A vassalagem
de Gianni Infantino a Donald Trump não parece conhecer limites. O presidente da
FIFA tem assobiado para o lado perante os labirintos burocráticos que se
converteram em inaceitáveis entraves à entrada nos Estados Unidos de familiares
e de membros das comitivas técnicas de seleções africanas, do Médio Oriente e
até da América do Sul e apressou-se a aceitar, num silêncio cúmplice, as regras
apertadas de permanência em solo americano, plenas em desvantagem competitiva,
impostas à seleção do Irão. As histórias de resiliência, de que Cabo Verde é o
testemunho maior e que nos fazem sorrir com um encanto quase pueril, vão-nos
distraindo da realidade de um torneio que se alargou a mais nações, mas está
como nunca vergado ao poder político e económico. E o recente episódio de
Folarin Balogun é apenas mais um capítulo. O avançado americano - que é filho
de imigrantes e até viveu quase toda a sua vida no Reino Unido - foi expulso
com um vermelho direto por conduta violenta no jogo contra a Bósnia. Embora os
lances desportivos estejam sempre sujeitos a interpretação, entendo que a
expulsão é justa, pois Balogun pisa o adversário sem intenção de jogar a bola.
Mandam as regras, a aplicar aos ricos e aos pobres, aos influentes e aos
irrelevantes, que cumpra, pelo menos, um jogo de castigo. No entanto, ficamos a
saber que a cópia do regulamento de Infantino terá uma alínea desconhecida: o
jogador é punido, exceto se um chefe de Estado poderoso telefonar, solicitando
absolvição. E vemos Trump neste irónico papel de pedir clemência por um
imigrante, enquanto, nas ruas, o seu braço-armado do ICE propaga desumanidade,
aproveitando o amor pela bola de muitos imigrantes para intensificar as
detenções e as deportações. À hora que escrevo este texto, a UEFA acusou a FIFA
de "cruzar uma linha vermelha" com a suspensão do castigo da Balogun
e, até agora, de Infantino sobra silêncio. Afinal, é só mais uma linha
vermelha...
Carla Sofia Luz - 7 de julho, 2026
