30.12.11

SERVIÇO PÚBLICO: A Informação que a Câmara não presta aos Munícipes!

Declaração de voto sobre o Orçamento e Plano para 2012 dos eleitos do PS
Mais uma vez a construção dos documentos previsionais, designadamente ao nível do orçamento, encontra limitações provenientes de exercícios anteriores em termos de dívida transitada e compromissos assumidos e não pagos encontrando-se por consequência a quase totalidade da receita esperada (na ordem dos 12 milhões de euros) basicamente comprometida.
Nesta conformidade, tentámos dar o nosso melhor contributo, quer através da busca de informação não disponibilizada aquando do envio dos documentos previsionais, que ocorreu a 5/DEZ, quer na nossa gorada boa vontade na propositura de acções e de projectos que gostaríamos de ver concretizados, e outros, pelo menos iniciados em 2012 como sejam a mero título de exemplo a construção da cobertura para táxis na Praça da República, a definição de verba para melhoria de arruamentos degradados, para a realização da Nisartes, (uma vez que durante o ano de 2011 se conseguiu, enfim, pagar as despesas de 2009, faltando apenas um valor residual segundo informação dos serviços) para o apoio às Juntas de Freguesia e a Instituições sem fins lucrativos e às Associações do concelho.
Na verdade, tal exercício esgotante, durante 3 reuniões de Câmara, perante uma manta que quando se puxa para a cabeça deixa os pés a descoberto e vice-versa, apenas se vislumbra a possibilidade ao nível do investimento, da realização do alargamento da ZAE, a conclusão do Terminal Rodoviário e a construção do novo Centro Escolar de Nisa, tudo acções com receita co-financiada associada, para além de se tentarem assegurar níveis mínimos e sofríveis de investimento de conservação de bens colectivos e, na melhor das hipóteses, investir na aquisição de uma nova viatura do lixo equipada com gancho para recolha de contentores subterrâneos prevendo-se uma poupança significativa nos pagamentos actuais à Valnor pelos serviços de limpeza/recolha nesta área da protecção do ambiente.
Relembramos que a 5/DEZ, o montante em dívida a transitar, em Despesa de Capital, para o orçamento de 2012 equivalia a 1.558.294,55 euros, para uma receita real da mesma natureza, espectável em 2012, na ordem dos 5 milhões de euros.
No capítulo da Despesa Corrente, a dívida à mesma data, a transitar para 2012, situa-se na ordem do 1 milhão de euros, existindo facturas em conferência, na ordem de grandeza de igual montante e segundo documentos da mesma data, existem facturas sem cabimento no valor de 950 mil euros pelo que, a receita, na ordem dos 7 milhões, permitirá pouco mais do que o regular funcionamento dos serviços, para além de pagar dívida e compromissos anteriores, com a agravante de no ano económico de 2012 irem cair sobre a Câmara Municipal as dívidas e os prejuízos da Ternisa…
Está pois o nosso Município muito longe do desejado equilíbrio financeiro.
Assim, numa análise realista, a receita total prevista no Orçamento, equivalente a 16.326.870 euros, anda longe da realidade e por consequência, a previsão da possibilidade de executar despesa equivalente, não passa de uma miragem, (agravada de resto pelo triste ambiente de crise económica que o país atravessa e que a Troika massacra). O documento datado de 5/DEZ relativo à receita cobrada no exercício de 2011 disso dá testemunho com um total de 11.571.161 euros de receita arrecadada e que apenas atinge um grau de execução equivalente a 67,4 %.
Não sendo este o nosso orçamento, o nosso voto vai no sentido da abstenção.
Idalina Trindade
NOTA: Esta informação (Declaração de Voto), bem como outras intervenções produzidas pelos eleitos devem constar, obrigatoriamente, nas Actas  que a "senhora Câmara", por teimosia ou incompetência, não quer tornar públicas no site do Município, um espaço de comunicação que todos pagamos e que não serve a generalidade dos principais interessados: os munícipes.
Esperemos que no novo ano, a senhora Tsukamoto dê luz e autenticidade a um dos slogans mais caros à CDU: Trabalho, Honestidade e Transparência.
A Transparência começa na disponibilização de toda a informação relativa aos actos públicos da autarquia e deve constituir o primeiro e mais seguro caminho para se aquilatar da Honestidade das instituições, já que, quanto ao Trabalho, é um dado adquirido que a Câmara está pouco menos que paralizada e inactiva.
Falta o carcanhól, falta o brunhól...
Mário Mendes

29.12.11

Câmara de Nisa não cumpre a Lei: transcrevemos declarações de voto sobre decisões que interessam a todos os munícipes!

NOTA PRÉVIA: A presidente da Câmara de Nisa não cumpre a lei, apenas fazendo inserir no site do Município, as Minutas das sessões camarárias, isto, apesar de sobre o assunto já ter sido aprovada, na própria Câmara, uma deliberação que manda fazer cumprir a lei. Os municípes e naturais do concelho residentes noutras localidades, regiões e países, estão assim impedidos de acederem às decisões tomadas pelo executivo camarário, decisão essa  que contraria, frontalmente, a lei e remete para tempos de obscurantismo nada condizentes com a sociedade de informação e comunicação em que vivemos.
Como estamos em Portugal e não na Coreia do Norte, vamos contrariar a "determinação" da Grande Líder Tsukamoto e publicar neste blog as Declarações de Voto, Tomadas de Posição e outros documentos que a vereação nos faça chegar, inclusive, da parte da "grande líder" e do seu vice-presidente Rosmaninho Bichardo.
É um serviço que prestamos gratuitamente, sem recurso a "técnicos superiores sem adjectivação" e sem agitação de bandeiras, favores que os poderes (centrais, regionais e locais) pagam, geralmente, sob a forma de "jobs for the boys". Aos "rosas" e aos "laranjas", juntaram-se, agora (se calhar sempre houve...) os "azuis" e "vermelhos". E, assim vai Portugal: uns vão bem e outros mal!
Mário Mendes
Declaração de Voto- Mapa de Pessoal/ Ponto 5/ REUNIÃO DE 12 de DEZ. - PS
Na sequência do nosso sentido de voto manifestado na anterior reunião relativamente à retirada do Mapa de Pessoal para 2012 dos postos de trabalho por tempo indeterminado de Técnico Superior de Protecção Civil, Técnico Superior de Ciências do Ambiente, e Técnico Superior sem adjectivação e de 3 professores de Inglês por tempo determinado (para os primeiros 3 meses do ano lectivo de 2012/2013) referimos como sustentação relativamente aos últimos 3 por tempo determinado a contratar portanto a termo certo, que deve ser a Escola através dos órgãos do respectivo Agrupamento a providenciar no sentido da satisfação desta necessidade de aprendizagem dos alunos abrangidos pelas Actividades Extra Curriculares, daqui resultando uma melhor eficácia na gestão de horários e de turmas nomeadamente através dos seus professores de Inglês em termos de poderem completar os respectivos horários com o acréscimo das horas das AEC´s assim se garantindo uma maior proximidade entre alunos e Escola, situação que por si só nos parece positiva quer do ponto de vista laboral quer do ponto de vista pedagógico e de aprendizagem mais eficiente por parte das crianças.
Quanto aos 3 postos de trabalho de técnico superior que a Sra. Presidente propôs integrarem o Mapa de Pessoal de 2012 e antes referidos, pensamos ter ficado demonstrado pela inércia dela própria em não ter promovido sequer que a publicação dos respectivos Avisos de Abertura que a necessidade, a urgência e o interesse público que na qualidade de gestora de pessoal invocou aquando da sua integração no mapa de pessoal de 2012, não se justificavam:
Primeiro, porque em 23 de Fevereiro de 2011 submeteu a deliberação do Executivo a abertura de todos os procedimentos concursais (Deliberação nº 77/2011) previstos no mapa de Pessoal de 2011, entre os quais os 3 ora visados.
Segundo, porque só em 16 de Junho, 4 meses volvidos, submeteu ao Executivo a justificação de interesse público para abertura de tais procedimentos,
Terceiro, porque os demais se desenvolveram com a publicação dos respectivos Avisos de Abertura em Diário da República e demais operações visando a ocupação dos postos de trabalho, previstos no Mapa de Pessoal de 2011, necessários ao desenvolvimento das actividades e à prossecução dos objectivos dos órgãos e serviços municipais, nomeadamente na área de Informática e de Desporto e os relativos aos Assistentes Operacionais (Motorista e Auxiliar de Educação) o que é demonstrativo que os urgentes e necessários eram estes,
Quarto, porque só em 22 de Setembro de 2011, a Sra. Presidente proferiu despacho de abertura para os procedimentos concursais com vista ao preenchimento dos técnicos superiores ora em causa mais o de técnico superior na área florestal,
Quinto, porque só em 22 de Novembro se providenciou pelo envio dos respectivos avisos para publicação em Diário da República.
Concluindo, não existe neste momento qualquer intenção do Executivo na manutenção desta intenção de publicação devendo a Sra. Presidente desde já, desistir de tal, dando instruções claras nesse sentido aos serviços evitando assim a despesa desnecessária pelo pagamento desses encargos que caso contrário serão da sua inteira responsabilidade e não da responsabilidade da Câmara.
Não existindo ainda publicação, não existe qualquer eficácia externa, das operações procedimentais de tais concursos, ou seja, a Câmara Municipal não publicitou ao público qualquer oferta de emprego nas áreas em apreço.
Não o tendo feito, não podem existir sequer expectativas jurídicas de ninguém em relação a tal assunto e é bom que a Sra. Presidente salvaguarde esta situação, ou seja, que cumpra e execute a deliberação do executivo tomada hoje de não concordar com a inclusão destes postos de trabalho no Mapa de Pessoal de 2012.
Além dos motivos já invocados, também pela necessidade de redução de despesa corrente, que é a grande dificuldade em que toda a gestão anterior da Sra. Presidente nos colocou e que mais uma vez faz transitar de 2011 para o orçamento de 2012, uma verba de 1 milhão de euros de compromissos assumidos e não pagos em 2011 já tendo recorrido por sua iniciativa e sem a concordância do executivo, por violar o princípio do equilíbrio financeiro previsto no POCAL, ao desvio de receita de capital para pagamento de despesa corrente.
Também o espectro nacional de crise e as medidas de controle das contas públicas incluindo as dos Municípios por imposição da Troika, nos fazem reflectir seriamente na necessidade de redução de despesa, mormente por sermos eleitos na Terceira Câmara mais endividada do nosso distrito, a Câmara de Nisa é, a seguir à de Portalegre e à de Monforte, a que tem a menor margem de capacidade de endividamento líquido, apenas equivalente a 1.384.495 euros.
Por todos estes motivos, votamos contra a previsão no Mapa de Pessoal de 2012 destes 3 postos de trabalho.
Quanto ao posto de trabalho para técnico superior licenciado em Engenharia Florestal, e tal como afirmamos na anterior reunião de Câmara, pode ler-se na Informação nº 61/2011 de 9 de Dezembro em resposta à resposta à nossa questão “onde é que está escrito que é obrigatório contratar 2 técnicos superiores para o Gabinete de Protecção Civil” que Não existe legislação que determine a obrigatoriedade de tal técnico.
Todavia, caso este concurso (para preenchimento de posto de trabalho de téc. superior na área florestal) não prossiga, a Câmara de Nisa passaria a manter uma situação de ilegalidade que se verifica desde Maio de 2011, mês em que terminou o contrato de trabalho a termo celebrado com o técnico de Produção Florestal anteriormente contratado para o gabinete florestal – para manter o recebimento da Protecção Civil Nacional de 2.000 euros mensais para despesas de funcionamento deste Gabinete Técnico Municipal Florestal mais os encargos com o respectivo pessoal habilitado em Engenharia Florestal de preferência, a Câmara deveria ter afecto àquele Gabinete, desde o início da celebração do protocolo com a Protecção Civil, um licenciado nesta área e por consequência, para não sermos acusados de alimentar situações de ilegalidade abstemo-nos neste caso da previsão de posto de trabalho nesta área, no Mapa de Pessoal de 2012 não inviabilizando desta feita o recrutamento de técnico superior/Engenheiro Florestal durante o ano de 2012.
Os vereadores do Partido Socialista (PS)

28.12.11

ESCRITORES DO CONCELHO: Romance do Eucalipto

Amei e fui amado; um amor eterno e quase de um século, grande amor.
Quando me senti sem forças, levaram a minha adorada fonte.
Onde estás, amor? Aonde andas, princesa, que não te vejo?
Mas, não morreste, pois não? Não te vi doente...
Mal adormeci, levaram-te!
Sim, adormeci, quando me cortaram os ramos e me dilaceraram as raízes! Não sabiam?...
E, quando acordei deste tormento, não vi a minha amada que tanto me deu de beber e tanta sede matou a tantos forasteiros.
Tanta sede que mataste
Ao forasteiro que passava
E os feirantes no Rossio
Até a louça lavavam!

Tanta altivez que eu tinha
Sempre cheio de vigor
Já não me sinto viçoso
Porque perdi o meu amor

Tantas noites, tantos dias
Tanto frio, tanto calor
Vou morrendo de tristeza
Levaram-me o meu amor

Saciava a minha sede
No teu regato, princesa
Deixei de beber de ti
Vou morrendo de tristeza

Estou a falar do Eucalipto
E da Fonte que ele adorava
Tirem-lhe também o Relógio
Era só o que faltava!...
João da Cruz

Mapa de Pessoal, Plano de Actividades e Orçamento em discussão na Assembleia Municipal

A Assembleia Municipal de Nisa reúne na sexta-feira, dia 30 de Dezembro pelas 15 horas no auditório da Biblioteca Municipal, com uma agenda de trabalhos bastante preenchida e na qual se destaca a discussão e aprovação do Mapa de Pessoal do Município de Nisa para 2012, um assunto que tem gerado bastante controvérsia, após o anúncio de concursos públicos publicados recentemente e que contemplam a contratação de postos de trabalho de técnicos superiores, situação que foi rejeitada, por maioria, em sessão de Câmara realizada no dia 14 de Dezembro.
Na convocatória assinada pelo seu Presidente, João José Esteves Santana, vão estar presentes para discussão e aprovação, os documentos previsionais – Grandes Opções do Plano e Orçamento da Receita e Despesa do Município para 2012 – bem como a proposta de alteração à Carta Educativa do concelho de Nisa e propostas de tomadas de posição sobre o Encerramento dos postos médicos do concelho de Nisa – dois meses após o encerramento desses serviços de saúde -, e sobre a situação da Empresa Municipal Ternisa.
Agendada está também a discussão e aprovação de uma moção sobre a extinção de freguesias no âmbito do Livro Verde da Reforma Administrativa.
Convocada para o último dia útil do ano, a sessão ordinária da Assembleia Municipal de Nisa contempla ainda um ponto aberto à intervenção de munícipes, o período de antes da ordem do dia e uma informação sobre a actividade municipal.

25.12.11

OPINIÃO: NOSSA SENHORA DA GRAÇA PERTO DE DEUS PERTO DA VILA DE NISA

I - SOB O MANTO PROTECTOR DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA ( O LUGAR MAIS SAGRADO DO MUNDO PARA NÓS NISENSES, CUJO CULTO FELIZ E LUMINOSO, E VENERAÇÃO DE TANTA GRANDEZA ESPIRITUAL HONRA NISA, E NOS CABE CONTINUAR A HONRAR, VENERAR , RESPEITAR )... NESTE ESPÍRITO DESEJAR UM SANTO NATAL A TODOS OS NISENSES SEM EXCEPÇÃO,... ABRAÇANDO FRATERNALMENTE MÁRIO MENDES QUE ME ENSINOU A REAPREENDER, DE MODO MAIS RIGOROSO E JUSTO, A AMAR OS NOSSOS RIQUISSIMOS VALORES, A BONDADE E VALOR DA NOSSA GENTE NA SINGULARIDADE DE CADA UM, IMPRESSOS NA EXTRAORDINÁRIA BONDADE DA SUA PESSOA, E ATRAVÉS DELE PEDIR SINCERO PERDÃO ÀQUELES PARA QUEM FUI MENOS RESPEITOSO, JUSTO, ATENTO, DESIGUAL SEM MOTIVO, MENOS IRMÃO.
II- DENTRO DE MIM A NECESSIDADE DE UMA PROPEDÊUTICA : ILUMINAR, REFORÇAR A ELEVADÍSSIMA DIGNIDADE DO NOSSO PASSADO E TRADIÇÃO NISENSE, INJUSTAMENTE ESQUECIDO, OU NÃO SUFICIENTENTE POSTO EM RELEVO, E SEMPRE ACOMPANHADO PELO DEVER DA INVOCAÇÃO COM ORGULHO RESPEITOSO DA NOSSA MAIS SAGRADA TRADIÇÃO, DA GRANDEZA DA MEMÓRIA DO NOSSO PATRIMÓNO HUMANO E CULTURAL ONDE PONTIFICA O CULTO MAIOR EM HONRA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA, MÃE DO SENHOR CUJA FORÇA DIVIDE A HISTÓRIA NO ANTES E NO DEPOIS, PARA NOS INSPIRAR A ELEVAR O PRESENTE E TRAÇAR O FUTURO COM CONFIANÇA, UM GRITO DE ÂNIMO QUE A LUZ IRRADIANTE DA PRESENÇA POR PERTO DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA DÁ COMO CERTEZA ADQUIRIDA, JÁ A EVIDENCIAR-SE NA SUA INFLUÊNCIA E AUXÍLIO EM CONSTRUIR E DESENVOLVER JUNTO DA NOSSA GENTE O INTERESSE, O APROFUNDAMENTO DE UMA ÀREA SOCIAL FORTE, MODERNA, APOIADA POR MELHORES E MAIS ORGANIZADAS TECNOLOGIAS SOCIAIS, NA DIFUSÃO, DESENVOLVIMENTO DE UMA CADA VEZ MELHOR CULTURA DA SOLIDARIEDADE, DE ATENÇÃO REDOBRADA À SUPERAÇÃO DA PROBREZA, COMO CONTRAPODER ÀS MEDIDAS DE UM ESTADO ASOCIAL, SENDO CONFORTANTE A CERTEZA DOS VALORES DOS JOVENS QUE OCUPAM AS ACTUAIS LIDERANÇAS PARTIDÁRIAS E ORGANIZACIONAIS LOCAIS, QUE SABERÃO PROMOVER UM COOPERATIVISMO E DIÁLOGO CONSTANTES NO ACOMPANHAMENTO DE EMPREENDIMENTOS ECONÓMICO-SOLIDÁRIOS, ARTICULANDO VIVÊNCIAS E SABERES, PORQUE NISA ESTÁ ACIMA DE INTERESSES PESSOAIS.
A história da nossa vila é um mundo de valores.
Fica-se maravilhado ao adentrar a história da nossa vila, das nossas gentes. E fica-se com pena de não termos conhecido desde logo José Francisco Figueiredo, e tantos outros.
A cada passo e a propósito dos mais variados temas, se depara com nisenses muito ilustres que ornaram de glória para sempre o nome da nossa Terra.
Nada temos que temer num juízo comparativo com outros.
Espanta esse grandioso universo e passado nisense.
Mas o nosso património espiritual, que também herdámos desses mesmos, poderá ser ainda maior.
Transformar a nossa vida para pelo menos sermos dignos do legado de Luz que é a presença de Nossa Senhora Graça, Padroeira da nossa Terra, das nossas Gentes, para nós nisenses o espaço mais sagrado do Mundo a capelinha mandada erguer por quem tanto amou e serviu a sua Terra, procurando para Sua Mãe, Protectora e Rainha, Nossa Senhora da Graça.
Tantas bênçãos obtidas, tantos anseios serenados, tantos passos acolhidos, tantas dores ultrapassadas, tantos males vencidos pela poderosa intercessão da Senhora da Graça na sua intervenção mais percebida por tantos espíritos de luz que nos precederam na História, e que por força da sua grandeza espiritual perceberam a riqueza da presença de Nossa Senhora da Graça.
“Não era, porém, só a saudade que movia os nossos antepassados a tão sentidas e compreensíveis peregrinações. Impelia-os também o fervor da crença, a ardorosa devoção a Nossa Senhora da Graça, que, na pequenina ermida, junto ao castelo destruído, lá continuava, no alto do monte, a ouvir-lhes as súplicas, a mitigar-lhes as dores e a receber como mãe carinhosa, os comovidos preitos da sua gratidão filial.”
“E assim se formou, desde esses remotíssimos tempos, a vigorosa cadeia que, em elos de fé viva, mística piedade, inquebrantável fervor, para sempre adjungiu a alma dos nisenses à Sua Excelsa Padroeira... e sê-lo-á enquanto em Nisa houver resquício de religiosidade, qual escada de Jacob, por ela subindo a veemência das preces e descendo a superabundância das graças”. (... in Monografia de Nisa).
Reacende-se por certo com mais força neste Natal, também a Sua Presença Iluminadora junto das Nossas Gentes, das suas esperanças, dos seus problemas e dificuldades, e que Nossa Senhora da Graça saiba rogar por nós, por Nisa, e pela sua Gente, tal como outrora, na perseguição de um futuro local ainda mais solidário, num desenvolvimento local sustentável, na criação (e/ melhoria de novas tecnologias sociais), sempre com a maior articulação de conhecimentos (populares mas também académicos, devidamente estudados em todas as suas premissas, e saberes, adequados aos objectivos específicos.
Oração: Nossa Senhora da Graça, rogai por nós.
Senhora da Graça protectora dos nossos Aflitos, rogai por nós.
Causa da nossa alegria, rogai por nós.
Vaso espiritual da tradição nisense, rogai por nós.
Vaso insigne da devoção nisense, rogai por nós.
Saúde dos nossos enfermos, rogai por nós.
Consoladora dos nossos desesperados, rogai por nós.
Auxílio das nossas gentes, rogai por nós.
Rainha proclamada pela tradição nisense, rogai por nós.
Rainha da nossa Terra, rogai por nós.

Esperança da Nossa Terra
Rainha de todos os nossos santos, rogai por nós.
Mãe da gloriosa tradição nisense, rogai por nós.
Nossa Senhora da Graça, Nossa Mãe e Protectora, nós Vos suplicamos que concedais aos vossos protegidos e à sempre notável vila de Nisa e à sua gente perpétua saúde de alma e de corpo; e que, pela Sua gloriosa e bem-aventurada intercessão, seja sempre, ontem como hoje, o povo de Nisa livre de toda a tristeza e goze da eterna alegria. Por Cristo Nosso Senhor. Ámen.

Rezaria assim a Nossa Senhora da Graça, e desejando um Natal mais solidário, sobretudo com aqueles que se vêem confrontados com a pobreza, cientes de que o nosso olhar atento, e amigo, e solidário, na conjugação de esforços removerá montanhas e tudo resolverá.
Que o espírito de Natal prossiga, reajamos a todas as mágoas, renovemos propósitos, evitando sofrimentos desnecessários, optemos por amar ainda mais as nossas coisas, a nossa gente.
Envolvamo-nos, queridos amigos e conterrâneos, num trabalho de mais amor, mais compreensão... trazendo mais paz, alegria e esperança à nossa terra, só assim concretizaremos um verdadeiro Natal, que vos desejo.
Afectuosamente
João Castanho

24.12.11

TEMPO DE NATAL: Hiroshima, meu amor...

No tempo que se aproxima
No tempo que se aproxima
Soçobrarão os ventos de Hiroxima
E o canto dos pássaros encherá o azul de novas cores

Não haverá mais o céu fornalha e fogo
E a vida há-de surgir quando encontrar o amor
No tempo que se aproxima

Os homens unirão a força que os anima
E deixarão os vales e os rios da dor
Subirão à serra
E do mais alto gritarão a liberdade
Ao vento e aos astros
E terão mais perto e seu o chão da terra

No tempo que se aproxima
Ressoarão ainda os gritos sufocados de Hiroxima
E os monstros encobertos tremerão de medo
De cada vez que ousem descobrir-se

Para lá da serra
Tocam-se o mar e o infinito
E os homens para sempre ouvirão os lamentos
De Hiroxima a nua
A que chora despida
Exangue
E sem ternura
Os homens que nasceram
Apenas para a morte
Carlos Franco Figueiredo (Inédito - 1965)

23.12.11

MEMÓRIA: O Natal na vila de Montalvão

Logo em Setembro e Outubro já a maioria das crianças andava alvoroçada com a perspectiva das festas do Natal que não demorariam a chegar. Eram os primeiros a lembrar-se dessa quadra festiva. Por isso, era motivo de “superioridade” dizer aos outros que já tinha duas ou três fachas (pequenos molhos de troncos herbáceos secos de cerca de 1 metro de altura, de uma planta a que chamavam “gamão” e que serviriam de tochas na noite do Menino Jesus).
O tempo decorria, as colecções de fachas iam aumentando, aumentando também a vaidade de ter um maior número daqueles molhos; as prendas do Menino Jesus não interessavam por agora. O entusiasmo aumentava sempre até à chegada da Noite Santa.
Na véspera do Dia festivo, e na generalidade, as famílias atarefavam-se nos preparativos da Consoada: as senhoras, em casa, preparavam os ingredientes para os fritos que, à noite, depois da ceia (jantar) iriam acabar, enquanto os homens iam à procura de um tronco para a lareira.
À volta do lume onde já ardia o enorme tronco (que devia continuar aceso até ao Ano Novo) procedia-se ao resto da confecção e fritura das filhós e azevias (por vezes argolas doces) enquanto o pai, a um canto da lareira, lia o jornal e ia provando de tudo um pouco alheando-se da azáfama que existia à sua volta.
Na rua, as crianças davam largas à sua alegria queimando, finalmente, os archotes (fachas) que, com tanto carinho e alvoroço juntaram para iluminarem o Deus Menino. Ao mesmo tempo grupos de rapazes da mesma idade (quintos) passeavam pelas ruas e entravam em casa de alguns deles para comerem os fritos que, normalmente, todas as famílias faziam, excepto as pessoas enlutadas que, por esse motivo, eram presenteadas no dia de Natal por pessoas das suas relações.
Queimados os archotes (fachas) as crianças iam para casa e sentavam-se também à lareira. A certa altura caiam no chão da cozinha rebuçados e vários frutos secos “lançados pelo Deus Menino” que por ali passava. O rebuliço das crianças era grande tentando, cada uma, apanhar o maior número possível daquelas guloseimas. Os mais crescidos segredavam então aos mais novos que não fora o Menino Jesus mas sim o pai que atirava aquelas coisas ao ar.
Ao aproximar-se a meia-noite todos se dirigiam à Igreja para ver o presépio, assistir à Missa do Galo e beijar o Menino. Regressados a casa havia café para todos, filhós e azevias ou ainda carne de porco frita. Na hora de deitar, os pequenos não se esqueciam de pôr o sapatinho perto da chaminé na esperança de que o Menino ali deixasse algum presente. No dia de Natal, manhã cedo, os meninos corriam para a lareira para ver se, no sapatinho, sempre havia alguma lembrança deixada pelo Menino. Depois, chegada a hora, todos se dirigiam para a Igreja e assistiam à Santa Missa.
Na última noite do ano grupos de raparigas lançavam borrifos de água nas portas das casas e, atirando farinha para cima diziam: “Bons Anos vos dê Deus!”. Do interior das casas alguém respondia: “Obrigado!”.
Dia de Ano Novo, à saída da Santa Missa, mulheres com açafates cheios de filhós ofereciam-nas a quem quisesse cumprindo, assim, alguma sacra promessa.
Estas descrições reportam-se aos anos 30/40 do séc. XX vividas nestes termos pelo narrador.
Évora, Dezembro de 2010
Anselmo de Matos Lopes in "Brados do Alentejo"

22.12.11

PROJECTO TERMAL DE NISA: Elemento de saúde e desenvolvimento

Após a caracterização do sector do termalismo enquanto factor de desenvolvimento local e da abordagem do tema na sua dimensão regional em números anteriores, nesta edição vamos tratar especificamente do projecto de aproveitamento da água mineral secularmente conhecida por «fedegosa» em função do fedor e depósito acinzentado resultante da importante presença de enxofre.
1. Em mais de 10 anos (última década do século XX) teve lugar um estudo sério da água, melhoria de captações, significativo aumento do caudal, beneficiação da velha casa onde se «davam» há décadas os banhos que aliviam as maleitas, especialmente a dor, de tantos enfermos .
Ao mesmo tempo, além da legalização perante o estado, deu-se atenção à qualificação de dos trabalhadores, nomeadamente através da criação de ensino profissional em Nisa que visava, antes de tudo, esta área, com um curso de 3 anos que deu emprego sustentado, na área específica, a todos os formandos.
2. Criou-se uma empresa para assegurar gestão mais qualificada, envolvendo, além do município, privados ligados ao sector da saúde e da hotelaria, aqueles que manifestaram interesse para o efeito. Todos os outros intervenientes nestas áreas de actividade foram convidados a integrar a Ternisa.
3. Elemento fundamental para o futuro, em 2001, num processo tecnicamente participado duma forma pluridisciplinar, está pronto o plano para o designado «complexo termal de Nisa». Individualizando, por necessidade de maior avanço, foi entregue à DG Saúde o projecto do novo balneário termal, pela sua qualidade aprovado em tempo record.
4. Partindo desta situação, a fase intermédia, até á finalização do balneário (2006), cuja abertura, estrategicamente, deveria coincidir com a do de Cabeço de Vide, em 5 anos o objectivo fundamental é o do aumento do número de utentes ainda nas velhas instalações, através de um trabalho, nomeadamente médico, que garanta cada vez maior satisfação aos doentes. Desta forma, seria este «manancial» de clientes, transformados em verdadeiros propagandistas, mais eficazes que qualquer forma clássica ou moderna de publicidade, a ajudar a alcançar os 2500 utentes no momento da abertura do novo estabelecimento. É este o número considerado mínimo para garantir sustentabilidade no futuro espaço. Com adequada coordenação, tem-se ainda como indispensável assegurar a continuidade, fazendo a transição de um espaço para o outro, sem interrupção dos tratamentos. Doutra forma, muitos utentes, em momento decisivo, «fugiriam» para outras termas, com o perigo de aí se «fidelizarem» e não voltarem a fazer cura em Nisa.
5. Pretende-se com a Ternisa, empresa municipal, mas de capitais mistos, envolver os outros sócios em tudo o que respeita à gestão termal. É fundamental conhecerem tudo, acolher as suas propostas, indicarem elementos para a administração. A câmara para garantir transparência, indispensável ao êxito do processo e atrair à participação no capital novos actores locais, não deverá abusar do facto de ser elemento maioritário. Também os trabalhadores do balneário, maioritariamente mulheres, nos termos adequados, em exercício de participação democrática, devem ser regularmente chamados a dar opinião, particularmente sobre o que tem incidência na sua condição socio-profissional.
A empresa municipal não poderá servir para fugir às regras da actividade pública, nomeadamente rigor e transparência na administração, informação permanente aos órgãos municipais e à população do concelho que, em condições favoráveis de tarifário, deve ser estimulada a adquirir genuína cultura termal e ser a primeira a beneficiar de um recurso que a natureza fez brotar no concelho.
A Ternisa não pode ser um expediente «saloio» para fugir a princípios base como a isenção, a igualdade que é devida a todos, o respeito pela legalidade. Não pode servir, invocando a condição de «empresa», para alimentar uma «gestão» que esconda informação essencial ou fomentar o compadrio, clientelismo, «amiguismo». Nunca poderá permitir situações que, de alguma forma, deixem passar a ideia de actos marcados pela corrupção.
6. Para a cura termal ter seriedade técnica, garantir o sucesso da empresa e ajudar no desenvolvimento do concelho, é indispensável centrar-se nas especialidades que os estudos priorizaram. Na base da tradição e da ciência, em primeiro lugar, ser um espaço para tratamento, realizado de forma séria, de reumatismos e problemas respiratórios. Fundamental, na questão do combate à dor, é o uso da lama, simbolicamente a mesma que dá corpo à nossa olaria pedrada.
7. Das inovações surgidas no primeiro estudo hidrogeológico completo levado a cabo em Portugal, ressalta a importância da doença hemorroidária. Importante apostar nesta valência por duas razões essenciais: ainda hoje não há tratamento eficaz para esta patologia na indústria do medicamento e só há duas estâncias vocacionadas para as hemorróidas em Portugal. Aponta-se mesmo para a criação de um centro de proctologia termal de alcance nacional, já que é elevadíssimo o número de pessoas com este padecimento.
8. Perante o número crescente de doenças imunitárias, designadamente alergias, importa tratar com relevo estas situações, como aconselhou o ensaio clínico. Para isso, é indispensável o envolvimento de médicos especialistas no ramo, mas que, ao mesmo tempo (condição essencial) tenham formação e sensibilidade em termalismo. O mesmo acontece com reumatologistas (especialidade base do balneário), otorrinolaringologistas, proctologistas, fisiatras (repete -se, todos com experiência em hidrologia médica, a par da sua base hospitalar). Em termas dignas desse nome não se pode, por exemplo, realizar fisioterapia «a seco», tarefa que deve ser reservada para clínicas de reabilitação.
9. Sem menosprezo pela «mise en forme», a figura hoje conhecida por spa, modernamente exigível em termas, outro elemento que tem que ser competentemente implementado é a «unidade de internamento» perspectivada para a recuperação de sequelas motoras de AVCs e tratamento de certas doenças da pele que beneficiem de uso intensivo de água sulfurosa.
Nota: Este texto foi elaborado como algo de virtual que, sumariamente, caracteriza a situação das termas de Nisa em 2001 e perspectiva as condições indispensáveis ao êxito do processo. A haver desvios significativos aos seus elementos chave, a situação está condenada ao insucesso...
JOSÉ MANUEL BASSO - Médico hidrologista
(Era presidente da câmara em 2001 )

NISA: TEMPO DE NATAL (1)

Poema de Natal
A minha sede entrou com as mãos estendidas
Nesta Vila da província
Onde há esquinas e buracos e flores
E largos e Anabelas
E um liceu com bibe de menino
Pisei o chão da Avenida
Com luzes nos olhos
E o meu gosto de andar
A pintar o oxigénio com o pincel de Professor.

Chegou um Natal e outro e outro
E eu via postais na minha aldeia
Cada um trazia uma parcela de amor
Trazia sóis
E bocados de Lua cheia
Rasgos
Fogo-fátuo e uma boneca de azul
Cada um trazia um Menino brincando na chaminé.

(Uma vez lembrei-me do João Cardoso
Seus pés nasceram de lado
Suas botas de pequeno não as teve
Nem uma camioneta para brincar no largo
No largo da Velada
Onde a minha casa aponta o céu

Na labareda do tempo
Na mistura da planície.
Uma vez lembrei-me do João Cardoso
Nunca teve prendas nos sapatos...
Mas teve sorrisos de Jesus).

Natal
Canções de Amor na aguarela viva
Luz do alto, Luz do corpo, Luz da Fé, Luz
E a minha sede de mãos estendidas
Nesta vila da província
Onde encontrei Jesus.
Joaquim Semedo Toco – in Sinfonia das Flores em Azul

21.12.11

ESCRITORES DO CONCELHO (4): Contos da Aldeia

O Natal e o pardal: que saudades, ai! ai!
O búzio tocou repetidas vezes. Meia hora mais tarde, na taberna do “ti Júlio”, em frente à sacristia, foi feita a contagem do pessoal e verificada a presença dos elementos-chave.
Pegámos em duas carretas de bois, mas puxadas e empurradas pela rapaziada, até ao Azinhal, em busca de duas azinheiras e um sobreiro, previamente pedidos ao dono, para o lume de Natal.
Naquela época ainda não havia moto serras. Toca a puxar pelo serrote e com machadadas desordenadas, lá fomos transformando aquelas árvores secas, em compridos toros que o lume havia de devorar.
O lume foi feito, aliás, como sempre, no pequeno largo em frente da igreja. Toda a tarde choveu e a noite previa-se ainda pior. Enquanto as mulheres e as moças em casa faziam as filhós e as azevias, era tradição - e ainda é – os rapazes nascidos no mesmo ano juntarem-se, para à volta do braseiro, assar qualquer coisa e aconchegar o estômago, pois as couves com azeite por cima, em plena juventude e com tripa de pato, já tinham ido barroca abaixo e a noite era longa.
Uma linguiça e um copo de três vinham mesmo a calhar. Na pequena taberna não se conseguia lá entrar, a chuva caía a cântaros, o lume ia-se apagando lentamente e a barriga a dar horas. Podia lá ser uma noite tão especial... Depois de um esforço hérculeo, nem lume nem petisco.
- Dê o mal para onde der, sem petisco é que não pode ser -, disse o magricela do “Espiga”.
- Ir á procura de uma galinha, ou melhor ainda, de um galo é que vinha mesmo a calhar.
- Aqui bem perto está um na oliveira da Fonte da Bica - , disse o “Mangas”.
O “Pardal” desapareceu, da taberna, voltando pouco depois com um enorme “galarous” debaixo do casaco.
Entretanto o lume tinha-se apagado por completo. Pela cabeça de todos nós passou a mesma ideia. Só faltava mais esta. E agora?
O “Galhofas” encontrou a solução: - Calma, rapaziada, na casinha semi-abandonada onde a minha mãe guarda as velharias, talvez a gente se desenrasque.
Excelente ideia, aprovada por unanimidade. Lá fomos mais ligeiros que um sargento de infantaria.
Mas um galo assado, mesmo grande como era aquele, para tanta malta, com dezassete anos e cheios de apetite, não chegava, só se o fizéssemos guisado e assim já chegaria.
- Essa é boa – disse um. A trempe, caçarola, lenha, batatas, cebolas, louro e alhos há aqui, mas o azeite, a estas horas da noite?
- Desse assunto trato eu, disse o “Pardal”, convictamente. Passado pouco tempo apareceu o bom do “Pardal”com uma almotolia quase cheia. Foi o delírio.
Já com a barriguinha cheia o “Clarinete” perguntou ao “Pardal”:
- Onde diabo foste tu arranjar o azeite que tinha um gosto esquisito?
- À igreja.
- Não tens raça de vergonha! Roubar a igreja, vejam bem.
- Estás enganado, não roubei nada. Com o lume de Natal apagado, vi que dentro da igreja havia uma luz muita fraquinha, quase a apagar-se. Resolvi entrar e pôr mais azeite nas lamparinas, para que os santos ficassem alumiados toda a noite. O S. Simão até sorriu e a Nossa Senhora de Fátima, com o seu bondoso olhar, autorizou-me a trazer o resto, mas eu prometi-lhes que a minha avó amanhã manda repor o que se gastar hoje. Afinal não é ela que lá põe o azeite durante todo o ano? E este sempre foi bom ser gasto, pois já tem alguns anos.
Entretanto, deixou de chover, a noite tornou-se mais acolhedora, cada um foi à procura do “vale de lençóis” já a pensar no baile, à noite, no salão do “ti Reizinho”.
José Hilário – Pinceladas de Poesia e Contos da Aldeia

20.12.11

À FLOR DA PELE - Adeus, até ao meu regresso...

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar (1)
Onde se fala do annus horribillis do salazarismo, do início da guerra colonial, da queda de Goa, Damão e Diu, do princípio da derrocada do Império Colonial Português, da dor e das lágrimas de uma mãe de Tolosa, sem dinheiro para pagar a “caixa de pinho” e trazer de volta, o filho morto em combate...
23 de Janeiro de 1961. Foi há 50 anos e ainda me lembro do rádio a pilhas, em cima da secretária, na sala de aula do 1º andar da Escola do Rossio. O professor, meu primo António da Piedade Pires, ligava-o a espaços para ouvirmos a “aventura” em forma de novela radiofónica do assalto ao Santa Maria. O ano começava mal para o regime salazarista e num país onde só era permitida uma ideologia política, onde não se podia discutir, sequer, o “sexo dos anjos”, aquelas doses maciças de apologia nacionalista e de constantes alusões aos “traidores da pátria” comandados por Henrique Galvão calaram bem fundo em cada um de nós.
Naquela altura estaria longe de supor que, dez anos mais tarde, iria conhecer em terra de balantas, fulas e mandingas, as profundas contradições e mentiras de um regime, isolado do mundo e da realidade.
A 4 de Fevereiro de 1961 guerrilheiros do MPLA tomam de assalto a prisão e a emissora de Luanda, no mesmo dia em que termina a aventura de Henrique Galvão e seus companheiros com a entrega do “Santa Maria” às autoridades brasileiras e recebendo asilo político.
Estalara a guerra colonial e os massacres de colonos angolanos enchem de horror e de revolta, os écrans a preto e branco do único canal televisivo. Uma guerra que se haveria de se estender a Guiné e Moçambique, perante a recusa de Salazar em aceitar uma solução negociada, pacífica, para a autodeterminação dos territórios ultramarinos.
Botelho Moniz tenta ainda, num golpe de Estado, apear Salazar do poder, mas a intentona é sufocada e a resposta do homem de Santa Comba Dão fica expressa na célebre frase: “Para Angola, rapidamente e em força”. Logo a seguir viria o “Angola é nossa!”.
Catorze anos de guerra, de devastação, de milhares de mortos e feridos, de fome e miséria, que deixaram um território rico em recursos naturais, dividido e arrasado, mostraram que Angola não era nossa, nem será, tão pouco, dos angolanos... Mas esta é outra história a ser escrita no tempo próprio.
A 18 de Dezembro de 1961 novo golpe nas aspirações imperiais do ditador de Santa Comba: a União Indiana invade e anexa quase sem resistência, os territórios de Goa, Damão e Diu.
Começa a derrocada do Império Colonial Português, um “império” que, perante os ventos de mudança que assolaram o mundo após a 2ª Guerra Mundial, e os exemplos de outras ex-potências coloniais, estava condenado a seguir os mesmos caminhos da autodeterminação e da independência. Salazar, orgulhosamente só, criticado pela comunidade internacional e pela própria igreja católica não cedeu. Arrastou, na sua cegueira, o país para uma longa guerra injusta, onde as palavras “derrota” e “rendição” eram proibidas. “Apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”, disse, um dia, num discurso inflamado. Vassalo e Silva não lhe fez a vontade, quis viver e salvar os seus homens de uma morte certa e inglória, como, anos mais tarde, em 1973, em Guileje, na Guiné, o major Coutinho Lima tomou a mesma atitude, num aquartelamento flagelado durante cinco dias e despojado de tudo, até de armas e munições.
Conheci-o, pessoalmente, no Depósito dos Adidos, como um soldado raso, sem galões, triste e amargurado, mas orgulhoso da atitude tomada. Nesse ano (1973) a PIDE assassinara Amílcar Cabral, a guerra tomara proporções que o exército português nem sonhara. O PAIGC dispunha, agora, de supremacia em termos de armamento. Avião ou avioneta que descolasse era aeronave abatida. Os mísseis terra-ar faziam estragos incalculáveis, a mobilidade da guerrilha com uma nova estratégia deixava os comandos militares sem saber o que fazer.
Temia-se o pior. A ilha de Bissau começa a ser cercada com arame farpado. A cidade transformara-se numa nova Saigão e o que acontecesse teria de ser decisivo. Foi. O “Movimento dos Capitães” desencadeou o 25 de Abril e o término da guerra.
A solução política, tantas vezes proposta pelos líderes africanos (Neto, Mondlane, Cabral) a Salazar acabara por silenciar e resolver o que as armas não conseguiram.
História de uma mãe e de um caixão de pinho
O concelho de Nisa também sentiu na dor e no luto, na partida e na ausência, o drama da guerra colonial. Algumas famílias não mais voltaram a ver os seus filhos e entes queridos, que neste texto homenageamos.
Particularmente atingida pelo infortúnio e pelas vítimas da guerra foi a povoação de Tolosa.
O que talvez muitos não saibam é que foi a partir de uma carta pungente e comovedora, de uma mãe desta localidade, Maria Florinda da Luz, dirigida ao Ministro da Defesa que se começou a fazer justiça aos militares mortos na defesa dos territórios ultramarinos.
O Estado mandava os soldados para a guerra, mas só pagava a ida e o regresso dos militares vivos: não se responsabilizava pela trasladação dos mortos.
Se tivessem dinheiro, as famílias teriam que pagar se quisessem os seus mortos de volta: pagavam o caixão de chumbo, a embalagem da urna, a certidão do registo de óbito, o transporte de Lisboa para o cemitério de destino.
As famílias eram informadas da morte através de telegrama que geralmente acabava assim: “Informo Estado custeia remoção de ossadas passados cinco anos /Trasladação possível agora deseje despesa sua custa /Necessário depositar dez mil escudos Depósito Geral adidos Lisboa ou outra unidade/ caso assim não proceda trasladação impossível”.
Os portugueses eram “carne para canhão”, combatiam numa guerra de que não conheciam os contornos e por fim, quem os envolvia em tamanha aventura bélica nem sequer se preocupava em garantir que os entes queridos pudessem, em caso de morte, fazer-lhes as derradeiras homenagens de despedida. Levavam-lhes os filhos, os maridos, os noivos; roubavam-lhes anos de vida da sua juventude e, se a morte viesse, o direito ao luto, à dignidade de uma homenagem fúnebre teria de ser “cobrada” com dez contos.
Nos anos 60, dez contos eram uma fortuna. Vivia-se de magros salários, a população rural e não rural não dispunha de tal quantia. Maria Florinda da Luz, mãe do soldado Francisco da Luz Carloto, morto em combate no Norte de Moçambique, em 19 de Janeiro de 1967 não se conformou com a resposta. Escreveu ao Ministro da Defesa uma carta pungente:
“Venho com esta minha triste carta pedir a Vª Exª, Senhor Ministro da Defesa, que me explique duas palavras do meu querido filho, que a dor é tão grande que não sei aonde hei-de perguntar informações do meu queridinho filho? Lembrei-me de Vª Exª de me poder dizer alguma coisa. Um filho tão bom que alegrava o meu lar tão triste, e alegrava o meu coração. E agora grito à procura do meu triste filho sem saber aonde está e como foi a morte dele.
“Pedia a Vª Exª pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho.
Peço imensa desculpa a Vª Exª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei aonde hei-de respirar. O nome do filho é Francisco da Luz Carloto”.
A carta de Maria Florinda da Luz chegou ao secretário de Estado da Defesa, general Venâncio Deslandes que por sua vez enviou um ofício ao Estado-Maior do Exército sobre este grave problema. A partir de 2 de Março de 1967 com a publicação do Regulamento de Trasladações, o Estado passou a assegurar o regresso dos militares mortos na Guerra Colonial. (2)
A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar (1)
NOTAS
1 Menina dos olhos tristes – letra de Reinaldo Ferreira; Música de Zeca Afonso
2As grandes operações da Guerra Colonial 1961-1974 – Presselivre, Imprensa Livre SA
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 28/12/2011

19.12.11

IN MEMORIAN - Joaquim Margarido: um Amigo que partiu!

Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade
Sobram as palavras, soltam-se, desenfreadamente, as emoções, quando queremos falar de um amigo que partiu.
Joaquim Manuel de Matos Margarido, 59 anos, nascido e vivido em Montalvão, faleceu no passado dia 13 de Dezembro, após anos de doença e de um sofrimento que não exteriorizava.
O funeral realizado na manhã do dia 14, na terra que tanto amou, foi, ao mesmo tempo, uma impressionante manifestação de dor, e uma bela, ainda que triste, imagem das muitas centenas de amigos que o acompanharam e quiseram mostrar-lhe, na derradeira despedida, o sentimento de apreço e de reconhecimento de que em vida foi credor.
Conheci o Joaquim Margarido nos Serviços Municipalizados de Nisa onde ambos iniciámos a vida profissional. Introvertido, muito metido consigo próprio, o Joaquim Margarido dava uma ideia diferente do que, em essência, era.
Desses tempos nos Serviços ficou uma grande amizade, aprofundada mais tarde em Portalegre, cidade onde nos viemos a encontrar, profissionalmente.
O Margarido, electricista na Quartel da GNR raro era o dia em que não fazia uma visita à EDP mostrando que, afinal, era um grande conversador e que a sua terra, Montalvão, estava no centro das suas preocupações.
Não me admirou que, após a passagem à situação de aposentado, tenha encontrado na Santa Casa da Misericórdia a instituição certa para ocupar, solidária e dedicadamente, os seus tempos livres.
Uma dedicação extrema, exemplar, que legou à Misericórdia de Montalvão, entidade de que me falava amiúde, apaixonadamente, e que era uma das razões da sua existência, quando a doença, sibilinamente, entrara já na sua vida.
O Joaquim Margarido morreu. Eu perdi um amigo, verdadeiro e solidário.
Montalvão perdeu um filho, um montalvanense que sem ser ilustre, ilustrou com trabalho e sentimento de dádiva, o seu amor aos outros e à terra onde nasceu.
Aos pais, irmãos, esposa e familiares do Joaquim Margarido apresento sentidas condolências.
Mário Mendes

18.12.11

O NATAL visto pelos poetas nisenses (1)

Natal de Hoje
Da velha enegrecida chaminé de ontem
não chovem prendas.
De lá também Jesus, seu pai ou sua mãe
não espargem prendas,
pois nunca se soube, de entre a tríade,
qual foi o que algum dia
tenha derramado prendas.

Prendas? Hoje, Ontem e sempre?
A donde?
São prendas a miséria, a sede, a fome, a morte
que grassam por toda a parte
ou pelas três quartas partes do mundo?
Dadas, espargidas, derramadas?

As prendas só podem ser dadas
- dadas com o doce calor da verdade,
da pura entrega e do sentir profundo.
Dadas? Por aqueles que hora a hora
só tecem cruzes no peito,
bajulando a todo o instante
os ricos mais que os pobres;
a tríade que parece não saber pesar, medir, palpar,
a imensíssima diferença que existe
entre tudo aquilo que é excesso
e tudo o resto – três quartas partes do mundo –
que é defeito e que persiste?
António Bento (7/12/2002)

15.12.11

750 Anos do 1º Foral de Tolosa (1262 - 2012)

Há 750 anos foi concedido a Tolosa o 1º Foral
Este 1º Foral foi outorgado pelo Prior do Crato – Ordem dos Hospitalários.
A Carta de Foral adquire uma dimensão prática depois da sociedade mais estabelecida. No fundo estes documentos eram a base do estabelecimento de um Município e, por conseguinte, um evento muito importante na história de qualquer vila ou cidade.
Pretendiam assegurar as condições de afixação da comunidade.
O Foral tornava o concelho “livre” do controlo feudal (os grandes senhores). Esta era uma preocupação de todos os reis, que viam muitas vezes a sua soberania posta em causa por aquele grupo.
Garantiam-se as terras públicas para cultivo da comunidade, regulavam-se impostos e multas, estas, por questões de segurança. Não nos esqueçamos que nesta época a agressão entre os habitantes era prática comum.
De acordo com o Foral os Habitantes de Tolosa sempre gozaram de grandes privilégios concedidos pela Ordem:
O Foral abordava os seguintes aspectos:
• Sociedade – Atribuições dos diferentes grupos sociais
• Justiça – Delitos consignados (eram vários)
• Administração – Direitos e deveres dos diferentes cargos administrativos e fiscalidade
• Economia – Receitas e despesas (impostos)
Em 2012, data da comemoração do 1º Foral de Tolosa, a Junta de Freguesia debate-se com a hipotética possibilidade de ser extinta ou “agregada” sem sabermos bem porquê.
Não vamos deixar que os direitos adquiridos há 750 anos nos sejam retirados por um punhado de supostos “grandes senhores” ou por imposição de uma qualquer Troika que, pura e simplesmente, trata as Juntas de Freguesia como se de empresas se tratassem. A Junta de Freguesia de Tolosa não é uma empresa que pode simplesmente ser encerrada porque o “dono/Troika” assim o entende. E as pessoas? Os mais idosos? As nossas crianças? A nossa História? Onde fica a afectividade? Nas freguesias existe algo mais do que a simples emissão de documentos. Há uma vida em comunidade. Há afectos.
Não queremos ser submetidos a outra freguesia, nem queremos perder os direitos e autonomia adquiridos há tantos anos atrás (750). Queremos continuar a ser nós próprios, queremos a nossa identidade, que é o reflexo daquilo que fomos, somos e seremos…..
Que preocupações têm os nossos governantes com as freguesias que pretendem agregar ou mesmo extinguir? Reduzir o défice? Não nos parece.
Pretendem pura e simplesmente que, ao contrário do que apregoam, as populações do interior fiquem cada vez mais desertificadas e ao abandono.
Por que quer o estado “fugir” do interior?
É acabando com as Juntas de Freguesias que se criam serviços de proximidade? É acabando com as Juntas de Freguesias que se presta um serviço público?
Tolosa é e sempre foi uma freguesia rural.
Apesar da sua pequena área geográfica, a 2ª menor do concelho, a Freguesia de Tolosa desde os tempos mais remotos que é terra de agricultores e de agro-indústrias. Prova disso são as queijarias, as industrias transformadoras de lenha, os produtores de gado e muitos pequenos agricultores que vivem do que produzem nos seus terrenos.
Por ter uma área realmente reduzida, muitos tiveram necessidade de adquirir terrenos fora do concelho para expandir a sua produção. Prova disso são as muitas centenas, senão milhares, de hectares pertencentes a freguesias vizinhas dos concelhos de Nisa, Crato e Gavião que são propriedade de empresários residente e naturais da Freguesia de Tolosa.
Se a freguesia de Tolosa vai ser agregada/extinta pelo facto de ser uma freguesia maioritariamente urbana perguntamos. Onde está a nossa urbanidade? Que mais é necessário para mantemos o nosso ruralismo?
Por que não fazem como há 750 anos? Nessa altura pretendia-se assegurar as condições de fixação da comunidade. E agora? Vamos todos para Lisboa? Não! Vamos ficar na “NOSSA TERRA”!
Contra a agregação
Tolosa "INDEPENDENTE"
- Texto retirado de www.freguesias.pt

14.12.11

ESCRITORES DO CONCELHO (3)

NISA - Terra de cor e Vida! - Diniz Fragoso
Subindo este nosso tapete multicolor de Portugal, o retalho do Alto Alentejo é a primeira pincelada de cor harmónica entre um tom indeciso e outro que fere...
É o primeiro sorriso depois da expressão grave do Baixo Alentejo.
Depois do descampado e da solidão extensa da planície do sul, o solo toma as primeira ondulações, alcantilam-se as serras e a vegetação surge. Oásis!... O olhar já não se alonga pela imensidão da terra sem fim, embala-se, embala-se agora nas primeiras curvas das serras arborizadas e... nascem rosas!...
Marvão, no extremo do Alto Alentejo é a sua sentinela vigilante que descansa agora das lides de antanho.
Ali, não obstante a altitude e o agreste da sua penedia, não fazem as águias ninhos mas fizeram os homens doutros tempos um castelo que é um ninho de águias.
Seguida a prega do relevo depara-se-nos Castelo de Vide e, mais além, para os lados do Tejo, onde a ondulação do solo abranda antes das ondas alteradas dos primeiros contrafortes da Beira, estende-se uma povoação alegre de cor apenas recortando no céu uma silhueta de torres.
É Nisa – a “Corte das Areias” – de curiosa tradição histórica que lhe vem desde D. Diniz e cuja biografia se encontra explanada por Mota e Moura no seu livro “Memória histórica da notável vila de Nisa” e por Laranjo Coelho no livro “As ordens de cavalaria no Alto Alentejo”. Para estes guias encaminho o leitor visto que nestas curtas linhas nada mais faço que lembrar uma terra simpática e curiosa.
E de facto a “Corte das Areias” é, para aquele que não sofra de anestesia estética, um feixe de boas impressões. Dá-lhe carácter a sua Porta da Vila do século XIV, a “Fonte da Pipa” da Renascença, a Porta de Montalvão ainda do século XIV e o resto das suas muralhas.
Todos estes monumentos, belos de colorido e forma, satisfazem qualquer exigente arqueólogo ou pintor de arte.
Nisa tem sobretudo um carácter muito pessoal: nos seus usos e costumes, na hospitalidade bizarra, no protocolo de casamentos – único em Portugal – na fidalguia de acções e até em certo desafogo de valores pessoais que o ambiente meridional adormece um pouco...
Como digo, Nisa é sobretudo pessoal e a sua personalidade vinca-se bem, não só nos usos e costumes, mas também nas pequenas, mas curiosas indústrias nascentes: a da cerâmica que nos dá as cantarinhas pedradas tão apreciadas onde aparecem, e a das rendas e bordados em que algumas nisenses são artistas exímias.
O traje feminino é dos mais curiosos de Portugal, quer pela originalidade, colorido, forma e até riqueza, quer pela vivacidade do modelo que o veste pois, na generalidade, a mulher de Nisa tornou-se um belo e inconfundível tipo do Alentejo.
De crescente progresso, sobretudo com o desenvolvimento da Hidro Eléctrica do Alto Alentejo, esta vila desperta para a Vida e transforma-se acentuadamente, num confortável meio onde certa sociedade selecta lhe dá cor social intensa e simpática...
Diniz Fragoso  in Album Alentejano - 1933
NOTA
João Dinis Fragoso, nasceu em Nisa, na Herdade do Azinhal, em 1902. Foi um artista emérito, desenhador e cartonista, colaborador dos principais jornais portugueses como "O Século" e o "Diário de Notícias". São de sua autoria os dois belíssimos desenhos que aqui publicamos, ambos reproduzidos no "Álbum Alentejano", publicação regionalista dos anos 30 do século passado.

10.12.11

MARCO MOURA (Presidente da Inijovem) em entrevista

“ Somos uma das associações mais activas do distrito de Portalegre”
Fundada em Maio de 1997, a Inijovem – Associação para Iniciativas para a Juventude de Nisa tem ainda uma curta mas dinâmica vida em prol do associativismo e da dinamização cultural do concelho de Nisa. São 14 anos de actividades, algumas pioneiras, que marcaram de forma muito positiva o quotidiano dos jovens e adultos deste rincão norte-alentejano.
Marco Moura, presidente da colectividade, a passar por um vazio directivo, fez o balanço de dois anos de mandato e reafirmou a importância de uma associação como a Inijovem.
AA – Que balanço faz destes 2 anos à frente da direcção da Inijovem?
“Na reunião da Assembleia Geral, no dia 28 de Novembro, expliquei, detalhadamente, todas as actividades desenvolvidas ao longo de dois anos e que integravam os planos de actividade de 2010 e 2011. Realcei aquelas em que conseguimos maior sucesso, outras que não foram tão bem conseguidas em relação aos objectivos traçados e também as que não conseguimos realizar, fosse por falta de apoios, pelas condições logísticas adversas e pela falta de interesse por parte dos principais destinatários.
De qualquer modo e na linha das direcções anteriores, a Inijovem pôs de pé durante este mandato, um grande conjunto de iniciativas, em primeiro plano destinadas à juventude e que congregaram, no seu todo, milhares de participantes.
Como exemplo, tivemos em 2011 a Rota do Contrabando com um número record de caminheiros, cerca de 500, sendo sem dúvida, a actividade que implica mais meios logísticos e aquela que é mais conhecida em Portugal e além-fronteiras, com um enorme impacto na divulgação do nome de Nisa.
Organizámos, para além deste, 13 percursos pedestres, que envolveram mais de mil participantes e mantivemos uma iniciativa que julgamos pioneira no distrito, o Festival de Cinema, até 2009, designado como de Cinema Alternativo e dedicado ao género fantástico e de terror. Em 2010, mudámos a temática para o Cinema Documental, tivemos a presença dos realizadores Jorge Pelicano e Jorge Murteira, premiado no DocLisboa com “A Casa do Barqueiro”, filme realizado em Amieira do Tejo.
Este ano não foi possível concretizar esta iniciativa, devido à política cultural da Câmara, que restringiu a utilização da sala de cinema, obrigando os utilizadores ao pagamento de aluguer. Ainda assim fizemos algumas apresentações de documentários na nossa sede, sem grande adesão.
Marcámos pontos na pesca desportiva com a realização de 4 convívios e a candidatura ao Concurso Nacional de Pesca Desportiva, a realizar em Junho e que tivemos de cancelar devido ao enorme caudal da Barragem do Maranhão.
Participámos em duas provas de BTT integradas na Taça Regularidade da INATEL, que entretanto acabaram e movimentámos perto de 150 atletas nas provas de ténis de mesa.
Promovemos em 2010, em parceria com as associações AJITA (Tolosa) e AJAL (Alpalhão) a Semana da Juventude, com acções descentralizadas de animação nas 3 localidades. Em 2011 e devido à falta de apoios monetários avançámos para a Semana da Inijovem, recorrendo à “prata da casa”.
Outra actividade de grande importância, pelo significado e pela logística a que obriga, foram as duas Caminhadas a Fátima, com cerca de 100 participantes, sócios e não sócios da colectividade.
Este ano, promovemos o 1º Passeio Fotográfico, na sequência de sugestões dos sócios, com 25 inscrições, mas apenas 10 participantes, devido ao mau tempo.”
Desporto federado
AA - Ao que julgo saber, a Inijovem tem nos últimos anos dedicado especial atenção ao desporto federado. Quais as actividades que têm desenvolvido?
“Em 2010 participámos pela primeira vez nas provas da Associação de Andebol de Portalegre, dando sequência a um projecto que tinha sido feito entre a Câmara, Associação de Andebol e o Nisa e Benfica. Para isso tivemos de pagar à AAP uma dívida de cerca de mil euros e fizemo-lo porque considerámos importante dar sequência que ao trabalho que vinha sendo feito desde 2009 e não defraudar o entusiasmo de muitas crianças e jovens que foram despertas para esta modalidade, sendo campeões regionais em infantis masculinos nas épocas de 2009/2010 e de 2010/2011, classificações que deram acesso à participação no campeonato nacional, prova que está a decorrer e onde a equipa da Inijovem ocupa o 2º lugar da sua série.
Temos 20 jovens a participar nos Infantis, para além das concentrações de minis e bambis em que participamos com mais de dez crianças.
Temos tido também alguns êxitos na pesca desportiva que tem tido secção própria e realizado convívios nesta modalidade. A ambição, no entanto, era competir e filiámo-nos na 1ª Associação de Pesca Desportiva de Rio (Tomar) e a partir daqui foi sempre “a subir”: competimos na 2ª divisão regional e depois na primeira, em 2011 dois atletas atingiram a 3ª divisão nacional e a época acabou em beleza com a equipa da Inijovem a atingir a 2ª divisão nacional.
É uma secção que funciona muito bem, com autonomia e que gere a formação, o treino, as participações nas provas e tudo o que envolve, desde inscrições a exames médicos, etc. A ideia geral é conseguir a concessão de uma área de pesca, objectivo para que aponta a recente alteração aos estatutos.
Participávamos também com entusiasmo nas provas regionais de Ténis de Mesa e sem a competição do Troféu Regularidade da Inatel, instalou-se a desmotivação e temos apenas alguns torneios na nossa sede.”
AA - Tem falado do que foi feito durante estes dois anos, no que respeita a iniciativas, parecendo que tudo corre sobre rodas. É mesmo assim, não há carências de meios financeiros e de infra-estruturas?
“De modo algum. Uma das questões que mais nos preocupa é a questão da sede. Como sabe ocupamos o edifício do antigo teatro e do Clube Nisense. É um edifício muito antigo e com graves problemas sobretudo na cobertura. Há muito que pretendemos resolver a questão jurídica da propriedade, mas não tem sido fácil e isso é um obstáculo para que possamos obter apoios e fazer as obras necessárias.
Se essa questão fosse resolvida teríamos uma melhor distribuição dos espaços e o edifício até poderia albergar outras associações.
No que se refere a transportes, dispomos de uma carrinha de 9 lugares, cedida pela Câmara e que disponibilizamos também a outras associações como os Bombos, Nisa e Benfica, Sociedade Musical, pois achamos que a colaboração entre associações é fundamental, ainda mais quando os apoios monetários começam a escassear e a própria Câmara nos quer fazer pagar taxas de recintos de que antes estávamos isentos.”
A questão financeira
AA - Como e de que vive a Inijovem?
“Vivemos do apoio dos sócios, são quase 600, das verbas que recebemos do IPJ através do Programa de Associativismo Juvenil (PAJ), verbas essas que têm vindo a ser reduzidas drasticamente, não obstante as inúmeras iniciativas que fazemos anualmente, a ponto de poder dizer, sem receio de ser desmentido, que a Inijovem tem sido uma das mais, senão mesmo a mais activa, associação do distrito de Portalegre.
Em 2011, movimentámos até final de Outubro, 57.812 euros e temos em conta 3.632 euros. Em termos financeiros, temos em falta e já cabimentados 5 mil euros de subsídio da Câmara no âmbito do projecto de dinamização do Andebol, do qual somos a entidade gestora, e mais 5 mil euros como verba atribuída para outras actividade, algumas das quais em parceria com a própria Câmara.
No que respeita a apoios devo dizer que sou contra a subsídio-dependência e as associações devem caminhar para serem auto-sustentáveis. No entanto, a falta de apoios tem-se feito sentir de forma dramática e lembro que no 1º ano em que nos candidatámos ao PAJ recebemos cerca de mil contos. Em 2011 foram pouco mais de 2 mil euros.
Para nós o dinheiro não é o mais importante. O que nos preocupa são as dificuldades e os entraves que estão a ser colocados na cedência de equipamentos, transportes e instalações por parte da autarquia.
A cultura, o recreio e o desporto, fazem parte da melhoria das condições de vida dos habitantes do concelho e é uma das principais atribuições da Câmara, pelo que não se compreende esta política. Muito menos quando pedimos apoio em transportes com alguma antecedência, como foi o caso da caminhada a Fátima e a resposta chega a dois dias do início da caminhada, sem termos tempo para refazer o que quer que seja, inclusive, pedirmos às pessoas uma contribuição para o pagamento do transporte.
É de uma grande irresponsabilidade, pois há custos e despesas programadas e não é em cima do acontecimento que as mesmas podem ser alteradas.
A continuar esta política “cultural”, vai mexer muito com a vida associativa do concelho, provocar estrangulamentos e muitas actividades vão desaparecer.”
AA - Esta questão terá contribuído para o facto de na recente Assembleia Geral não ter aparecido qualquer lista a concorrer aos Corpos Sociais da Inijovem?
“A não apresentação de qualquer lista e este vazio directivo não me surpreende muito. Há dois anos aconteceu a mesma situação e estas situações vão-se arrastando porque os sócios são pouco activos e participativos na vida associativa. É um fenómeno que não é novo e que vai acentuar-se, ainda mais sabendo-se que são cada vez menos os apoios.
Entristece-me, ver uma situação destas, atendendo ao historial da Inijovem, à dimensão e dinamização da nossa actividade que em 14 anos mexeu e de que maneira, com o concelho.
Acredito, no entanto, que na próxima Assembleia-Geral, marcada para 29 de Dezembro apareçam as pessoas com vontade de continuar este projecto. Para já e no âmbito do Plano de Actividades para o próximo ano, avançámos para a realização da Rota do Contrabando, no último fim-de-semana de Março.”
A cara da notícia
Marco Moura, 34 anos, animador cultural, desempregado, está ligado à Associação para Iniciativas para a Juventude de Nisa – Inijovem-, desde a sua fundação e tem pertencido a diversos órgão sociais da colectividade, de vogal a secretário-geral, os dois últimos anos como presidente da direcção.
Na conversa com o repórter do “Alto Alentejo” vincou, com um entusiasmo inusitado, a importância da associação a que preside, passando em relance, como num filme, o percurso brilhante da Inijovem e a sua contribuição para o desenvolvimento social, cultural e desportivo do concelho de Nisa.
Uma contribuição que poderá estar em risco se até final do ano o futuro próximo da colectividade não ficar assegurado.
Têm a palavra os sócios da Inijovem!
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 7/12/2011

9.12.11

D. António, benfeitor de Nisa, homenageado nos 50 anos da sua morte



D. António Lobo da Silveira (Alvito), benemérito que em cumprimento do desejo de sua esposa, resolveu abdicar da herança por ela deixada, em favor da Santa Casa da Misericórdia de Nisa, possibilitando a criação do Asilo de Nossa Senhora da Graça – Fundação Lopes Tavares, foi homenageado no passado sábado, dia 26, por aquela instituição, no ano em que se completaram 50 anos após a sua morte, ocorrida em 16 de Fevereiro de 1961.
A homenagem teve lugar no Salão Nobre da Santa Casa da Misericórdia de Nisa e constou de uma palestra evocativa da vida e da obra de D. António Lobo da Silveira (Alvito), tendo como orador o historiador José Joaquim Carmona, do descerramento de uma placa evocativa na base do monumento erigido ao ilustre benemérito, na entrada principal do edifício e da celebração de missa solene na Igreja da Misericórdia.
Na palestra realizada no salão nobre da instituição, perante Irmãos, utentes, convidados e admiradores de D. António, José Joaquim Carmona começou por apresentar os familiares do homenageado a título póstumo e de sua esposa, D. Palmira Fialho Ferro Lopes Tavares, deixando claro que tratava-se de uma conversa informal e para a qual convidava os presentes a falarem sobre o D. António.
A figura do benemérito e o seu gesto altruísta de valor inestimável para os pobres de Nisa, foi relembrada iniciando-se com uma viagem às origens, com explicação exaustiva da “árvore genealógica” desde o século XV até ao século XX e que culminou com a grande obra social e humanitária que deu pelo nome de Asilo de Nossa Senhora da Graça – Fundação Lopes Tavares, inaugurada em 1947.
Uma obra que só foi possível devido à generosidade de D. António Lobo da Silveira (Alvito) que após a morte de sua esposa e sem descendentes, deu imediato cumprimento à sua vontade, abdicando da herança e doando a sua fortuna à Santa Casa da Misericórdia de Nisa, ficando a viver da sua modesta reforma de empregado bancário.
D. António ficou conhecido como “o pai dos pobres de Nisa” e a sua memória ficará a perpetuar pela vida fora, como exemplo de generosidade e de benemerência para o povo desta terra.
A autarquia nisense e por proposta aprovada por unanimidade numa sessão da Assembleia Municipal, nos idos de oitenta, deliberou atribuir o nome do grande benemérito nascido em Pombal a 1 de Março de 1875, à rua que da Praça do Município conduz às Portas de Montalvão e daqui até à humilde choupana, onde comia e dormia com um humilde trabalhador rural, que tinha por alcunha o “Lobo Soveral”.
A antiga Rua da Cadeia, depois designada Rua Marechal Carmona passou a ter uma designação mais nobre, e a expressar, na singeleza das placas de mármores, um profundo sentimento de admiração e gratidão.
Nisa lembrou e homenageou o homem nobre e generoso. A Santa Casa da Misericórdia erigiu-lhe um busto na entrada principal do palácio Lopes Tavares. Falta, agora, o reconhecimento público e a implantação de uma estátua ou busto num dos espaços centrais da vila. Poucos, muito poucos, foram tão merecedores desta justa, quão protelada, distinção.
Há sempre tempo para corrigir o erro e fazer retomar a história, em forma de reconhecimento. Assim o queiram os homens...
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 7/12/2011