8.7.26

ESPECIAL - "O Poder Local perdeu energia porque o “poder”, instalou-se nas autarquias” – ANTÓNIO MONTALVO in JN 07.07.2004 (1ª parte da Entrevista)


Foi uma das mais extensas entrevistas (três páginas) produzidas  pelo “Jornal de Nisa” ao longo da sua existência de quase 11 anos. Hoje, por motivos que estaria muito longe de imaginar, reproduzo-a na net, entre o orgulho de a ter realizado e a tristeza de ver partir o entrevistado, António Montalvo, uma figura grada, ilustre desta terra, a quem, como todas as pessoas humildes que se dão em prol das comunidades, nunca foi feito o devido reconhecimento. O seu valor, muito pela rama, revela-se em cada ideia ou parágrafo desta entrevista e são, passados 22 anos, de uma actualidade gritante. Obrigado, António Montalvo! 
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António Montalvo recorda nesta entrevista, as emoções dos anos vividos em Nisa e fala de alguns dos principais problemas do poder local, aproveitando para dissipar todas as dúvidas: não será candidato à presidência da Câmara Municipal de Nisa.

“Vivi anos muito felizes em Nisa”

Jornal de Nisa (JN) – Quanto tempo viveu em Nisa e que recordações mantém da época em que aqui residiu?

António Montalvo (AM) – “Fui morar para Nisa  com um mês de idade, em inícios de Setembro de 1951, quando o meu pai foi nomeado Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Nisa. Este cargo já não existe , porque fazia parte de uma carreira de funcionários do Ministério do Interior (chamado depois do 25 de Abril da Administração Interna) que foi extinta há 20 anos, mas correspondia aos actuais Directores Municipais de administração geral.

Vivi em Nisa até aos meus 16 anos e esse tempo foram anos muito felizes. Foi em Nisa que criei os alicerces da minha formação e da minha personalidade, e para eles contribuíram não só os meus pais, mas também os meus amigos desse tempo (que mantenho ainda hoje) os meus professores da escola primária e dos colégios que frequentei em Nisa e em Portalegre, o carácter de muitas pessoas com quem convivi nesses anos e todo o ambiente social de grande amizade e afabilidade que sempre senti em Nisa.

JN – O que o levou a que só tardiamente, encetasse o caminho de “regresso às origens”, ou, dito de outra forma, que ligações manteve com a vila onde deu os primeiros passos e aprendeu as primeiras letras?

AM – Mantive-me ligado a Nisa desde que fui morar para Abrantes, em 1967. Todos os anos vinha a Nisa, umas vezes visitar amigos com meus pais, outras vezes na época da caça, outras vezes ainda à romaria da Senhora da Graça. Todos os anos vinha com meu pai a caçadas com o Dr. Matutino, o Sr. Luís Vieira, o Padre Pratas, o Sr. João Figueiredo e o Sr. João Semedo, outras vezes também com os irmãos Ligeiro, de Alpalhão. Recordo o último ano em que estive na Senhora da Graça com meu pai, em 1995, e em que almoçámos com o Sr. Vilela, que tinha sido funcionário da Câmara Municipal. Vim também com meus pais em Outubro de 1996, a convite da Câmara Municipal, às comemorações dos 350 anos do Marquesado de Nisa. Foi essa, aliás, a última vez que o meu pai esteve em Nisa, antes de adoecer em Maio do ano seguinte e de falecer em Julho de 2000. Foi também nesse dia que estive pela última vez com o meu querido amigo António Maria Bicho, com quem recordei histórias e episódios de outros tempos.

JN – A criação da Associação Nisa Viva, de que foi o principal dinamizador, tem, na sua génese, alguma coisa a ver com as “memórias de infância” e a afectividade que o liga ao concelho?

AM – Muitas pessoas quando chegam aí aos 45 ou 50 anos, começam a sentir uma certa nostalgia pelo passado. Sentem-se com vontade de recordar, procuram encontrar amigos que não vêem há muito tempo e sentem um apelo muito forte por locais que tiveram para eles um significado especial.

A Associação Nisa Viva foi também fruto da necessidade de estar com amigos, de ter um motivo para vir mais vezes a Nisa, e de poder retribuir de alguma forma a Nisa, o que Nisa me deu enquanto aqui vivi. Estes sentimentos acabaram por se revelar comuns em muitas pessoas, várias delas residentes longe de Nisa, que ajudaram a fundar esta Associação.

JN – Que balanço é que nos pode dar destes dois anos de actividade da Nisa Viva?

AM – A Associação Nisa Viva fez dois anos agora em junho. Não gosto de ver os dirigentes das instituições, sejam elas associações, autarquias ou governos elogiarem o seu trabalho. Como presidente da direcção da Associação não vou elogiar o trabalho que tempos desenvolvido. São os sócios e os outros nisenses que conhecem a nossa actividade quem deve julgar-nos.

A Associação tem fins de tipo cultural e de solidariedade definidos os seus Estatutos e, por isso, as suas actividades são sobretudo de natureza cultural, procurando congregar os nisenses, residentes e ausentes. Penso que preenchemos uma lacuna que existia em Nisa, criando uma associação que realiza colóquios sobre temas de interesse local e regional, que traz a Nisa conferências de nome nacional, que publica uma revista (a revista Nisa Viva) de promoção da cultura local e de divulgação do concelho lá fora, cuja qualidade tem sido reconhecida por toda a gente. Mas sabemos que uma associação deste tipo não pode ter a pretensão de cativar e mobilizar toda a gente. Temos grandes dificuldades financeiras que limitam a nossa acção, porque só temos contado com o dinheiro das quotas dos sócios e da publicidade da revista. Apesar disso, o número de sócios tem vindo sempre a crescer e julgo que a nossa actividade tem sido apreciada, de uma forma geral, pelos nisenses.

“ Seria útil reactivar as relações entre Nisa e Azay le Rideau”

JN – Sendo um dos objectivos da Associação, a “ligação entre os nisenses ausentes da sua terra e o reforço dos laços que nos ligam a ela”, acha que tem havido um “divórcio” latente, entre naturais, residentes e ausentes?

AM – Não acho que exista um divórcio entre naturais residentes e ausentes. O que penso existir é uma quebra de afectividades que é o resultado do processo de esvaziamento de Nisa e do seu concelho que começou há 40 anos, e que gerou a distância entre quem ficou e quem saiu. Quem sai da sua terra natal sai sempre numa situação de maior ou menor estado de necessidade. Sai para ganhar a vida,, para resolver o seu problema e o da sua família, para arranjar um “pé de meia”. Esta atitude é absolutamente natural e legítima, mas é, por natureza, individualista e desagregadora da comunidade.

Quando se verifica que os que saíram regressam mais tarde, essa atitude desagregadora acaba por ter efeitos positivos, porque gera um novo processo de recomposição social e económica, criador de mudança e progresso. Existem em Nisa vários exemplos dessa situação. O que acaba por ser negativo é sair um dia e nunca mais voltar, por si ou pelos seus descendentes. E quanto a isto, sinto que Nisa perdeu duas vezes muitos dos seus emigrantes: no dia em que eles se foram embora e no dia em que eles perderam a vontade de regressar de vez. Creio que muitos emigrantes nisenses que vêm à sua terra no Verão sentem dificuldade em se sentirem na sua terra.

JN – Em sua opinião, o que é que deveria ser feito, no sentido da “reconciliação”, ou seja, numa maior aproximação efectiva, entre os nisenses ( de todo o concelho) residentes e ausentes?

AM – Criou-se uma certa distância entre os que foram e os que ficaram e penso que tudo deve ser feito para ultrapassar isso a que chamei “quebra de afectividades entre uns e outros. É nesse sentido que procuramos que a nossa revista chegue junto do maior número possível dos nossos emigrantes. Mas isto é muito pouco. Seria útil reactivar as relações entre Nisa e Azay le Rideau e outras localidades da Touraine. A construção de um monumento ao emigrante poderia também mostrar aos que partiram que não foram esquecidos e fazê-los sentir em sua casa quando cá vêm.

JN – Como especialista que é na área do Poder Local e do Municipalismo, quais são, para si, as principais virtudes e os mais visíveis defeitos do poder local democrático português?

AM – Esta pergunta tem a ver com uma exposição que fiz num dos últimos colóquios que a nossa Associação realizou em Nisa. O poder local que temos actualmente contém três grandes virtudes. A primeira consiste na autonomia local, isto é na independência institucional e política das autarquias locais em relação ao Estado.

A segunda traduz-se na capacidade das comunidades locais decidirem sobre o seu destino, uma vez que o poder local reside nos habitantes das autarquias e são eles quem escolhe os seus representantes.

A terceira consiste na dinamização das comunidades locais pelo aparecimento de formas variadas de intervenção dos cidadãos na gestão local, quer através da associação, quer dos órgãos de comunicação social de âmbito local, quer de movimentos de opinião e de defesa de interesses colectivos.

Quanto aos defeitos do modelo de poder local que temos, eles resultam sobretudo de três vícios estruturais do sistema. O primeiro traduz-se num divórcio que se sente em muitas autarquias do país entre os seus órgãos e os cidadãos que os elegeram. Alguns autarcas julgam, erradamente, que o poder local reside neles próprios e não nos cidadãos da autarquia.