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19.3.18

EFEMÉRIDE: As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

Mário Quintana, in 'Esconderijos do Tempo'

6.7.16

NISA: "Amigos, não consultem os relógios!"

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…
(Mario Quintana)
(poema do livro A Cor do Invisível. 2a. edição. São Paulo: Globo, 2005. p.96.)
Já era tempo, mais que tempo, da Torre do Relógio, um dos ex-libris de Nisa, ser olhada com outros olhos.  Há muito que os mostradores do relógio estão desafinados, desalinhados, mostrando tempos diferentes, consoante os locais de onde se olha. Estão assim há anos, à espera de uma reparação que há muito se justifica.
Não sei se é por falta de verbas e vontade, ou se há outras prioridades a reclamarem intervenção mais urgente.
Que o relógio da torre e a própria torre carecem de uma reparação e de uma limpeza geral, salta à vista de todos. Até daqueles que não têm um blog "só para dizer mal", como é - na fértil imaginação de alguns dos eleitos, atentos e vigilantes, da Praça do Pelourinho -, este em que escrevo e tem como título Portal de Nisa.
Talvez por estas ou outras razões que me escapam, o blog tenha atingido, na semana passada, mais de um milhão e quarenta mil visitantes, não se incluindo nestes as minhas "entradas".
Mas, tenho de concordar com o Mário Quintana: Não olhem (consultem) os relógios!
O da Torre de Nisa merece uma visão mais limpa e desafogada.
Mesmo, para os mal-dizentes...
Mário Mendes