30.9.26

BRAGA: Conferência "A Constituição, a Economia e o Trabalho" enche espaço do Muzeu

 


O Muzeu, novo espaço de exposições do dstgroup, recebeu ontem, durante a tarde, mais uma conferência do ciclo ‘Introdução à Política’. A sessão, realizada durante a tarde de ontem, foi dedicada às questões do trabalho.

José Pacheco Pereira, histórico dirigente do PSD, historiador e fundador do Arquivo Ephemera, moderou este debate, que teve como convidados a economista Susana Peralta e o sindicalista Manuel Carvalho da Silva, que liderou a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) de 1987 a 2012.

A intervenção de José Teixeira, presidente do Conselho de Administração da dst, deu início à sessão, perante um auditório cheio.


 O empresário destacou o valor do trabalho na sociedade e na companhia que dirige, rejeitando que um trabalhador seja tratado como um “colaborador”.

José Teixeira também criticou a “ética dos mínimos” de quem menoriza as questões laborais, protegidas pela Constituição da República Portuguesa (CRP), o “ponto de partida, o início de tudo” no que toca aos direitos e deveres de cada indivíduo. No contexto do 50.º aniversário da aprovação do documento na Assembleia da República, o empresário explicou que o Muzeu “não quer ser contrapoder”, mas antes “ajudar a resistir” às “ameaças” que o regime democrático enfrenta.

Seguidamente, coube a Pacheco Pereira introduzir o tema em discussão com uma pergunta-chave: “Como é que a Constituição moldou o mundo do trabalho?”. O historiador baseou-se na Doutrina Social da Igreja para distinguir o trabalho, enquanto produção humana, do capital, associado à lógica do mercado.

 O ex-dirigente do PSD, actualmente dedicado, entre outros projectos, à escrita e ao comentário político, expressou receio de que uma futura revisão constitucional ponha em causa os direitos do trabalho. Na mesma linha, Pacheco Pereira recordou o papel do Tribunal Constitucional no período da troika, que impediu uma série de leis de serem revertidas pelo governo.

O social-democrata ‘passou a bola’ a Manuel Carvalho da Silva, que apresentou um contexto histórico ao progresso nos direitos laborais desde a recta final do Estado Novo, nos anos 1960, até hoje. O ex-líder da CGTP, natural de Barcelos, classificou as conquistas dos sindicatos como “pilares da democracia”, recordando as primeiras Reuniões Intersindicais, entre 1970 e 1974, dedicadas à “agenda, organização e luta” dos trabalhadores.

Nesse aspecto, Carvalho da Silva salientou a importância de alguns movimentos sindicais no distrito de Braga, sobretudo no sector metalúrgico, na reivindicação de mais e melhores condições no espaço de trabalho. Para o ex-sindicalista, a proximidade entre o 25 de Abril e o 1º de Maio foi “decisiva” para que os direitos laborais e sindicais fossem “plasmados e consagrados” na Constituição.

O ex-líder da maior confederação sindical portuguesa mostrou-se céptico em relação ao futuro. Carvalho da Silva alertou que as mudanças económicas dos dias de hoje estão a transformar o trabalho em “negócio”, criando uma sociedade cada vez mais “desigual e individualista”.

Por fim, o sindicalista sublinhou a necessidade das escolas trazerem o “saber-fazer” para as salas de aula, porque o país precisa de trabalhadores “com formações, qualificações e com carreiras valorizadas”. Carvalho da Silva apelou à “participação colectiva” na defesa dos direitos do trabalho.

Na sua intervenção, Susana Peralta começou por explicar que a economia, nascida da filosofia, pode significar diferentes coisas. Esse conceito abrangente refere-se, sobretudo, na língua portuguesa, ao “sistema que organiza os recursos produtores de bem essenciais”, incluindo o trabalho, mencionou a economista.

 Susana Peralta, que também é docente e comentadora política, fez a ligação entre o trabalho e a Constituição através dos limites – leis – estabelecidas pelo documento, que também balizam o funcionamento da economia. “A CRP é rica na parte moral e ética”, declarou a economista, em alusão aos avanços registados em democracia ao nível dos direitos laborais.

À semelhança de Carvalho da Silva, Susana Peralta mostrou preocupação com o possível “despojar” de direitos fundamentais previsto em alguns projectos de revisão constitucional.