De rosto fechado e olhos pregados ao chão e com uma
camuflagem forçada que nada escondia. A imagem do menino que foi obrigado a
virar a camisola do clube do coração do avesso traduz a crueza do momento e,
talvez por isso e não inocentemente, o F.C. Porto a escolheu para criticar no
Instagram a decisão do Académico de Viseu de travar a entrada de adeptos com
roupas e adereços alusivos ao clube azul e branco para o setor destinado ao
público em geral e aos adeptos dos beirões. Durante a semana, o F.C. Porto
tinha alertado que o Regulamento de Segurança do Estádio Municipal do Fontelo
só permitia ornamentos de outros clubes no espaço reservado aos visitantes.
Infelizmente, não vivemos numa sociedade plenamente evoluída em que a
convivência de adeptos - sobretudo de claques de agremiações distintas possa
fazer-se em segurança sem jaulas. No entanto, duvido da ameaça que
representaria aquela criança vestida de azul e branco ou de outros adeptos
isolados que rumaram ao estádio, tomados pelo entusiasmo de ver o clube do
coração a jogar na sua terra. Entre Porto e Viseu, distam 125 quilómetros e nem
todos terão meios para vencê-los com a regularidade que o coração ditaria.
Regressado ao escalão maior do futebol português ao fim de 37 anos, há regras
que exigem revisão. Não é admissível que as autoridades, no caso a Liga
Portugal, permitam que um regulamento limite a liberdade de quem compra um
lugar para o público em geral. Nos grandes estádios e nos grandes confrontos -
logo de risco maior -, é frequente verem-se amigos, casais, famílias com
cachecóis de clubes distintos sentados na mesma bancada, lado a lado. E assim
deve ser. E arrisco dizer que, nas visitas do Benfica e do Sporting, haverá mais
adeptos a ficarem à porta, de bilhete na mão.
Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 1 de Setembro, 2026s
