30.7.10

Evocação de Cruz Malpique (I)

Arabescos em Água Corrente – Homo Duplex
O prazer de morrer de alma limpa vale bem a pena de viver de alma suja.
Isso o dizemos todos. Isso se disse, sempre, e em todo a parte.
Mas, ai de nós!, que só por excepção (quase tão rara como as esmeraldas azuis) somos a negação do homo duplex, o tal que vê o bem, que aprova, e se deixa escorregar no plano inclinado do mal, que reprova: video meliora proboque, deteriora sequor.
Ajustar ou não ajustar a letra à caneta, eis o bicudo problema. Levante o braço aquele dos leitores que nunca se deixou escorregar no plano inclinado da alma suja, em favor da alma quimicamente pura, feita de sem medo e sem mancha.
Se, como diz a sagrada teologia, nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus – a Suprema Perfeição – onde está, em cada um de nós, essa imagem e semelhança?
Homem, animal de contradições... É ouvir Bernardim Ribeiro, o da “menina e moça”:
Dentro do meu pensamento
que sento contra o que sento
há tanta contrariedade
vontade contra-vontade.
Cruz Malpique

27.7.10

NISA: No rastro da memória

A Feira de Artesanato e Gastronomia de 1991
"A cor, a música, o artesanato, estão de volta à Praça da República.
Mergulhe no mundo especial daqueles que souberam, melhor do que ninguém, trazer até nós a riqueza e a arte de outrora.
Vá de Barcelos a Lagoa; Dê um pulo a Santarém; Visite São Tomé e Príncipe; Passe pelo Quénia e, sobretudo, : Pare em Nisa!
... Nisa dos alinhavados, da olaria pedrada, das aplicações em feltro!
... Nisa dos xailes de pêlo de cabra, dos bordados, das rendas de bilros, das redes de pesca e de outras maravilhas!
Espere, não pare ainda: deambule um pouco pelos stands das empresas, saboreie o mel, os doces e o queijo de Nisa.
E, se os seus olhos já não puderem reter tanta cor, descanse um pouco. Vá jantar ou petiscar nas tasquinhas; prepare o seu espírito para uma agradável noite de música.
Aproveite a oportunidade de poder visitar uma feira que, de ano para ano, se torna maior e mais viva; uma feira que todos os dias tem diferentes motivos de interesse.
PARA NÓS, É UM PRIVILÉGIO RECEBÊ-LO!"
Assim abria em Nota de Abertura, o programa da Feira de Artesanato, Gastronomia e Outras Actividades Económicas do concelho de Nisa, realizada de 2 a 6 de Agosto de 1991 na Praça da República.
A animação musical trouxe até Nisa, as Majorettes de Azay le Rideau que abriram a Feira juntamente com a banda da Sociedade Musical Nisense, associação que à noite actuou através do Grupo de Música Popular e da Orquestra Ligeira.
Um festival de folclore organizado pelo Rancho da Casa do Povo trouxe até Nisa grupos etnográficos representando algumas regiões do país.
A Banda Juvenil do Município do Gavião, Francisco Ceia e o Rancho Folclórico “Portugal Canta Brasil”, do Rio de Janeiro, integravam o programa de animação musical.

21.7.10

SPORT NISA E BENFICA: 75 anos de vida (I)

Equipa de futebol (Juvenis) -Época 1977-78

O Sport Nisa e Benfica, fundado a 5 de Outubro de 1935 com a designação de Sport Lisboa e Nisa, completa em Outubro, 75 anos de existência.
No Portal de Nisa e em homenagem a atletas, técnicos e dirigentes, iremos divulgar, até à data do aniversário, algumas das fotos de equipas e acontecimentos que contribuíram para a história desta colectividade desportiva nisense.

10.7.10

HISTÓRIA: O Marquês de Nisa no bloqueio de Malta (1798‑1799)

Almirante Marquês de Nisa
Introdução
Há cerca de um ano, no passado dia 2 de Setembro de 2008, em cerimónia pública presidida pelo Presidente da República de Malta, Sr. Dr. Edward Fenesh Adami, teve lugar o descerramento de uma placa evocativa do auxílio prestado pela Esquadra Portuguesa, comandada pelo Marquês de Nisa, à revolta das populações das ilhas de Malta e Gozo, contra a então vigente ocupação francesa.
A cerimónia teve lugar nos “Upper Barracks Gardens” e foi iniciativa de um conjunto de intelectuais de Malta, entre os quais o Dr. Henry Frendo que, na altura, proferiu a palestra “Making Amends with History: a vindication of Maltese‑Portuguese Relations”. Neste evento estiveram presentes, o Embaixador de Portugal, Dr. Russo Dias, um representante da Marinha Portuguesa, o C/Alm. MN Rui Abreu, e muitas personalidades da sociedade local. Os media deram grande cobertura a este acontecimento, que se inseriu nas comemorações do aniversário da revolta pró‑indepêndencia de Malta, que ocorrera há precisamente duzentos e dez anos.
Enquadramento Histórico
Nos fins do séc. XVIII, Portugal era um pequeno Reino com cerca de três milhões de habitantes. A sua capital, Lisboa, com mais de 200.000 habitantes, florescia com o comércio do Brasil, da Índia e das Áfricas, sendo a sede de um importante império colonial. O Brasil, então já com cerca de três milhões de habitantes, de origem portuguesa, africana e indiana, fornecia produtos agrícolas e minérios, designadamente ouro e pedras preciosas.
A liberdade das comunicações marítimas era essencial para o funcionamento desta economia; daí, a importância da Aliança Britânica, com a potência marítima de então, com quem, a 16 de Setembro de 1793, foi assinado um novo tratado de Aliança, reforçando a aliança histórica entre os dois Reinos.
Com a vizinha Espanha existiam problemas de fronteira na América do Sul que foram resolvidas pelos Tratados de Santo Ildefonso (1777) e do Pardo (1778), a que se seguiram vários casamentos entre as Casas Reais de Bragança e de Bourbon. Estas boas relações foram consolidadas com o Tratado de Aliança assinado a 15 de Julho de 1793, pelo qual Portugal se comprometia a apoiar a Espanha, em caso de conflito militar.
Embora Portugal não tivesse declarado guerra à França Revolucionária, por força deste Tratado, envolveu‑se na Campanha do Rossilhão, onde participou uma divisão Portuguesa, com cerca de seis mil homens. Esta campanha, após alguns êxitos iniciais, acabou por correr mal, o que levou a Espanha a fazer a paz com a França, em Basileia, em Junho de 1795, e a tomar, posteriormente, uma posição política pró‑continental, abandonando assim o seu aliado português.
É neste enquadramento de política externa, entre uma França continental e uma Inglaterra marítima, que os interesses coloniais de Portugal levam a privilegiar a Aliança Britânica e a responder favoravelmente a um pedido de apoio naval para colaborar nas operações contra a França no Mediterrâneo.
Napoleão Bonaparte, então jovem general, a pedido das autoridades, comandou as forças militares que repõem a ordem pública em Paris, grangeando muito prestígio e tornando‑se assim politicamente incómodo. Apresentou, então, ao Directório, um projecto de expedição ao Egipto, com o objectivo de uma posterior ligação à Índia, onde grassava uma revolta contra a Inglaterra. A expedição foi prontamente aprovada, partindo de Toulon, com cerca de quarenta mil homens a bordo de mais de duzentos navios mercantes, escoltados pela Esquadra comandada pelo Almirante Brueys, composta por treze naus e quatro fragatas. Em princípios de Junho de 1798, entram em La Valetta, para reabastecer; como os Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém, também conhecidos por Cavaleiros de Malta, não autorizassem, Napoleão desembarcou tropas e, a 12 de Junho, conquistou a cidade, onde deixou o General Vaubois com cerca de quatro mil homens. Os derrotados Cavaleiros de Malta foram expulsos para Itália, assim como todos os cidadãos ingleses, russos e portugueses, que viviam naquelas ilhas.
A Marinha Portuguesa nos fins do séc XVIII
Sob a orientação do Ministro Martinho de Melo e Castro, a Marinha Portuguesa vivia, nos finais do séc XVIII, um período de grande expansão. O nosso importante comércio marítimo, aliás, requeria, para o proteger, um adequado poder naval. A Marinha dispunha, então, no Portugal Europeu, de treze naus, dezasseis fragatas, três corvetas, sete bergantins e oito charruas, a que acresciam ainda as forças navais surtas no Brasil e na Índia. Os navios eram modernos, bem armados e tripulados por cerca de catorze mil homens. O serviço da escolta aos comboios, a caça aos piratas do norte de África e algumas expedições, como o apoio ao ataque espanhol a Argel, em 1784, mantinham as guarnições bem treinadas e motivadas. Com estes meios organizavam‑se três forças navais: a Esquadra de Guarda‑Costas, a Esquadra do Estreito, com base em Algeciras ou Gibraltar, e a Esquadra do Mar Oceano, que pairava ao largo dos Açores e protegia a navegação proveniente do Brasil ou da Índia.
Na Marinha Portuguesa, serviam numerosos oficiais ingleses, contratados, que nela tiveram um desenvolvimento de carreira mais rápido do que os seus antigos camaradas, que se mantiveram na “Royal Navy”. Esta aparentemente fútil circunstância, no entanto, esteve na base de algum mal‑estar, de atritos mesmo, com a Esquadra Britânica do Mediterrâneo, pois os captains ingleses não aceitavam ser mais modernos e terem de servir sob as ordens dos seus antigos camaradas. O Almirante Nelson, infelizmente, tomou o partido dos seus comandantes.
O Marquês de Nisa
D. Domingos Xavier de Lima, filho segundo do Marquês de Ponte de Lima, nasceu em 1765. Casou em Lisboa, com pompa e circunstância, em 1790, com sua sobrinha Eugénia Maria, filha única do 6º Marquês de Nisa, 10º Conde da Vidigueira e 10º Almirante do Mar da Índia. O Marquesado de Nisa foi um presente de casamento do Príncipe Regente, a D. Domingos, que assim passou a usar os titulos nobiliárquicos de sua mulher.
D. Domingos cedo ouviu o apelo do mar: em 1781 embarcou como voluntário, na nau “Nossa Senhora do Pilar”, frequentando no ano seguinte a recém‑criada Academia Real de Marinha. Promovido a tenente‑de‑mar, embarcou na nau “Nossa Senhora do Bom Sucesso”, tendo participado na expedição a Argel, como chefe do estado‑maior da força naval portuguesa, composta por duas naus e duas fragatas. O Príncipe Regente, satisfeito com o comportamento desta força, mandou promover ao posto imediato todos os oficiais que participaram na expedição, do que resultou a promoção de D. Domingos a capitão‑tenente, aos vinte anos de idade. Aos vinte e quatro anos, era capitão‑de‑fragata e comandante da fragata “Príncipe do Brasil”, de quarenta peças. Dois anos volvidos, aos vinte e seis anos de idade, era capitão de mar‑e‑guerra e comandante da nau “Vasco da Gama”, de setenta e quatro peças, na qual participou na Esquadra do Canal, de apoio à “Royal Navy”, que operou na Mancha, em 1793 e 1794.
Como voluntário, participou na Campanha do Rossilhão, em terra, onde se notabilizou nas tomadas de Colliure e Sainte Elne, após o que, voltou a Portugal e reingressou na Marinha.
Em Setembro de 1795, era promovido a chefe de divisão, equivalente a comodoro, e nomeado Comandante da Esquadra de Guarda‑Costas, a bordo da nau “Rainha de Portugal”, de setenta e quatro peças. Em Junho de 1797, com trinta e um anos de idade, é promovido a chefe de esquadra, o equivalente a contra‑almirante e nomeado Comandante de uma Esquadra composta por cinco naus e duas fragatas, com a missão de proteger a navegação dos corsários franceses.
Embora jovem, o Marquês de Nisa era um oficial prestigiado, conhecedor da arte e da ciência da navegação e da marinharia, com experiência de combate e de comando, quer ao nível de unidade naval, quer ao nível de força naval.
A Esquadra do Mar Oceano no Mediterrâneo
Em princípios de Maio de 1798, o Marquês de Nisa recebeu ordem para assumir o comando de uma Esquadra, que se destinava a cooperar com a “Royal Navy” no Mar Mediterrâneo, largando de Lisboa com este objectivo a cinco de Maio. Reuniu na Baía de Lagos, as suas forças, a saber:
– Nau “Príncipe Real”, de 90 peças, 948 tripulantes, Comandante Cdro Conde de Puysegur;
– Nau “Rainha de Portugal”, de 74 peças, 605 tripulantes, Comandante Cdro Thomas Stone;
– Nau “Afonso de Albuquerque”, de 64 peças, 576 tripulantes, Comandante Cdro Donald Campbell;
– Nau “S. Sebastião”, de 64 peças, 564 tripulantes, Comandante Cdro Simpson Mitchell;
– Fragata “Benjamim”,de 24 peças, 120 tripulantes, Comandante Cap‑ten George Thompson;
– Bergantim “Falcão”, de 24 peças, 100 tripulantes, Comandante Cap‑ten Miguel Oliveira Pinto.
A treze de Julho, depois de reabastecer, largou a Esquadra de Lagos, após Nisa se ter avistado com o Almirante Jervis, então embarcado ao largo de Cadiz, bloqueando aquele porto. Jervis, deu‑lhe então, instruções, para se juntar ao Almirante Bronte Nelson, seu subordinado, no Mediterrâneo. A Esquadra portuguesa passou ao sul da Córsega, a vinte e seis de Julho, desceu a costa italiana após o que, aproou a Creta e a Alexandria, onde chegou a vinte e sete de Agosto. Em seguida, meteu leme para o sul da Sicília, procurando encontrar Nelson que, no dia um de Agosto, havia surpreendido e destruído a Esquadra de Brueys, na Batalha do Nilo, em Aboukir. Em dezoito de Setembro, foram recebidas instruções escritas de Nelson, transmitidas pelo bergantim “Flora”, para bloquer a ilha de Malta, que se encontrava próxima, o que Nisa inicia logo no dia seguinte.
O primeiro período de bloqueio termina a vinte e seis de Outubro, largando, então, a Esquadra Portuguesa para Nápoles. Segue‑se a expedição a Liorne e, quando do ataque francês a Nápoles, a ingrata tarefa de destruir os navios napolitanos surtos no porto, para evitar a sua queda em mãos francesas, e a retirada para a Sicília. Posteriormente, os navios são utilizados, cada um de per si, em diversas tarefas, após o que, participam na reconquista da cidade de Nápoles, bloqueando a costa, ocupando ilhas e desembarcando tropas para atacar as guarnições francesas de alguns fortes.
Não existiam relações diplomáticas entre o Reino de Portugal e as Regências de Argel, Tunis e Tripoli, em cujos portos estavam baseados numerosos navios corsários que atacavam, com frequência, a navegação mercante portuguesa. Contudo, existia um tratado de paz entre o Reino Unido e aquelas Regências. O Marquês de Nisa sugeriu, então, a Nelson o envio da nau “Afonso de Albuquerque” a Tripoli, com a dupla missão de eliminar a influência francesa e negociar uma trégua com Portugal. Em Maio de 1799, depois de um curto bloqueio à cidade, são estabelecidas negociações que tiveram total sucesso; ficou assegurada a paz entre a Regência de Tripoli e o Reino de Portugal e foi eliminada a presença francesa, embarcando o consul os cidadãos franceses, ali residentes, a bordo da nau portuguesa. O sucesso alcançado, em Tripoli, levou o Marquês de Nisa a propor a Nelson uma acção semelhante em Tunis. Como não houvesse, na altura, um navio português disponivel, Nelson cedeu o brulote “Stromboli” onde embarcou o Capitão‑de‑mar‑e‑guerra Rodrigo Pinto Guedes, chefe do estado‑maior da Esquadra Portuguesa que, em Novembro de 1799, se deslocou a Tunis e negociou, com sucesso, um acordo de paz entre o Reino de Portugal e aquela Regência.
Em vinte e cinco de Agosto, Nelson designa, de novo, o Marquês de Nisa, para o bloqueio da ilha de Malta. Em nove de Outubro, contudo, o bergantim “Gaivota do Mar” trouxe ordens de Lisboa para dar por terminada a missão e regressar. O Marquês de Nisa porém, foi sensível aos pedidos instantes de Nelson para não abandonar Malta sem ser rendido, o que só veio a acontecer a treze de Dezembro. Depois de reabastecer e proceder a algumas reparações, em Palermo, Nisa inicia então, o regresso a Lisboa, a doze de Fevereiro, entrando a barra do Tejo em fins de Abril de 1800. Vejamos, então, mais em pormenor, o que se passou em Malta.
O Bloqueio de Malta (I período)
Como já anteriormente referido, a revolta da população de Malta contra a ocupação francesa ocorreu a dois de Setembro de 1798. De imediato, são enviadas cartas ao Rei das Duas Sicílias (ou de Nápoles) e a Nelson, pedindo auxílio em armas, munições, provisões e apoio militar. Os malteses, de uma população de cerca de cem mil habitantes, levantaram mais de dez mil voluntários, mas escasseava o armamento, a disciplina era fraca e faltavam conhecimentos militares. A situação militar era muito difícil, face às sortidas francesas, de mais de quinhentos soldados, provenientes dos fortes de La Valletta, onde se abrigavam.
A chegada da Esquadra Portuguesa, a dezanove de Setembro, teve grande importância psicológica, animando as forças maltesas que puseram cerco à cidade. Nisa recebe representantes de Malta e de Gozo, a quem promete apoio, cede‑lhes quinhentos mosquetes e vários barris de pólvora e desembarca o Cap‑ten António Gonçalves Pereira e vinte artilheiros para servirem em terra, junto dos malteses. De imediato estabelece um rigoroso bloqueio ao porto de La Valletta, onde se abrigavam a nau “Guillaume Tell” e as fragatas “Justice” e “Diane”, que haviam logrado escapar de Abukir. Em seguida, escreve uma carta ao General Vaubois, que intima a render‑se, mas que não tem resposta positiva.
Em vinte e seis de Outubro, após ter sido substituído pelo Captain Alexander Ball, Nisa retira‑se para Nápoles, para reabastecer. Em terra, a pedido dos malteses, deixou o Cap‑ten Gonçalves Pereira e mais alguns homens. Neste período foi mantido um rigoroso bloqueio a La Valletta, tendo sido apresados nove navios ou embarcações. De notar que, dois dias após a partida da Esquadra Portuguesa, a vinte e oito de Outubro, a guarnição francesa de Gozo se rendeu.
O Bloqueio de Malta (II período)
Em vinte e cinco de Agosto de 1799, Nelson nomeia, de novo, Nisa para assegurar o bloqueio de Malta. Desta vez, para além das unidades portuguesas, Nisa dispõe de três naus britânicas: “Alexander”, “Audacious” e “Lion”, todas de 74 peças. O Captain Ball, autorizado por Nelson, entregou o comando do navio ao seu Imediato e desembarcou, assumindo as funções de Comandante das Operações Terrestres, sem ficar subordinado a Nisa, como seria razoável.
Um rigoroso bloqueio a La Valletta é de novo instaurado e são desembarcados cerca de trezentos e cinquenta homens, de infantaria e de artilharia, comandados pelo já atrás citado Cap‑ten Gonçalves Pereira, que colaboram com as tropas de Malta e do Reino de Nápoles nas operações de cerco. Registam‑se diversas baixas, em combate ou por acidente, existindo referências, nos cemitérios de Tarxien e de Zejtung, à presença, entre outros, de Emmanuelle Francisco, Gonçalves Braga, Giochino Pereira e Johannes Silva, nomes que indiciam a presença portuguesa.
Em nove de Setembro é feita nova intimação de rendição ao General Vaubois, que é polidamente recusada.
Em nove de Outubro, como já atrás referido, chega o bergantim “Gaivota do Mar”, com despachos assinados a vinte sete de Julho e a um de Setembro, determinando o regresso imediato da Esquadra a Lisboa.
O Marquês de Nisa foi sensível aos aflitivos pedidos de Nelson e dos dirigentes malteses, tendo protelado por mais de dois meses, a execução das ordens recebidas de Lisboa. Com efeito, só após o desembarque de dois regimentos britânicos, vindos de Messina, é que reembarcou, a dez de Dezembro, a sua força de desembarque, largando de Malta a treze, após ter sido rendido pelo Comodore Troubridge. O “Congresso do Povo Maltês” enviou, nessa ocasião, a seguinte carta ao Marquês de Nisa:
“... são inumeráveis os motivos de agradecimento que esta fiel nação humildemente protesta a Vossa Excelência, com todo o respeito; ela renova este dever do seu reconhecimento e com unânime deliberação, o Congresso dos seus Representantes lhe envia quatro deputados, para exprimirem, a Vossa Excelência, os seus internos sentimentos...”
Conclusão
O auxílio prestado pelo Marquês de Nisa aos malteses, no início da revolta, quando poderiam ter sido presa fácil do exército regular francês, foi certamente determinante no sucesso daquela empresa. Por outro lado, ao não dar cumprimento imediato às ordens recebidas de Lisboa, mantendo‑se sob as ordens de Nelson, por mais cerca de dois meses, Nisa permitiu evitar uma quebra no bloqueio e um eventual reabastecimento das forças francesas.
Nos dois períodos em que comandou o bloqueio de Malta, Nisa e a sua força naval mostraram sempre grande determinação no cumprimento da missão: nenhum navio entrou ou saiu de La Valletta sem ser interceptado e inspeccionado, tendo sido feitos diversos apresamentos. A Esquadra Portuguesa concorreu assim, de modo significativo, para o sucesso aliado em Malta, e para a posterior rendição do General Claude‑Henri Vaubois.
O Marquês de Nisa mereceu, sem dúvida, as palavras de Nelson, algo avaro em elogios...
A conduta de Vossa Excelência grangeou‑vos o amor e a estima do Governor Ball, de todos os oficiais e marinheiros Ingleses e de todo o povo maltês; e permita‑me que junte o nome de Nelson, como um dos vossos mais ardentes admiradores, quer como oficial, quer como amigo.”
Vice almirante Alexandre da Fonseca*
*Licenciado em Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Editor e director da publicação bimestral “Revista de Marinha”. É membro activo da Academia de Marinha, Sociedade de Geografia de Lisboa e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

6.7.10

NISA: Assembleia Municipal contra portagens na A23

Recentemente, contrariando a filosofia original de promover a acessibilidade ao interior e, assim, facilitar o seu desenvolvimento, tem estado no centro do debate político nacional a instalação de pagamento na utilização de auto-estradas SCUT.
A vingarem as perspectivas mais radicais, também será abrangida por esta medida a A23, auto-estrada que constitui o percurso natural de deslocação de Nisa para Lisboa e todo o Litoral Centro e Norte do País.
Tendo em conta que os indicadores de desenvolvimento socioeconómico da região são inferiores á media nacional, e entendermos ser da mais elementar justiça a coesão territorial, sendo que esta só é real se por parte do estado, for mantida uma descriminação positiva, de forma a contrariar o êxodo das populações para o litoral.
As populações do Concelho de Nisa, Distrito de Portalegre, Beira Baixa e Médio Tejo, irão sofrer um grave atentado ao seu desenvolvimento regional, pois não tenhamos a menor dúvida que a A23 foi, e é, uma via estruturante que contribui para aproximar as populações e para, através de uma evidente melhoria da mobilidade rodoviária, se fixem novas empresas em diversas localidades da região.
Decorrendo do exposto, a Assembleia Municipal de Nisa reunida em Sessão Ordinária no passado dia 28 de Junho de 2010, manifestou por unanimidade e entendeu fazer chegar com carácter de urgência ao governo e outros órgãos de soberania, toda a sua discordância com a decisão do governo em colocar portagens na A23, entendendo que a mesma deverá ser suspensa, manifestando também toda a solidariedade para com as autarquias e movimentos de cidadãos que têm vindo a contestar esta já previsível decisão do Governo.
Nisa, 28 de Junho de 2010

5.7.10

A verdade e a mentira sobre uma inqualificável manipulação de acta

Carta apresentada na sessão da Assembleia Municipal de 28/6/2010
"Exmos senhores presidente e eleitos da Assembleia Municipal de Nisa
No dia 28 de Dezembro trouxe ao conhecimento deste órgão do município, a forma prepotente e desrespeitosa como a presidente da Câmara tinha tratado um órgão de comunicação social regional.
Li em voz alta um documento no qual explicava todo o processo de pedido e aceitação de uma entrevista à edil Gabriela Tsukamoto, a aceitação e marcação da data da entrevista e por último, a falta da mesma eleita a um acto com data e hora por ela marcado. Falei também das diligências efectuadas posteriormente para que a entrevista se efectuasse, tendo, inclusive, enviado as perguntas por e-mail e solicitado a sua resposta pela mesma via, esperançado de que seria possível, desta forma, ultrapassar o diferendo colocado pela falta de cumprimento da presidente da Câmara.
Após a leitura do documento e face à reacção intempestiva e mal-educada da presidente da Câmara, pretendi intervir novamente, o que me foi negado pelo presidente da AM, e que me levou, acto contínuo, a abandonar a sala. Foi isto que se passou na referida sessão de 28/12/2009.
Muito diferente daquilo que foi escrito e aprovado na acta respeitante a essa sessão, onde se escreve no Ponto Nº 11 - Intervenção de Munícipes, e passo a citar:
“ O Dr. Mário Oliveira Mendes, de Nisa, apresentou um documento por si elaborado e que vai ficar arquivado em pasta anexa à presente Acta, relativo a diversas questões que colocou à Câmara Municipal e sobre o qual não obteve qualquer resposta até hoje. Era sua intenção proceder, aqui e hoje, à leitura do dito documento, mas o Presidente da Mesa da Assembleia Municipal não o autorizou a tal, uma vez que do mesmo já tinha enviado, previamente, uma cópia a cada um dos eleitos deste órgão. Não concordando com esta tomada de atitude por parte do Presidente da Mesa, o Dr. Mário Mendes retirou-se da sala, visivelmente agastado, chamando de mentirosa à Presidente da Câmara e referindo que era a última vez que aqui vinha.”
Face à mentira e manipulação constante desta acta, o visado, quer esclarecer o seguinte:
1 – Contrariamente ao descrito na acta, li o documento em voz alta, documento esse que, também e contrariamente ao que escreveu quem elaborou a acta, não tratava de diversas questões, mas tão só de uma: a falta de resposta e o desrespeito manifestado pelo titular da presidência da Câmara, a um órgão de comunicação social, “O Distrito de Portalegre”, por mim representado, entrevista essa que a própria tinha acordado.Mais, o elaborador da acta, num acto vergonhoso de manipulação, escondeu o principal conteúdo do documento (revolta e indignação perante os factos ocorridos), destacando, antes, mentindo, o que não disse e que consta do ponto seguinte.
2 - Em momento algum chamei mentirosa à presidente da Câmara. As sessões da Assembleia são gravadas e pelo direito à dignidade e ao bom nome, solicito que as mesmas sejam disponibilizadas e ouvidas pelos eleitos para que verifiquem por si mesmos o alcance de tão vergonhosa como grosseira manipulação que, neste caso, atinge a esfera da calúnia.
3 – O restabelecimento da verdade já não repara os danos morais que a acta provocou, ao ser divulgada ao longo de todo este tempo, no bom estilo dos seguidores de Goebbels: “uma mentira cem vezes dita, torna-se verdade”.
4 – Face ao que deixo exposto, solicito, que a referida acta seja reformulada, no respeito pela verdade do que afirmei na citada sessão da AM e rejeitando, firmemente, uma insidiosa manobra de manipulação que visou colocar na minha boca expressões de calúnia e de difamação que não utilizei."Nisa, 28 de Junho de 2010Mário Mendes

4.7.10

NISA: MEMÓRIA(S) AUTÁRQUICA(S) - 1

Duas lembranças em forma de letra
(Proposta apresentada e aprovada por unanimidade na sessão da Assembleia Municipal de Nisa em 28 de Dezembro de 1995)
Tem o Município de Nisa, no âmbito da sua actividade cultural, procurado passar á estampa, algumas das obras mais significativas de conhecidos nisenses, numa acção editorial que não será demais salientar, embora sem a regularidade que esse tipo de investimento, a meu ver, justificaria.
Para o ano que se anuncia (1996) permito-me lembrar ao executivo municipal:
a) A “dívida”, que vamos acumulando, sobre a falta de divulgação da vida e obra de António Louro Carrilho e de José António Vitorino (ti Zé do Santo);
b) A necessidade de levantamento e posterior proposta de um plano de edições / reedições municipais contemplando as diversas áreas do saber.
Aqui e agora, por que injustamente esquecido, trago à lembrança um “livrinho” publicado no distante ano de 1942, da autoria de José Gomes Correia, um nisense já falecido e que em “Sombras que morrem, sonhos que ficam”, título do livro em referência, nos deixou um legado de poesia cristalina, sentida e bairrista (são exemplos os sonetos “Senhora da Graça” e/ou “À minha terra”) e que se torna sublime, quando, em “Meu Alentejo...” faz “renascer” Florbela, a grande poetisa alentejana.
O livro tem a edição esgotada desde há muitos anos.
Reeditá-lo, mais do que uma medida inteligente é um acto de cultura, neste caso, inquestionável.
O proponente - Mário Mendes

3.7.10

POETAS POPULARES DO ALENTEJO

Barro vermelho de Abril
Barro incerto do presente
Vai moldar-te a mão do povo
Vai dar-te forma diferente
P´ra que sejas barro novo!

A Olaria Alentejana
É de todas a mais bela,
Da mais trabalhada à mais singela
Vai ao palácio e à cabana
É conhecida a tua fama
Dos oleiros és expoente
És tudo o que o povo sente;
Tu és graça e solidez
És símbolo bem português
Barro incerto do presente

O trabalhador rural
Que anda com o corpo aos tombos
Cozinha em panela de Redondo
De norte a sul de Portugal,
Na aldeia ou na capital,
Tanto o velho como o novo
Cozinha no mesmo fogo
Barro de diversas cores,
Peças rústicas ou com flores
Vai moldar-te a mão do povo.

Tanta arte o oleiro pôs
Em obras de grande valor
Feitas com gosto e amor,
Tais como os bonecos de Estremoz
Trabalhos que o artista compôs
De maneira inteligente,
Tal como os vê e os sente
Abril amassou a revolução,
Que te alegra o coração
Vai dar-te forma diferente.

Barro com o suor do rosto amassado
Trabalho e canseiras mil
És mais vermelho em Abril,
Oleiro o teu filho fardado
Fizeste o barro molhado,
Pois foi esse homem do povo
Herói que admiro e louvo
Foi ele que afastou o perigo
Foi esse soldado amigo
P´ra que sejas barro novo!
José António Banha
- Décimas do I Encontro Regional de Olaria do Alto Alentejo
- Vila Viçosa: 4 a 15 de Junho de 1981

2.7.10

EVOCAÇÃO: O meu Avô Chaves, da honra ao carácter.

O meu Avô Chaves , como era conhecido em Nisa , era uma pessoa extraordinária como poucas mais vi no meu deambular por este mundo .
Filho como eu de Maria Augusta, porventura nome adequado à pessoa de sua mãe, como eu igualmente filho de Maria Augusta, sua filha, minha santíssima Mãe,por quem não há dia nenhum que não lembre , não chore a sua falta , não soluce como no dia da sua morte,bem como meu querido pai Joaquim Maria Castanho ( pedreiro ) cuja bondade , compreensão, amizade infinitas sempre louvarei.
Pois o meu avô Chaves , oriundo das terras de Viseu (nunca perdeu o sotaque característico apesar de tantos anos no Alentejo, e para quem minha mãe era tudo (e vive versa ), reformado da GNR, que tinha no Dr. António Granja, essa figura ímpar de médico e ser humano, um grande amigo (respeitavam-se profundamente ), era titular de uma medalha e louvor escrito da distinção de honra ao mérito, atribuída pelo Ministro da Tutela ao tempo, por ter salvo a vida de uma criança da investida de um touro bravo no Ribatejo, não hesitando em cobri-lo com o seu corpo com grave risco da sua própria vida, acabando por sofrer uma investida do touro que lhe perfurou o rosto (doc. que possuo mas que não consegui localizar hoje para aqui transcrever ).
Esse valente era o meu Avô Chaves aquele mesmo homem de uma integridade moral e nobreza sem limites que o levou a ser procurado desesperadamente em Nisa, na Ribeira do Porto de Arês ( creio ), onde pescava, para prestar testemunho abonatório de um grande amigo, seu antigo Comandante, preso por razões políticas, e a ser julgado no Tribunal Plenário de então.
Podia lá meu Avô faltar com a ajuda a esse seu grande amigo, e prestando depoimento perante as blagues de um ronceiro senhor Juiz Conselheiro, o meu Avô olhou-o fixamente uns instantes, com o seu olhar cortante, ( ... “o senhor também é militar” ... lembrava o conselheiro, a amedrontar a testemunha ), e repetiu mais alto e ainda de forma mais audível e mais uma vez , para nada mais acrescentar, o extraordinário depoimento que já levava consigo, em respeito e defesa de um amigo, seu saudoso comandante, a quem competia naturalmente ajudar.
Afundou-se na cadeira e calou-se o afadigado Juiz Conselheiro sem mais vontade para brincadeiras.

Nisa - Porta de Montalvão (1957
É que meu Avô gostava pouco de brincadeiras com coisas sérias, a esses ele ridicularizava com a maior das facilidades.
Por fim e para sua desgraça o meu Avô, vejam lá... tornou-se amigo de um senhor inglês que costumava passear com ele como uma sombra (o Senhor Parkinson), e conhecendo nós a anedota, exagerada claro, de um determinado político não poder ganhar as eleições para PR por causa de ser uma pessoa de certa idade e ter dois grandes amigos (um inglês Parkinson e outro alemão Alzheimer, o homem até parece que não tem isso...) vejam lá o drama e sofrimento deste meu avô, de ter esse tal inglês um tal Parkinson como amigo inseparável, e não é que um dia sorrateiramente também como uma sombra se faz meu amigo, e não me deixa nem de dia nem de noite....
Oh Avô... e dizia a mãe que eu era o neto que me identificava mais contigo, perdoem-me o meu irmão e primos o exagero, mas esse tal de Parkinson, nosso amigo comum com João Paulo II, é mesmo um mal ou doença muito perturbadores.
O que não é concerteza exagero é a tua subida honra ao carácter ser mais ajustada que a honra ao mérito que te foi atribuída, e que te queria entregar, com todo o amor de um neto, perante a grandeza de tal homem, com tal carácter.
João Castanho

1.7.10

Ricardo Mateus: Novo título nacional

O atleta nisense, Ricardo Mateus, em representação do Sporting Clube de Portugal, conquistou no passado fim-de-semana o título de campeão nacional dos 5 mil metros no escalão Sub 23.
Há 15 dias, Ricardo Mateus tinha ajudado o Sporting, a vencer o campeonato nacional de clubes (I Divisão) com uma vitória nos 3 mil metros.
Em boa forma no final da época desportiva, Ricardo Mateus promete uma nova época ainda com melhores resultados, uma vez que já venceu o período de adaptação às exigências da alta competição.
Para o atleta nisense, Ricardo Mateus, endereçamos os votos de uma temporada “atlética” em grande, confirmando as expectativas que fizeram dele um corredor de eleição.