31.3.18

OPINIÃO: Resíduos no fundo do Tejo e a semântica do Ministério do Ambiente

A operação de limpeza dos 30 mil metros cúbicos de resíduos existentes no fundo do Tejo, na albufeira do Fratel, prevê o seu depósito e tratamento prévio (desidratação) num terreno situado no coração da Área Protegida do Monumento Natural da Portas de Ródão, encostado ao Tejo e na faixa de proteção do mesmo.
No entanto, o Decreto-Regulamentar n.º 7/2009, de 20 de Maio, que regula esta Área Protegida, estabelece no seu artigo 6.º, alínea e), que é interdito o depósito de resíduos em qualquer local que nela esteja inserido.
O problema é que o Ministério do Ambiente, quando estudou as localizações possíveis para depositar e fazer o pré-tratamento destes resíduos, não incluiu como critério de exclusão a inserção do local numa área protegida onde essa atividade é proibida.
Aqui chegados, começámos a assistir a um exercício de semântica, por parte do Ministério, a todos os títulos notável.
Em primeiro lugar, depois de ter passado semanas a designar por “sedimentos” os resíduos depositados no fundo do Tejo, o Ministério do Ambiente lá veio dizer que afinal se trata de resíduos, mais propriamente lamas. As quais, para sermos mais precisos, são lamas de dragagem com elevado teor de matéria orgânica em decomposição, classificadas com o código LER 17 05 06 da Lista Europeia de Resíduos, isto acreditando nas informações da APA de que se trata de resíduos não perigosos.
Ora, se são mesmo resíduos, então não os podemos depositar na Área Protegida, certo? Errado!
Pelo menos para o Ministério, que agora vem dizer que não vai depositar as lamas, mas sim armazená-las. Assim, para escapar ao termo “depósito”, as autoridades usam o termo “armazenar”. Mas como é que se pode armazenar um resíduo sem previamente proceder ao seu depósito?
Bom, mas a coisa complica-se ainda mais. Como um armazenamento implica um depósito, então o Ministério vem dizer que afinal se trata de um “armazenamento temporário com carácter transitório”.
No entanto, o Decreto-Regulamentar desta Área Protegida não fala em depósito temporário ou permanente de resíduos, diz apenas que o depósito é proibido, ou seja o depósito de resíduos é sempre proibido. Aliás, a criação do conceito de “depósito temporário de resíduos em local proibido” é um precedente perigoso, pois daria muito jeito a quem costuma descarregar ilegalmente resíduos pelo país, que, quando fosse apanhado pelo SEPNA, diria candidamente:
- Mas, senhor agente, este depósito é apenas temporário!
De referir que, em desespero de causa, o Ministério também já veio dizer que afinal os resíduos vão ser “pousados” no local.
Finalmente, e se quisermos continuar este exercício de semântica, aqui vão mais algumas sugestões de sinónimos para o Ministério do Ambiente:
- O depósito de resíduos na Área Protegida do Monumento Natural das Portas de Ródão está vedado, não é autorizado, é proibido, é interdito, é ilegal, é ilícito, é ilegítimo e está sujeito a coima.

30.3.18

OPINIÃO: Incompetência ou maldição?

A fábrica dos Robinson ou fábrica da rolha foi ao longo de quase dois séculos um factor de modernidade e desenvolvimento de Portalegre e, sempre, a principal empregadora dos portalegrenses.
Foi-o desde a sua fundação por George Robinson pai em 1840 e principalmente durante a gestão de George Robinson filho e continuou a sê-lo durante várias décadas quando em 1940 a família Robinson se afastou da empresa e esta passou para a posse duma sociedade de capital português.
Desde a fundação até à década de 80 do século passado a Robinson continuou a garantir emprego a um número significativo de famílias portalegrenses e a levar o nome de Portalegre aos vários continentes mesmo quando as rolhas já haviam dado lugar a novas aplicações na construção civil e na aeronáutica.
 Quando a democracia política abriu portas ao regresso dos “velhos senhores”, os “chico-espertos” iniciaram o processo que em diferentes áreas e a coberto do poder político de então, haveriam de abrir caminho ao refazer dos monopólios.
No sector corticeiro também foi assim. No processo de alianças, as aquisições e concentrações criaram o monopólio no sector deixando de fora, por vontade ou não das que ficaram, algumas empresas detentoras de know-how, de clientes, mas necessitadas de mudanças estruturais que os novos tempos impunham.
A Robinson foi das que optou por não se deixar absorver e era no final do século passado “um sobreiro” com trabalhadores dedicados, know-how, clientes fiéis em vários continentes mas totalmente cercada por “árvores de outra qualidade” que assumiu morrer de pé. No sector, passou a nome maldito.
O nome “maldito” colou-se à Fundação que visava manter viva a cultura operária e doar à cidade um espaço de memórias e de futuro e ainda perpectuar a industria corticeira em Portalegre.
O mesmo viria a suceder com uma nova empresa, a Robcork, anunciada em 2009, com o objectivo de continuar a Robinson, mas inaugurada apenas em 2015 e já encerrada.
 Que se saiba, esta empresa nem sequer arrancou com o processo produtivo. Viu ser-lhe declarada a falência em Janeiro deste ano. O Estado Português, detentor de 95% dos créditos da Robcork, recusou a proposta de viabilização apresentada e impôs a falência da Empresa.
É maldição? É incompetência? Os culpados serão sempre entidades e pessoas exteriores à cidade e à região?
Claro que não! Muitas das responsabilidades de chegarmos ao estado actual podem e devem ser encontradas no nosso território, entre decisores políticos e gestores de empresas e instituições mas, reconhecendo-o, é fundamental não perdermos a perspectiva do porquê e quem deve assacar com o principal dessas responsabilidades.
Em relação à Corticeira Robinson está há muito identificada a “culpa”, a qual se deve às alterações estruturais necessárias e que não foram encetadas e à própria autarquia que não soube ou não quis garantir com a necessária agilidade a transferência da fábrica para instalações com as condições necessárias.
Também em relação à Fundação são conhecidas muitas das razões e particularmente as que se prendem com a incapacidade financeira e política da sua principal/única proprietária.
E a Robcork? Talvez também consigamos intuir. Mas é preciso que quem “esteve por dento da coisa” venha explicar o que na verdade se passou. E que não venham com o “paleio” de que se trata de um investimento privado e que, por isso, não tem nada a explicar senão aos seus accionistas.    Naquele investimento privado estão (pelo menos 12 milhões de euros) que serão pagos pelo pagador do costume.
Aguardemos.
Diogo J. Serra

29.3.18

DEFENDER O AMBIENTE: As Portas de Ródão e o Conhal não são a latrina das celuloses!

Concentração no Largo dos Pelómes, Arneiro, dia 31/3, Freguesia de Santana - Nisa.
Manifestação contra o depósito de lamas Poluentes, nas Portas de Ródão
Esta manifestação não é nada mais, nada menos, do que proteger a nossa aldeia das lamas poluentes que estão no fundo do nosso Tejo.
Queremos que o nosso monumento natural continue a ser visto como um ponto turístico, e não como um depósito de Lamas Poluentes de um Tejo poluído não sabendo bem como nem porquê?!
Contamos com vocês, com cartazes, contra a indiferença e o respeito em relação à nossa comunidade e ao nosso património natural (Portas de Ródão e Conhal) e cultural.
Lamas Poluentes nas Portas de Ródão NÃO!!! Vamos proteger o que é nosso!
Manifestação / Concentração organizada por um movimento de cidadãos o com apoio da AZU (Associação Ambiente das Zonas Uraníferas).

ALERTA: Alpalhoeiros e Tolosenses são portugueses!

Diz o povo na sua ancestral sabedoria: "tanto anda até que chega!". Chegou. No dia 1 de Abril, o Dia das Mentiras e do festival pimbólico com o nome de "Somos Portugal" ( e eu a julgar que era catalão!!!) Alpalhão e Tolosa são, finalmente, "portugueses" e "nisenses" (do concelho de Nisa). Até aqui, em dias de feiras, não tinham direito ao transporte municipal que generosa e eleitoralmente era oferecido aos habitantes das restantes freguesias do Município. "Oferecido" é uma maneira de dizer. Ninguém oferece nada a ninguém, nem mesmo aqueles que dizem "trabalhar para as (algumas) pessoas". O que os munícipes recebem da autarquia (uns mais do que outros e até nisto há discriminação) não é mais do que uma pequena parcela das contribuições e impostos que pagam durante o ano, durante uma vida. Mas, voltemos com a faca ao queijo: foi preciso um festival pimba, do mais reles que há a nível televisivo - mas que dá um jeito brutal para a propaganda - para que o autocarro municipal, que é de todos, fosse (seja) posto à disposição de alpalhoenses e tolosenses.
O PPEC (Processo Propagandístico Em Curso) pago com o dinheiro dos contribuintes, serve para os detentores do poder, mostrarem, de quando em vez, as mãos largas. O povo, sereno e ordeiro, só tem que agradecer as graças recebidas e não esquecer, na hora do voto, a "carantonha" de quem, tão generosamente, lhes dá a festa e os bolos. Bolos que, bem dizia o Baptista Bastos, "isto anda tudo ligado", não apareceram no famoso dia 28 de Março (ontem) data há mais de um mês anunciada para a inauguração da Casa do Forno. Por que falhou a inauguração ninguém sabe. 
A Câmara tão prolixa a ocupar as páginas de facebook na propaganda com o que fez, pensa fazer e não fez, não tem meia dúzia de linhas para explicar o adiamento da abertura de tão importante obra.
Há quem diga que não havia chamiços para pôr o forno a arder. Outros, dizem que adiaram a inauguração para poder vir cá o Ministro do Ambiente para indagar se os cheiros das lamas que quer depositar no Conhal (uma importante missão de interesse nacional) chegam a Nisa.
O problema há-de ser, certamente, outro. Com a revolução em curso no centro histórico e as obras a granel, anunciadas há mais de um ano (e que ainda não tiveram início) terá havido alguma anomalia "técnica" que não foi resolvida a horas. São coisas que acontecem e muitas delas nem chegam à praça pública (ai se chegassem, havia "cobras e lagartos"...), mas já em 2015, a Câmara anunciou um programa de homenagem ao poeta popular Ti Zé do Santo. Não houve sessão, não houve explicação e a evocação do Ti Zé do Santo foi remetida para as calendas. Diga-se, a propósito, que o Ti Zé do Santo, falecido em 2005, era um homem "esquisito". Tinha ideias, ideias forjadas numa vida dura, de onde lhe vinham, em barda, quadras e décimas sobre a vida, o mundo, a crítica social. Era um tipo assim para o "vermelhusco". E este "carimbo" na actual "conjuntura política" local é um problema dos diabos. Incompreensível, penso eu, quando se tem, a nível nacional, um governo sustentado pelos partidos da Esquerda. 
Estamos na Semana Santa, acho que já me alarguei um pouco, porque falava dos alpalhoeiros e dos tolosanos, do transporte que lhes é "oferecido" para o festival pimba. Eu não sou muito religioso, mas quase que me atrevo a acreditar que "deve ter caído um santo do altar".
Saúde e Fraternidade.
Mário Mendes 

28.3.18

Postais que pedem encerramento da Central Nuclear de Almaraz chegam ao Governo


O Partido Ecologista Os Verdes entregou hoje cerca de 5 000 postais, assinados pelas populações dos concelhos fronteiriços e ribeirinhos do Tejo, nomeadamente dos distritos de Castelo Branco, Portalegre, Santarém, Setúbal e Lisboa, pedindo o encerramento da central nuclear de Almaraz. A voz das populações chegou assim, pela mão de Os Verdes, ao governo!
Estes postais decorrem de uma campanha lançada pelo PEV, que recolheu um amplo apoio das populações destes concelhos, que, tal como Os Verdes, consideram que a central nuclear de Almaraz representa um perigo real para o nosso país, tanto mais que esta já ultrapassou, em mais de 10 anos, o prazo previsto de funcionamento.
Esta entrega foi feita ao Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, tendo contado com a presença de 3 elementos do Partido Verde Europeu, para quem a luta pela desnuclearização na Europa é também um combate importante.
Os Verdes irão agora entregar um outro conjunto de postais, assinados na mesma campanha, dirigidos ao chefe do governo espanhol, na Embaixada de Espanha em Portugal.

O Partido Ecologista “Os Verdes”

27.3.18

BENAVILA: GNR recupera objetos furtados

O Comando Territorial de Portalegre, através do Posto Territorial de Avis, ontem, dia 23 de março, na localidade de Benavila, recuperou material furtado na Ludoteca do Ervedal.
Durante uma ação de policiamento preventivo desenvolvido naquele concelho, foi detetada uma viatura suspeita, que no momento da abordagem por parte dos militares da GNR se colocou em fuga.
Considerando que o proprietário do veículo estava referenciado pela prática de outros crimes e diversas contraordenações, os militares desenvolveram diligências que culminaram com uma busca domiciliária à residência do suspeito, onde foi recuperado diverso material furtado na Ludoteca do Ervedal, nomeadamente, um computador, uma bateria e ferramentas diversas.

OPINIÃO: A cultura em submarinos

Por ano, o Estado gasta com a manutenção de dois submarinos de utilidade duvidosa mais de metade do que investe nos concursos de apoio à criação artística. O setor está zangado, e tem todas as razões para isso. Do Governo de PSD/CDS pouca gente esperava mais que o pior, e foi isso que foi entregue, com a liquidação do Ministério e de uma parte do já magro orçamento da cultura. Mas o Governo de António Costa criou expectativas, fez juras de apoio às artes, fez regressar o Ministério e, em jeito de golpe final, chamou Miguel Honrado - um homem do setor - para secretário de Estado da Cultura.
Depois de um longo processo de consulta, e de quase dois anos de espera para abertura dos concursos no âmbito do "Novo modelo de apoio às artes", Honrado conseguiu, como resultado, "um momento sofrido para o setor artístico". Há, apesar de tudo, uma diferença, afirma, é que os atrasos de seis meses do anterior Governo foram agora reduzidos para quatro. Como se a precariedade não fosse cumulativa, e o objetivo do novo modelo não fosse precisamente acabar com os atrasos. Para centenas de companhias estes atrasos significam programar sem saber se serão financiadas; significa não renovar contratos e manter trabalhadores em suspenso; significa endividarem-se (muitas vezes a título pessoal) para poder continuar a ter um horizonte de criação.
Mas a falha não é apenas procedimental. O novo modelo tem perversões, nomeadamente quando coloca estruturas públicas, como os teatros municipais, a concorrer aos mesmos financiamentos que companhias independentes. Acima de tudo, e independentemente de qualquer outra consideração, as verbas são comprovadamente insuficientes para um setor que há anos vive no fio na navalha. Só uma parte dos resultados concursais é conhecida, e já se sabe que o trabalho de estruturas artísticas incontornáveis está comprometido por falta de financiamento. O júri da DGArtes é claro: a verba não chega para os mínimos.
A esse propósito, disse Miguel Honrado que o Governo continua apostado "na correção dessa trajetória", mas que tem que "lidar com os constrangimentos macroeconómicos". Um dia depois, Mário Centeno apresenta um défice de 0,9% em 2017. Ou seja, 1000 milhões abaixo da última previsão (no Orçamento para 2018), se usarmos os dados do PIB de 2017.
O ator Nuno Lopes disse o que era preciso ao receber o prémio Sophia: "A cultura é uma responsabilidade do Estado", tanto quanto a educação, a saúde ou a segurança, acrescento eu. Não queiramos acordar um dia num país pequenino que não se consegue pensar ou imaginar fora do seu próprio obscurantismo.
Ainda há tempo, e as exigências são tão simples quanto justas: corrigir as lacunas deste concurso, mudar as regras dos próximos e reforçar as verbas do próximo ano.
Mariana Mortágua in “Jornal de Notícias” – 26/3/2018

24.3.18

Escolas em Elvas : As necessidades são permanentes, os trabalhadores são precários!


Na sequência da Campanha promovida pela Direcção Regional do Alentejo do Partido Comunista Português de combate à precariedade e em defesa da Escola Pública Gratuita e de Qualidade, a Comissão Concelhia de Elvas do PCP, distribuiu um documento e realizou uma reunião com a Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas nº1, para transmitir a posição do PCP e verificar os problemas e carências existentes,  das quais se salientam:
- A necessidade permanente de pessoal que deve ser satisfeita através da contratação de funcionários com vínculos estáveis, factor determinante para o bom ambiente escolar e reforço da Escola Pública;
 - A urgência de dotar as Escolas Públicas dos meios e condições necessárias, para o cumprimento do papel fundamental na formação das crianças e jovens nomeadamente alargando a atribuição gratuita de livros e dos manuais escolares;
- A promoção de uma política educativa que assuma a educação como um valor estratégico fundamental para o desenvolvimento do País.
Da parte da Comissão Concelhia do PCP foi assumido o compromisso de fazer chegar esta informação  ao seu Grupo Parlamentar, para que seja colmatada a carência de funcionários auxiliares de educação e  seja posto fim ao uso abusivo de trabalhadores precários para suprimir estas necessidades de carácter permanente,  o que não satisfaz nem  os professores, pais e alunos nem  próprios trabalhadores.
A Comissão Concelhia de Elvas do PCP

23.3.18

PORTALEGRE - Caminhada pela Floresta 2018

O Comando Territorial de Portalegre, no dia 29 de março, pelas 09H20, em Besteiros de Cima-Alegrete, realiza uma “Caminhada pela Floresta”, de dez quilómetros, com início e términos  no Largo da Folha do Meio, contando ainda com uma  passagem pela Ermida da Nossa Senhora da Lapa.
Associado à comemoração do Dia Mundial da Árvore e da Floresta, esta iniciativa pretende fomentar condutas de respeito pela natureza e pelo ambiente junto da população, assim como, despertar consciências para a riqueza do vasto património florestal nacional e para a problemática dos incêndios florestais.
Os interessados podem inscrever-se através do e-mail ct.ptg.sepna@gnr.pt ou por telefone (245609320), até ao dia 26 de março.

21.3.18

Dia Mundial da Poesia – P´ra não dizer que não falei das flores

A canção de Geraldo Vandré, celebrizada pelo próprio, pelo Chico Buarque e tantos outros cantores brasileiros, tornou-se um hino contra a ditadura militar que sufocava o Brasil. O “falar das flores” convocava, em mensagem simples e directa, à união dos brasileiros e ao combate à ditadura pela Liberdade.
Hoje como ontem, no Dia Mundial da Poesia e no ano em que se evocam os 50 anos do Maio 68, tornou-se, de novo, imperioso e urgente, falar das flores e lembrar a Liberdade, a conquista de direitos, entre estes, o de expressão, de reunião e de associação.
A cantiga é uma arma, sem balas, sem mortes, sem violências. Tal como a poesia que lhe dá sentido e vida. Há quem pretenda, mesmo ao nosso lado, que a Poesia seja um hino de exaltação do Poder e da Prepotência, a negação da vontade dos cidadãos.
Anuncia-se a feitura de um livro de poesia “popular”, mas no qual não cabem todos os poetas populares, do concelho, vivos. Uns, porque são “eruditos”; outros, porque já publicaram um livro; outros ainda porque têm caras esquisitas e modos extravagantes. São os poetas malditos, sem aspas nem sufixos. Não se vergam aos ditames de um poder que, como todos os poderes, é provisório. São excluídos porque mantêm a coluna vertebral direita, assumem a sua liberdade e militância política. São, na sua essência, “vermelhuscos” para a alcaidesa que quer subjugar o concelho. São discriminados por um poder que não tem uma política cultural, que recusa a cedência de salas municipais (de todos os munícipes e não propriedade da edil) para a realização de actos culturais e que, a nível editorial, recusa a uns, o que dá de mãos largas a outros (amigos).
E tudo isso é feito em nome da defesa do “Património” e da “Cultura”.
Parece seguir os "ensinamentos" do outro: “quando ouço falar em c(o)ultura puxo logo da pistola”.
Hoje, como ontem e amanhã, cantaremos os poetas da Liberdade. Os poetas malditos que, por serem “malditos” tiram o sono e atormentam as consciências dos poderes que apregoam a rectidão, mas praticam, deliberadamente, uma política de discriminação e afrontamento.  
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam antigas lições
De morrer pela pátria e viver sem razões

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer


NISA: Programa das celebrações da Semana Santa


20.3.18

Alpalhão com dadores de sangue





Sábado nada convidativo para se sair de casa, mas o certo é que dadores não faltaram em mais uma iniciativa da Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Portalegre – ADBSP – que decorreu no concelho de Nisa, mais precisamente em Alpalhão. Até à sede do Grupo Ciclo Alpalhoense rumaram 37 pessoas, das quais 14 do sexo feminino.
Mas para se doar sangue não basta apenas proceder-se à inscrição, pois os dadores têm de estar em concordância com os vários parâmetros universais referentes a esta solidária prática. Em Alpalhão sentaram-se, na cadeira de dador, 30 voluntários, o que é de se destacar.
Um jovem doou sangue pela primeira vez. E o Registo Nacional de Dadores Voluntários de Células de Medula Óssea passou a contar com mais uma inscrição.
O almoço convívio foi servido num restaurante desta simpática localidade e contou com o apoio da Junta de Freguesia de Alpalhão.
07 de abril em Arronches
As colheitas da ADBSP são em sábados da parte da manhã, numa parceria com o serviço de Imunohemoterapia do Hospital Doutor José Maria Grande. O melhor é anotar as datas das nossas brigadas a realizar em abril: sábado 07 na sede do Rancho Folclórico de Arronches; dia 21 nos bombeiros de Sousel.
https://www.facebook.com/AssociacaoDadoresBenevolosSanguePortalegre/ é um espaço especial que deve visitar.
Dar sangue é importante: participe. Deixamos a todos fraternos desejos de uma Feliz Páscoa 2018!

JR

Nisa assinala o Dia Internacional da Floresta


OPINIÃO: Marx não é fado

Marx faz 200 anos. Lê-lo, querer compreendê-lo, é um projeto difícil e frequentemente aborrecido. Talvez esse facto tenha contribuído para a proliferação das suas várias interpretações caricaturais, mais maldosas ou messiânicas, conforme o interlocutor. Não há, em nenhum dos três volumes do Capital, encontro marcado com o fim do sistema capitalista. Há, sim, fragmentos que formam a sua mais lúcida e desassombrada análise.
Já outros clássicos, como Adam Smith e David Ricardo, tinham percebido que só o trabalho transformava matéria em mercadorias com valor. Mas foi Marx que expôs o verdadeiro esqueleto social do processo produtivo: o trabalho que produz é incorporado nas mercadorias mas alienado de quem o despendeu, e essas mercadorias - apropriadas por quem controla o processo produtivo - ganham uma existência própria. Individualmente, os trabalhadores são anulados num processo cujas regras lhes são alheias e, ao mesmo tempo, as mercadorias e os mercados por eles criados surgem como entidades de vontade e poder (veja-se como os "mercados financeiros" são caprichosos).
Ao contrário da mais básica premissa da teoria neoclássica, o sistema económico não é feito de pessoas indistintas com igual poder entre si. Há, objetivamente, quem apenas produza, e há quem seja dono desse processo. Sim, duas classes, uma trabalhadora e outra capitalista. A última não inicia o processo produtivo por achar que o Mundo precisa de mais bens e serviços, mas com o objetivo de os vender, e assim realizar em lucro a mais-valia obtida no processo produtivo. E a acumulação desse lucro é o que faz este Mundo rodar.
Mas a acumulação capitalista é um processo cheio de contradições. Quanto mais depressa acontece mais difícil é encontrar a procura (consumo e investimento) que sustente as taxas de lucro. Sobretudo num contexto de estagnação salarial e desigualdades, como tem vindo a acontecer desde os anos 70, depois do esmagamento das conquistas laborais do pós-guerra. A dívida e a finança têm suprido essas dificuldades: permitem aos trabalhadores consumir acima do seu salário, dando ao capital o que produzir e onde investir; absorvem a "liquidez" existente e multiplicam-na, alavancando-a em dívida, investida em lucrativas atividades especulativas. Não é por acaso que as grandes multinacionais hoje são também gigantes financeiros.
Mas um sistema dominado pela finança e pelas desigualdades é, além de socialmente injusto, economicamente instável. As crises do capitalismo não são nem percalços nem prenúncios do seu fim. São elementos estruturais de um sistema intrinsecamente contraditório e em permanente mutação, desde o tempo em que Marx o analisou.
Determinismo é achar que o capitalismo é o fim da história, o nosso fado. E Marx não é fado, é compreensão do presente e futuro por construir.
Mariana Mortágua in "Jornal de Notícias" - 20/3/2018

19.3.18

EFEMÉRIDE: As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

Mário Quintana, in 'Esconderijos do Tempo'

NISA: Feira do Livro na Biblioteca Escolar


HOMENAGEM: Meu Pai

Pai, hoje é mais um dia de todos os dias em que é pai, o meu pai. Por isso, quero desejar-lhe um Feliz Dia do Pai!
Quero dizer-lhe que está sempre presente no meu pensamento e no meu coração.
Pai, obrigado por todas as vezes em que me disse não, antes eu não compreendia, mas hoje sei que tinha sempre razão!
É com enorme gratidão Pai que lhe agradeço por todas as vezes em que me deu a mão e acredite que tudo o que fez por mim, nada foi em vão… eu sei que era de coração!
Pai, o seu olhar, o seu sorriso e os seus abraços estão sempre na minha memória guardados e vão ser sempre lembrados… e se há coisas que me tenha negado isso faz parte do passado, pois hoje sei que me queria apenas do seu lado!
E é por isto e muito mais que lhe digo obrigada, e que tenho muito orgulho em que seja o meu Pai!
Dedico em especial ao meu Pai, Manuel Nunes da Conceição, bem como a todos os Pais.

                    Ana Paula Mendes Nunes da Conceição Horta.

18.3.18

NISA: Convívio onomástico dos José(s)


Agrupamento de Escolas de Nisa presente em Alter do Chão no projecto Con.Raízes

O Agrupamento de Escolas de Nisa, através da Biblioteca Escolar, vai participar no projeto Con.Raízes, organizado pelas Bibliotecas Escolares de Alter do Chão, Crato e Nisa .
Este é um projeto interconcelhio de recolha e recriação de manifestações do património cultural nos concelhos de Alter do Chão, Crato e Nisa e tem como objetivos:
- Valorizar o património cultural local.
- Recolher manifestações do património cultural local.
- Contribuir para a salvaguarda da memória dos usos e costumes de uma população.
- Valorizar a transmissão do património imaterial local às novas gerações.
- Valorizar e desenvolver a oralidade.
- Desenvolver o gosto pela leitura e pela escrita.
- Promover o convívio entre alunos dos diferentes concelhos envolvidos.
Após a recolha de lendas locais, dos respetivos concelhos, cada turma fez a recriação de uma lenda com recurso à expressão plástica, dramática, musical(…). No caso do nosso Agrupamento, o Clube de Teatro, trabalhou a Lenda da Safra da Moura, de forma a integrar este projeto.
O produto final será apresentado / partilhado com os outros concelhos / grupos de alunos envolvidos, no dia 20 de Março de 2018, na EPDRAC.

17.3.18

União das Freguesias de Nisa promove Férias Activas de 26 Março a 6 de Abril

TRABALHO COM DIREITOS: Trabalhadores/as das cantinas nos hospitais voltam à luta

Os trabalhadores e trabalhadoras das cantinas nos Hospitais de Portalegre e Elvas vão manifestar-se junto à porta do Hospital Dr. José Maria Grande em Portalegre para exigirem que a ULSNA – Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano assuma as suas responsabilidades na garantia das condições de trabalho a estes trabalhadores.
A concentração terá lugar no próximo dia 19 de Março (segunda-feira) com início às 11, 30 horas.
Esta acção insere-se também na greve nacional dos trabalhadores das cantinas que nesse dia e pelas mesmas razões (condições de trabalho dignas) ocorrerá em todo o país.

O Departamento de Informação da USNA/cgtp-in

ALPALHÃO: Hoje foi dia de Festa





Este traje de Alpalhão
É um traje muito nobre
Usado por toda a gente
Do mais rico ao mais pobre

É usado com orgulho
Nos dias de romaria
Juntando-lhe as peças d´oiro
Para nos dar mais alegria.

Todas os mandam fazer
Com muitas dificuldades
Mas é um traje que se sente
E dos nossos antepassados

Parecemos umas roseiras
Das rosas que os trajes têm
Com nossas saias bordadas
E nos lenços também

São umas mulheres de arte
As nossas alpalhoeiras
Dando assim os parabéns
A todas as bordadeiras

Alpalhão é nossa terra
Nascida com esperança
Desejo que nós temos
Desde o adulto à criança.

16.3.18

ALPALHÃO: Lançamento dos livros de Manuel Pedro Dias


Congo: Aos terços e bíblias opõem-se as armas

O padre Constantino fica satisfeito com a ajuda de todos os cristãos ao Congo
Nasceu e cresceu num lugar onde a Igreja sempre teve um papel preponderante, mas hoje, às manifestações religiosas o governo responde com balas.
Constantino Buapale Malu, ou padre Constantin, como se apresenta, é um dos três sacerdotes missionários, da Congregação do Verbo Divino, a exercer o seu ministério pastoral em Nisa, na Diocese de Portalegre e Castelo Branco. Partilha esta missão, in solidum, com os também missionários Joaquim Valente e Jomy Jonh. Nasceu em Mikalayi, na Província do Kasai-Ocidental, na República Democrática do Congo. Chegou a Portugal em 2004, com uma parte da licenciatura em filosofia na bagagem, tendo feito cá a parte da teologia, na Universidade Católica. Acabou os estudos em 2008 e foi ordenado diácono em 2009. Em 2 de maio de 2010 foi ordenado padre, em Kinshasa, na presença daa família. O trabalho missionário apontou-lhe novamente o caminho de Portugal, onde começou a trabalhar no distrito de Castelo Branco, no Tortosendo. Em 2013 foi destacado como pároco in solidum para a paróquia de Prior Velho, em Lisboa, e desde 2016 que foi nomeado para Nisa.
Ser missionário é ser cidadão do mundo, e, neste momento, a casa do padre Constantino é Nisa, mas o coração e a preocupação continuam na casa natal, onde o governo, para se manter no poder e não marcar eleições, começou por fazer braço de ferro com a oposição, mas acabou a perseguir a Igreja, entidade que sempre teve um papel preponderante naquele país, tendo inclusive sido chamada a mediar um acordo entre governo e oposição.
O acordo fez-se, mas não saiu do papel, e agudizou-se com a morte do chefe da oposição. "A Igreja manifestou o seu desagrado, defendendo que o povo devia tomar a decisão nas suas mãos", conta, lembrando que, nesse sentido, o conselho laico dos cristãos organizou três manifestações, em que morreram sempre muitas pessoas, mas na última, em janeiro, o cardeal do Congo (que faz parte do conselho papal) disse: Os medíocres saiam e deixem lugar àqueles que têm capacidade para governar o país". Uma frase que teve o efeito de "uma explosão" e que já resultou na morte "de muitas pessoas, muitos padres, muitas freiras. Os militares vão às igrejas, com armas, e matam as pessoas. O terço e a bíblia são as armas dos cristãos nas manifestações às quais os miliares respondem com as armas de fogo". Não concordar com o governo significa poder morrer. "A vida do povo congolês e a dimensão da ação da igreja despertou o interesse de muitas pessoas no mundo, incluindo da Igreja Universal, com o próprio Papa Francisco a fazer um apelo a todos os cristãos para rezarem pelo Congo", recorda ao Reconquista. "Sou congolês, mas neste momento a minha casa é Nisa. No Congo sou uma visita", reitera, considerando viver a sua atual pastoral num ambiente calmo, próprio dos territórios desertificados do interior, mas "a realidade da pastoral, as dificuldades, acabam por ser as mesmas em todas as paróquias. A nossa missão é encontrar soluções para superar essas dificuldades". Contudo, estas dificuldades com que se cruza atualmente no Alto Alentejo, contrastam com as da República Democrática do Congo. "Portugal é um país democrático, que estabeleceu linhas de conduta entre o Estado e a Igreja e cada uma das partes respeita as suas prorrogativas, ao contrário do seu país. O Congo tem uma dimensão gigantesca. A guerra no leste do país, que envolve não só os rebeldes congoleses, como outros de países vizinhos, alastraram-se até ao centro". E neste universo, "as crianças são as mais martirizadas", uma realidade na província de Kasai Ocidental, motivada pela morte de um soba, em 2016, pois as suas milícias continuaram a luta e o governo acredita que as crianças e jovens são portadores de um "feitiço", para matar os soldados. Então, "o Governo mandou matar inocentes, sobretudo as crianças, por acharem que eram os que tinham um poder natural sobre eles". No ano passado visita a sua cidade e constatou que o ambiente é catastrófico. "Vi muitas crianças órfãs, muitas viúvas abandonadas, falta de comida, tanto que os Médicos Sem Fronteiras, além da saúde, ajudam as pessoas a encontrar o que comer e o que beber". A situação não está bem, "pelo que o Papa pediu para todos rezarem pelo povo congolês. Mas também a nossa Diocese se interessou por esta situação e o donativo para ajudar a criar um Centro de Saúde para ajudar as crianças que já não têm ninguém para cuidar delas e sofrem de má nutrição é muito importante". Pode ser apenas uma gota no ma de ajuda que se precisa, mas todas são bem vindas. "O desejo é que os cristãos vivam a caridade entre eles, mas não só, porque a caridade começou com a Igreja no segundo século, e esta é uma maneira também de contribuirmos, porque não sofremos na pele aquela atrocidade, mas sofremos no coração, daí o contributo como irmãos.
AJUDA 
Recorde-se que o bispo de Portalegre e Castelo Branco anunciou que, este ano, 75 por cento da renúncia quaresmal da Diocese será doada à Arquidiocese de Kananga, Província do Kasai Central, na República Democrática do Congo, e ao Fundo Social Diocesano, gerido pela Cáritas, para ajudar a construir um Centro de Saúde na Arquidiocese de Kananga. D. Antonino Dias explicou que o é, sobretudo, “socorrer as crianças roubadas às famílias” e que foram usadas como soldados ou que perderam os seus pais na guerra. O restante valor desta partilha solidária dos fiéis da Diocese, recorde-se, vai reverter para o Fundo Social Diocesano que é gerido pela Cáritas e que “prestou todo o seu apoio à reconstrução”, e a outros gastos inerentes, de 14 casas de primeira habitação que arderam nos incêndios do verão de 2017, na zona do Pinhal.
Quanto aos gestos solidários, são consubstanciados no dom da fé que "não espera recompensa para dar o passo, não exige retribuição para se comprometer. Ao dom recebido responde sempre com a entrega confiante. É motivação, confiança, liberdade e compromisso. Nunca obrigação”. O próprio Papa Francisco convocou, na primeira sexta-feira da Quaresma, uma jornada mundial de oração e jejum papel paz, tendo em mente a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul, comunidades que vivem em sobressalto, devido aos conflitos armados, mas que poucas vezes são notícia ou lembrados na Comunicação Social.
Lídia Barata in "Reconquista" - 15/3/2018

PS junta-se à direita e chumba reversão de leis laborais

Os socialistas chumbaram ou abstiveram-se nas iniciativas legislativas do PCP, BE e PEV para reverter vários pontos da legislação laboral.
O Partido Socialista juntou-se assim ao PSD e ao CDS para chumbar os diplomas apresentados pelo PCP, BE e PEV para alterar a legislação laboral em matérias como o banco de horas, a adaptabilidade e convenções coletivas de trabalho.
De acordo com a TSF, apenas um diploma do Bloco de Esquerda sobre a adaptabilidade laboral e banco de horas individual baixou diretamente à comissão de Trabalho, sem votação na generalidade, já que o Governo do PS prevê produzir alterações em sede de concertação social.
“Foi claro que o PS deu uma ‘tampa’ à extrema-esquerda“, disse Filipe Anacoreta, o deputado do CDS. Durante o debate, o partido socialista foi pressionado pela esquerda a aprovar as alterações, e pela oposição a respeitar a estabilidade a legislação.
Uma das perguntas mais ouvidas na Assembleia da República foi “de que lado está o PS?”. Wanda Guimarães, deputada socialista, não hesitou e respondeu “ninguém entala o PS“. “Podem colocar-nos à vontade em cima do muro. Não temos medo das alturas. E temos dado saltos muito positivos e muito seguros em benefício dos trabalhadores”, disse.
Após o chumbo, a deputada do PCP Rita Rato lamentou a “oportunidade perdida” com o voto contra de “PS, PSD e CDS, os três encostados“.
Costa anuncia propostas laborais a 23 de Março
Este chumbo do PS às propostas do PCP sobre contratação colectiva foi um dos temas abordados no debate quinzenal desta quinta-feira, na Assembleia da República, com Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, a considerar que se trata de um erro.
“Não queremos crer que o Governo não vai cumprir o seu programa. Revogar o banco de horas está no programa do Governo. Quando? Por que não ontem? Quanto tempo estaremos à espera?”, questionou a líder bloquista.
Na resposta, o primeiro-ministro garantiu que o Executivo vai cumprir e até avançou a data para apresentar as propostas, quer quanto ao banco de horas individual, quer quanto à precariedade. António Costa revela que o Governo vai apresentar, na concertação social, uma série de propostas sobre a legislação laboral no próximo dia 23 de Março.
Na reacção, Catarina Martins prometeu continuar a exigir o cumprimento dos compromissos assumidos pelo executivo minoritário do PS, afirmando que a sua bancada está “cá para estorvar”, para “proteger os direitos dos trabalhadores”.

ZAP // Lusa

15.3.18

OPINIÃO: Esta mulher, executada no Rio de Janeiro, ocupado por militares há um mês

O país onde esta mulher voltará a pisar ainda não existe. Sem o ainda estamos todos mortos. Acredito totalmente nesse país.
O Rio de Janeiro conhece a morte violenta. Conhece as balas perdidas, os tiroteios, os ajustes de contas, as execuções. E quem vive na favela conhece isso desde que nasceu, diariamente. Sabe que é muito possível vir a morrer assim, tem muitos lutos, muitas mortes. Uns quinhentos anos de mortes violentas, sobretudo negras, sobretudo pobres.
Foi esta cidade que há um mês se viu ocupada por militares, a mando de um presidente da república não-eleito, alegadamente para fazer face ao crime. Depois do golpe na presidência, o golpe na cidade que é a cara do Brasil. O crime de Estado tem esta tradição de se justificar pelo crime. O presidente não-eleito, Michel Temer, assinou essa ocupação. O Rio de Janeiro é desde então uma cidade ocupada, num país ocupado. Todos os dias algo se soma ao horror. Chegam amigos de lá, ou mensagens de amigos, vejo as notícias, horror atrás de horror.
E ontem, 14 de Março, aconteceu uma morte violenta que imediatamente se tornou o espelho em que o Rio se viu, o Brasil se viu, os brasileiros pelo mundo se viram, e quem ama o Brasil, em geral. Toda a morte violenta é horrível, mas algumas, raras, são uma visão colectiva do horror. Foi isso que aconteceu esta quarta-feira à noite. A morte de Marielle Franco é um espelho voltado para a cara do Brasil. E para todos nós.
Marielle faria 39 anos em Julho. Nasceu na Maré, o complexo de favelas que qualquer recém-chegado pela primeira vez ao Rio de Janeiro pode ver pela janela, ao vir do aeroporto para o centro. Chama-se Maré porque aquilo eram águas da baía da Guanabara. Os primeiros moradores moravam em barracas de palafita, ou seja, assentes em estacas, sobre a água. Eram sobretudo nordestinos, vindos por causa da construção da Avenida Brasil, a grande via terrestre de entrada no Rio de Janeiro. Hoje, a Maré é uma sequência de favelas, coladas umas às outras, ao longo da Avenida Brasil. Tornou-se também um dos centros fervilhantes de toda uma nova geração que cresceu com os governos Lula. Lá estão o Observatório das Favelas e mil e um projectos, lutando diariamente no meio da violência, do descaso do Estado que originou o avanço do tráfico, e do abuso do Estado com o argumento de deter o tráfico. Este é o berço de Marielle, assim ela se dizia: “cria da favela”.
Nasceu então favelada, negra, mulher. Três circunstâncias que no Brasil tendem a andar juntas. Sobre o começo da adolescência, disse numa entrevista: “Fui catequista e isso vai me compondo também quanto formação, e é importante falar disso porque é uma parte que está presente em meu lugar.” Depois: “Com 17 para 18 anos é um período que estou indo muito a baile, sendo adolescente da favela que curte baile, torcida, farra, fugir da igreja pra ir pro baile…”
Uma menina como tantas na Maré. Em 1997 terminou o ensino médio, a seguir estudou numa escola pública à noite, a seguir tentou fazer um Pré-Vestibular Comunitário, preparação para a universidade. “Seguindo a maioria das meninas da favela, não fugindo a regra: engravidei com dezoito anos. Então eu largo estudos porque mesmo com a mãe ajudando, não tinha como deixar, o foco era cuidar da criança e não tinha ali esse lugar de um pai presente que assumisse suas responsabilidades.”
Foi trabalhar, deixando a filha muito cedo na creche. “Esse lugar da mulher que tem seis meses de aleitamento exclusivo mais férias, eu não tive isso. Com três meses, a Luyara foi para creche.” Mas é a própria existência da filha que a faz não desistir de estudar: “O estigma era que eu iria ser mulher de bandido ou cometer delitos. Mas, no final, o que a Luyara me dá é uma estrutura, um sentido de que eu deveria ir estudar e conseguir sustentá-la e criá-la de uma maneira melhor.”
Marielle voltou ao pré-vestibular e conseguiu entrar na PUC como bolseira integral. A PUC (Pontífica Universidade Católica) é a universidade privada mais prestigiada do Brasil, caríssima para quem não tem bolsa. Lá estudam muitos dos mauricinhos e patricinhas, como são chamados os filhos da elite. Mas conheci de muito perto várias Marielles no boom de acesso à universidade dos anos 2000, jovens, negras, da favela. Uma das minhas amigas no tempo em que lá morei era justamente bolseira integral da PUC, de Ciências Sociais, como Marielle. Digo era porque está mais do que formada, a mil e na luta.
Sobre o tempo da PUC, Marielle falou assim: “Sempre fui política, no sentido mais amplo. Quando entrei na PUC, em 2002, o meu lugar era de reivindicar direitos, naquele momento só para a minha comunidade e para mim. Cheguei muito arredia, ainda tomada pela sensação de pertencimento à favela. Eu me distanciava muito das patricinhas, dos mauricinhos, porque afinal eram de outra classe e outra renda. Mas aprendi a lidar com a diversidade. Fiz amigos, amigas. Tenho lembranças muito boas.” Sendo que o quotidiano não era mole, não. “Não vivi a PUC em sua completude. Eu já era mãe, então houve épocas em que trabalhei em dois horários. Não vivi o movimento estudantil. Só o campus que era impossível de não viver, porque sou apaixonada por ele, mas também era para sentar e resolver algum trabalho ou para estudar mesmo.”
Tornou-se socióloga. Depois veio a fazer mestrado na UFF (universidade pública, Niterói) com uma tese sobre Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, analisando especificamente as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), então em expansão. Mas aí já estava mergulhada na política.
O que levou Marielle a mergulhar na política foi uma bala perdida em 2005, que matou uma amiga próxima, na Maré. Tornou-se uma activista pelos direitos humanos e contra intervenções violentas na favela. Em 2006 estava na campanha que elegeu Marcelo Freixo para a assembleia estadual, pelo PSOL (socialistas ex-comunistas). Freixo tinha-lhe dado aulas no pré-vestibular, conheciam-se daí. Ela tornou-se assessora dele na assembleia, depois passou à Comissão de Direitos Humanos, e em 2012 tornou-se coordenadora.
Faltava Marielle ir a votos. O que aconteceu na eleição de 2016. Ela esperava uns 6000 votos, disse. Teve 46.502, fazendo uma campanha como feminista, negra, gay, contra a violência policial. A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro.
A 16 de Fevereiro deste ano, quando Temer assinou a ocupação militar do Rio, Marielle foi uma das vozes críticas.
A 28 de Fevereiro, foi nomeada relatora da Comissão da Câmara de Vereadores, criada para acompanhar a intervenção do exército.
A 10 de Março, denunciou o aumento da violência de Estado depois da ocupação e, de forma contundente, violência policial no bairro suburbano de Acari. “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM [Polícia Militar] é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a população! CHEGA de matarem nossos jovens.”
A 13 de Março, anteontem, escreveu no Twitter: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”
Ontem foi executada.
Há gravações de Marielle a falar ontem. Ela tinha ido a uma iniciativa na Lapa, centro do Rio: “Jovens Negras Movendo as Estruturas.” Basta ver um pouco para achar o carisma, a força, a beleza. Aquela carioca que em pouco tempo deu corpo a um lema: o lugar da mulher é onde ela quiser. Marielle saiu da Lapa no carro guiado por Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, um morador do subúrbio do Rio que se tornara motorista de Uber, e estava a cobrir a baixa por acidente do motorista habitual de Marielle. Na zona do Estácio, bairro central do Rio, um carro emparelhou com o deles, pelo menos nove tiros foram disparados. Morreram Anderson e Marielle, com várias balas na cabeça. Não houve roubo.
O choque do Rio, do Brasil e por aí fora não é só o choque da morte súbita, violenta. Mariella não foi só morta de forma violenta, como Anderson também foi. Foi executada — tudo indica, e é isso que parece tão assustador — por ser tudo o que era: mulher, negra, favelada, gay, socialista, eleita pelo voto, activa contra a ocupação militar e a violência policial no Brasil de 2018. Todas as mortes não são iguais, todas as mortes são diferentes. Algumas mortes são também, de facto, colectivas. Na dor, na angústia, no medo, na raiva, e é isso que está a acontecer.
No momento em que escrevo, milhares de pessoas ocupam a praça da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. Há protestos marcados em série, incluindo em Portugal (onde à hora a que escrevo estão também marcadas concentrações). A primeira urgência é que o crime seja esclarecido. E para onde o crime aponta é o nó do Brasil: o que são e significam a Polícia Militar, o Exército, a nostalgia da ditadura, as máfias que sustentam os usurpadores da democracia, esse buraco negro que é o fascismo, o fascismo.
Caetano Veloso pegou no violão e gravou para Marielle aquela sua canção que diz: “Estou triste, tão triste / e o lugar mais frio do Rio é o meu quarto.” Por absoluto acaso vi isso no Facebook logo depois de um poema na morte de Marielle que para mim ecoa aquele índio sonhado por Caetano (“virá que eu vi”). Está assinado “Micheliny Verunschk, 15 de março de 2018, a manhã seguinte à execução de Marielle Franco.”
Uma mulher descerá o morro
como se descesse de uma estrela
uma mulher seus olhos iluminados
suas mãos pulsando vida e luta
sob seus pés a velha serpente
[a baba as armas a covardia de sempre].
uma mulher descerá o morro
as inúmeras escadarias do morro
os muros arames que separam o morro
e pisará o chão desse país sem nome
desse país que ainda não existe
desse país que interminavelmente não há
uma mulher descerá o morro
tempestade é o vestido que ela veste
uma mulher descerá o morro
e ainda que seu sangue caia
ferida incessante no asfalto do Estácio
e ainda que anunciem sua morte
[e sim, ainda que a comemorem]
esta mulher ninguém poderá parar.
Não me saem da cabeça estas palavras: e pisará o chão desse país sem nome, desse país que ainda não existe.
Sem o ainda estamos todos mortos. Acredito totalmente nesse país.
Alexandra Lucas Coelho – 15/3/2018