29.4.12

NISA: 25 de Abril - Festa do Povo (2)


A PRECIOSIDADE DE UM CLUBE: Sport Nisa e Benfica

MENSAGEM: A MEMÓRIA E A JUSTIÇA DE NÃO ESQUECER O HONROSO NOME DUMA INSTITUIÇÃO QUE SE PODE ORGULHAR DO SEU PASSADO,DOS SEUS DIRIGENTES,DOS SEUS JOGADORES, DO SEU ESPÍRITO ASSOCIATIVO: A PRECIOSIDADE DE UM CLUBE...O GRANDE SPORT NISA E BENFICA.
O ENFOQUE SOBRE UM COLECTIVO DE JOGADORES QUE DESLUMBRARAM O NOSSO OLHAR DE MENINOS....1955,1956,1957, O SEU CARÁCTER, CATEGORIA E MUITA QUALIDADE EXCEDEU, SUPLANTOU OS LIMITES NORMAIS EXIGÍVEIS, TORNANDO-SE NUMA EQUIPA DE EXTRAORDINÁRIA GRANDEZA, EXEMPLAR EM CAMPO, E ELEVANDO O CLUBE A EXIBIÇÕES DE ALTO NÍVEL.
NA BALIZA UM GUARDA REDES FORA DO COMUM....CARLOS QUEIMADO, UM SER HUMANO MAGNÍFICO...UM GUARDA REDES QUE ,COMO OUTROS COMPANHEIROS, BEM PODERIAM ABRAÇAR O PROFISSIONALISMO, DADA A SUA INVULGAR QUALIDADE.
QUANDO ESQUECER NESTA HORA DE FESTIVIDADE JOSÉ MARIA MOURA, NO SEU PROFUNDO AMOR PELO SPORT NISA E BENFICA, DEDICANDO-LHE, SERVINDO-O COM O SEU ALTO VALOR DE JOGADOR, DESDE AVANÇADO A DEFESA CENTRAL,JOGADOR-TREINADOR, TREINADOR, NUMA RELAÇÃO ÍMPAR DE DEDICAÇÃO POR TANTOS ANOS, QUE SÓ O SEU GRANDE AMOR PELO CLUBE PODE EXPLICAR, SERIA IMORAL, DESCULPEM-ME A OUSADIA.
OPORTUNIDADE PARA O ELEVAR COMO UM DOS MAIORES ATLETAS DO CLUBE, PARA NÓS O MAIOR , EM RAZÃO DA SUA INIGUALÁVEL DÁDIVA DE AMOR E ENTREGA AO SPORT NISA E BENFICA, QUE TANTO AMOU, REPARANDO-SE A INJUSTIÇA DE NÃO TERMOS RECONHECIDO OPORTUNAMENTE O SEU VALIOSO CONTRIBUTO.
A memória espelha-nos a justiça de nos alegrarmos com o valor do Sport Nisa e Benfica através do seu tempo de existência, e nesta hora de aniversário.
Seria imoral nesta hora de festa omitirmos os seus riquíssimos valores , os seus ilustres jogadores, dirigentes, treinadores.
Hão-de os nossos distintíssimos conterrâneos compreender que nos atravessemos mais a destacar, homenagear, recordar um grupo que conhecemos melhor...o grupo que representava o clube ao sair das nossas felizes vidas de meninos ,...espantados com tal grandeza do grupo, dos seus excelentes jogadores.... 1955, 1956, 1957, os nossos ídolos.
Tal grupo merece tal e tanta distinção.
Honra e muito valor na pronúncia do nome de tão insigne clube, dos nomes dos seus atletas, jogadores com carácter, empenho, perseverança, sentido de luta e muita qualidade técnica ...., as papoilas saltitantes do jardim florido das mossas infâncias,..adentrando o nosso gosto pelo futebol , honestidade, esforço em campo, trabalho desinteressado dos dirigentes, emocionados os nossos olhos de meninos perante a beleza e qualidade do jogo praticado pela equipa.
Um caminho de reciprocidades, a alegria da equipa e a cumplicidades dos nossos olhos de meninos , da nossa alegria nos anos ,se os registos da memória não falham, de 1955,1956,1957.
Espaço sagrado das nossas vidas, meninos crescemos emocionalmente com tal digna instituição, aprendemos ali a amar o futebol através de exemplos...tantos, tantos de tão grandes jogadores e gente extraordinária, na mais pura dedicação, o mesmo acontecendo com os dirigentes cujos nomes nesta ocasião as páginas do clube recordam.
Dirigentes como Isaac Araújo, Virgílio Pinheiro, José da Graça Sena, mais recentemente outros como Joaquim da Graça Zacarias e muitos outros ,servindo o clube com inusitado carinho ,tantos nomes colados à grandeza moral do Sport Nisa e Benfica, tenho porém o dever de ....destacar este grupo referido que nos adentrou no futebol, uma equipa consistente, sem pontos fracos: Carlos Queimado, João Francisco, Pedro, Ganhão, Fatan, João da Brígida António Semedo, Guitas, Luís Cebolais, Teófilo, Aníbal Marmanja, Zezoca, António Casimiro, o grande José Casimiro, perdoe-se-nos a não indicação dos demais, de valor equivalente, impõe-se-nos relevar este coletivo brilhante, pelas razões apontadas .
E sem que no espírito se me apresente uma menor oposição reflexiva ,a menor sombra de dúvida , por mais racionalidade que adote, vincula-se-me ,a título individual, como o maior nome do clube um ilustríssimo senhor do futebol nisense aparecido posteriormente , esse mesmo que o vosso espírito me induz: José Maria Pinheiro Moura de seu nome, ..um amor profundo e uma dedicação sem limites pelo Sport Nisa e Benfica, o que mais tempo serviu o clube ,a título de atleta, jogador desde o lugar de avançado a defesa central( como aconteceu com outro gigante do futebol, o José Torres), capitão muitos anos, jogador- treinador, e treinador do Sport Nisa e Benfica não só foi brilhante, como foi longa e admirável a sua relação com o clube, parecendo-me assim da mais elementar justiça prestar-lhe tributo a este título, elevando-o a uma das maiores e mais brilhantes figuras de sempre do Sport Nisa e Benfica.
Seria imoral ,qualificámos nós noutro ponto deste texto, mas aqui igualmente de modo incisivo registado, não elevar o nome de José Maria Moura como a maior figura individual do clube, porque existe a memória a dar-nos conta da sua longa ligação ao clube, do seu empenho, quer como jogador, capitão de equipa, jogador-treinador, treinador, atleta de raras qualidades, enorme capacidade e sentido de liderança, jogador treinador; treinador emérito, hábil no lançamento de jovens, mil olhos dentro do campo enquanto defesa central (lugar para que recuara com o peso dos anos, aconselhando, corrigindo, retificando... o humor com que dizia as coisas em campo à maneira de José Torres, também como este a terminar como jogador treinador no centro da defesa).
Seria pois imoral nesta hora de festividades esquecer a dedicação, o amor com que José Maria Moura serviu o Sport Nisa e Benfica.
Só um grande amor pelo clube pode explicar ...tão longa, forte e feliz entrega.
Apelando à memória e à Justiça seria pois reprovável, mesmo imoral como atrás dito , esquecer a dedicação sem limites de José Maria Moura para com o clube.
Tudo converge pois para a consensualidade de o elevarmos como um dos nossos melhores jogadores de sempre do Sport Nisa e Benfica.
Erguer o seu nome nesta hora de aniversário significa a oportunidade de repararmos a injustiça de o não termos reconhecido antes, e de expressarmos o respeito e o agradecimento que temos por ele, e de que na altura não demos conta.
Sem relativizar outros nomes, cabe porém erguer o seu nome como uma das maiores figuras do Sport Nisa e Benfica, homenageando-o pelas suas extraordinárias e únicas qualidades de jogador, capitão, jogador treinador e treinador, traduzidas num exemplar amor e ligação ao clube, a quem serviu e dedicou os muitos e melhores anos da sua vida, iluminando com a sua grandeza moral e desportiva o historial do Sport Nisa e Benfica.
As maiores felicidades e êxitos,
João Castanho

28.4.12

Filhos de Nisa: Um regresso que se saúda

Está de volta o blogue Filhos de Nisa, com autoria e administração da Margarida Oliveira.
A autora de “Olho Neles” regressa após uma “paragem” de cerca de dois anos. Mais madura, Margarida, promete fazer do blog um espaço de debate de ideias e de luta por um concelho de Nisa melhor, mais dinâmico e com mais oportunidades para os seus filhos.
Goste-se ou critique-se o estilo, não é exagero afirmar que a ausência dos Filhos de Nisa foi bastante sentida, pelo que este regresso se saúda.
Sê bem-vinda, cachopa, a esta terra que queremos bordada de encantos e que, estou certo, com o teu contributo e dos visitantes do blog, pode tornar-se diferente para melhor.
É que para pior, como cantou o Sérgio Godinho, “já basta assim!”.
Força e que as mãos nunca te doam para escreveres em louvor da verdade e da justiça.

25.4.12

NISA: 25 de Abril de 1987

À FLOR DA PELE - Talvez, Abril...

1 – MAIO, MADURO MAIO
Sei de um país onde há 30 anos se comemora de Maio o dia primeiro.
Sei de um país onde há 50 anos se lutava pela conquista da jornada de trabalho de 8 horas.
Sei de um país que teve “praças de jorna”, mercados de mão-de-obra, de gente que lutou pelo direito ao trabalho e ao pão. Gente agredida, espezinhada, presa, sufocada.
Sei de um país que teve Catarina, mas também Caravela e Casquinha, Dias Coelho, Adriano, Zeca Afonso, cantores, poetas, operários de enxadas e das minas; gente vivendo e sonhando com essa doce palavra: liberdade.
Sei de um país, de gente que descobriu mundos e fundos; desbravou caminhos e oceanos, construiu um império de quimeras.
Sei de outros países de extensas planícies e desertos, de terra vermelha, em brasa, povoada de rios e tabancas, de bolanhas e sanzalas, onde viviam pessoas, meus irmãos de pele mais escura, sentindo as grilhetas da opressão e da tirania.
Sei de outros povos meus irmãos e de irmãos que não vejo há muito: Mondlane, Neto, Samora, Amílcar, Xanana, que me ensinaram balanta, quimbundo, crioulo, maconde e a rimar unidade com liberdade, consciência com independência.
Sei de outras músicas, do Cobiana Jazz, do merengue e da coladeira, da morna e da marrabenta, ritmos de paz e de guerra, de sofrimento e revolta, de dor e esperança.
Sei de um país que em Maio prolonga Abril e que no mês das flores e das maias, das searas e das papoilas, nasce um cântico de liberdade que percorre o Gêba, o Zaire e o Rovuma, levando até Dili a brisa da libertação.
2 – LEMBRANDO O TI ANTÓNIO BRANCO
Adeus Nisa, adeus riqueza
Tens coragem e não és mole
Para tu teres tanta grandeza
Está Montalvão sem pitról
Se tinhas pouco dinheiro
Primeiro devias pensar
Por que te puseste a mandar
P´ra Montalvão mais caqueiros
De que servem os candeeiros
Sem ter uma luz acesa
Andas fugindo á despesa
De uma luz que pouco presta
Guardas as notas prá festa
Adeus Nisa, adeus riqueza.
Essas águas encanadas
Que tu tens para teu regalo
Para estares bem estou eu mal
Recebendo águas encharcadas
Quando te mando as mesadas
Com que vais pagar teu rólo
É que me queres tomar ao colo
Sem que interesses p´ra mim puxe
Andas sempre em alto luxe (o)
Tens coragem e não és mole.
 Podias ter obras mais puras
Do que aquelas que não tens
Guardas para ti todos os bens
E nós vivemos às escuras
São umas mágoas tão duras
Cá prá minha natureza
Podes ter bem a certeza
Que a poucos estás a agradar
Porque somos tantos a pagar
E só tu tens tanta grandeza.
Só tu tens lindas entradas
Em estrada máquedame
Só tu tens um Rossio de fama
Um teatro obra apurada
Uma praça para a tourada
Com lugares de sombra e sol
Eu vivendo na terra mole
Dou entrada ao meu povo
Tu andas sempre de novo
E Montalvão sem pitról.
O ti António Branco, o “Forneiro”, nasceu e morreu em Montalvão. Trabalhador do campo, forneiro, analfabeto, produziu um importante conjunto de décimas, algumas de grande beleza e que descrevem, na perfeição, o mundo campestre. Tinha uma forte consciência social e uma acutilância rara para descrever as injustiças de que a sua terra, Montalvão, era alvo.
As décimas aqui apresentadas foram passadas de boca em boca, nos anos 40 do século passado, numa época em que a repressão política e social mais se intensificou.
Voltaremos, um dia destes, ao ti António Branco.
3 - QUEM ROUBOU O CRAVO DE ABRIL?
Para os milhares de portugueses, que por esta data estão a sofrer diariamente, os efeitos das fortes medidas de austeridade que lhes são impostas, por um governo que parece não saber para onde nos leva, insensíveis, com cortes atrás de cortes, no direitos sociais, enfim, sem um rumo e uma perspectiva de futuro, apenas o que lhes interessa são os números e os gráficos do Ministério das Finanças, como se a politica se resumisse a uma mera questão de números – como se fosse um gabinete de contabilidade, e não um governo, com interesse nas pessoas e nas suas reais condições de vida.
Trinta e oito anos depois, o que resta da revolução que Abril trouxe, naquela Primavera de 74? Onde estão os homens e as mulheres que sonharam com um país melhor, e mais livre? E o que pensará  esta nova geração – dizem que a mais bem formada de todos os tempos? O que lhes dá este país? – Números grandes em dúvida, 35% de desemprego, segundo os últimos dados do INE, mas para reforçar os números existem sempre declarações de membros do governo, para que emigrem, façam-se á vida, deixem a vossa “zona de conforto”, dizem bem, desconforto, não? E deixem de ser piegas… porque para além de não poderem construir um presente estável – mercado laboral precário, este governo não vos vai dar um futuro promissor – destruição do estado social, não pagamento das reformas, no futuro. Por isso a mensagem, por aqui fica, desenrasquem-se! É assim que este estado neoliberal que nos governa, trata as pessoas, primeiro rouba-lhes o presente, para a seguir lhes destruir o futuro.
E hoje, o que celebramos? Apenas um feriado em vias de extinção, ou uma data amputada dos seus fundamentais valores? Mas o que resta é muito pouco, entre a ilusão de uma liberdade, uma democracia anémica, sem participação activa dos seus cidadãos, com um povo submisso ao seu dono – o capital selvagem que domina o mundo.
E por isso aqui fica o apelo, para que devolvam o cravo de Abril, nem que para isso seja necessário formar uma “Troika” de valores, liberdades e garantias.
JOSE LEANDRO LOPES SEMEDO   
Mário Mendes e José Leandro in À Flor da Pele - "Alto Alentejo" - 25/4/2012

23.4.12

PONTÁ BITÉFES: A Biblioteca Municipal, outra vez...


A Biblioteca Municipal de Nisa retomou a sua vocação inicial: estar ao serviço da leitura pública e dos leitores. Retomou o horário que nunca deveria – por mais negras e severas que fossem as “condições” – suprimido. Abre, agora e novamente aos sábados, para alegria e satisfação dos seus leitores (digo leitores e não utilizadores, para não haver confusão com utentes e a tentação de “inventarem” taxas moderadoras). Foi dado um passo importante que “razões” financeiras não justificavam.
Congratulemo-nos pelo horário da Biblioteca e uma vez mais lembramos: A Câmara de Nisa, quando quer, também sabe fazer bem.
Pena que utilize este saber tão poucas vezes...
Em Dezembro de 1996, noutra ocasião e contexto político local, apresentei na Assembleia Municipal a seguinte Tomada de Posição sobre o Horário da Biblioteca Municipal de Nisa.
Vale a pena lembrá-la.
Tomada de Posição sobre o horário da Biblioteca Municipal de Nisa / Casa da Cultura
"A Biblioteca Municipal de Nisa / casa da Cultura, instalada num edifício recuperado e dotado de modernas infra-estruturas, vem desempenhando um papel insubstituível na ocupação dos chamados “tempos livres” de crianças, jovens e adultos, promovendo a leitura, o convívio e o conhecimento, colaborando dessa forma na formação integral do homem, como bem a definiu Bento de Jesus Caraça.
As novas condições de localização e funcionamento, trouxeram – como era, aliás, previsível – um novo e importante contingente de utilizadores, que “mexeram” com a organização dos serviços, a formação dos funcionários, proporcionando o aumento e diversificação das iniciativas e ofertas culturais.
Num curto espaço de tempo, a Biblioteca Municipal de Nisa granjeou – com justiça, acrescente-se – um lugar de mérito e referência, destacando-se no medíocre roteiro das realizações camarárias.
A esta casa da cultura haveria de dar-se ainda maior projecção com novas e fortificantes realizações que, ocupando o vazio existente em termos culturais, pudessem constituir meio e razão que obstassem á proliferação de submundos onde a droga e a delinquência parecem querer instalar-se.
No início do corrente ano alertámos, criticamente, para os horários em vigor na Biblioteca Municipal de Nisa que, não servindo os leitores, não respondendo às aspirações dos seus utilizadores está, automaticamente, em contradição e antagonismo quer com a natureza do verdadeiro serviço público que presta, quer com a qualidade e projecção que alcançou.
Justificava-se em nosso entender e como na altura defendemos, não só a manutenção do anterior horário, mas o seu alargamento, estendendo-se à abertura nos fins de semana, permitindo a leitura, o estudo, a preparação de trabalhos escolares e a promoção de iniciativas nos variados campos do saber.
Ainda que justo e amplamente sentido, o alerta não provocou qualquer reacção por parte dos responsáveis municipais, que mantiveram o horário em vigor.
Um horário que poderá servir os funcionários, poupar uns “cobres” à digníssima Câmara mas que, indiscutivelmente, não serve, nem de longe os frequentadores da Biblioteca Municipal /Casa da Cultura, muitos deles com horários de trabalho que colidem com os existentes na Biblioteca.
Daqui se apela, uma vez mais, para o bom senso.
E este manda que se abra a Biblioteca, como casa da cultura que é, para aqueles que a amam, que gostam de ler, de “viajar" pelo mundo, de construir em cada sonho, o “salto” com que o universo pula e avança…
Nisa, 16 de Dezembro de 1996
Mário Mendes

22.4.12

Quercus enumera 7 pecados ambientais de Portugal no Dia da Terra

A Quercus, Associação Nacional de Conservação da Natureza, anunciou, no Dia da Terra, os 7 pecados ambientais com que Portugal se depara.
Identificados como pecados de insustentabilidade, estes são os principais problemas relacionados com o ambiente que Portugal apresenta:
1. O Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável caiu no esquecimento
A cimeira das Nações Unidas sobre o Ambiente e Desenvolvimento realizou-se há 8 meses, e o prometido Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável ainda não ganhou forma. Mais uma vez as promessas do governo, continuam somente a ser promessas e sem implicações práticas.
2. A remodelação ao financiamento das autarquias não é o correcto
Numa fase em que o Governo decidiu alterar as taxas do Imposto de Selo e a contribuição autárquica é necessário ponderar o método de distribuição do financiamento público. Não se deve construir inconscientemente, há que ter em conta valores naturais e paisagísticos.
3. Portugal consume cada vez mais energia
Vivendo em tempo de crise, Portugal apresenta valores preocupantes, tendo em conta que estamos em recessão económica e continuamos a aumentar a intensidade energética do país. Isto significa que para além de estarmos a gastar muito mais energia do que era suposto para a nossa face de desenvolvimento económico, estamos também a desperdiçar, cada vez mais, energia e recursos.
4. Excesso de tráfico em circulação
O excesso de carros e transportes em circulação origina: mais gasto energético, mais emissões, mais ruído e mais congestionamento.
Portugal é um dos cinco países que está na rota para uma insustentabilidade no sector dos transportes, tendo também concentrações de poluentes muito acima da média do que é permitido pela legislação europeia.
5. Portugal desperdiça por ano 3 100 000 000 000 litros de água
Portugal consegue desperdiçar por ano vários milhões de litros de água. Apesar de existir um Programa Nacional para o Uso Eficiente de Água, este só teve parte teórico, pois nunca foi aplicado. É necessário que na agricultura, na indústria e no consumo privado, se faça um uso eficiente e sustentável da água.
6. A Conservação da Natureza ainda não passou à parte prática
Apesar de já ter sido elaborada uma Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, muitos dos seus objectivos ainda continuam por concretizar. Os Planos de Ordenamento do Território das áreas protegidas continuam por implementar, bem como, ainda existem muitas áreas da Rede Natura 2000 por ordenar.
7. Reciclagem ainda longe dos hábitos portugueses
Reutiliza-se menos que o desejável, recicla-se menos que o esperado e no final de contas instalam-se mais incineradoras.
A reutilização de embalagens com tara de retorno verifica-se menos, e a reciclagem urbana ainda não apresenta valores significativos para o ambiente. Por sua vez, a última opção desejável é aquele que se procura mais, a incineração, ou seja, a queima de resíduos.
Posto isto, é tempo de reflectir sobre o ambiente e aquilo que será o nosso futuro próximo. Estas opções calham a todos, e todos temos que contribuir.
Tenha um papel activo para uma vida mais verde.

20.4.12

NISA VIVA: Dez anos, a promover a cultura e o património

Prestes a completar dez anos de vida, a Nisa Viva – Associação dos Naturais e Amigos do Município de Nisa, construiu ao longo deste tempo, um percurso e um currículo feito de inúmeras iniciativas visando a promoção do concelho de Nisa, dos seus naturais e da região.
Reforçar os laços de solidariedade entre os nisenses ausentes e residentes, foi o motivo principal que levou à constituição desta associação em Junho de 2002.
Desde então, a Nisa Viva tem procurado, através de uma actividade constante, não só fortalecer esses laços como sensibilizar os sócios da associação - muitos deles ausentes do concelho há anos e sem ligação às terras de origem – a uma presença e intervenção em prol da região onde nasceram.
Essas continuam a ser, aliás, as linhas de força do programa de actividades para o triénio 2012-2015 proposto pelos órgãos sociais eleitos em Assembleia Geral no passado dia 24 de Março e aprovado na mesma reunião.
Uma reunião na qual foram passados em revista um decénio de existência, com análise da acção desenvolvida, realçando-se as actividades que mais contribuíram para a valorização do concelho e o prestigio da associação, mas sem descurar a crítica a outras acções que, estando programadas, não foram implementadas por dificuldades várias.
Divulgar o património histórico e cultural do concelho
Uma das áreas a que a Nisa Viva deu carácter prioritário foi, incontestavelmente, a defesa e divulgação do património histórico e cultural do concelho de Nisa, divulgação feita através de inúmeros passeios pedestres temáticos, quer de âmbito rural ou de cariz urbano. Com o título “À Descoberta do Património”, a Nisa Viva procurou dar a conhecer, com a ajuda de historiadores e de outros especialistas, o vasto e diversificado acervo patrimonial do concelho, com caminhadas, praticamente, em todas as freguesias do município de Nisa.
A estas acções de divulgação do património, aliando-o à prática da saúde e do contacto com a natureza, a Nisa Viva realizou inúmeras exposições, algumas com carácter de pioneiras, divulgando modos de ser e fazer dos nisenses, nomeadamente, no campo do artesanato.
Momentos de particular significado para a associação, foram a promoção de dois cortejos etnográficos de âmbito concelhio, um trabalho de grande envergadura e que movimentou centenas de figurantes, que desfilaram em Nisa e mostraram os aspectos mais significativos da cultura e tradições das suas terras.
Trajes, danças, cantares, instrumentos e artefactos de trabalho, mostraram imagens de um tempo ainda não muito distante e que urge salvaguardar para fruição e compreensão por parte das gerações actuais e vindouras.
Cultura promove conhecimento
A par da divulgação do património, a Nisa Viva promoveu ao longo destes dez anos diversas conferências e colóquios, abordando um conjunto de temas muito vasto e de interesse tanto regional como nacional, como a preservação e a reabilitação dos centros históricos, os problemas da emigração, a defesa das regiões administrativas ou sobre os problemas económicos e a globalização, entre outros.
Conferências que trouxeram a Nisa figuras de incontestável prestígio como o juiz conselheiro Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas e do Centro Nacional de Cultura - entidade com quem a Nisa Viva se prepara para estabelecer um protocolo de colaboração, visando a realização de actividades conjuntas -, António Simões Lopes, ex-bastonário da Ordem dos Economistas, Jorge de Oliveira, professor da Universidade de Évora, José Miguel Noras, ex- deputado e ex-presidente da Câmara de Santarém,  José Mendes Bota, deputado, Carreira Marques, ex-presidente da Câmara de Beja.
Revista fortalece ligação
Para estabelecer e manter a ligação entre nisenses, residentes e ausentes, a Associação dos Naturais e Amigos do Município de Nisa dispõe de uma revista, publicada de quatro em quatro meses. Uma revista que representa um grande investimento para a associação, não só pela qualidade do formato e conteúdo, o que obriga a despesas de algum vulto, mas principalmente por que a mesma não teve ainda o reconhecimento e a difusão que os dirigentes da Nisa Viva julgam ser possível. Este é, de resto, um dos problemas, que a nova direcção quer ver resolvido com alguma premência, estando a estudar algumas das propostas que foram sugeridas pelos sócios.
Um outro problema e que levou, inclusive, à alteração dos estatutos, diz respeito á mudança da sede da associação, até aqui sedeada em Lisboa. Os sócios foram unânimes em reconhecer que, ultrapassado o período de implantação da Nisa Viva faz todo o sentido que a sede passe a localizar-se em Nisa, estando a ser feitos contactos para esse fim.
Restauro da capela de Santo André
O programa de actividades da Nisa Viva para o triénio 2012-2015, aprovado pelos sócios, é ambicioso e revela a vontade dos corpos sociais em recuperar algum do tempo perdido, nomeadamente, em algumas acções práticas que não tiveram o devido desenvolvimento.
É o caso, por exemplo, do levantamento do Menir do Patalou, processo em que a Nisa Viva se empenhou, principalmente na ultrapassagem de alguns aspecto legais relacionados com a propriedade e que foram resolvidos, sem que houvesse por parte da autarquia a necessária disponibilidade e sequência. 
A associação espera ver o problema resolvido, contando com o apoio das autarquias interessadas e a orientação científica do prof. Jorge Oliveira, para além de avançar com uma proposta para a celebração de um protocolo com o Município de Nisa visando a realização de acções de valorização e divulgação do património concelhio.
No mesmo sentido, será feita uma proposta ao Agrupamento de Escolas do concelho de Nisa, para a realização de colóquios e palestras nas escolas, sobre temas a definir em conjunto.
A Nisa Viva está particularmente interessada na organização de iniciativas que se insiram nas comemorações dos 500 anos do forais manuelinos de Nisa e Montalvão e em avançar com as obras de restauro da Capela de Santo André, em cooperação com a Paróquia de Nisa.
Para o efeito, a associação tem previsto para este ano, no seu orçamento uma verba de mil euros, dos cinco mil que foram angariados através de subscrição pública que organizaram para esse fim, contando com a disponibilidade manifestada pela Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Graça para apoiar este projecto.
Colóquio com o economista Simões Lopes
No próximo sábado, dia 21, pelas 15 horas, no auditório da Biblioteca Municipal, a Nisa Viva promove uma conferência com o Prof. Dr. António Simões Lopes, ex-bastonário da Ordem dos Economistas que falará sobre o tema “ A crise e a austeridade: que mais nos irá acontecer?”.
O economista António Simões Lopes e o historiador Jorge Oliveira foram distinguidos pela Nisa Viva com o título de “Sócios Honorários”, como reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em prol da associação.
Associação Nisa Viva - Órgãos Sociais para o triénio 2012 -2015
Assembleia Geral
Manuel Lopes Porto, presidente; José Manuel Basso e João Gomes Esteves, secretários;
José Carmona Ribeiro e João Lopes Mourato, substitutos.
Direcção
António Rebordão Montalvo, presidente; João Rufino Temudo, vice-presidente; Manuela Sales Bicho, secretária; Rui Correia de Sousa, tesoureiro; Lúcia Bicho Temudo, Maria José de Almeida, Mário Carita Infante, João Maria Pinheiro, Sara Mendes da Silva, vogais; João Francisco Lopes, José Basso Reizinho, Joaquim Correia Bicho, substitutos.
Conselho Fiscal
Armando Fraústo Basso, presidente; Arménio Morais de Almeida e Conceição Carita Morais, secretários; Emílio Rufino Reizinho e Tiago Bicho Temudo, substitutos.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 18 Abril2012

18.4.12

A (Des)propósito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

LÁGRIMAS DE CROCODILO(S) - A verdade da mentira
Debaixo daquela árvore, imponente e frondosa, trocaram-se mil promessas de amor, juras de fidelidade, sonhos e projectos para uma vida, muitas vidas.
Talvez, por isso, ficou conhecida como a Árvore da Verdade, na mentira que foram alguns dos episódios que testemunhou.
Por causa dela – da árvore – altiva e verdadeira, fizeram-se projectos de mentira. Destruíram-se recantos e paisagens, criados, de raiz, há mais de 70 anos.
Tudo em nome de um progresso e de uma nova “febre arquitectónica” que sustenta o ego dos políticos e destrói a memória dos sítios, das vilas e das cidades. Até aqui, a globalização urbanística chegou...
A Árvore, nascida há muitas dezenas de anos, tinha, também, de morrer, não de pé, como na pujante interpretação de Palmira Bastos, mas de uma morte triste, violenta, preparada. Diríamos, mesmo, premeditada.
Dilaceraram-lhe as raízes e a árvore, outrora plena de força, definha, agora, em cada dia que passa.
Matam-nos as memórias, as referências de um passado que vivemos, os suportes da ponte entre passado, presente e futuro.
Será que ninguém será, um dia, responsabilizado por tais crimes?
As lágrimas da fonte
Não falarei mais da retirada da fonte do Rossio, dos vários atropelos cometidos, num só. O poder manda, por isso é poder. Mas não é mais poder, sobretudo, não é melhor poder por mandar, mas sim por mandar com critério, bom senso e uso da razão.
Mudou-se a fonte, serviram-se as clientelas, apagou-se o fogo-fátuo dos protestos. Ao menos e se assumiram, politicamente, a transferência da fonte, que tratassem o monumento – que não tem culpa de nada – com a atenção, o carinho e o respeito que merecia. Desmontaram-na à pressa, sem cuidado e com a mesma força bruta a instalaram.
Era preciso mostrá-la, com urgência, mesmo desfigurada. Partiram-lhe apoios, artérias e membros de um mesmo corpo. Assim, debilitada, ferida e estropiada, a colocaram no sítio onde está.
Ali está, mostrando as suas mazelas e as do poder local que permitiu, sem as cautelas e o acompanhamento indispensável, uma mudança e instalação tão atribuladas.
Para fazerem tal serviço, melhor fora que a deixassem no exacto local onde foi inaugurada em 1932.
Mário MendesJornal de Nisa - 1ª série – nº213 – 23/8/2006
NOTA: Assinala-se, hoje, dia 18 de Abril, o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Algumas associações e autarquias do país, lembram esta data com iniciativas dando a conhecer os patrimónios locais.
Em Nisa, estão agendadas visitas ao castelo de Amieira do Tejo e ao Conhal. Em dia de reunião do executivo, teria sido uma excelente ideia mostrar aos eleitos, não só da Câmara como da Assembleia Municipal, o estado calamitoso em que se encontra o designado Centro Histórico.
Seria também a oportunidade de os eleitos locais poderem apreciar as novas "tendências" da arquitectura e do urbanismo, entre estas, a "genial ideia" de tapar com pano de tijolo e cimento, as portas do que foram antigas moradias. Quem não souber, julgará que uma epidemia de "peste negra" tomou conta do "Centro Histórico" e que tais medidas de "emergência" visaram impedir o alastramento da doença....
Forma bizarra de lembrar um Dia Internacional ligado ao património.
Mário Mendes

17.4.12

TEXTOS DE ABRIL (4): Os "subversivos" de Tolosa

UM DOCUMENTO
Governo Civil de Portalegre
Portalegre, 12 de Dezembro de 1936
Senhor Ministro do Interior
Lisboa
Excelência
Pela Comissão Concelhia da União Nacional do Concelho de Niza, foi-me comunicado que na Freguezia de Tolosa, daquele concelho, se vêm passando alguns factos de gravidade, e, entre os quais, os seguintes:
a) Nas tabernas e em todos os locais julgados apropriados, realizam-se verdadeiras sessões de propaganda subversiva, e incita-se o Povo a fazer a divisão da propriedade;
b) No sentido de se conseguir essa divisão, muitas pessoas do Povo, com mulheres à frente desfraldando bandeiras, vermelhas, têem destruído as linhas do concelho ou arrancando os marcos das mesmas;
c) Chegaram mesmo a dividir os terrenos em glebas, semeando-as de feijoaria, que recolheram, e a tal ponto levaram esse abuso, que os respectivos proprietários tiveram que recorrer ao Ministério do Interior, que por intermédio da Guarda Nacional Republicana, mandou desapossar os detentores das ditas glebas;
d) Apedrejaram-se pessoas de responsabilidade, e fazem-se tentativas de fazer rebentar bombas nas casas de alguns dos mesmos proprietários;
e) Vários indivíduos, como eles próprios têem confessado têem tido bombas em seu poder;
f) Faz-se a peito a afirmação pública de que há cerca de cinquenta comunistas em Toloza; e
g) Incita-se o Povo a matar, fazendo-se ao mesmo promessas de impunidade.
Como a averiguação destes factos muito interessa à ordem social, pedi já ao Exmo Director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado que se dignasse mandar a Toloza, com urgência, um ou mais Agentes da Polícia que superiormente dirige, e, agora, tenho a honra de rogar a Vª Exª que se digne interferir no sentido de não fazer demorar o deferimento daquele meu pedido.
A Bem da Nação
O Governador Civil: Domingos Calado Branco
In “A repressão política e social no regime fascista” – Comissão do Livro Negro sobre o Fascismo
NR: a) O documento revela uma outra faceta da União Nacional - o partido único do regime fascista -, a de delator e de "extensão regional" da polícia política, a PIDE.
b) Os acontecimentos relatados inserem-se, na época,  no movimento de contestação popular à atribuição de parcelas no "Baldio das Costas", uma situação que agitou aquela localidade durante alguns anos e não foi resolvida de modo satisfatório.

VILA VELHA DE RÓDÃO: Vamos ao Cinema?

Há cinema em Vila Velha de Ródão. Não sei se dá ou não prejuízo, mas a autarquia rodense deve achar, contrariamente à sua congénere de Nisa, que a cultura é um investimento em que deve continuar a apostar, visando oferecer conhecimento, saber, fruição dos tempos livres às populações.
Eu sei que a Valquíria está em Versalhes, a mostrar o artesanato retalhado de Nisa e que no futuro até poderá passar por S. Petesburgo, Praga, Bruxelas, Copenhague, Sidney, Montreal, enfim, dar a volta ao mundo. A Câmara de Nisa, os munícipes do concelho, pagaram para isso e a informação da autarquia faz questão de nos lembrar, em notas de imprensa, essa viagem triunfal, como se um novo ciclo dos Descobrimentos estivesse a acontecer. É mais fácil, aliás, saber por onde anda a peça de artesanato retalhado da Câmara (será mesmo do Município?) do que a viatura móvel do Serviço Nacional de Saúde destacada para o concelho.
Quanto ao Cine Teatro (acabaram-se os dez anos a produzir Cultura?) para ali continua, qual edifício fantasma, vazio e sem vida própria, aproveitado pelas cegonhas para no alto construirem um dos seus pontos de abrigo. Afinal, sempre serve para qualquer coisa o nosso Cine-Teatro...

15.4.12

TEXTOS DE ABRIL (3): Tudo bem

O Ministro do Optimismo reuniu os repórteres e declarou:
- A situação não é tão grave como estão dizendo. Aliás, a situação não é nada grave. Quem foi que disse que a situação é grave?
- Ministro, os números...
- Nunca ouvi os números dizerem alguma coisa. Número não fala. Se falasse, reconheceria que tudo está sob controle.
- Perdão, sob controle de quem? Indaga um repórter.
- Quando as coisas estão sem controle, é porque estão sob controle de si mesmas, e esta é uma questão muito delicada, é um controle intestinal, entende? Se não entender, não faz mal.
- O custo de vida...
- O custo de vida é uma ilusão. Não há custo de vida. O Governo sustenta maternidades gratuitas. Ninguém paga para nascer. Além disto, para facilitar ainda mais, cogitamos de estabelecer o imposto de morte. Todos os mortos pagarão esse imposto. Assim, ninguém mais vai querer morrer, e está salva a pátria. Eu não disse?
Carlos Drumond de Andrade – 25 de Abril de 1980 – in “Jornal de Fundão”

À FLOR DA PELE: Evocação de José Miguéns, o Ti Vara

JOSÉ MIGUÉNS: Vida e memória de um resistente
José Lopes Valente Miguéns, o ti Vara, faleceu no passado dia 2 de Abril, numa instituição de Vila Velha de Ródão, onde se encontrava desde há algum tempo, após ter sido acometido de grave doença.
Morreu em Abril, o cidadão, o autarca, o militante comunista que mais fez pela sua terra e freguesia, S. Simão – Pé da Serra, após o 25 de Abril.
O povo da sua terra e do concelho de Nisa, que amou como poucos, tributou-lhe uma sentida e vibrante homenagem de despedida no dia seguinte, incorporando-se no seu funeral centenas e centenas de pessoas, amigos, autarcas, cidadãos anónimos de todo o concelho.
O seu percurso como cidadão, resistente e autarca foi devidamente assinalado pelo actual presidente da Junta de Freguesia de S. Simão, José Hilário, que destacou a dedicação, o dinamismo e o contributo de José Lopes Miguéns para o desenvolvimento da freguesia e na implantação de infra-estruturas básicas como a água, o saneamento básico e as vias de comunicação.
É este o “homem de Abril” que aqui evocamos, hoje, tendo como referência uma entrevista feita num fim de tarde de Verão, já lá vão uns anitos.
José Lopes Valente Miguéns, o Ti Vara, tinha 81 anos e um percurso de mais de 25 anos como autarca.
O Ti Vara, foi uma figura emblemática do Pé da Serra e de todo o extremo norte do concelho de Nisa, conversador nato, alegre, bem disposto, sempre disponível para trazer ao presente, histórias, relatos, memórias, que tanto podiam falar dos tempos difíceis da emigração e do salazarismo, como da "fama vermelha" do Pé da Serra.
Uma "fama" que, segundo alguns habitantes, sem razão de ser, apenas justificada pelo desejo de aprender de muitos jovens do seu tempo e pelo ostracismo a que a freguesia era votada pelos "senhores de Nisa".
Guardador de rebanhos
José Miguéns andou na escola no Pé da Serra onde fez a 4ª classe, tendo a D. Georgete como professora. Acabada a escola tomou o rumo de outros companheiros seus, fez-se à vida, que esta era dura e de poucos proventos. Foi para Cabeço de Vide, servir como empregado de balcão (caixeiro) numa mercearia e taberna. Esteve lá dois anos, em casa do senhor José Marcelino Malheiro, após o que voltou para o Pé da Serra. Aqui, aguardava-o o trabalho mais comum para uma criança feita homem em três tempos: a de guardador de vacas em Montes de Matos, função que desempenhou durante um ano. Na aldeia foi guardador de rebanhos, borregos, porcos, até completar a maioridade.
Era a vida de quase toda a gente nesse tempo e como se ganhava pouco, resolveu alistar-se como voluntário e assentar praça na vida militar, em Tomar. Andou na tropa um ano e alguns meses. Regressou ao ponto de partida, a sua aldeia encostada à serra de S. Miguel, onde continuou a trabalhar por conta de outrem, a cortar azinheiras e a fazer carvão.
Uma vida dura, a de carvoeiro, conforme teve ocasião de nos explicar.
"No Pé da Serra havia três ou quatro negociantes de carvão. Nós derrubávamos as azinheiras, cortávamos as pernadas e fazíamos os fornos, que eram feitos com terra. Depois eram desaterrados e tirávamos o carvão. Era um serviço de grande dureza. Nessa altura já estava casado. O carvão saía daqui com destino a vários sítios desde o Entroncamento, Lisboa, Castelo Branco e outras localidades. Havia muita procura desse material. Este trabalho era sazonal e no Inverno ia trabalhar para o lagar. Andei assim durante vários anos, até que meti na cabeça ir para França."
A "salto" rumo a França
Puxando pela memória, o "Ti Vara" conta as aventuras e desventuras da ida para a França, a salto.
"Demorámos 18 dias a chegar. Fomos abandonados pelo passador, durante três ou quatro dias, sem saber o que fazer, escondidos num barracão, a poucos quilómetros da fronteira espanhola, próximo de Medelim, mas, felizmente, não desesperámos e às tantas lá apareceu o homem com um camião que nos transportou Espanha adentro. No camião iam cento e tal pessoas, de várias terras do país, parecíamos sardinha em lata. Durante a viagem que demorou mais de 12 horas, nunca parámos nem para urinar, tínhamos que o fazer para dentro de um bidon. Quando chegámos a Hendaia, já na França, deram-nos um bilhete de comboio para irmos até Paris e que cada um se desenrascasse. Em Paris, numa grande cidade e sem perceber uma palavra de francês, lá consegui alugar um táxi que me foi pôr e ao outro camarada à região de Dijon, no departamento 21, onde havia malta do Pé da Serra. Um dos conterrâneos emprestou-me o dinheiro para pagar o táxi e o primeiro ordenado que recebi em França foi para lhe pagar a ele. Era assim que as coisas funcionavam. Lembro-me que paguei sete contos e quinhentos ao passador, o que era muito dinheiro naquela altura.
Comecei a trabalhar na agricultura, a tratar de gado. Depois fui para a construção civil como servente de pedreiro. Ali aprendi alguma coisa e comecei a desenrascar-me nalguns trabalhos nesta profissão".
Da França para a Alemanha
Estava dado o primeiro passo rumo à independência económica e a melhores condições de vida. Perdidas as reticências iniciais, José Miguéns ruma até à Alemanha.
"Na França não se ganhava mal, mas na Alemanha o ordenado e as condições ainda eram melhores. Arranjei um contrato de trabalho e fui para Colónia. As principais obras onde trabalhei eram as do Metropolitano. As dificuldades eram a língua, mas havia muitos portugueses e nós, uns com os outros, íamos desenrascando. Estive três anos na Alemanha, e gostava de trabalhar naquele país e depois tive de decidir porque a minha filha tinha saído professora e havia que escolher entre a Alemanha e Portugal, e assim regressei ao Pé da Serra, retomando a vida de pedreiro por conta própria.”
As ideias políticas
Próxima do Tejo e da raia, o Pé da Serra sempre foi uma terra de emigrantes e de contactos com outros povos, nomeadamente no período da guerra civil espanhola (1936-1939). Denominados como “montezinhos”, os seus habitantes não caíram nas boas graças do poder municipal de Nisa e daí a haver alguma discriminação e ostracização política foi um pequeno passo.
José Miguéns rejeita a ideia de a freguesia ter sido um centro de ideias revolucionárias, antes do 25 de Abril.
"Nós aqui não tínhamos, propriamente, ideias políticas. O que havia era uma malta que gostava de ler, de aprender, de se informar e depois começávamos a perguntar. Por outro lado, sentíamos que havia discriminação da Câmara de Nisa para com a freguesia de S. Simão. Até ao 25 de Abril, tínhamos uma estrada miserável, cheia de buracos, em terra batida. Não tínhamos praticamente mais nada e não se faziam aqui obras. Hoje, felizmente, é bem diferente..."
"O grande empurrão foi, sem dúvida, a campanha das eleições para a presidência do general Humberto Delgado. Aqui no Pé da Serra, o Humberto Delgado tinha muito apoio e estou convencido que perdemos as eleições, tanto aqui, como no país, porque houve "marosca". Eu andei a colar os cartazes da campanha, tinha montes deles em casa. Quando foi no dia das eleições, os elementos da mesa eleitoral, que vieram de Nisa não me deixaram entrar para fazer o meu trabalho de delegado. Eu sentei-me numa janela em frente à Junta e ia descarregando num papel, todas as pessoas que iam votar. Pelas minhas contas a vitória não falhava, mas as contas eram feitas de outra maneira...
Eu ia a Nisa buscar os cartazes que me dava o Dr. Chambel, um dos maiores democratas que Nisa tinha e foi tão injustamente esquecido, e um dia ele disse-me: " Ainda não foi desta vez que ganhámos, mas esteve quase. Para a próxima não falha, pois isto não pode assim continuar. Se todos fossem como tu, outro galo cantaria".
Havia alguma consciência política, de esquerda e em 1973, na Alemanha fui votar com a minha mulher na CDE, por correspondência, ao consulado de Dusseldorf.
Na Alemanha e antes do 25 de Abril estava já organizado, reuníamos na sede do DKP (Partido Comunista Alemão) e eu fazia a distribuição nos fins-de-semana ou após o trabalho, de exemplares do "Avante" aos nossos compatriotas."
O regresso e a eleição como autarca
Após o regresso da Alemanha, já com o "bichinho da política" e a liberdade alcançada, foi sem surpresa que José Miguéns se viu no papel de presidente da Junta de Freguesia.
"Quando vim para Portugal, foi engraçado porque um dos meus encarregados, alemão, dizia-me: "o que vais tu fazer para Portugal se já lá não há dinheiro, pois deram cabo dos bancos?", e eu respondi-lhe que sempre havia de haver alguma coisa para comer e repartir com a família.
Fui eleito presidente da Junta e estive 24 anos como presidente. As obras de que mais me orgulho? Fico muito contente com construção e instalação do Centro de Dia e das pessoas idosas terem um local para estarem, serem atendidas, conviver. Estou contente de quase todas as ruas estarem calcetadas, talvez pudesse ter feito mais alguma coisa, mas daquilo que foi feito sinto-me orgulhoso.
Confesso que tinha grandes problemas em deixar a Junta pois receava que quem viesse não tivesse as mesmas ideias e a mesma dedicação em prol da freguesia, mas felizmente a CDU arranjou uma pessoa que dá todas as garantias e de quem tenho o maior regozijo de ver à frente da Junta."
As “Escadinhas do Ti Vara”
Ainda em vida, que é quando as homenagens devem ser feitas, José Lopes Valente Miguéns foi alvo de significativa homenagem. Uma rua do Pé da Serra passou a ter o seu nome. Lá está gravada no granito, a designação “Escadinhas do Ti Vara”, ali a dois passos da sede da Junta.
Homenagem singela que fica a perpetuar pelos tempos fora, o nome de um pé-de-serrense que se dedicou de alma e coração a trabalhar e a engrandecer a sua freguesia.
"Fiquei muito contente e com grande orgulho porque representou o reconhecimento de ter lutado por uma causa e também pela minha terra. Foi uma bela iniciativa do Dr. José Manuel Basso, a qual agradeço bastante, bem como a todas as pessoas, de todas as forças políticas que vieram nesse dia ao Pé da Serra."
O futuro da freguesia
Na altura, o futuro das freguesias, enquanto órgãos de poder local mais próximos das populações não estava, como hoje está, a ser posto em causa.
José Lopes Miguéns falava da “sua” freguesia com carinho e enlevo. Recordou a luta travada para vencer inúmeras barreiras burocráticas que impediam a concretização de obras essenciais, não obstante, deixou uma mensagem de esperança
"S. Simão como freguesia não se pode queixar muito. Têm sido feitas obras nos últimos anos, mas nem todos os problemas estão resolvidos. O principal, para mim, é a falta da qualidade da água. Agora tem havido em quantidade. Outro problema que é preciso resolver com urgência é o da rede viária. A freguesia tem, neste momento, as piores estradas e nem falo na Estrada da Vinagra que é, de facto, uma vergonha. Falta-nos um lar para os idosos e muitas das pessoas que podiam vir de Lisboa e de outros sítios para o Pé da Serra, acabam por ir para outras localidades. Com um lar muitas das pessoas reformadas e idosos regressariam à terra. Lanço um apelo para que haja mais vontade para resolver este problema."
Lembrar e homenagear o Dr. Chambel
A nossa conversa estava a chegar ao fim e o ti Vara, detentor de boa memória, não esqueceu alguns democratas que pereceram na voragem do tempo e do esquecimento, por parte da comunidade.
"O Dr. Chambel era um grande lutador pela Democracia, pelos direitos humanos e sofreu muito com isso. Lutou praticamente sozinho no nosso concelho para mudar o rumo às coisas, para que tivéssemos um governo eleito pelo povo, liberdade de opinião e reunião, por melhores condições de vida para os portugueses. Depois do 25 de Abril ninguém se lembrou dele, deixaram que a sua luta e o seu exemplo não fosse lembrado e devidamente homenageado. É preciso libertar a memória deste Homem como grande lutador pela democracia que o concelho de Nisa teve. É um acto de justiça."
A esperança não morre
José Lopes Valente Miguéns, o Ti Vara, partiu, há dias, do nosso convívio. Não chegou a ver nascer o Lar da freguesia. É pouco provável que alguma vez ele seja erguido.
A estrada da Vinagra deixou, entretanto, de ser uma “vergonha”. Está transitável, o Pé da Serra tem já a sua ETAR, o lagar fechou e está ao abandono, a freguesia e o concelho têm cada vez menos habitantes.
As políticas centralizadoras e de abandono do interior, condenaram a nossa região a uma morte anunciada, não tão lenta como seria espectável. O deserto avança a passos largos, mas na memória dos homens e dos lugares, os exemplos como os do Ti Vara ficarão a marcar, de forma indelével, a história de um tempo que foi de esperança e de luta, por um futuro melhor.
Obrigado, Zé Lopes!
Mário Mendes in "À Flor da Pele" - "Alto Alentejo" 11/4/2012

13.4.12

NISA: Memória do Cine Teatro - Abril 1935


Em Abril de 1935, o Cine Teatro de Nisa promoveu cinco sessões de cinema, a que assistiram 1255 espectadores. Toureiro à Força foi o filme em destaque não só pela assistência de 455 espectadores, mas por ter sido exibido na segunda-feira de Páscoa, dia de romaria da Senhora da Graça.
Toureiro à Força, comédia musical, realizada por Leo McCarey e produzido em 1932 (EUA) teve estreia em Portugal em Fevereiro de 1934. No elenco sobressaiam os nomes de Eddie Cantor (o protagonista), Lyda Roberti e Robert Young.
Na noite anterior (Domingo de Páscoa) foi exibido o filme O Rei dos Nudistas, tendo assitido 306 espectadores. No cômputo geral do mês, houve uma afluência ao cinema de 1255 espectadores que deixaram uma receita de 3070 escudos.

12.4.12

SALAVESSA: Chocalhada para reviver a tradição


No sábado passado, sábado de Aleluia, os habitantes de Salavessa saíram à rua com chocalhos para assinalar ressureição e reavivarem uma tradição da aldeia.
Momentos de alegria e de fraternal convívio que juntou pessoas de todas as idades e deu à aldeia uma alegria e colorido diferente.
As imagens mostram alguns desses momentos de confraternização.