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20.8.26

OPINIÃO: Um código QR também pode ser uma armadilha: a prevenção começa nos nossos hábitos

 

Habituámo-nos a apontar o telemóvel para um código QR quase sem pensar. Fazemo-lo para consultar o menu de um restaurante, pagar o estacionamento, aceder a um bilhete, confirmar uma entrega ou abrir informação sobre um evento. Tornou-se um gesto tão comum que raramente o associamos a um risco. É precisamente essa confiança que os criminosos procuram explorar.

A cibersegurança não depende apenas da tecnologia que utilizamos para proteger computadores e telemóveis. Depende também das decisões que tomamos todos os dias. Um clique numa ligação, a introdução de uma palavra passe numa página aparentemente legítima ou a leitura de um código QR podem parecer ações banais, mas são muitas vezes o primeiro passo de uma fraude.

O phishing continua a explorar essa combinação entre tecnologia, confiança e comportamento humano. O objetivo pode ser roubar credenciais, obter informação financeira, instalar software malicioso ou simplesmente convencer a vítima a realizar uma ação que beneficia o atacante.

Nos últimos meses, uma das evoluções mais visíveis desta técnica tem sido o quishing, ou seja, a utilização de códigos QR em campanhas de phishing.

A lógica é simples. Em vez de apresentar diretamente uma ligação maliciosa num email ou numa mensagem, o atacante coloca essa ligação dentro de um código QR. Quando a vítima o lê com o telemóvel, é encaminhada para uma página fraudulenta que pode imitar um banco, uma plataforma de pagamentos, um serviço de correio eletrónico, uma empresa de entregas ou outro serviço conhecido.

Há duas razões que ajudam a explicar a eficácia desta técnica. A primeira é que o código QR esconde o endereço para onde vamos ser encaminhados. A segunda é que muitas vezes transfere a interação do computador, que pode estar protegido pelas ferramentas de segurança da empresa, para um telemóvel pessoal, onde esses controlos podem não existir.

Os dados mostram que já não estamos perante uma ameaça residual. De acordo com o Relatório de Ameaças da ESET relativo ao primeiro semestre de 2026, foram registadas, a nível global, cerca de 100 mil deteções de quishing por mês. Aproximadamente 11% dos emails de phishing detetados pela ESET utilizavam códigos QR. Em Portugal, esta categoria representou 4,8% das deteções de ameaças por email e foi a sétima mais detetada no país.

Mas os números, por si só, não explicam o problema.

O que torna o quishing particularmente eficaz é o facto de se misturar com os nossos hábitos. Um código QR colocado num contexto familiar tende a gerar menos desconfiança do que uma ligação desconhecida. E quando surge associado a um pedido urgente, a uma fatura, a uma alteração de salário, a um documento para consultar ou a um pagamento pendente, a pressão para agir rapidamente aumenta.

Por isso, a primeira regra deve ser muito simples: um código QR deve ser tratado com o mesmo cuidado que qualquer ligação recebida por email, mensagem ou redes sociais.

Antes de introduzir dados pessoais, credenciais ou informação financeira, é importante verificar o endereço apresentado pelo telemóvel e confirmar se corresponde realmente ao serviço que pretendemos utilizar. Quando o pedido é inesperado, deve ser confirmado através de outro canal. E se uma página pedir informação que normalmente não seria necessária naquele contexto, o mais prudente é interromper o processo.

Esta atenção é igualmente importante nas empresas, sobretudo nas pequenas e médias organizações, onde uma conta comprometida pode ter consequências muito além do utilizador afetado. O acesso a um correio eletrónico empresarial, por exemplo, pode ser utilizado para tentar chegar a colegas, clientes ou fornecedores através de mensagens que parecem perfeitamente legítimas.

Aqui, a responsabilidade não pode recair apenas sobre quem recebe a mensagem. As organizações devem combinar a sensibilização dos colaboradores com medidas técnicas como autenticação multifator, proteção do email, gestão de vulnerabilidades, atualização dos sistemas e soluções capazes de identificar comportamentos suspeitos.

A formação continua a ser essencial, mas não porque seja possível transformar cada colaborador num especialista em cibersegurança. O objetivo é outro: criar hábitos simples que façam com que uma situação inesperada provoque uma segunda verificação antes de uma ação.

É também importante abandonar a ideia de que estas fraudes acontecem apenas a grandes empresas ou a pessoas pouco familiarizadas com tecnologia. O phishing funciona precisamente porque explora comportamentos universais: confiança, curiosidade, urgência, distração e rotina.

À medida que os nossos hábitos digitais evoluem, os métodos utilizados pelos criminosos evoluem com eles. O quishing é apenas um exemplo dessa adaptação.

A resposta não passa por deixar de utilizar códigos QR ou por desconfiar de toda a tecnologia. Passa por evitar que a conveniência elimine completamente a nossa capacidade de questionar aquilo que temos à frente.

Num mundo em que cada vez mais serviços começam com um clique, uma mensagem ou um código no ecrã, alguns segundos para verificar antes de confiar continuam a ser uma das medidas de segurança mais simples e eficazes que temos ao nosso alcance.

Artigo de opinião de Ricardo Neves, ESET Portugal

15.8.26

OPINIÃO: O legado e o atrelado


Luís Neves usou o legado de 30 anos na Polícia Judiciária para justificar a excessiva informalidade demonstrada no tempo em que exerceu funções na Polícia Judiciária. Como se os fins (a comprovada competência e os resultados apresentados na liderança da investigação criminal) justificassem os meios (a leviandade com que tomou algumas decisões, sobretudo as que misturaram as esferas profissional e pessoal). Apesar da expectativa criada, foram poucas as novidades desta longa conferência de Imprensa. Luís Neves apenas pode queixar-se de si próprio e das suas imprudências. Mas não pode ignorar que a dimensão dos cargos (do anterior e do atual) comporta um conjunto explícito de exigências legais e éticas. Por mais que queiramos acreditar que os erros cometidos pelo ministro enquanto diretor da Polícia Judiciária foram produto de imprudência e não de incompetência, e que tudo foi feito para resolver problemas e forma pragmática, quem aplica as leis não pode alegar o seu desconhecimento. A honra e a probidade de Luís Neves são certamente importantes para o exercício mediático da gestão de danos ("Não poupei nem ganhei um cêntimo"; "Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem"), mas não são valores definitivos e únicos quando estão em causa as condições necessárias para um titular de um cargo político de elevada importância poder fazer o seu trabalho. Mesmo que Luís Neves nunca tenha sido, como enfatizou, "um homem de papéis", há demasiadas nebulosas e pontas soltas. Na decisão tomada por si de desviar o atrelado com material apreendido numa operação contra o tráfico de droga e cuja exigência de prova remeteu agora para os serviços da PJ; na excessiva bonomia com que o empreiteiro que fez obras em várias sedes da PJ e na sua casa no Alentejo acolheu, sem contrapartidas, esse material perigoso nas instalações da sua empresa em Barcelos; no expediente encontrado para lhe pagar essas obras domésticas, através da empresa da mulher e em numerário; no desconhecimento que disse ter sobre a obrigação de apresentar a declaração de rendimentos; e, por fim, na forma pouco ortodoxa como um tanque na sua propriedade no Alentejo se transformou, contra a sua vontade, numa piscina sem licença camarária. Por mais que não haja dolo, um ministro precisa de ter paz política e autoridade pública para cumprir a sua missão. Nem uma nem outra saíram a ganhar depois destes esclarecimentos públicos.

Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias - 30 de julho, 2026

13.8.26

OPINIÃO: Uma jovem miragem


O discurso do presidente da República sobre a necessidade de dar uma nova oportunidade ao Interior e o cruzamento deste pensamento com a importância dos jovens nos territórios dão conta de uma necessidade premente: o deserto que engole boa parte do país.

O empreendedorismo que floresce nos territórios mais longínquos, que se tornaram habitat para quem só precisa de um computador ligado à Internet para trabalhar, não basta para que esse Interior atraia com o grau de intensidade com que perde. E não é só no Interior profundo que o declínio é palpável, não é preciso um grande afastamento dos maiores centros urbanos para ser cada vez mais difícil encontrar vida nova em substância.

Os programas de natalidade, a creche gratuita, os vales de material escolar, entre outras medidas, revelam-se insuficientes para dinamizar territórios onde o rejuvenescimento é oásis.

Ontem, assinalou-se o Dia Internacional da Juventude, mas os jovens em Portugal são uma fatia exígua. Entre 1981 e 2025, dados da Pordata, o país perdeu um milhão de jovens, quarenta anos em queda. Nesse pouco mais de um milhão que sobrou, escolarizado e digital, abundam os problemas com habitação, precariedade laboral (só metade tem contrato efetivo) e baixos salários. Um terço desses jovens ganha perto de mil euros. E se comprar casa é um projeto traçado com rigor matemático ao nível das finanças pessoais, constituir família ainda exige maior cálculo. Talvez sejam essas contas negativas que nos fazem ter dificuldade em ver crianças em tantas ruas do Interior, mas também em artérias largas plantadas à beira das metrópoles. São cada vez mais os locais onde não vejo crianças e esse é o reflexo de uma escolha nacional, no Interior e no Litoral.

E se não há jovens, que futuro há?

Joana Almeida Silva – Jornal de Nisa - 13 de agosto, 2026

 

 

12.8.26

OPINIÃO: Podia ser sobre NISA ou outro qualquer Município português *


O mundo está para os espertos: uma crónica sobre Portalegre

Uma única feira local custa mais do que apoiar as 50 associações do concelho. Para onde caminha o orçamento de Portalegre?

Há uma frase que se ouve cada vez mais nos cafés de Portalegre, sussurrada entre um copo e outro: “o mundo está para os espertos.” Não é resignação vazia — é a constatação de quem observa, há anos, o mesmo padrão a repetir-se: dinheiro público a sair, resultados a não aparecer, e ninguém a perguntar porquê.

Não é preciso inventar escândalos para ver o problema. Basta olhar para a estrutura.

Um exemplo que dispensa teorias da conspiração.

Fermelinda Pombo Carvalho é, desde 2021, presidente da Câmara Municipal de Portalegre. É também, desde 2014, presidente da Associação de Agricultores do Distrito de Portalegre (AADP). As duas coisas não são segredo — estão em qualquer biografia oficial, em qualquer entrevista de recandidatura. É a própria autarquia que apresenta a Feira das Cebolas como fruto da “parceria” entre a Câmara e a AADP.

O problema não é que a presidente da Câmara goste de agricultura, ou que a AADP seja uma instituição sem mérito. O problema é estrutural: quando a mesma pessoa está sentada dos dois lados da mesa — a decidir, como autarca, quanto dinheiro público vai para um evento, e a beneficiar, como dirigente associativa, da organização e da visibilidade desse mesmo evento — deixou de haver distância entre quem financia e quem é financiado. Isso não exige prova de crime para ser um problema. É, por definição, um conflito de interesses institucionais, e é exatamente o tipo de situação que devia ter um mecanismo de escrutínio externo — auditoria, fiscalização, contraditório público — e que, tanto quanto é possível apurar, não tem.

A Feira das Cebolas consumiu cerca de 120 mil euros do orçamento municipal em 2024 e perto de 195 mil euros em 2025 — um crescimento de mais de 60% num ano, sem que exista, disponível ao cidadão comum, uma explicação clara sobre o que justificou esse salto. É dinheiro de todos os portalegrenses, gerido por quem preside simultaneamente a uma das entidades parceiras do evento.

O associativismo como cortina de fumo

Em maio de 2026, a Câmara assinou contratos-programa com 50 associações culturais e desportivas, num investimento global de cerca de 162 mil euros. Nos comunicados oficiais, isto é apresentado como prova de vitalidade do tecido associativo local. E, para muitas dessas associações — que fazem, de facto, trabalho sério com pouco — o apoio é justo e bem-vindo.

Mas a escala deste apoio revela uma profunda inversão de prioridades quando cruzamos os dados:

Feira das Cebolas (1 único evento): perto de 195 mil euros.

Todo o tecido associativo (50 associações): cerca de 162 mil euros.

Colocando os números em perspetiva, todo o ecossistema cultural e desportivo de Portalegre recebeu, junto, menos dinheiro do que uma única feira de poucos dias. Na prática, isto significa uma média irrisória de 3.240 euros por associação para gerir atividades, pagar despesas e sobreviver durante um ano inteiro.

Um bolo distribuído desta forma por 50 entidades não é, por si só, sinónimo de critério. O que falta, sistematicamente, é aquilo que qualquer atribuição de dinheiro público deveria ter: critérios de avaliação públicos e comparáveis, relatórios de execução por associação, e a possibilidade de qualquer cidadão perceber por que razão a associação A recebeu X e a associação B recebeu metade disso. Sem essa transparência, o “apoio ao associativismo” pode ser genuíno em 45 casos e um exercício de relações públicas nos outros 5 — e ninguém de fora consegue distinguir uns dos outros. É esse vazio de escrutínio, e não uma acusação concreta contra qualquer associação em particular, que alimenta a sensação de que quem sabe pedir, e a quem pedir, recebe — e quem só sabe trabalhar, espera.

Uma cultura que não existe enquanto política pública

Portalegre não tem fome de gente que faça cultura. Tem fome de uma câmara que a trate como prioridade e não como despesa acessória. O que existe de cultura genuína na cidade nasce, quase sempre, de bolsos privados, de gente que arrisca o seu próprio dinheiro e tempo — e quando a Câmara aparece, aparece como licenciadora, não como parceira. Autoriza um espaço, cede um palco, tira uma fotografia na inauguração. Raramente investe no montante, na criação, na produção, na continuidade de um projeto que ainda não tem público garantido.

Compare-se isto com o investimento na Feira das Cebolas — um evento consolidado, de baixo risco político, que gera fotografias seguras com o Secretário de Estado e discursos sobre “o melhor de Portalegre.” É sempre mais fácil investir no que já funciona e dá visibilidade imediata do que no que é incerto mas necessário: uma política cultural com visão de década, não de mandato.

Menos oposição, mais impunidade

Nas autárquicas de outubro de 2025, a coligação PSD/CDS-PP de Fermelinda Carvalho obteve 62,54% dos votos em Portalegre — a primeira capital de distrito a fechar essa noite eleitoral — e conquistou maioria absoluta: seis dos sete mandatos no executivo, contra três no mandato anterior. O PS e a CLIP (Candidatura Livre e Independente por Portalegre) ficaram reduzidos a um papel cada vez mais residual.

Isto não é, por si só, ilegítimo — é o resultado de um voto livre. Mas tem uma consequência prática que importa dizer com todas as letras: quanto menor a oposição dentro do executivo, menor a pressão institucional para justificar decisões, publicar critérios ou responder a perguntas incómodas na Assembleia Municipal. A fiscalização que falta de fora — auditorias, imprensa local robusta, sociedade civil organizada — precisava de ser compensada por mais fiscalização de dentro. Está a acontecer o contrário.

E há um dado oficial, não uma opinião, que resume o lugar da cultura nas prioridades formais do município: no portal público Mais Transparência, que monitoriza a descentralização de competências da administração central para os municípios, a Cultura surge como “competência aceite” por Portalegre — mas com despesa registada de 0€ nos anos disponíveis para consulta. Aceitar a competência no papel e não lhe atribuir despesa própria é, em termos administrativos, a definição exata de tratar algo como acessório.

Falta de visão, sobra de eventos

O investimento direto na capital do município cresceu 54,71% em 2023 face ao ano anterior, segundo as próprias contas da autarquia — números que, isolados, soam bem em qualquer relatório de mandato. Mas crescimento de despesa não é sinónimo de estratégia. Não encontrei, nos documentos públicos disponíveis, um plano estratégico de cidade a dez ou vinte anos que amarre esse investimento a objetivos claros — só planos plurianuais de investimento que se renovam ano a ano, e um calendário de eventos e feiras que se repete com pequenas variações de cartaz.

Isto é o retrato de uma gestão que apresenta números de execução orçamental como se fossem, por si só, visão de futuro. Não são. Gastar mais não é o mesmo que planear melhor.

O impacto mais profundo desta falta de visão não se mede só em euros mal explicados — mede-se no que a cidade não constrói. A Covilhã, um concelho de dimensão comparável, soube transformar o conhecimento e o património local — a Universidade da Beira Interior, o Parkurbis, parque de ciência e tecnologia criado em 2005 — num ecossistema que atrai empresas tecnológicas e indústrias criativas, com centenas de postos de trabalho qualificado gerados nesse processo. Não é magia nem sorte geográfica: é o resultado de décadas de aposta institucional deliberada em algo que ainda não existia.

Portalegre também tem um politécnico a formar quadros todos os anos. O que falta perceber — e é uma pergunta em aberto, não uma certeza — é se existe da parte do município uma estratégia equivalente para reter esse talento, ou se continuamos a depender quase inteiramente do emprego público e de setores tradicionais para segurar quem cá nasce. Uma feira, por mais bem-sucedida que seja, não substitui essa pergunta. E enquanto ninguém a fizer com seriedade, Portalegre continua a formar gente para exportar, não para empregar.

Onde ninguém olha, ninguém precisa de esconder

Apontar essas falhas não é acusar ninguém de ilegalidade, mas sim fazer o diagnóstico de um problema estrutural. A diferença entre a má gestão e a fraude é jurídica e ética, e esta crónica assenta estritamente nos factos públicos. Mas a ausência de escândalos criminais não significa que o concelho esteja bem gerido. Pelo contrário: é o sintoma mais claro de uma anestesia geral.

Numa cidade onde os dados se perdem em relatórios densos, a oposição definha e ninguém questiona o orçamento, os governantes não precisam de esconder nada — porque não há nada a ocultar de quem escolheu não olhar. Portalegre não precisa apenas de mais uma feira de cartaz. Precisa de uma cidadania ativa e de uma câmara que trata o escrutínio público como parte do trabalho, e não como um incómodo a evitar.


Chris Relvas  in www.substak.com

OPINIÃO: O que diz uma barriga de grávida


Na sessão de estreia do seu mais recente filme, Anne Hathaway apresentou-se com uns jeans de cintura descaída e um crop top que deixava à vista a barriga proeminente de grávida. As redes sociais encheram-se, de imediato, de juízos violentos sobre a aparência da atriz, que culminaram em considerações de que a barriga seria falsa. O que parece um simples coro de vozes tontas mostra como os estigmas em torno da gravidez e do corpo das mulheres continuam enraizados.

A redução da mulher a objeto de avaliação estética é universal, constante e ainda mais rotineira a partir do momento em que uma fotografia é comentada em simultâneo por milhões de pessoas. Momentos como a gravidez agudizam, ainda assim, a perceção de que há um conjunto de normas sobre o que deve ou não ser mostrado. Não se trata (só) de estética, mas de silêncios e vigilâncias que acabam frequentemente por ser autoimpostos e assumidos, de tal forma a mulher se habitua a encará-los.

Claro que estes temas são quase sempre reduzidos à categoria de detalhes sem importância, até com o argumento benigno de que a desigualdade de género tem coisas bem mais importantes com que se preocupar. Acontece que a raiz dos problemas é exatamente a mesma, ainda que revestida de trivialidade. Aliás, muitos mecanismos de controlo e discriminação tornam-se mais sólidos precisamente por minimizarem ou tratarem como humor afirmações e comportamentos de consequências sérias. É muito ténue a fronteira entre piadas e situações de discriminação laboral que a gravidez origina em empresas e organizações. Como de humor não têm nada as brincadeiras sobre tensão pré-menstrual ou menopausa, muito comuns nos locais de trabalho. A desigualdade tem muitas capas, mas nenhuma veste com elegância.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 12 de agosto, 2026

 

10.8.26

OPINIÃO: O crime é perguntar


É provável que o nome Jason Arday pouco lhe diga, mas a academia britânica está em polvorosa com o caso de proporções ainda não completamente apuradas. Resumindo, surgiram dúvidas sobre o currículo e possíveis casos de plágio na tese de doutoramento de Arday, que, em última análise, levaram à demissão - sem admissão de culpa - daquele que tinha sido o mais jovem professor negro da Universidade de Cambridge. O académico admitiu ter cometido alguns erros ao longo da carreira, mas recusou o grau de gravidade de um caso que se tornou num debate sobre racismo ou favorecimento de pessoas racializadas, num meio académico branco e privilegiado. Mas o que realmente me interessa no caso é a história do jornalista Jack Grove, especializado em Ensino Superior, do londrino "Times".

Grove interessou-se pelo tema de Jason Arday e tentou contactar o professor via correio eletrónico, para o ouvir sobre as acusações de plágio que subiam de tom online. Trabalho básico de milhares de jornalistas diariamente. Não conseguiu, mas meses depois foi contactado pela polícia britânica a informá-lo que estava a ser investigado por assédio e que não deveria voltar a contactar Jason Arday, devido à saúde mental do professor, que teria sido afetada pelas questões dirigidas por email. A investigação ao jornalista a fazer o seu trabalho demorou quatro meses, num caso que agora foi considerado pelas próprias autoridades como um erro.

Mais do que uma questão pontual, é sintoma de um constante desprezo do trabalho jornalístico, considerado obsoleto por muitos tecnoligarcas, que não gostam de ser questionados. Este sentimento anti "legacy media" alastrou para muitos grupos envoltos em bolha, que de forma egocêntrica se julgam arrogar ao direito de não serem questionados, por a isso não estarem acostumados. E a pergunta é a base do trabalho jornalístico, principalmente quando incomoda e melindra, porque é daí que nasce o esclarecimento.

·         Luís Pedro Carvalho – Jornal de Notícias - 10 de agosto, 2026

 

9.8.26

OPINIÃO: Somos adultos/crianças


Cada um se governou com a vida que tomou. Há quem diga que não há pessoas más, que nós é que as fazemos ser assim ou não, tal como as vemos assim são. Quando crianças todos somos puros e inocentes e são os embates da vida que nos formam. As pessoas más, os delinquentes, os prisioneiros, os criminosos, já foram crianças puras e inocentes. E há ainda em cada um deles essa inocência, por muito esbatida, que permanece nas profundezas do seu interior. As relações humanas são muito complexas e motivo de muitos estudos. Se alterarmos radicalmente os nossos pensamentos em relação às coisas e aos outros, estes vão alterar-se positivamente em relação a nós. Tudo aquilo que um Homem alcança é o resultado directo dos seus próprios pensamentos. Um Homem só consegue evoluir, vencer e alcançar grandes feitos se elevar os seus pensamentos. Dois prisioneiros olharam para as grades da prisão: um viu a lama, outro viu as estrelas. Que nós olhemos também as estrelas e vejamos o que há de bom em todas as situações. Adultos no corpo, somos crianças nos sonhos que comandam a vida.  

Portalegre, 7 de Agosto de 2026

José Oliveira Mendes 

6.8.26

OPINIÃO: Redes a capturar desesperados


Quando uma mentira mata, passa a ser crime. As dezenas (quem sabe quantas são realmente?) de pessoas que morreram afogadas no Mediterrâneo nestes últimos dias embarcaram no que de mais inestimável tem o ser humano, a capacidade de sonhar. Nas redes sociais, entre mensagens, como lume a correr montanha acima, anunciou-se a abertura por algumas horas das fronteiras de Espanha. Espalhou-se a mentira de que quem nadasse uns metros, bastava uns metros de água, ia ser espanhol, ia ser europeu, ia poder dar aos filhos uma vida melhor, ia poder ter um bom trabalho, ia viver numa democracia plena

As mentiras andam mais rápido que as verdades e, nesse insano sonho, atiraram-se ao mar famílias, muitos homens, muitas crianças. O jornalista espanhol Nicolás Castellano relata a história de um menino, de 12 anos, sem qualquer adulto que o cuide, chora a todos os que vê, implora que não o deportem: "Não, Marrocos não". Estava prestes a ser levado para a fronteira. Valeu uma mulher que o ouviu, que traduziu a súplica a um sargento da Legião espanhola. O menino não tem pais, Espanha não o pode deportar. Ouvir essa criança a chorar é um desespero. Os mentirosos mataram crianças, as redes de tráfico humano mataram crianças, a passividade das forças marroquinas matou famílias e deixou alguns bebés à deriva em botes. A avalancha, a palavra é tão certeira quanto desoladora, que assomou em Ceuta não foi espontânea, nem acidental. Foi criminosa, premeditada.

As mentiras criadas em grupos e subgrupos multiplicaram-se, com bots, automatismos, para que maior fosse a audiência exposta às palavras que deram alento ao sonho. As redes de tráfico humano, lucram com a tragédia de Ceuta. Os crimes contra a humanidade perpetrados online não podem escapar impunes, apesar de já terem sido apagados da rede que pesca o desespero e o alimenta com sonhos.

Joana Almeida Silva - Jornal de Notícias - 6 de agosto, 2026

5.8.26

OPINIÃO: A culpa é do transporte grátis?


Em menos de um mês, mais de 60 mil pessoas aderiram ao Cartão Porto., que é uma espécie de bilhete dourado (exclusivo dos residentes na Invicta) para viajar de graça em toda a Área Metropolitana do Porto. A promessa de uma mobilidade sem peso na carteira está a encantar uma considerável franja da população, considerando que o concelho tem pouco mais de 273 mil habitantes e, entre estes, figuram crianças e jovens que já beneficiam de gratuitidade por via das políticas nacionais. Levantam-se legítimas dúvidas sobre a eficácia desta iniciativa na redução do trânsito automóvel na cidade, pois, se é certo que traz mais passageiros ao transporte público, não produz o efeito imediato de esvaziar as vias da metrópole. Em algumas cidades europeias, o fluxo de automobilistas continuou a agigantar-se. Também há quem questione se, ao abdicar da receita - que é sempre fortemente subsidiada - dos títulos de transportes, o Município não estará a privar-se de verbas essenciais para melhorar o serviço público de mobilidade. Este argumento parece-me mais débil, porque aqui reside o pleno exercício da opção política. A Câmara do Porto escolhe investir e canalizar recursos para esta medida, em detrimento de outras. A nível nacional, é o que sucede, por exemplo, na saúde com as consultas gratuitas nos cuidados primários e não será justo dizer que a resposta piorou, porque já não se pagam taxas moderadoras. A experiência no Porto deve ser sujeita a uma avaliação aprofundada. No entanto, perspetivo que a eficácia da medida dependerá, sobretudo, da capacidade de absorver, com conforto e eficiência, a massa de novos passageiros e de atribuir efetiva prioridade ao transporte público no trânsito, em detrimento do transporte privado. O que é impossível fazer sem ter a coragem política de reduzir (e até banir) significativamente o espaço do automóvel dentro da cidade, com efetivo sacrifício para milhares de condutores.

·         Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 3 de agosto, 2026

 

4.8.26

PRAÇA DA LIBERDADE: Agosto, ir e voltar


Agosto tem qualquer coisa de mágico. É o mês em que o tempo abranda, as famílias se reencontram e a vida recupera um ritmo mais humano. As crianças trocam os horários pelas brincadeiras, o mar substitui a pressa, as noites prolongam-se em conversas demoradas e voltamos a descobrir o prazer de caminhar, de respirar fundo e de simplesmente estar.

É o mês das férias, dos reencontros, do descanso e das pequenas alegrias que tantas vezes a rotina nos rouba. Dias de praia, de campo, de montanha ou de aldeia. Dias para ganhar tempo, recuperar energia e construir memórias em família e entre amigos, saboreando, por vezes, os nossos dotes culinários sem tempo durante o ano e que nos acompanharão muito para além do verão.

Mas agosto é também o mês em que milhões de pessoas se fazem à estrada. E, infelizmente, continua a ser um dos períodos em que mais vidas se perdem em acidentes de viação. A velocidade, o álcool, o cansaço, a distração ou a falsa confiança de quem conhece bem o percurso continuam a transformar viagens de felicidade em histórias de dor.

Na mobilidade, sabemos que a segurança nunca é um acaso. É o resultado de escolhas responsáveis, de pequenos gestos e de decisões tomadas em cada quilómetro. Vale sempre a pena chegar cinco minutos mais tarde se isso significar chegar.

Que este seja um mês de liberdade, de descanso e de encontro. Mas que seja também um mês de prudência. Porque, no fim de cada viagem, há sempre alguém à nossa espera: um filho, um pai, uma mãe, um amigo ou um avô. E nenhum destino vale mais do que esse abraço.

Porque as melhores férias são aquelas de que todos regressam. E o melhor destino é voltar. Boas férias.

Paula Teles – Jornal de Notícias - 4 de agosto, 2026

3.8.26

OPINIÃO: A invasão de Ceuta, o cemitério e as notas


Só nos primeiros seis meses deste ano, registaram-se 1271 mortes de migrantes durante a travessia do Mediterrâneo, segundo a Organização Internacional para as Migrações. Um número aquém da tragédia real. A mesma organização alerta para os naufrágios invisíveis, ou seja, os que morrem sem deixar rasto e que não entram nas estatísticas: estima-se que tenham sido outros 1500. O número de vítimas aumenta, apesar da redução do número de chegadas: segundo a Frontex, a agência europeia para as fronteiras, nos primeiros cinco meses do ano, foram 30 mil. Para a esmagadora maioria dos cidadãos europeus, são números abstratos. Não lhes conhecemos os nomes, muito menos as histórias. Falar do cemitério do Mediterrâneo transformou-se numa banalidade. Tirando uns quantos voluntários e algumas notas de rodapé, depois da visita do Papa Leão XIV a Lampedusa, quase ninguém quer verdadeiramente saber.

Vale a pena relembrar esta tragédia, quando o que domina as notícias é a situação em Ceuta, cidade norte-africana que o antigo colonizador manteve em sua posse. Dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira entre Marrocos e Espanha em dois ou três dias. Ao que se vai sabendo, com a conivência (e até o empurrão) das autoridades marroquinas e a impotência das espanholas. Vários morreram na tentativa de chegar à terra prometida. E a grande maioria voltou entretanto para trás, tal era a evidência de que, numa cidade de pouco mais de 80 mil habitantes, a única coisa que podiam esperar era Mas nada disto interessa aos extremistas que agora dominam o espaço público e, cada vez mais, o desenho das políticas. Para a extrema-direita, incluindo a portuguesa, está em curso uma invasão. E a solução é fechar fronteiras. Sabem tudo sobre redes sociais, mas faltaram às aulas de História. A fortaleza Europa é um mito. E pagar centenas de milhões de euros a regimes corruptos ou ditatoriais, como o turco e o marroquino, é inútil. Não se consegue tapar o vento com as mãos, mesmo quando estão cheias de notas. um outro tipo de miséria.

Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 2 de agosto, 2026 

Foto - Getty images

 

30.7.26

OPINIÃO: O legado e o atrelado


Luís Neves usou o legado de 30 anos na Polícia Judiciária para justificar a excessiva informalidade demonstrada no tempo em que exerceu funções na Polícia Judiciária. Como se os fins (a comprovada competência e os resultados apresentados na liderança da investigação criminal) justificassem os meios (a leviandade com que tomou algumas decisões, sobretudo as que misturaram as esferas profissional e pessoal). Apesar da expectativa criada, foram poucas as novidades desta longa conferência de Imprensa. Luís Neves apenas pode queixar-se de si próprio e das suas imprudências. Mas não pode ignorar que a dimensão dos cargos (do anterior e do atual) comporta um conjunto explícito de exigências legais e éticas. Por mais que queiramos acreditar que os erros cometidos pelo ministro enquanto diretor da Polícia Judiciária foram produto de imprudência e não de incompetência, e que tudo foi feito para resolver problemas de forma pragmática, quem aplica as leis não pode alegar o seu desconhecimento.A honra e a probidade de Luís Neves são certamente importantes para o exercício mediático da gestão de danos ("Não poupei nem ganhei um cêntimo"; "Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem"), mas não são valores definitivos e únicos quando estão em causa as condições necessárias para um titular de um cargo político de elevada importância poder fazer o seu trabalho. Mesmo que Luís Neves nunca tenha sido, como enfatizou, "um homem de papéis", há demasiadas nebulosas e pontas soltas. Na decisão tomada por si de desviar o atrelado com material apreendido numa operação contra o tráfico de droga e cuja exigência de prova remeteu agora para os serviços da PJ; na excessiva bonomia com que o empreiteiro que fez obras em várias sedes da PJ e na sua casa no Alentejo acolheu, sem contrapartidas, esse material perigoso nas instalações da sua empresa em Barcelos; no expediente encontrado para lhe pagar essas obras domésticas, através da empresa da mulher e em numerário; no desconhecimento que disse ter sobre a obrigação de apresentar a declaração de rendimentos; e, por fim, na forma pouco ortodoxa como um tanque na sua propriedade no Alentejo se transformou, contra a sua vontade, numa piscina sem licença camarária. Por mais que não haja dolo, um ministro precisa de ter paz política e autoridade pública para cumprir a sua missão. Nem uma nem outra saíram a ganhar depois destes esclarecimentos públicos.

Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias - 30 de julho, 2026

28.7.26

OPINIÃO: A Polícia sob suspeita


Após os erros de casting Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, o primeiro-ministro tirou um coelho da cartola. Foi buscar para ministro da Administração Interna o diretor nacional da principal polícia de investigação. Visto o acanho de Maria Lúcia Amaral na crise da tempestade Kristin, que obrigou Luís Montenegro a dispensá-la e a assumir a pasta, Luís Neves era o homem providencial. Com provas dadas a prender bandidos, mexia-se bem entre polícias e bombeiros e sabia estar nos salões da corte, encontrava-se do lado humanista da História na candente problemática das migrações e tinha boa imprensa.

Entre os partidos, o Chega destoou. Não pela crónica anemia da PJ no combate ao crime de colarinho branco - isso, sim, merecia um reparo, não fosse a converseta do partido de André Ventura sobre corrupção um mero instrumento de propaganda -, mas por ter visto Luís Neves a desmontar a associação entre criminalidade e imigração, a ficção em que assenta a principal narrativa do Chega, e a falar da atividade criminosa de grupos de extrema-direita.

E, no entanto, havia outras objeções. Levantadas por vozes isoladas, em registo cifrado ou sem palco mediático. O Governo da AD servia-se de alguém que trazia consigo informação sigilosa sobre os podres de meio-país e que deixara a sua gente bem colocada na PJ. Menos expectável era o problema agora posto em cima da mesa, com as histórias do empreiteiro que fez obras na PJ e no monte de Neves e que levou para Barcelos um atrelado apreendido a traficantes: sendo necessário investigar o ministro, quem o faria? A PJ começou por fazê-lo (na parte do atrelado), mas o Ministério Público avocou a investigação. Naturalmente, não confia na Judiciária para investigar quem a dirigiu nos últimos oito anos.

O Chega viu a brecha e, à boleia do atrelado, anunciou uma comissão parlamentar de inquérito "para saber o que aconteceu na PJ durante os mandatos de Luís Neves". São oito anos de uma história de 80. Não se sabe como vão os deputados investigar a Polícia e é duvidoso que daí resulte alguma melhoria numa instituição que, com todos os seus defeitos, será das mais respeitadas pelos portugueses. Mas isso pouco importa a um limícola que, apesar de ter chegado aos 60 deputados, continua a não conseguir encontrar alimento senão no lodo. The show must go on.

Nelson Morais- Jornal de Notícias - 27 de julho, 2026

OPINIÃO: O verão perfeito


Eram 9.54 horas quando o solstício de verão, a 21 de junho, ocorreu em Portugal Continental. A hora e o dia marcam o início de uma das estações do ano mais amadas. Isto se seguirmos as diretrizes do verão astronómico, que é quando o Hemisfério Norte está na sua inclinação máxima em direção ao Sol. Para os meteorologistas, todavia, o verão começa a 1 de junho, o primeiro dia dos três meses mais quentes. O cenário é imbatível para a maioria de nós: a luz natural dura até às 21 horas, a pele fica mais bronzeada, a roupa que vestimos é mais leve e colorida, chega o tempo das tão desejadas férias e a rotina aborrecida e cansativa tem uma pausa.

Há até quem defenda (sim, há estudos) que os dias longos trazem mais otimismo, vontade de socializar, uma sensação de bem-estar e a melhoria do humor. A frase da canção de Dino Meira sobre o mês de agosto nunca fez tanto sentido: "Por ti levo o ano inteiro a sonhar". É assim com o verão. Mas num tempo em que as redes sociais e o telemóvel parecem ser uma extensão das mãos, braços e da vida, também as férias viraram performance e montra para likes. Onde estivemos, com quem e o que fizemos são perguntas a que parecemos obrigados a responder - ou a publicar - para mostrar que as nossas férias foram muito interessantes.

É bom lembrar que nem todos apanhamos um avião nas férias de verão, não temos histórias rocambolescas para contar, nem experimentamos um restaurante ou um bar novo todos os fins de semana. Alguns porque não querem, outros porque as circunstâncias sociais ou financeiras não o permitem. Um verão "sem fazer nada" não é menos significativo. Aliás, se as férias são uma espécie de botão de "reiniciar", tal como fazemos com os computadores quando estão a bloquear, porque haveríamos de encher os dias de descanso com sucessivos compromissos, como se de reuniões se tratasse?

A Internet mostra-nos um mundo onde até nas férias temos de ser produtivos, de fazer mais e melhor. Para provar à nossa bolha, seja ela digital ou não, que este verão foi tudo menos aborrecido. Entramos numa era em que até o "descanso" é performativo, em que publicamos a foto no Instagram a dizer offline, mas estamos online a publicá-la. Depois, percorremos o scroll aditivo, que nos diz mais uma atividade que não podemos deixar de fazer.

Eu recordo-me bem do tempo em que os algoritmos não atulhavam os dias. Agora, tenho muitas saudades dos verões em que as minhas únicas preocupações eram comer um gelado todos os dias e chegar a tempo a casa para ver o último episódio dos "Morangos com açúcar".

Rita Neves Costa – Jornal de Notícias - 20 de julho, 2026

25.7.26

OPINIÃO: Hoje, o dia acordou perigoso


Um relatório que junta mais de uma centena de organizações não-governamentais revelou, na semana passada, dados preocupantes sobre a deterioração do espaço público português. Apontava-se a "normalização de narrativas xenófobas", sobretudo contra imigrantes, que tinham como consequência "o aumento dos crimes de ódio" e "um ambiente hostil à defesa dos direitos humanos".

A conclusão, que não é surpreendente, é mais uma chamada à ação para inverter um declínio que se acentua. "Os tempos mais perigosos" como descreveu o vocalista dos Da Weasel, estão a adubar-se na palma das nossas mãos.

O radialista Nuno Markl publicou uma imagem de um casal interracial. Escrevia que a família era alvo de racismo. Acompanhou a fotografia de Jessica com o marido e o filho com uma série de cópias de mensagens insultuosas, criminosas, mas de pessoas que não tinham qualquer problema em dar a cara. "São pessoas para quem o racismo está tão normalizado e empoderado, que já não têm qualquer pudor em insultar uma mãe, um pai e uma criança", escreveu, proibindo os seus próprios seguidores de comentar a partilha.

É deste espaço público que falamos, de um lugar que, também em Portugal, se encolheu nas liberdades com o crescimento da extrema-direita, embalada por redes sociais e algoritmos manhosos, coniventes com os crimes.

No relatório de que falava, feito pelo Fórum Cívico Europeu e o Observatório do Espaço Cívico, apontava-se para a "crescente influência da extrema-direita", para as desenfreadas campanhas de desinformação e para o aumento dos crimes de ódio. Passos do declínio da liberdade que vão "enfraquecendo a ação cívica, a organização coletiva, a responsabilização do Estado e a participação pública". Passos perigosos que se dão à luz do dia, até com o manto da imunidade parlamentar.

·         Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias - 23 de julho, 2026

24.7.26

OPINIÃO: Dos exames ao protesto nas ruas, sem influencers


A polémica dos exames afetou centenas de milhares de jovens. Houve folhas que se perderem, erros na digitalização, problemas com agrafadores, falhas na leitura de QR codes, dificuldades com as plataformas informáticas, provas trocadas, prazos ultrapassados, calendários alterados. Um caos.

Para aumentar a confusão, considerou-se imprudente que as famílias tivessem marcado férias para esta altura, criticou-se a "resistência" de alguns professores ao processo de digitalização e também se pediram desculpas aos docentes pelos constrangimentos causados no processo de correção. Naturalmente, com o acesso ao Ensino Superior em causa, os níveis de ansiedade dos estudantes e das suas famílias dispararam.

Hoje, os estudantes vão sair à rua para mostrar o seu descontentamento com o processo. Irão denunciar os "erros políticos e logísticos" do Governo, pedir a demissão do ministro e contestar a taxa de 25 euros, exigida para a reapreciação das provas. Têm legitimidade para o fazer. Mas há outra lição que também aprenderam ou devem aprender.

Os grandes nomes das redes sociais, aqueles que concentram milhões de seguidores, estiveram praticamente ausentes da discussão pública. Além dos políticos, o debate ficou, sobretudo, nas mãos de professores, alunos e jornalistas. Não é que um influencer tenha obrigação de comentar política ou educação. Não tem. Mas muitos deles dizem que lutam por causas, que são a voz da geração Z. Neste caso, não o foram.

Percebe-se porquê. Há assuntos que dividem audiências, afastam marcas e não geram engagement. Portanto, quando o tema não é rentável, o conteúdo deixa de ser interessante para partilhar.

Hoje os estudantes não ficam a protestar em frente aos computadores ou com os smartphones na mão. Nem esperam que os algoritmos ampliem a insatisfação. Dão a cara e saem à rua, porque, afinal, a influência não se mede no número de seguidores.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 24 de julho, 2026

22.7.26

OPINIÃO: Testamento cívico de Luís Represas


"Há sempre alguém que nos faz falta". Luís Represas será, seguramente, um deles.

Durante cinquenta anos, Luís Represas ajudou a escrever uma parte da história da música portuguesa. Primeiro com os Trovante, que reinventaram a música popular portuguesa ao cruzar tradição e modernidade, depois numa carreira a solo onde os seus temas passaram a fazer parte da vida de várias gerações

Morreu aos 69 anos, vítima de doença prolongada. Partiu um dos artistas mais acarinhados do país, mas permanece um legado que nunca se limitou às canções. Porque Luís Represas nunca acreditou que a música existisse apenas para entreter. Acreditava que podia despertar consciências, preservar memórias e aproximar pessoas. Foi isso que aconteceu com "Timor", uma canção que ultrapassou rapidamente o universo musical para se transformar num símbolo da solidariedade portuguesa para com o povo timorense.

Num tempo em que Timor-Leste permanecia ocupado e distante dos olhares do mundo, a voz de Luís Represas ajudou a manter viva uma causa. O compromisso prolongou-se muito para além da música. Depois da independência, Jorge Sampaio convidou-o a integrar a visita oficial presidencial a Timor-Leste. Mais tarde, seria distinguido pelo presidente Taur Matan Ruak com a Medalha da Ordem de Timor-Leste, um reconhecimento pelo papel que desempenhou na divulgação daquela luta.

Também "Saudade" ganhou um significado que ultrapassou o palco. A canção foi escolhida para uma campanha nacional de segurança rodoviária, lembrando que, por detrás de cada acidente, ficam vidas interrompidas e famílias marcadas pela ausência. A sua música transformava-se, uma vez mais, numa linguagem capaz de servir uma causa pública.

Nunca fez da política uma profissão. Mas nunca foi indiferente ao país.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, deixava uma reflexão que continua atual: "A democracia, sendo o melhor de todos os males, tem um problema soporífero." E acrescentava outra ideia que dizia muito sobre a forma como via os portugueses: "Fomos capazes de dizer basta sem ninguém com uma caneta a instigar-nos." Acreditava numa cidadania ativa, participativa e exigente. Preferia construir pontes através da cultura a alimentar divisões através da política.

Essa forma de olhar o mundo repetia-se nas entrevistas.

Perante Ana Sousa Dias, dizia ser "um homem tranquilo e inquieto". Ao jornalista José Cândido Sousa recusava rótulos para a música e defendia que a identidade portuguesa nunca precisou de imitar ninguém. A João Gil explicava que nunca quis repetir fórmulas de sucesso, preferindo continuar a descobrir novos caminhos. Falava muitas vezes do mar, onde encontrava silêncio e liberdade, e da língua portuguesa como um património comum que merecia ser protegido.

Talvez por isso tenha aceite, já nos últimos anos, apresentar "Língua Mãe", programa da Sociedade Portuguesa de Autores na CMTV. Parecia um destino natural. Conversava com escritores, músicos, atores e criadores de todo o espaço lusófono, celebrando a língua portuguesa e defendendo os direitos de autor com a mesma serenidade com que sempre falou da música.

Pelo caminho recebeu algumas das mais importantes distinções da carreira. Em 2005 foi feito Comendador da Ordem do Mérito pelo Estado português. Em 2019 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio Pedro Osório pelo álbum "Boa Hora". Publicou ainda o livro infantil "A Coragem de Tição", integrado no Plano Nacional de Leitura, revelando uma curiosidade que nunca conheceu fronteiras.

Colaborou com José Afonso, Fausto Bordalo Dias, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Jorge Palma, Pablo Milanés, Ivan Lins, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Simone, Compay Segundo, Carlinhos Brown e Phil Collins. Nunca colecionou nomes. Colecionou encontros.

No fundo, Luís Represas deixou muito mais do que uma discografia. Deixou uma ideia de país. Um país onde a cultura é memória, a música pode mudar consciências e a língua portuguesa continua a ser um lugar de encontro.

Há artistas que deixam canções. Luís Represas deixa um pedaço da identidade de Portugal. E esse dificilmente conhecerá silêncio.

Catarina Ferreira – Jornal de Notícias - 22 de julho, 2026

OPINIÃO: Confiança suspensa


A vertigem da inovação exige passos certeiros e governar bem não rima com precipitação nem com experimentalismo. E não tem faltado experimentalismo e achismo na Educação em Portugal, com consequências danosas para os alunos. Este Governo e o seu Ministério da Educação, Ciência e [de pouca] Inovação cometeram o pecado capital de avançar para um processo de correção digital generalizado dos exames nacionais sem uma avaliação cabal do projeto-piloto realizado no ano passado. Quem o diz é o antigo presidente do Júri Nacional de Exames, a quem nunca terá sido pedido um balanço da experiência problemática de Filosofia. Se o tivesse feito - garante Luís Duque de Almeida -, dificilmente Fernando Alexandre teria arriscado o caminho da total digitalização e a trapalhada que se seguiu. Falta conhecer quais foram os dados irrefutáveis que convenceram o ministro, de peito cheio, a dar este passo em falso que abalou a confiança dos estudantes. O facto de a palavra "suspenso" ir dando lugar a notas nas pautas não faz esmorecer a suspeita de que a classificação afixada pode reproduzir, com erro, o trabalho apresentado nas provas. A fiabilidade na avaliação nacional dos exames está ferida de morte. Embora justa, é grave que exista desconfiança no processo de correção e é certo de que este sistema, lançado com um otimismo infundado, promoveu desigualdade entre os estudantes. Basta uma décima para ruir um trabalho árduo de três anos, para ficar aquém no acesso ao curso sonhado. Creio que não será a taxa moderadora de 25 euros a travar a avalanche de reapreciações de exames. Muitos não arriscarão a reapreciação, com receio de que o sistema volte a falhar e não tenham resultados a tempo de concorrer à primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior.

Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 21 de julho, 2026 



19.7.26

OPINIÃO: O preço da insinuação nas redes sociais

Não vale tudo nas redes sociais. Esta é a conclusão óbvia, e feliz, que se pode retirar da sentença do Tribunal Criminal de Lisboa, que condenou Pedro Frazão ao pagamento de uma multa e de uma indemnização por difamar José Manuel Pureza, atual coordenador do BE.

Recuemos a 2021. O atual vice-presidente do Chega partilhou, no Twitter (hoje, X), um vídeo de uma jovem que afirmava ter sido vítima de atos sexuais não consentidos por um indivíduo igado ao BE. A acompanhar esse vídeo, escreveu: "Já não há Pureza no Bloco de Asquereza? #MeToo". E, num comentário à própria publicação, perguntou: "Quem será o nojento de 62 anos?". A suspeita estava lançada. O algoritmo fez o resto.

José Manuel Pureza tinha, na altura, 62 anos e era vice-presidente do Parlamento. Pedro Frazão negou. Na primeira sessão de julgamento disse estar "perfeitamente inocente" e que não se lembrava se a publicação tinha sido da sua autoria ou feita por alguém que geria as redes sociais, embora também tenha afirmado que utiliza, em várias ocasiões, a palavra "pureza" e que a mesma é usada em homilias e atos litúrgicos: "Estava a falar da virtude humana da pureza. Eu tenho formação cristã", argumentou.

Não serão precisas explicações para entendermos o que se passou. Aquele post é apenas o exemplo de uma estratégia assente na confrontação permanente, procurando rentabilizar o alcance de mensagens através da discussão e da polarização. E é aqui que vale a pena ter em conta um pormenor. O tribunal valorizou o facto de a publicação de Pedro Frazão ter sido colocada numa rede social acessível a um público heterogéneo, não exigindo provas de que tivesse atingido um número concreto de utilizadores. Ou seja, não foi necessário demonstrar que a publicação foi viral, bastou que a mensagem tivesse sido divulgada numa rede social.

Ainda bem que os tribunais o lembram.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 17 de julho, 2026

 

16.7.26

OPINIÃO: Inquietações nacionais


As fases da lua não são sempre iguais, nem as do Governo. A destas últimas semanas é claramente minguante. Adormecida a grande crise na área da saúde - a ministra Ana Paula Martins resistiu -, adormecida porque o SNS é uma inquietação constante, Montenegro debate-se agora com a grande crise dos exames.

O primeiro-ministro mantém a confiança em Fernando Alexandre, mas os portugueses já a perderam em relação ao processo de digitalização de provas, apesar de o erro não estar, obviamente, no digital.

O que começou por empancar por um alegado problema técnico escalou para um campo minado que espelha quão impreparada estava a tutela para uma mudança que, não sendo urgente, quis levar teimosamente a cabo, apesar de o teste-piloto com a prova de Filosofia já ter exposto debilidades. A mudança de quatro dias no calendário é o menor dos problemas do ministro da Educação.

Quando, e se, amanhã, os resultados dos exames forem afixados nas escolas, começa uma nova fase que se perspetiva turbulenta: garantir que todos os alunos acedem à sua prova e que há capacidade instalada de revisores para reavaliar os exames. Exlcuem-se do raciocínio eventuais falhas na entrega dos malfadados items, prováveis, diria, uma vez que a ligação de um exame a um aluno vai ter de ser feita numa plataforma, manualmente, pelos estabelecimentos de ensino. Montenegro falou da "resistência" de alguns professores à mudança, mas as palavras não ajudam a serenar os ânimos nas escolas, nem nas famílias.

A digitalização é inevitável, mas a centralização mal acautelada de todo este processo revela quão frágil ele se tornou. A imagem daqueles milhares de exames no chão de um megaarmazém, em Lisboa, protegido pela polícia, é só por si causadora não de "alguma inquietação", mas de bastante inquietação, para os alunos e para as suas famílias.

·         Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias - 16 de julho, 2026

IMMAGEM - A processar | cartoon editorial da SÁBADO – Vasco Gargalo