais e
históricos de algumas freguesias, bem como promoção de colóquios e conferências
sobre a cultura, património, educação, economia, desenvolvimento local e
regional e tantos outros temas constituíram actividades desenvolvidas pela Nisa
Viva permitindo a discussão frontal e aberta de importantes problemas sentidos
pela comunidade.

De salientar, como dois grandes momentos da criatividade e
dinamismo da Associação, os dois Cortejos Etnográficos realizados em 2007 e 2009,
o segundo culminando na inauguração do Museu do Barro e do Bordado, na antiga
Cadeia Comarcã.
E muito mais poderia ter sido feito se, ao desejo de
contribuir de forma voluntária e voluntariosa para a elevação do concelho não
se sobrepusessem as quezílias e as dúvidas de natureza política-partidária
sobre os reais objectivos da Associação.
António Montalvo procurou sempre, de forma clara e
transparente, diria mesmo decidida, que tais considerações nunca pudessem
envolver a Nisa Viva. Mantê-la sempre viva e independente foi um dos seus
desígnios, na defesa dos quais recusou, a oferta de instalações para sede da colectividade.
Hoje, primeiro de Agosto, um dia após o seu aniversário, que a doença e a morte não deixaram comemorar,
lembramos o Cidadão de Nisa (que o foi, integralmente), o Cidadão do Mundo, o Homem
do Poder Local, da Democracia e da Liberdade.
E recordo tantas outras personagens, que, sem apelo nem
agravo, sem nada (rigorosamente) terem feito por esta terra e seu concelho,
foram agraciados, homenageados em festins que tiveram mais de hipocrisia do que
verdade.
O Montalvo, sei-o bem, também dispensaria essas “honrarias”.
Apenas e tão só porque construiu o seu caminho na
perspectiva da Cidadania e no respeito pela verdade e dignidade humana.
Que melhor Homenagem há que um Homem possa levar desta vida?
Mário Mendes