2.9.26

OPINIÃO: Mude-se a regra pela liberdade


De rosto fechado e olhos pregados ao chão e com uma camuflagem forçada que nada escondia. A imagem do menino que foi obrigado a virar a camisola do clube do coração do avesso traduz a crueza do momento e, talvez por isso e não inocentemente, o F.C. Porto a escolheu para criticar no Instagram a decisão do Académico de Viseu de travar a entrada de adeptos com roupas e adereços alusivos ao clube azul e branco para o setor destinado ao público em geral e aos adeptos dos beirões. Durante a semana, o F.C. Porto tinha alertado que o Regulamento de Segurança do Estádio Municipal do Fontelo só permitia ornamentos de outros clubes no espaço reservado aos visitantes. Infelizmente, não vivemos numa sociedade plenamente evoluída em que a convivência de adeptos - sobretudo de claques de agremiações distintas possa fazer-se em segurança sem jaulas. No entanto, duvido da ameaça que representaria aquela criança vestida de azul e branco ou de outros adeptos isolados que rumaram ao estádio, tomados pelo entusiasmo de ver o clube do coração a jogar na sua terra. Entre Porto e Viseu, distam 125 quilómetros e nem todos terão meios para vencê-los com a regularidade que o coração ditaria. Regressado ao escalão maior do futebol português ao fim de 37 anos, há regras que exigem revisão. Não é admissível que as autoridades, no caso a Liga Portugal, permitam que um regulamento limite a liberdade de quem compra um lugar para o público em geral. Nos grandes estádios e nos grandes confrontos - logo de risco maior -, é frequente verem-se amigos, casais, famílias com cachecóis de clubes distintos sentados na mesma bancada, lado a lado. E assim deve ser. E arrisco dizer que, nas visitas do Benfica e do Sporting, haverá mais adeptos a ficarem à porta, de bilhete na mão.

Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 1 de Setembro, 2026s