13.7.26

OPINIÃO: Quando as torneiras secam


O ato de abrir uma torneira e dela jorrar água tornou-se tão corriqueiro que quase parece magia. Por artes insondáveis, que pouco ocupam a mente do consumidor comum, a água brota do bocal em alumínio com uma certeza tão absoluta que, quando as torneiras secam, despertam um encolher de ombros que, com o passar das horas, se converte em agitado pânico. Assim tem sido o dia a dia de milhares de moradores em Almada.

Não é o primeiro verão de serviço intermitente na Costa de Caparica, mas - contaram os residentes e os empresários ao jornalista Rogério Matos - é o primeiro em que os cortes surgem sem aviso prévio, a qualquer hora e, ainda pior, de duração incerta. É fácil apontar o dedo à escalada no consumo de água e ao aumento de residentes no verão. Não é o desejável para os territórios com bela costa marítima que o verão traga turistas e visitantes que alimentem a economia local?

A Câmara de Almada pode e deve apelar à consciência social dos cidadãos, para que façam um consumo mais regrado e até pode usar as tarifas da água para impor essa redução por via do preço, em caso de lapso de consciência dos munícipes. No entanto, tendo Portugal vivido dias de intenso calor, era expectável que o consumo de água disparasse. O que não é expectável em 2026 é que não haja planeamento municipal e inter-regional capaz de evitar que as torneiras sequem.

Antes de investir no acessório, os autarcas têm o dever de investir no essencial. E o essencial é que, em Almada, se deixem de perder 284 litros de água por ramal e por dia e que mais de um terço (33,4% e acima da média nacional, que é de 26,5%) da água distribuída não seja faturada, como descreve a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) no último relatório anual. Também a ERSAR não pode desresponsabilizar-se, pois permitiu que o serviço oferecido por Almada continue a não ser fiável ao longo de anos.

Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias -13 de julho, 2026