16.7.26

OPINIÃO: Inquietações nacionais


As fases da lua não são sempre iguais, nem as do Governo. A destas últimas semanas é claramente minguante. Adormecida a grande crise na área da saúde - a ministra Ana Paula Martins resistiu -, adormecida porque o SNS é uma inquietação constante, Montenegro debate-se agora com a grande crise dos exames.

O primeiro-ministro mantém a confiança em Fernando Alexandre, mas os portugueses já a perderam em relação ao processo de digitalização de provas, apesar de o erro não estar, obviamente, no digital.

O que começou por empancar por um alegado problema técnico escalou para um campo minado que espelha quão impreparada estava a tutela para uma mudança que, não sendo urgente, quis levar teimosamente a cabo, apesar de o teste-piloto com a prova de Filosofia já ter exposto debilidades. A mudança de quatro dias no calendário é o menor dos problemas do ministro da Educação.

Quando, e se, amanhã, os resultados dos exames forem afixados nas escolas, começa uma nova fase que se perspetiva turbulenta: garantir que todos os alunos acedem à sua prova e que há capacidade instalada de revisores para reavaliar os exames. Exlcuem-se do raciocínio eventuais falhas na entrega dos malfadados items, prováveis, diria, uma vez que a ligação de um exame a um aluno vai ter de ser feita numa plataforma, manualmente, pelos estabelecimentos de ensino. Montenegro falou da "resistência" de alguns professores à mudança, mas as palavras não ajudam a serenar os ânimos nas escolas, nem nas famílias.

A digitalização é inevitável, mas a centralização mal acautelada de todo este processo revela quão frágil ele se tornou. A imagem daqueles milhares de exames no chão de um megaarmazém, em Lisboa, protegido pela polícia, é só por si causadora não de "alguma inquietação", mas de bastante inquietação, para os alunos e para as suas famílias.

·         Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias - 16 de julho, 2026

IMMAGEM - A processar | cartoon editorial da SÁBADO – Vasco Gargalo