28.4.15

NISA - Morreu o Manuel Bicho: Músico e ex-prisioneiro de guerra

A notícia correu por toda a vila e a todos apanhou de surpresa. Morreu o Manuel Bicho, o homem da concertina e que popularizou, como poucos, a canção “Sara”, um autêntico hino popular na sua voz.
Nascido em Maio de 1939, Manuel Dinis Figueiredo Bicho era uma figura popular, não só da vila de Nisa, mas de todo o concelho e até do distrito.
Era um exímio acordeonista. Animou a vila em milhentos bailes, casamentos, acompanhamentos, sortes, enfim nos eventos festivos que suavizavam a crueza dos dias e dos meses, nos anos que antecederam a “Revolução dos Cravos”.
Manuel Bicho, não se limitou a tocar concertina e a dar um pouco de alegria aos seus conterrâneos. Jogou futebol no Nisa e Benfica, era amante da columbofilia e foi dos primeiros nisenses a sofrer na pele os horrores e as vicissitudes da guerra colonial.
Em 1961, quando o exército indiano invadiu os territórios de Goa, Damão e Diu, até aí sob administração portuguesa, Manuel Bicho e muitos militares portugueses, entre eles outros nisenses, foram feitos prisioneiros, quase sem oferecerem resistência, tal a precariedade do armamento de que dispunham e a enorme desproporção de meios humanos, entre o exército português e o indiano.
A ordem de Salazar era para que resistissem, para que morressem como mártires, ordem que o general Vassalo e Silva se recusou a cumprir, com essa atitude salvando a vida a milhares de portugueses.
Regressado a Portugal são e salvo, Manuel Bicho fez-se comerciante de frutas e outros géneros alimentares, não deixando de tocar a sua concertina e continuando a animar as festas e convívios para que era solicitado.
Os ex-militares da Índia, de todas as patentes, desprezados por Salazar e pelo regime, foram devidamente reintegrados com o 25 de Abril.
Por ironia do destino, Manuel Bicho viria a falecer, um dia após o 41º aniversário da “Revolução dos Cravos”, uma data histórica que ele tanto acarinhou.
O seu funeral hoje, dia 27, realizado, constituiu uma grande manifestação de dor e pesar, numa derradeira homenagem a um filho de Nisa que, com a sua música e o seu acordeão, contribuiu para transformar o negrume dos dias e da existência em radiosa promessa de esperança e futuro.
Morreu o Manuel Bicho: que a terra lhe seja leve!
Mário Mendes

NISA: Abril nas Freguesias e Feira do Queijo na Agenda de Maio

A Câmara Municipal de Nisa divulgou a agenda de eventos de carácter cultural e recreativo para o mês de Maio.
Na 1ª quinzena do mês e logo a iniciar, destaque para a realização da Feira do Queijo em Tolosa, associada à Prova de Vinhos e ao 1º Festival da Caracoleta Assada, iniciativa da Aptos que culmina com um baile.
No dia 2, prossegue o programa “Abril nas Freguesias” com a actuação do grupo Bombos de Nisa em Pardo (16 h) e Arneiro (17h).
No dia seguinte (3 de Maio) são as Contradanças de Alpalhão que actuam em Velada (16,30h), Monte Claro (17,30h) e Falagueira (18,30h).
“Velocidade Furiosa 7” é o filme que estará em exibição no Cine Teatro de Nisa, no dia 9, às 21,30h.
Dar a conhecer os trâmites e as disposições legais dos contratos de fornecimento de electricidade e de gás natural é o objectivo da sessão a realizar no dia 13, às 10,30h no auditório da Biblioteca Municipal.
Uma sessão de informação e esclarecimento aberta a todos os consumidores e munícipes.
No dia 16, o prof. Freitas do Amaral estará em Nisa, a convite da Associação Nisa Viva para proferir uma Conferência sobre “Crise Económica e Democracia”.
A iniciativa tem lugar no Cine Teatro e início às 16 horas.
Sem referência na Agenda, mas ainda nesta 1ª quinzena, destaque para a realização no dia 3 para a realização do Torneio do Jogo da Malha, às 9 horas, no terreno em frente à Caixa Geral de Depósitos. A organização é da União de Freguesias do E. Santo, Srª da Graça e S. Simão e da Associação de Jogos Tradicionais do Distrito de Portalegre com o apoio da Câmara.
A finalizar, uma iniciativa solidária: a Noite do Fado no quartel dos Bombeiros Voluntários de Nisa, com entradas a preços módicos e que revertem para a ajuda na aquisição de uma nova ambulância.
O cartaz do espectáculo  integra um conjunto de valorosos fadistas como Luís Capão, Célia Soares, Joana Capela e Valéria Carvalho, que serão acompanhados instrumentalmente pelos credenciados  artistas António Sereno, João Carvalho e Samuel Garção.
Não perca este espectáculo e ajude os Bombeiros. Eles merecem e precisam de si!

25.4.15

Dadores de sangue homenageiam António Joaquim Eustáquio

09 de Maio em Portalegre
No ano em que se celebra o 25.º aniversário da Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Portalegre – ADBSP – vai ter lugar a Homenagem, mais do que merecida, a António Joaquim Eustáquio. Figura bem conhecida e que dispensa apresentações. Homem que nas ultimas décadas é o rosto que representa a dádiva de sangue na região. Grande Amigo dos Dadores e também de quem, pelos mais variados motivos, necessitou de sangue ou medula óssea. A Associação, os Dadores e os Amigos de António Eustáquio vão homenageá-lo a 09 de Maio (sábado).
Esta iniciativa decorre de, a pedido do homenageado e por motivos de saúde, se ir desvincular do cargo Presidente da ADBSP, cargo que exerce desde 1990, data da fundação da Instituição.
Do programa da Homenagem consta, na entrada do serviço de Imunohemoterapia do Hospital de Portalegre (ao lado da Urgência), pelas 12,00 horas, o descerrar de uma placa alusiva. Seguem-se o almoço convívio, nas instalações do NERPOR, em Portalegre, e... algumas surpresas (ver cartaz).
As inscrições para o almoço podem ser efectuadas na sede da ADBSP (no piso 2 do Hospital Doutor José Maria Grande), ou através do mail adbsp25@gmail.com .
Contamos com a sua presença!

JR

25 DE ABRIL: A Festa do Povo e da Liberdade


23.4.15

ALPALHÃO: 12º Convívio de Pesca do Grupo Ciclo Alpalhoense


OPINIÃO: Água suja

 Durante anos ouvimos dizer que a água seria o petróleo do século XXI. Tendo Portugal bastantes recursos hídricos, o futuro apresentava-se risonho, com os portugueses a dispor de água barata e em abundância. Mas, percebe-se agora, a riqueza não vai ser para todos e está em vias de ser totalmente transferida para privados.
Nos últimos anos, foram inúmeros os concelhos que alienaram o negócio da distribuição de água através do mecanismo das parcerias público-privadas.
Em Barcelos, em Paços de Ferreira e em muitos outros municípios, os autarcas assinaram contratos ruinosos, garantindo preços elevados na água a pagar pelos consumidores, ao mesmo tempo que se comprometiam a consumos mínimos. Os cidadãos começam então a suportar preços exorbitantes; e, quando o consumo não atinge os valores previstos, as Câmaras assumem os custos, a título de indemnizações compensatórias. Neste modelo, os cidadãos pagam sempre: ou de forma directa, enquanto consumidores, ou indirectamente enquanto contribuintes.
Os novos donos do esquema são os que dominam os negócios das autarquias, os patos bravos: construtores e promotores imobiliários que criaram empresas no sector do ambiente. Agora, garantem rendas fixas num negócio em regime de monopólio.

A agravar tudo isto, alguns contratos são celebrados por prazos obscenos. Em Gaia, a concessão do serviço já vai em vinte e cinco anos e, em Braga, os parceiros privados da AGERE (empresa municipal com competência delegada) têm boas rentabilidades garantidas por cinquenta anos! Temos assim autarcas eleitos por mandatos de quatro anos a comprometer orçamentos municipais por duas gerações.
A machadada final prepara-se, desta feita a nível nacional. O governo quer reduzir o preço da água do interior à custa de aumentos aos consumidores do litoral. Como estes são muito mais, esta é uma forma disfarçada de aumentar a receita global. Engorda-se assim o negócio e já se avista a privatização no horizonte.
A água, que deveria constituir um serviço público essencial, e até um direito humano, está pois a transformar-se tão-só num negócio capturado por interesses económicos gananciosos.
Paulo Morais – Fio de Prumo – in “Correio da Manhã” 18/4/2015

22.4.15

VILA FLOR (Nisa): Caminhada da Saúde no dia 2 de Maio


NISA: Maria José Silva mostra a sua arte no Cine Teatro

A exposição “A Minha Arte” com trabalhos de artes plásticas da nisense Maria José Silva, é inaugurada no Cine Teatro de Nisa no dia 24 de abril pelas 21horas. A exposição está integrada no programa das comemorações do 41º Aniversário do 25 de Abril e estará patente até 23de maio.
Maria José Silva, nasceu em 1950 em Nisa, terra onde reside e tem o estúdio onde cria trabalhos em várias modalidades de artes plásticas.
Ainda frequentava a escola primária e já se comprazia a fazer desenhos. Com 17 anos de idade, decidiu começar a pintar a óleo sobre tela. Os resultados entusiasmaram-na e, sem mestre, foi experimentando técnicas, processos e tintas, corrigindo erros e criando um estilo próprio.
1972 foi um ano de grande atividade criativa. Diversificou os temas das composições a óleo: flores, árvores, paisagens, natureza morta, património, retrato. Em 1981, foi convidada pela edilidade nisense a expor os seus trabalhos pictóricos, na Biblioteca Municipal no âmbito das comemorações dos “700 anos da Vila de Nisa”. Seguiu-se uma exposição em Lisboa na Casa do Alentejo, e, mais uma vez, a crítica foi favorável. Recebeu rasgados elogios e incentivos para continuar, melhorar, aperfeiçoar-se e receber ensinamentos.
Frequentou então alguns cursos, nomeadamente: artes decorativas ministrado por Deolinda Bento (Alter do Chão); pintura em porcelana e azulejaria na União Portuguesa de Arte em Porcelana (UPAP).
Paulatinamente foi enveredando por outras áreas as quais constituem hoje um vasto e diversificado leque das suas atividades plásticas: Pintura a aguarela e pastel, pintura a óleo sobre tela, charão, escultura (sagrada e profana), mobiliário, tecido, madeira, vidro, azulejo, porcelana (impressionismo, companhia das Índias), trabalhos em estanho, cera e pirogravura.
Foi expondo os frutos do seu intenso labor, que, ao serem conhecidos, e sistematicamente bem acolhidos e apreciados, alguns exemplares fazem parte de coleções particulares de norte a sul do país  e outros embelezam espaços públicos em Nisa, Póvoa de Varzim e Portalegre, afora outros painéis de menores dimensões que ornamentam fachadas de edifícios privados.
Em 1997, tirou o curso de formadora no Centro de Formação Profissional de Portalegre e em 2000, em Évora, obteve o certificado de aptidão profissional. A convite de entidades oficiais tem ministrado inúmeros os cursos em Nisa, Tolosa, Portalegre, Beirã, Alagoa, Ponte de Sôr, Crato e Castelo de Vide.
O seu estúdio, lugar onde se aprende, se trocam experiências, se criam amizades, é frequentado quase diariamente por formandas oriundas de diversas localidades do Norte Alentejano, mas também de Castelo Branco, Lisboa …
Tem em execução um projeto grandioso sobre azulejaria, que muito brevemente irá enobrecer o património concelhio nisense.
A exposição “A Minha Arte”, no Cine Teatro de Nisa, traz, mais uma vez a público, uma mostra do riquíssimo e multifacetado manancial de obras que Maria José Silva tem produzido.
Nota: Texto enviado pela C.M.Nisa e publicado tal e qual como chegou

18.4.15

NISA: Assembleia Municipal discute a 27, medalhas atribuídas a 25 de Abril

A Assembleia Municipal de Nisa reúne em sessão ordinária no dia 27 de Abril tendo como um dos pontos da Ordem de Trabalhos, a "Atribuição de medalhas de Mérito Municipal, no âmbito das Comemorações do 41º Aniversário do 25 de Abril", cerimónia essa, realizada dois dias antes.
Em boa verdade, não ponho em causa o mérito ou demérito dos homenageados. Tão pouco questiono o critério ou critérios de uma escolha que, a ser justa, está 40 anos atrasada no tempo.
O que estranho é o "papel" de indiferença e de subalternização de um órgão autárquico como é a Assembleia Municipal que, a meu ver, deveria ser e ter (foi assim durante muitos anos) uma acção activa e determinante em todo este processo e não, como acontece, limitar-se a dizer "Ámen" e "aprovar" uma decisão e um acto de homenagem para o qual em nada contribuiu (nem foi chamada a participar em tempo útil) como seria imperioso e desejável - no respeito, aliás, pelo próprio Regulamento de Atribuição de Medalhas Municipais - numa cerimónia que deveria ser revestida do mais alto significado e não "fruto" da decisão apressada de um reduzido grupo de pessoas.
Esta situação nem sequer me choca, atendendo ao facto de esta mesma Assembleia Municipal, nomeadamente, a sua Mesa, principal responsável, não se ter dignado colocar no site do Município de Nisa, uma única Acta das Sessões em todo o ano de 2014.
Tal atitude não é compatível, e está mesmo em oposição, com a tão divulgada transparência que o Município reclama para si.
Os munícipes têm direito a ser informados e sê-lo num tempo útil. Proceder deste modo não é apanágio de transparência democrática, tornando vazios e sem sentido os discursos produzidos no 25 de Abril.
Mário Mendes

17.4.15

NISA: Torneio de Futebol "Vila de Nisa" em Veteranos

Disputa-se na tarde de sábado, dia 25 de Abril, no campo de jogos D. Maria Gabriela Vieira, em Nisa, com início às 15,30h mais uma edição do Torneio "Vila de Nisa" em Veteranos, numa organização da Associação de Veteranos  do Sport Nisa e Benfica.
Participam além do clube organizador, as equipas do CD Velha Guarda de S. Mamede (Portalegre e do Futebol Clube Monfortense.
A entrada é livre.

NISA: Sessão extraordinária da Câmara discute funcionamento das Termas


NISA: Final da Taça AFP de Futsal - Iniciados


16.4.15

ALPALHÃO: Exposição de fotografia de Mário Raposo


NISA EM LISBOA - Taberna à Lapa: O Alentejo ao virar da esquina

Entre os bairros de Santos e da Lapa há um cantinho norte alentejano que dá a provar os comes e bebes da região. Uma espécie de taberna à moda antiga mas com um toque elegante que leva à mesa enchidos, presuntos, queijos e vinhos, a maior parte de Nisa e Portalegre. Nesta casa o Alentejo serve-se frio mas cheio de sabor.
Há muito que Lisboa se rendeu aos sabores alentejanos mas só algumas casas da capital podem gabar-se de ter os produtos mais autênticos e genuínos. A Taberna à Lapa é seguramente uma delas ou não tivessem os donos corrido o Alto Alentejo de fio a pavio à procura das melhores fábricas de enchidos, das queijarias mais tradicionais e das adegas que vale a pena conhecer.

Depois de descobrirem alguns dos segredos mais bem guardados da região, Susana e Tiago Costa (ela alentejana de gema, ele com uma costela) decidiram apresentá-los nesta espécie de taberna reinventada, aberta desde janeiro de 2015 mas inaugurada um mês depois. Fica mais ou menos a meio caminho entre Santos-o-Velho e a Lapa (rua Garcia da Horta, nº 12) e já ganhou fama entre os amigos dos petiscos e do convívio.
Recordações do Alentejo
Quem vive ou tem raízes no Alentejo rapidamente percebe que a casa foi buscar inspiração às tabernas típicas da região. Pipas e garrafões de vinho, cabaças, potes de azeite, peças de olaria e outros objetos típicos foram trazidos de Montalvão (a aldeia de Cláudia, no concelho de Nisa) para embelezar o espaço ao jeito alentejano. A esta decoração junta-se ainda o chão à moda antiga, as toalhas aos quadrados verdes e até um presunto pendurado junto ao teto.

Uma mão cheia de mesas (incluindo a pipa de vinho transformada para o efeito) ocupa a maioria do espaço, amplo e luminoso. Em dias de bom tempo uma portada abre-se para a rua e faz as delícias dos visitantes, sobretudo os turistas, que ficam a ver passar as pessoas e o icónico elétrico 28. Incontornáveis são também o balcão em madeira com tampo de mármore (não há taberna alentejana que não tenha um) e a montra de produtos que convida a degustações no momento ou
em qualquer outra altura. É que quase tudo (dos enchidos e queijos ao mel e azeites) pode ser levado para casa ou oferecido aos amigos.
O ambiente não podia ser mais descontraído e eclético, numa curiosa mistura entre moradores do bairro e estrangeiros provenientes dos quatro cantos do mundo. Mas também há alentejanos de outras partes da cidade que passam por lá só para matar saudades dos sabores autênticos da região. E quem vai uma vez acaba quase sempre por voltar…
Pequenos produtores, grandes sabores

A ementa, totalmente composta por tapas e petiscos, fala alentejano quase de uma ponta a outra. A começar pelas tábuas, espécie de ex-líbris da casa apresentado em várias combinações, ora só com queijos (três tipos), ora com enchidos (como painho ou chouriço de porco preto) ou presuntos (bolota ou reserva), ora com um pouco de cada. Quem preferir doses mais pequenas ou tiver mais pressa também pode pedir um pratinho individual ou optar por sandes, tostas e tostinhas, sempre com pão alentejano.
Seguem-se dois pratos de grelhados - telha de enchidos e assadeira - ambos com linguiça, farinheira e cacholeira, espécie de chouriço de sangue pouco visto noutras casas de Lisboa. Saltando as fronteiras do Alentejo chegamos às saladas (destaque para a de polvo) e para a lista quase infindável de enlatados. Entre as muitas opções à disposição encontramos, por exemplo, atum posta natural dos Açores, sardinhas e cavalas em azeite biológico, polvo de caldeirada e lulas recheadas à portuguesa.

Na carta de vinhos também há néctares do Douro e da região de Setúbal, mas o Alentejo volta a assumir protagonismo, tanto com marcas consagradas como com outras quase desconhecidas, caso do vinho da casa, produzido na região de São Mamede pela Casa da Urra. Antes da despedida vale a pena provar um doce regional, como a boleima de maçã ou as queijadas de Nisa, mais dois produtos trazidos diretamente da origem. E assim, os bairros de Santos e da Lapa aproximaram-se mais um pouco do Alentejo.

Nelson Jerónimo Rodrigues in www.lifecooler.com2015-04-15

14.4.15

CRÓNICAS DE LISBOA: Em Tempo de Santos, os Demos Adam à Solta

O período pascal findo coincidiu, este ano, com umas condições climatéricas de pré-Verão, como benesse de S. Pedro. Esta dádiva veio, assim, contentar aqueles que puderam “ir à terra” celebrar a Páscoa, uma das festividades com maior relevo no mundo rural, embora a perder importância, e aos outros, os seguidores duma certa religião a que chamaremos “hedonismo”, partirem, para umas mini férias à beira mar, enchendo zonas turísticas, com os empresários do sector a agradeceram, porque estes “booms”, mesmo de turismo interno, são balões de oxigénio na economia local e nacional, e ainda mais quando se associam os estrangeiros, cujos países até estavam debaixo de condições climatéricas severas.
Sejam cristãos, islamistas ou outros religiões, incluindo mesmo o culto “hedonista”, cada um segue a sua fé, desde que o faça em respeito pelas crenças e práticas dos outros, se estas forem feitas de acordo com as leis e com os valores democráticos das sociedades a que pertencem ou onde estão inseridos. Infelizmente, os atentados contra “inimigos” religiosos, cidadãos do mesmo país, está em crescendo, com barbáries cometidas sobre civis indefesos só porque professam outra religião ou servem de pretexto aos grupos extremistas, fazem-nos lembrar os tempos das cruzadas ou mesmo duma certa violência praticada sobre os nativos nos processos de evangelização dos descobridores nas colónias conquistadas aos indígenas, violência pouco mencionado na história.
Nos tempos de hoje e dum maior  “desenvolvimento” do homem, estas barbáries e matanças humanas mostram-nos situações de inimaginável horror, mas afinal e apesar do progresso, embora muitas partes do globo tal ainda não tenha acontecido,  relevam a “besta humana” que continua dentro de muitas organizações políticas, religiões etc que recorrem às barbaridades humanas, na prossecução dos seus fins político-religiosos, fazendo disso uma forma de vida, por exemplo, os jihadistas, muitos deles nados e criados nas nossas sociedades ocidentais.
Mas também há outros “demos”  por aí à solta e que libertam as suas mentes perversas para fazerem o mal, por exemplo, os pirómanos que vão ateando fogos para satisfação dum ego doentio. Com é possível que com os campos ainda verdes do Inverno que há pouco acabou, a onda de fogos no país tenha atingido já várias centenas de fogos, alguns de grandes proporções? Segundo as autoridade e os especialistas, poucos são aqueles imputáveis  aos efeitos naturais, pelo que os restantes têm o factor humano por detrás, seja por negligência seja por acção criminosa. Repito, como é possível, sem o Verão ter ainda começado ocorrerem tantos focos de incêndio, alguns com início em plena noite, naturalmente ainda frias? O que falha na prevenção e na justiça aplicada aos “agentes” incendiários, aqui em sentido lato, porque o cidadão comum “fica de  pé atrás acerca dos incêndios” ? Numa altura em que se discute a elaboração duma lista de condenados por pedofilia, dividindo os defensores dos prós e dos contra, mas esquecendo-se sempre das crianças indefesas vítimas dos mais horrendos crimes, não faria sentido, e sem o estigma daquela, elaborar uma lista dos condenados por atearem incêndios, funcionando como forma de persuasão preventiva para  a repetição, que em muitos casos ocorre?
Esta “época santa” também não escapou, como excelente oportunidade, aos “gestores das greves” nos transportes (chamemos-lhes assim porque quando falam sobre os resultados das greves utilizam a mesma linguagem dos gestores: “a greve foi um sucesso”, ou , “conseguimos atingir os nossos objectivos”, etc), isto é, os sindicalistas justificam o seu “trabalho” (alguns deles há muito que não fazem outra coisa) pelas greves que  determinam, sim, sublinho a palavra “determinam”, porque não creio que seja votada em maioria pelos trabalhadores abrangidos. A CP, praticamente parou  nos “dias pascais” e, repare-se nos  dias da greve: quinta e sexta feira santa, mas no sábado não houve greve, funcionando os comboios a pleno. Depois, voltou a greve no  domingo e segunda feira de Páscoa. Como grandes “estrategas”, os sindicalistas sabem escolher os dias de greve procurando causar o maior dano à entidade patronal (aos utentes e a todos nós que lhes pagamos os ordenados através da bilhética ou dos nossos impostos) com o menor custo possível para os grevistas (a perda do salário correspondente). Desta vez foi a CP, mas ela mesma e outras EPs dos transportes têm recorrido a um número elevado de greves e outras se anunciam (Carris e Metro de Lisboa), afectando aqueles que  lhes  pagam os ordenados, sejam os utentes ou os contribuintes, através dos subsídios de exploração àquelas Eps, a maioria deles sem alternativas e auferindo salários muito baixos.
A greve, que em democracia é um direito, deveria ser usada apenas em situações extremas e como “arma de recurso” e não de forma banal como tem sido utilizada ultimamente no nosso país, mas é usada como forma de protesto a actos de gestão empresarial e que, nesse caso, poderão ultrapassar as funções dos sindicalistas, embora a fronteira não seja clara, porque embora certos actos de gestão possam afectar alguns ou a totalidade dos trabalhadores duma empresa, estes actos são da responsabilidade e da autoridade do gestor/empresário (ou dono). Nalguns casos, é a própria sobrevivência da empresa que está em causa, pelo que será legítimo que os sindicalistas (às vezes agindo com outras motivações e a "mando" de interesses que não os dos trabalhadores, mas que dizem defender) se oponham a esses actos e
determinem greves, por vezes levando à falência da empresa, como há muitos exemplos na nossa história empresarial destes últimos anos? Infelizmente, os exemplos mostram um certo “divórcio” entre as Comissões de Trabalhadores e os sindicalistas, estes movidos por outros interesses que me dispenso de citar. Quem ganha com estas greves? Alguém, mas não os utilizadores dos serviços prestados pelas EPs e pelo Estado, ou talvez percamos todos nós porque as greves afectam a sociedade e a nossa economia como um todo. Quem são os responsáveis por este exagero grevista? Os sindicalistas “dinossauros” e os gestores maus negociadores? Provavelmente ambos, mas há reivindicações que vão para além do economicamente aceitável e da equidade e porque são interesses opostos. Nos tempos que correm, e em especial no nosso país, a atravessar um período difícil e de sacrifícios para todos, custa a entender que os interesses dos trabalhadores  duma qualquer empresa sejam assim tão antagónicos com a empresa, porque não há trabalho sem empresas (embora o Estado seja o maior empregador mas que não pode empregar toda a gente), tal como não há empresas sem trabalhadores. Temos que interiorizar que o factor trabalho é um “produto” de compra e venda e embora seja um direito (e não dever?), mas quem o garante? E, como tal, está sujeito à “lei da oferta e da procura” e são os trabalhadores melhor preparados que estarão na linha da frente nas contratações por parte das empresas e menos afectados pelas crises, sejam elas conjunturais ou estruturais. São necessários, cada vez mais, “novos trabalhadores” e “novos”empresários e gestores”, para que  ambos os factores económicos ( capital e trabalho), interagindo correctamente e não como inimigos, criem riqueza que a todos beneficia. Banalizar as greves também descredibiliza os trabalhadores e os prejudica e não só a entidade visada pelas “greves pelas greves”.
Serafim Marques - Economista