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1.8.26

ANTÓNIO MONTALVO: Cidadão de Nisa, cidadão do Mundo


Se não fossem os imponderáveis da vida, as circunstâncias que não dominamos e estabelecem os mecanismos da morte, António Manuel Rebordão Montalvo, teria completado, ontem, três quartos de século.

Nasceu em 1951 e apenas pelos tais imponderáveis, não conheceu a luz do dia em Nisa, a terra que viria a ser a sua por opção. Nisa onde foi criança e brincou, conheceu amigos, os terrenos baldios em roda da Fonte da Cruz, o célebre campo do Celeiro, um “estádio” na fértil imaginação infantil e cenário de duras refregas futebolísticas e de outras brincadeiras que anteciparam a entrada na Escola do Rossio. Já nessa altura, o António Montalvo era alvo de educação esmerada, um “menino”, como os pobres chamavam aos filhos das pessoas endinheiradas da vila. Algumas, nem tanto, como o pai do António Manuel, chefe de secretaria da Câmara Municipal de Nisa, onde o seu prestígio e a qualidade do seu trabalho, suplantavam, largamente, o salário auferido.

Encontrei-o na 3ª e 4ª classe na Escola do Rossio, uma fila de carteiras a separar-nos, silêncio mantido a respeito imposto pelas famosas reguadas.

O meu primo António Pires, o professor, nem era muito utilizador do método, fosse porque a idade não lhe sorrisse já muito ou porque a “alegria” de um branquinho bebido, nos intervalos, no estabelecimento do senhor António Alberto, lhe acalmasse o espírito. Certo e sabido é que o nome do António Montalvo nunca foi escrito no quadro preto da sala do piso superior da escola, ao contrário do meu, vezes sem conta, escarrapanchado logo na primeira linha pelo “vigilante de turno”, como perturbador do silêncio imposto após o recreio, o que, de vez em quando, levava o professor a comentar:

- Outra vez, tu, Mário? Vá lá, vão-se lá sentar!

A palmatória ficava adiada para o dia seguinte ou outro, porque tanta rapaziada nova calados e fechados numa sala, não era para o meu feitio.

Terminada a escola primária, cada um foi à sua vida. O António Montalvo seguiu os estudos secundários e o exemplo do pai inculcava-se nele. Acabou os estudos liceais, entrou na Universidade, cursou direito e especializou-se em Direito Administrativo.

Estabeleceu-se com escritório em Lisboa, coadjuvou o pai em vários estudos e pareceres e a paixão pelos temas ligados ao Poder Local ficou para sempre.

Não se estranhou, por isso e devido à fama que granjeou que fosse escolhido para presidente da Comissão Coordenadora Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCRLVT), a par da do Porto, as duas mais importantes do país.

Tornou-se um dos maiores especialistas na área das Autarquias Locais, consolidando esse prestígio com a publicação de diversos livros e de uma revista dedicada à temática do Poder Local.  A todo este trabalho veio a corresponder o convite do Conselho da Europa para perito e observador de eleições locais em vários países comunitários.

Às regiões (Vale do Tejo e Alto Alentejo) vinha com a frequência determinada pelos vários estudos e pareceres solicitados pelas autarquias locais que nele depositavam a sua confiança. Mas, nunca esqueceu Nisa, a terra onde foi criança e se fez adulto. Onde estudou e conheceu pessoas e histórias de vida que contribuíram para lhe moldar o carácter e tornar sempre presente a sua condição de homem do “interior”.

Na chamada “curva da vida”, orientados os filhos, dedica-se a valorizar a vila e o concelho que tinha como o “seu”.  Cria a Nisa Viva – Associação dos Amigos e Naturais do Município de Nisa e a partir desta Associação lança um alargado conjunto de iniciativas de promoção sócio-cultural, culminando na reconstrução da ermida de Santo André, feita com verbas obtidas na venda do seu livro “Retratos de Nisa com Gentes da Terra” e a colaboração da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Graça e da Paróquia de Nisa.

A sua acção foi determinante para desbloquear a situação familiar que impediu durante anos, o projecto da erecção do Menir do Patalou. A divulgação e preservação do património foi sempre um dos objectivos do programa de acção da Nisa Viva, nome que era também o de uma revista cultural e de que foram publicados 35 números, o último dos quais em 2022. A organização de variadas exposições sobre temas do património local e concelhio, a promoção de caminhadas abertas a toda a gente visando dar a conhecer os caminhos rurais e históricos de algumas freguesias, bem como promoção de colóquios e conferências sobre a cultura, património, educação, economia, desenvolvimento local e regional e tantos outros temas constituíram actividades desenvolvidas pela Nisa Viva permitindo a discussão frontal e aberta de importantes problemas sentidos pela comunidade.

De salientar, como dois grandes momentos da criatividade e dinamismo da Associação, os dois Cortejos Etnográficos realizados em 2007 e 2009, o segundo culminando na inauguração do Museu do Barro e do Bordado, na antiga Cadeia Comarcã.

E muito mais poderia ter sido feito se, ao desejo de contribuir de forma voluntária e voluntariosa para a elevação do concelho não se sobrepusessem as quezílias e as dúvidas de natureza política-partidária sobre os reais objectivos da Associação.

António Montalvo procurou sempre, de forma clara e transparente, diria mesmo decidida, que tais considerações nunca pudessem envolver a Nisa Viva. Mantê-la sempre viva e independente foi um dos seus desígnios, na defesa dos quais recusou, a oferta de instalações  para sede da colectividade. 

Hoje, primeiro de Agosto, um dia após o seu aniversário,  que a doença e a morte não deixaram comemorar, lembramos o Cidadão de Nisa (que o foi, integralmente), o Cidadão do Mundo, o Homem do Poder Local, da Democracia e da Liberdade.

E recordo tantas outras personagens, que, sem apelo nem agravo, sem nada (rigorosamente) terem feito por esta terra e seu concelho, foram agraciados, homenageados em festins que tiveram mais de hipocrisia do que verdade.

O Montalvo, sei-o bem, também dispensaria essas “honrarias”.

Apenas e tão só porque construiu o seu caminho na perspectiva da Cidadania e no respeito pela verdade e dignidade humana.

Que melhor Homenagem há que um Homem possa levar desta vida?

Mário Mendes 








 

8.7.26

ESPECIAL - "O Poder Local perdeu energia porque o “poder”, instalou-se nas autarquias” – ANTÓNIO MONTALVO in JN 07.07.2004 (1ª parte da Entrevista)


Foi uma das mais extensas entrevistas (três páginas) produzidas  pelo “Jornal de Nisa” ao longo da sua existência de quase 11 anos. Hoje, por motivos que estaria muito longe de imaginar, reproduzo-a na net, entre o orgulho de a ter realizado e a tristeza de ver partir o entrevistado, António Montalvo, uma figura grada, ilustre desta terra, a quem, como todas as pessoas humildes que se dão em prol das comunidades, nunca foi feito o devido reconhecimento. O seu valor, muito pela rama, revela-se em cada ideia ou parágrafo desta entrevista e são, passados 22 anos, de uma actualidade gritante. Obrigado, António Montalvo! 
**********
António Montalvo recorda nesta entrevista, as emoções dos anos vividos em Nisa e fala de alguns dos principais problemas do poder local, aproveitando para dissipar todas as dúvidas: não será candidato à presidência da Câmara Municipal de Nisa.

“Vivi anos muito felizes em Nisa”

Jornal de Nisa (JN) – Quanto tempo viveu em Nisa e que recordações mantém da época em que aqui residiu?

António Montalvo (AM) – “Fui morar para Nisa  com um mês de idade, em inícios de Setembro de 1951, quando o meu pai foi nomeado Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Nisa. Este cargo já não existe , porque fazia parte de uma carreira de funcionários do Ministério do Interior (chamado depois do 25 de Abril da Administração Interna) que foi extinta há 20 anos, mas correspondia aos actuais Directores Municipais de administração geral.

Vivi em Nisa até aos meus 16 anos e esse tempo foram anos muito felizes. Foi em Nisa que criei os alicerces da minha formação e da minha personalidade, e para eles contribuíram não só os meus pais, mas também os meus amigos desse tempo (que mantenho ainda hoje) os meus professores da escola primária e dos colégios que frequentei em Nisa e em Portalegre, o carácter de muitas pessoas com quem convivi nesses anos e todo o ambiente social de grande amizade e afabilidade que sempre senti em Nisa.

JN – O que o levou a que só tardiamente, encetasse o caminho de “regresso às origens”, ou, dito de outra forma, que ligações manteve com a vila onde deu os primeiros passos e aprendeu as primeiras letras?

AM – Mantive-me ligado a Nisa desde que fui morar para Abrantes, em 1967. Todos os anos vinha a Nisa, umas vezes visitar amigos com meus pais, outras vezes na época da caça, outras vezes ainda à romaria da Senhora da Graça. Todos os anos vinha com meu pai a caçadas com o Dr. Matutino, o Sr. Luís Vieira, o Padre Pratas, o Sr. João Figueiredo e o Sr. João Semedo, outras vezes também com os irmãos Ligeiro, de Alpalhão. Recordo o último ano em que estive na Senhora da Graça com meu pai, em 1995, e em que almoçámos com o Sr. Vilela, que tinha sido funcionário da Câmara Municipal. Vim também com meus pais em Outubro de 1996, a convite da Câmara Municipal, às comemorações dos 350 anos do Marquesado de Nisa. Foi essa, aliás, a última vez que o meu pai esteve em Nisa, antes de adoecer em Maio do ano seguinte e de falecer em Julho de 2000. Foi também nesse dia que estive pela última vez com o meu querido amigo António Maria Bicho, com quem recordei histórias e episódios de outros tempos.

JN – A criação da Associação Nisa Viva, de que foi o principal dinamizador, tem, na sua génese, alguma coisa a ver com as “memórias de infância” e a afectividade que o liga ao concelho?

AM – Muitas pessoas quando chegam aí aos 45 ou 50 anos, começam a sentir uma certa nostalgia pelo passado. Sentem-se com vontade de recordar, procuram encontrar amigos que não vêem há muito tempo e sentem um apelo muito forte por locais que tiveram para eles um significado especial.

A Associação Nisa Viva foi também fruto da necessidade de estar com amigos, de ter um motivo para vir mais vezes a Nisa, e de poder retribuir de alguma forma a Nisa, o que Nisa me deu enquanto aqui vivi. Estes sentimentos acabaram por se revelar comuns em muitas pessoas, várias delas residentes longe de Nisa, que ajudaram a fundar esta Associação.

JN – Que balanço é que nos pode dar destes dois anos de actividade da Nisa Viva?

AM – A Associação Nisa Viva fez dois anos agora em junho. Não gosto de ver os dirigentes das instituições, sejam elas associações, autarquias ou governos elogiarem o seu trabalho. Como presidente da direcção da Associação não vou elogiar o trabalho que tempos desenvolvido. São os sócios e os outros nisenses que conhecem a nossa actividade quem deve julgar-nos.

A Associação tem fins de tipo cultural e de solidariedade definidos os seus Estatutos e, por isso, as suas actividades são sobretudo de natureza cultural, procurando congregar os nisenses, residentes e ausentes. Penso que preenchemos uma lacuna que existia em Nisa, criando uma associação que realiza colóquios sobre temas de interesse local e regional, que traz a Nisa conferências de nome nacional, que publica uma revista (a revista Nisa Viva) de promoção da cultura local e de divulgação do concelho lá fora, cuja qualidade tem sido reconhecida por toda a gente. Mas sabemos que uma associação deste tipo não pode ter a pretensão de cativar e mobilizar toda a gente. Temos grandes dificuldades financeiras que limitam a nossa acção, porque só temos contado com o dinheiro das quotas dos sócios e da publicidade da revista. Apesar disso, o número de sócios tem vindo sempre a crescer e julgo que a nossa actividade tem sido apreciada, de uma forma geral, pelos nisenses.

“ Seria útil reactivar as relações entre Nisa e Azay le Rideau”

JN – Sendo um dos objectivos da Associação, a “ligação entre os nisenses ausentes da sua terra e o reforço dos laços que nos ligam a ela”, acha que tem havido um “divórcio” latente, entre naturais, residentes e ausentes?

AM – Não acho que exista um divórcio entre naturais residentes e ausentes. O que penso existir é uma quebra de afectividades que é o resultado do processo de esvaziamento de Nisa e do seu concelho que começou há 40 anos, e que gerou a distância entre quem ficou e quem saiu. Quem sai da sua terra natal sai sempre numa situação de maior ou menor estado de necessidade. Sai para ganhar a vida,, para resolver o seu problema e o da sua família, para arranjar um “pé de meia”. Esta atitude é absolutamente natural e legítima, mas é, por natureza, individualista e desagregadora da comunidade.

Quando se verifica que os que saíram regressam mais tarde, essa atitude desagregadora acaba por ter efeitos positivos, porque gera um novo processo de recomposição social e económica, criador de mudança e progresso. Existem em Nisa vários exemplos dessa situação. O que acaba por ser negativo é sair um dia e nunca mais voltar, por si ou pelos seus descendentes. E quanto a isto, sinto que Nisa perdeu duas vezes muitos dos seus emigrantes: no dia em que eles se foram embora e no dia em que eles perderam a vontade de regressar de vez. Creio que muitos emigrantes nisenses que vêm à sua terra no Verão sentem dificuldade em se sentirem na sua terra.

JN – Em sua opinião, o que é que deveria ser feito, no sentido da “reconciliação”, ou seja, numa maior aproximação efectiva, entre os nisenses ( de todo o concelho) residentes e ausentes?

AM – Criou-se uma certa distância entre os que foram e os que ficaram e penso que tudo deve ser feito para ultrapassar isso a que chamei “quebra de afectividades entre uns e outros. É nesse sentido que procuramos que a nossa revista chegue junto do maior número possível dos nossos emigrantes. Mas isto é muito pouco. Seria útil reactivar as relações entre Nisa e Azay le Rideau e outras localidades da Touraine. A construção de um monumento ao emigrante poderia também mostrar aos que partiram que não foram esquecidos e fazê-los sentir em sua casa quando cá vêm.

JN – Como especialista que é na área do Poder Local e do Municipalismo, quais são, para si, as principais virtudes e os mais visíveis defeitos do poder local democrático português?

AM – Esta pergunta tem a ver com uma exposição que fiz num dos últimos colóquios que a nossa Associação realizou em Nisa. O poder local que temos actualmente contém três grandes virtudes. A primeira consiste na autonomia local, isto é na independência institucional e política das autarquias locais em relação ao Estado.

A segunda traduz-se na capacidade das comunidades locais decidirem sobre o seu destino, uma vez que o poder local reside nos habitantes das autarquias e são eles quem escolhe os seus representantes.

A terceira consiste na dinamização das comunidades locais pelo aparecimento de formas variadas de intervenção dos cidadãos na gestão local, quer através da associação, quer dos órgãos de comunicação social de âmbito local, quer de movimentos de opinião e de defesa de interesses colectivos.

Quanto aos defeitos do modelo de poder local que temos, eles resultam sobretudo de três vícios estruturais do sistema. O primeiro traduz-se num divórcio que se sente em muitas autarquias do país entre os seus órgãos e os cidadãos que os elegeram. Alguns autarcas julgam, erradamente, que o poder local reside neles próprios e não nos cidadãos da autarquia. 

16.5.26

IN MEMORIAN – João Abel Manta


Faleceu um dos grandes, “o mestre” João Abel Manta. Foi Pintor, cartoonista, um dos grandes artistas das artes visuais do nosso país, deixou uma obra ímpar de dimensão Universal, desenhou o período da Ditadura, desenhou o período da revolução e a democracia, foi um dos grandes alvos da censura do Estado Novo. Uma das minhas principais referências, onde tive a honra e o prazer de conhecê-lo no museu Bordalo Pinheiro, deixou uma marca bem vincada no traço genial que contornou a liberdade do desenho de imprensa do nosso país, crescemos a olhar e interpretar os seus cartoons. Até sempre grande mestre.

             Texto e cartoon retirado de Vasco Gargalo

31.1.26

IN MEMORIAN – FERNANDO MAMEDE, o grande campeão que nos deixou

 


FERNANDO MAMEDE – Fernando Eugénio Pacheco Mamede, de seu nome completo. Desportista, natural da Freguesia de Santiago Maior (Beja), nasceu a 01-11-1951 e faleceu a 27-01-2026. Apesar de ter começado a sua carreira de Desportista no Futebol, nos Juniores em dois clubes de Beja, Fernando Mamede, sempre treinado pelo Professor Moniz Pereira, ganhou fama no Atletismo, principalmente nos dez mil metros.

Considerado um Atleta de eleição, embora pouco talhado para competições de grande desgaste emocional, foi recordista mundial dos dez mil metros, de 1984, em Estocolmo, até 1989, quando Arturo Barrios, do México, o destronou em Berlim.

Fernando Mamede foi, também, recordista europeu dos dez mil metros de 1981, um título conquistado em Lisboa, até 26 de Junho de 1982, altura em que o perdeu a favor de Carlos Lopes, para o recuperar 13 dias depois, em Paris. Masi tarde melhorou novamente a marca, conseguindo fazer dez mil metros em 27 minutos, 13 segundos e 81 centésimos, recorde europeu.

Ainda em matéria de recordes, Fernnado Mamede foi recordista absoluto dos 800 metros nas seguintes época: 1970, em Bruxelas; em Barcelona e em Helsínquia, em 1973; em Lisboa, e, um ano depois, em Roma. Perdeu o recorde em Agosto de 1986. Conseguiu o recorde dos cinco mil metros, primeiro em 1978, em Estocolmo, e depois, em Lisboa, em 1982, sendo esta marca ultrapassada pelo recordista António Leitão, também em 1982.

Fernando Mamede, conquistou duas Medalhas de Bronze, uma individual, no Campeonato do Mundo de Corta-Mato, em Madrid, no ano de 1981, e outra colectiva, no Campeonato do Mundo de Corta-Mato, em Nova Iorque, em 1984.

Este Atleta do Sporting esteve presente nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972; de Montreal, em 1976, e Los Angeles, em 1984. Esteve também presente em Campeonatos do Mundo de Pista, Corta-Mato; Campeonatos da Europa de Pista; Taça da Europa, entre outras competições.

A nível nacional, o Atleta do Sporting Clube de Portugal, foi recordista dos dois mil metros, em 1984; dos quinhentos metros, de 1970 a 1982; dos mil metros, de 1971 a 1980; da milha, desde 1976 até 1980; das duas milhas, de 1974 a 1976, rrecordista dos três mil metros, de 1979 a 1983 e recordista absoluto dos mil e quinhentos metros, de 1971 a 1974, seis dias mais tarde recuperou o recorde e bateu-o mais três vezes durante o ano de 1976. Perdeu este recorde em Julho de 1980.

Também nas estafetas o seu comportamento foi evidente: nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972; nos 4×400 metros, fez o último percurso da corrida e estabeleceu um recorde de Portugal que perdurou até 1982; nos 4×800 metros fez parte da equipa que bateu o recorde em 1969 e, no ano seguinte, bateria novamente esse recorde que seria mais tarde, em 1973, batido por uma equipa do Sporting de que Fernando Mamede não fazia parte. Também nos 4×1.500 metros manteve o recorde português em representação de uma equipa do Sporting Clube de Portugal, desde 1970 até 1972. No Corta-Mato, foi Campeão Nacional em 1979, 1980, 1981, 1983, 1985 e 1986.

No escalão júnior, o seu primeiro recorde nacional nos dez mil metros data de Julho de 1980, foi também recordista na distância dos oitocentos metros de 1970 a 1973 e nos mil metros manteve o recorde entre 1970 e 1979. Na distãncia de mil e quinhentos metros foi recordista nacional de 1970 a 1972, recordista dos quatrocentos metros entre 1970 e 1971 e na estafeta de 4×400 metros, em 1968, a equipa de que fazia parte, obteve um recorde nacional que seria melhorado depois em 1970 e que se aguentou até 1983.

O seu nome faz parte da Toponímia de: Sintra (Freguesia de Rio de Mouro – Rua Fernando Mamede).

Fonte: “Infopédia – Dicionários Porto Editora”

18.10.24

IN MEMORIAM: Nos 30 anos do falecimento do pintor Augusto Pinheiro

Nasceu na vila de Nisa, Alto Alentejo, em 22 de Agosto de 1905. Era comerciante de profissão e começou a pintar aos 66 anos. Participou em 40 exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro e realizou 17 individuais. Faleceu em Nisa a 18 de Outubro de 1994. AUGUSTO PINHEIRO No centenário do seu nascimento ... Quando se iniciou na pintura, Augusto Pinheiro não escolheu escolas ou correntes, linguagens ou formas de expressão. Deu rédeas soltas à sua imaginação e começou a pintar como o seu instinto lhe ditava, com total liberdade e desprendimento das regras da perspectiva ou da composição de que nunca ouvira falar. Com cores primárias e fortes, pondo em destaque os elementos que mais lhe diziam ao gosto e ao coração. Augusto Pinheiro é dum dos mais puros e autênticos "naifs" portugueses - escreveu o dr. Lima de Carvalho, director da Galeria de Arte do Casino Estoril, neste texto que estamos a reproduzir -, pelo ingenuismo quase infantil dos seus trabalhos, a poesia lírica que ressalta de cada de cada um dos seus quadros, a falta total de perspectiva, a pureza das cores, a originalidade dos temas e soluções. O carinho. O amor. (...) Robert Thilmany, um dos maiores estudiosos desta corrente, no seu livro "Critériologie de L´Art Naif" enuncia as seguintes quatro características fundamentais desta pintura:
* o perfume da inocência, uma "candura angélica", uma ingenuidade de tema ou execução, que constitui uma das características fundamentais da modalidade; * a poesia, que traduz a visão poética da realidade que os pintores "naifs" colocam nos seus trabalhos; * a originalidade criadora, pessoal, inventiva, indispensável a toda a arte "naif" digna desse nome; * a dimensão metafísica de uma certa procura de absoluto, numa perspectiva festiva, simbólica, hedonista, religiosa, social, mística ou qualquer outra, cuja ausência reduz a arte a um puro objecto decorativo. Augusto Pinheiro está representado nos Museus de Pintura "Naif" de Jaén e Figueras, em Espanha e no Museu de Arte Primitiva Moderna de Guimarães. Entre os prémios que recebeu referem-se: Menção Honrosa no Salão de Outono 1981 da Galeria de Arte do Casino Estoril; Menção Honrosa no IV Salão Nacional de Pintura "Naif" da Galeria de Arte do Casino Estoril; Prémio Câmara Municipal de Guimarães no XIV Salão de Pintura "Naif" da Galeria de Arte do Casino Estoril. (...) A pintura "naif" está a afirmar-se cada vez mais em todos os países, com a realização de exposições, publicação de livros, abertura de galerias e até a instalação de museus exclusivamente dedicados a esta modalidade e os coleccionadores adquirem obras de arte "naif", que em muitos casos atingem cotações tão elevadas como os trabalhos das outras correntes e tendências.
(...) Em Portugal a Câmara Municipal de Guimarães promoveu em 1991 a organização de um Museu de Arte Naif, designado de Arte Primitiva Moderna, reunindo hoje mais de 100 trabalhos de artistas portugueses, brasileiros e espanhóis, oferecidos na sua quase totalidade através de diligências feitas pela Galeria de Arte do Casino Estoril. Pensamos que a melhor homenagem que se poderia prestar em Nisa a Augusto Pinheiro - são, ainda, palavras de Lima de Carvalho - seria, com o seu espólio e os quadros que doou à Misericórdia, e outros doados por outros artistas, dar início a um processo de criação de um museu de Arte "Naif" Augusto Pinheiro em Nisa. Vamos a isso? O seu mundo é um mundo singular. Um mundo de sonho e fantasia. O verdadeiro pintor "naif", mais do que com os pincéis e as tintas, pinta com o coração. Assim era Augusto Pinheiro. Um grande Artista que honra Nisa, sua Terra e de que todos nos devemos orgulhar. Completaram-se, no passado dia 22 de Agosto, 100 anos sobre o nascimento de Augusto Pinheiro. Mais do que a evocação de uma pessoa, uma vida e uma obra, lembramos, nesta singela homenagem o homem, o pintor e o cidadão de Nisa que, desaparecido do nosso convívio continua a estar presente através do colorido e da intensidade luminosa, humana, das obras que nos legou e que devem constituir património cultural desta terra que o viu nascer e foi musa inspiradora do seu talento.
Falar de Augusto Pinheiro, artista, aqui e agora, seria repisar o que abalizados críticos de arte desde há muito vêm repetindo. A atribuição do prémio "Câmara Municipal de Guimarães", a mais alta distinção do "Salão Ibérico de Arte Naif", realizado na Galeria de Arte do Casino Estoril, em Agosto de 1993, representa o reconhecimento por toda uma obra pictórica ao longo de 23 anos, que o levou aos mais distintos salões e galerias de arte, um pouco por toda a Europa. Recolhido a Nisa, sua terra natal, aqui passou os últimos anos da sua vida, continuando a pintar, já sem o fulgor e clarividência dos tempos áureos da sua obra. Apesar disso, manteve sempre, até morrer, a lucidez de um desejo, um sonho, um projecto, de que falava com alguma insistência e que não viu concretizado: a instalação de um museu, de uma sala de exposições onde as suas obras e de outros pintores "naifs" pudessem mostrar aos vindouros, a beleza e a perenidade da arte e da cultura. Mais do que a homenagem que lhe prestamos e irá continuar com outras iniciativas, impõe-se transmitir para a posteridade o sonho do artista, ajudando a criar um espaço onde os quadros de Augusto Pinheiro, possam ver a luz do dia e passar a mensagem do amor que dedicou à natureza e, por ela, à vida. É o mínimo que podemos fazer pela sua memória. A todos, muito obrigado!

2.7.24

IN MEMORIAN: Fausto Bordalo Dias (1948-2024)

Morreu esta segunda-feira o cantor e compositor que marcou a música popular portuguesa no último meio século.
Nascido a bordo do navio Pátria numa viagem entre Portugal e Angola, Fausto era um dos últimos grandes cantautores do movimento associativo em tempo de ditadura, ao lado de nomes como Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco e Manuel Freire. O seu primeiro EP data de 1969, com o nome “Fausto”, incluía a música “Chora, Amigo, Chora” que lhe valeu nesse ano o prémio Revelação da Rádio Renascença.
Filho de pais beirões, de Trancoso, Fausto viveu no Huambo até aos 18 anos e veio para Lisboa, onde se licenciou em Ciências Políticas no antigo Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, integrando a direção da Associação de Estudantes e participando nas Reuniões Inter-Associações. Após a Revolução foi em sua casa que em maio de 1974 se fundou o Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta (GAC), com José Mário Branco, Tino Flores e Afonso Dias -, que ao longo de meses promoveu dezenas de sessões de canto por todo o país, tendo Fausto abandonado o projeto em setembro. Nesse período lançou “Pró que Der e Vier” (1974) e “Beco sem Saída” (1975)
Em 1978 colaborou na banda sonora do filme A Confederação com José Mário Branco e Sérgio Godinho, com quem viria a juntar-se em palco 31 anos depois no espetáculo “Três Cantos ao Vivo”, gravado em disco.
Ao longo de cinco décadas de carreira, Fausto gravou 12 discos, dez dos quais de originais, destacando-se a trilogia “Lusitana Diáspora” sobre a História portuguesa da expansão, iniciada com o duplo álbum “Por este Rio Acima” em 1982, baseado na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, e prosseguida com “Crónicas da Terra Ardente” em 1994 e “Em Busca das Montanhas Azuis” em 2011, todos vencedores de vários prémios e considerados dos discos mais importantes da música portuguesa.
Diz que começou a trilogia “porque me divertia imenso ler Fernão Mendes Pinto, era o meu livro de cabeceira”, mas também porque “me cansei das canções de intervenção, já não faziam sentido nenhum, já ninguém as queria ouvir, estávamos a falar para o boneco”.
Tendo as obras mais aclamadas da sua carreira o tema das viagens, Fausto assumia que não gostava de viajar. “Eu viajo de cabeça. Viajo à força de fazer concertos, mas sem gosto. Não me agrada o avião. Não tenho nenhum fascínio pela viagem. Prefiro ler o que os outros dizem e viajar por eles”, contava em entrevista a Ana Margarida Carvalho na Visão.
No último capítulo da trilogia, diz ter procurado explorar a ideia de que “muita gente viajou pelo sonho, pela vontade de descoberta, pelo contacto com outros povos e outras culturas”.
Na carreira de Fausto, os concertos eram sempre uma ocasião especial, pela sua raridade. Não apreciava as luzes da ribalta do showbiz, mas não abdicava de intervir cívica e politicamente, nomeadamente apoiando as campanhas presidenciais de Otelo e por várias vezes as candidaturas do Bloco de Esquerda, como voltou a suceder nas legislativas deste ano.
Dizia ver o mundo sempre “com um certo otimismo, ainda que constate os seus recuos”. E que “nós vivemos um período do capitalismo financeiro mais barato que há, mas enquanto vejo os especuladores marchando, também se veem manifestações contra essa mesma especulação, por toda a Europa”.
Na mesma entrevista referiu que “uma pessoa da minha geração que tivesse pensado que, com o 25 de Abril, se alterariam profundamente as coisas, está desiludida, sabe perfeitamente que o 25 de Abril não conseguiu atingir os seus objectivos. E que até houve uma regressão”. Mas rejeitava que o regresso da canção de protesto fosse uma saída “porque é absolutamente reabsorvido pelo sistema”.
De acordo com a família, na terça-feira as cerimónias fúnebres serão na Voz do Operário entre as 18:00 e as 23:00. O funeral, na quarta-feira, será reservado à família
Tristeza e pesar
Ao longo do dia sucederam-se as mensagens de tristeza e pesar pela morte de Fausto. Em nota à imprensa, o Bloco de Esquerda destaca que além da intervenção musical, "Fausto Bordalo Dias empenhou-se em diversas lutas. Assumiu a defesa da escola pública, opôs-se ao nuclear, criticou a humilhação pelas praxes académicas, lutou pela memória da resistência ao fascismo, defendeu a despenalização da morte assistida" e que "desde 1999, apoiou as candidaturas do Bloco de Esquerda em diversas eleições, incluindo nas legislativas de março deste ano".
No site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa afirma que "recebeu com tristeza a notícia da morte de Fausto Bordalo Dias, que ao longo de décadas deixou um legado musical que se confunde com a própria história de Portugal". Acrescenta que "Fausto pertencia a uma constelação de músicos que traduziu para as canções de intervenção o sentimento do povo português, e é por isso inevitável associar o nome de Fausto aos nomes maiores da música portuguesa, como José Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho".
Em declarações à agência Lusa, Sérgio Godinho afirmou que Fausto “era um grande criador, intérprete, criador de letras e músicas e criou um universo próprio, muito pessoal e muito personalizado. A gente consegue dizer aquela canção é do Fausto porque de facto ele tinha um carimbo”. Sérgio Godinho recordou os tempos em que privou com o músico a seguir à Revolução e o momento que os reuniu em 2009 em Lisboa e Porto com José Mário Branco. “Havia uma intensidade ali muito particular, porque eram os nossos três universos a cruzarem-se”.
De Angola, o jornalista Viriato Teles lamentou a morte do velho amigo, sublinhando que “o Fausto tem uma dimensão ética e estética que é incomparável, que mais nenhum músico se calhar tem com todo o respeito pelos outros”. “A música dele, que me tem feito companhia frequentemente aqui em Angola, transformou a música portuguesa. Ou melhor: a obra dele transformou a música portuguesa”, disse o jornalista, frisando a noção de "obra".
in www.esquerda.net 01 de julho 2024

19.2.24

IN MEMORIAN: Praça na Damaia evoca nisense João Caixado

O nome do nisense João José Dinis Caixado, falecido a 2 de Outubro de 2020, foi atribuído a uma artéria da Damaia, localidade onde residia e à qual dedicou muito do seu saber como fundador e dirigente do Casal Popular da Damaia - Associação Solidariedade Social Vencer, reconhecida oficialmente como de utilidade pública, sem fins lucrativos, e que desenvolve uma actividade social, dirigida ao apoio às crianças e idosos.
Nascido em Nisa em 1954 e economista de formação, forjou a sua experiência e consolidou o seu prestígio, inquebrável, na defesa dos trabalhadores, em duras e persistentes negociações pela melhoria dos Contratos Colectivos de Trabalho e outros instrumentos reivindicativos, tanto em representação do Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas, como de outras entidades sindicais, em especial as dos ferroviários, representações a que deu sempre o melhor de si e a que juntava um rigoroso estudo dos assuntos em discussão, base fundamental para o êxito das missões em que se envolvia

Em representação do Casal Popular da Damaia desempenhou a função de tesoureiro na
União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social de Lisboa (UDIPSS), durante o quadriénio 2016-2019.
Em 7 de Outubro de 2020, a Câmara Municipal da Amadora aprovou um voto de pesar pelo seu falecimento, no qual enaltecia o percurso deste filho de Nisa, pautado pelo “ humanismo, solidariedade e dedicação às causas comuns.”
Evocando a personalidade de João José Dinis Caixado e o seu contributo para o desenvolvimento do concelho da Amadora, principalmente na vertente social, a Comissão Municipal de Toponímia decidiu em 8 de Setembro de 2022 a atribuição do seu nome a uma Praça da Damaia.
Uma distinção e reconhecimento que o Dr. João José Dinis Caixado fez por merecer em vida, dedicando-se de corpo e alma às causas sociais na terra que o acolheu e na qual viveu a maior parte da sua existência.

28.6.23

IN MEMORIAN - ANTÓNIO POLIDO: Milhões de passos por uma vida

Há em cada um de nós um manancial de histórias e vivências, experiências vividas de um longo novêlo a que, só em circunstâncias muito próprias desatamos um pouco o nó.
A vida de António Maria Polido, um nisense de 76 anos, bem pode dizer-se que foi uma vida de “marcar passo”, na procura incessante do pão para a boca e do futuro ridente que lhe povoava o sonhos.
Sem sofismas e de coração aberto contou ao “Notícias de Nisa” o atribulado percurso de uma vida marcada pelo trabalho e pelo amor à sua terra.
VINTE E CINCO TOSTÕES
Comecei a trabalhar de muito novo. Saí da escola com 11 anos e nesse mesmo verão fazia parte da equipa de montagem da linha de Alta Tensão que da central da Bruceira alimentava Castelo Branco. Guardava a copa e ganhava vinte e cinco tostões.
Foi por pouco tempo pois no Inverno fui guardar suínos e mais tarde era ajudante de pastor depois alavoeiro (1) com o meu pai.
Voltei ao trabalho da Hidro-Eléctrica. Fui para o canal em construção que liga a central da Bruceira à de Velada. Trabalhava no túnel quatro e era ferramenteiro. Percorria o túnel carregado com as brocas, trabalho de turnos, de dia e de noite.
Em 11 de Outubro de 1934, calhou-me em sorte um trabalho “melhor”: iniciei o serviço de “correio” entre Nisa e a central de Velada. Todos os dias, fizesse chuva ou sol, transportava numa burra, as encomendas para os empregados que lá habitavam e para a própria empresa. Andei vinte e cinco anos nesta função, dando mais de trinta mil passos, por dia, na minha caminhada. Tinha a burra, oferecida pelo meu pai quando casei, a meu cargo. Era preciso comida e eu ia ceifar feno e comprar fardos de palha. Ganhava-se pouco, eu ia trabalhar para onde podia e por vezes era a minha mulher que fazia o “correio da central”, principalmente no tempo da azeitona.
Mudei, entretanto, para a central da Bruceira onde trazia o mesmo serviço que na central da Velada. Era bem mais perto de Nisa e durante quatorze anos foi a minha função até que acabaram com as encomendas e me transferiram para o armazém de Nisa. Andei na empresa quarente e cinco anos. No tempo de folga fui guarda na Junta de Energia Nuclear e ainda me sobrou tempo no Verão para trabalhar numa debulhadora. Com três filhos a sustentar era preciso muito trabalho para se conseguir alguma coisa.”
BAIRRISTA
Nem só de trabalho vive o homem e António Polido, apesar das vicissitudes da época ainda encontrava, sabe-se lá em que recanto, a força e o estímulo para colaborar com as associações da terra.
Fui bombeiro durante quarenta e seis anos e ainda pertenço ao quadro, na reserva. No meu tempo – não é gabar-me – mas, assim que tocava a sirene (antes era o sino do relógio junto à Porta da Vila) apareciam bombeiros de todos os lados e gente a querer ajudar. Havia mais respeito e as pessoas sentiam mais a necessidade de ajudar os outros.
Os Bombeiros, agora, parecem-me desorganizados. Têm poucas ajudas, poucos sócios para um concelho como o de Nisa. Falta disciplina e instrução com outras corporações. É pena que seja assim.
Eu fui cobrador das quotas da Banda de Nisa durante três anos, de borla. Cobrei as quotas do Nisa e Benfica, por três vezes, e recebi apenas metade da percentagem a que tinha direito. Sou sócio e com as quotas em dia da maioria das colectividades de Nisa.”
NISA ESTÁ MORTA
Considerando-se um “bairrista a fundo”, António Polido vê com algum pessimismo o futuro da terra em que nasceu.
Nisa está morta. Não há bairrismo na terra. São poucos a fazer e muitos a desfazer. O nosso clube da terra está “morto”, qualquer aldeia nos ganha. A Banda é por que o nosso mestre é de cá e é bairrista, porque senão levava a mesma volta.
Era preciso que isto desse um trambolhão. Como? Haver indústrias. Noutro tempo era para se fazer duas fábricas de lanifícios, e uma ocasião veio um tipo para a Maria Dias e queria dez mil metros quadrados para fazer uma fábrica. Falta acima de tudo, Bairrismo, mais união.
Sou popular e muito respeitado, mas digo: se todos fossem da minha força, Nisa era um “mimo”.
* Mário Mendes in “Notícias de Nisa” -nº5 – 2ª série – 18.6.1997
(1) Alavoeiro - Nome do pastor que andava no alavão
Alavão - Nome do rebanho que dá leite (do árabe al-labban)

19.6.23

IN MEMORIAN: Centenário do nascimento de José Dias Coelho

(Pinhel, 19.06.1923 — Lisboa, 19.12.1961)
José António Dias Coelho nasceu em Pinhel, distrito da Guarda, a 19 de junho de 1923 e passou a infância em Coimbra e Castelo Branco.
Foi aluno da Escola de Belas Artes de Lisboa onde entrou em 1942. Frequentou primeiro o curso de Arquitetura, e depois o de Escultura.
Ainda muito jovem aderiu à Frente Académica Antifascista e, mais tarde (em 1946), ao MUD Juvenil. Participante em várias lutas estudantis em 1947, aderiu de seguida ao Partido Comunista Português e, em 1949, foi detido pela PIDE após participar na campanha presidencial de Norton de Matos. Em 1952, foi expulso da Escola Superior de Belas Artes e impedido de ingressar em qualquer faculdade do país; seria também demitido do lugar de professor do Ensino Técnico.
José Dias Coelho vai trabalhar, em 1952, como desenhador com os arquitetos, Keil do Amaral, Hernâni Gandra e Alberto José Pessoa numa oficina na Rua Fernão Álvares do Oriente 8 CV/Esq., no Bairro de São Miguel em Lisboa.
Em 1955 entra para a clandestinidade, enquanto exercia funções no PCP, com o objetivo de criar uma oficina de falsificação de documentos para dar cobertura às atividades dos militantes clandestinos. Exercia esta atividade na altura do seu assassinato pela PIDE, em 19 de dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa.
O assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música A Morte Saiu à Rua. O mesmo fez o grupo Trovante com a música Flor da Vida. Da vida pessoal de José Dias Coelho há ainda a salientar a sua relação com Margarida Tengarrinha, também artista plástica. O casal teve três filhas.
Ao optar pela clandestinidade em 1955, põe de parte a sua carreira artística como escultor, que nesse mesmo ano vê os primeiros sinais de reconhecimento público, com duas esculturas para a Escola Primária de Campolide (secções feminina e masculina) e uma grande escultura para a Escola Primária de Vale Escuro, em Lisboa, e dois baixos-relevos, um para o Café Central das Caldas da Rainha, e outro para a fábrica Secil.
Já estava na clandestinidade quando, em junho de 1956, se realizou a 10.ª e última das Exposições Gerais de Artes Plásticas; José Dias Coelho foi um dos organizadores dessas exposições, desde a primeira edição em 1946, e é um dos artistas que expõe a partir da segunda. Por não poder participar abertamente na 10.ª edição por estar na clandestinidade, um grupo de amigos expõe a escultura da cabeça da irmã Maria Emília, que já havia sido exposta, para garantir que o seu nome consta do catálogo.
Com uma intensa atividade social e intelectual a par da política, travou e manteve amizade com várias figuras destacadas da sociedade portuguesa de então, tais como os arquitetos, Keil do Amaral e João Abel Manta, com Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Abel Manta, Rogério Ribeiro, João Hogan, bem como aqueles que viriam dentro em breve a liderar os movimentos de independência em África, na altura estudantes em Lisboa: Agostinho Neto, Vasco Cabral, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral e Orlando Costa.
Em março de 1975, quase um ano depois do 25 de Abril, foi finalmente organizada uma exposição na sua homenagem, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa.
Referências
 José Dias Coelho.
 Catálogo da "Exposição-Homenagem a José Dias Coelho", Sociedade Nacional de Belas Artes, março de 1975
Bibliografia
«José Dias Coelho». Museu do Aljube. Cópia arquivada em 20 de dezembro de 2020
COUTINHO, Júlia. José Dias Coelho: Breve Cronologia Pessoal e Afluentes.
José Dias Coelho: Artista Militante e Militante Revolucionário
SANTOS, Luisa Duarte "José Dias Coelho: Desatando um a um os nós do silêncio"
TENGARRINHA, Margarida. A morte saiu à rua.
Ligações externas
Localização da Rua José Dias Coelho (Google Maps)
in www.wikipedia.org

A Morte Saiu à Rua
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.

Autoria (Letra e Música): Zeca Afonso


17.10.18

JORGE PIRES - Textos - Do Alto da Torre - Setembro 2006

Porquê tantas saudades das festas de antigamente?
Estou a escrever estas linhas longe da minha terra e, por isso, a nostalgia tomou conta de mim e me inspirou e me levou àqueles tempos em que o Tejo fazia parte da história das festas da Amieira, em especial, a da Senhora da Sanguinheira que muitos de nós recordam com imensa saudade.
Naquele tempo, havia a Barca, o bote pequeno e o grande, que servia também para transportar os burros e, eram precisamente estes animais, tão típicos na nossa terra, que tinham um papel muito especial no trajecto entre o Tejo e Amieira visto que, o táxi se tornava demasiado dispendioso e nem todas as carteiras estavam disponíveis. Começava aí, a festa e o colorido da Estrada do Tejo, quando o comboio trazia até à terra natal, aquele filhos que, um dia, embarcaram em busca de uma vida melhor – era o reencontro aguardado durante um ou mais anos e, era também, a altura dos pais que os viram partir, conhecerem os netos que, entretanto, vieram engrossar a família!
Era ali, no Tejo, à sombra das amoreiras, que se davam os primeiros abraços, os primeiros beijos e os primeiros votos de longa vida!...tudo isto era no início de uma alegre burricada estrada acima, rumo aquelas casas velhinhas que, lá em cima, os aguardavam para dar brilho aos dias festivos que se aproximavam. Era impressionante verificar aqueles rostos felizes, aquela alegria transbordante daqueles avós “babados” que, apesar das dificuldades da subida, se sentiam imensamente felizes, sorrindo, sorrindo cada vez mais e quando lá em cima se aproximavam da fonte e os burritos aceleravam o trote para se dessedentarem, aquelas crianças indiferentes ao perigo de uma queda, lá continuavam traquinas em cima da sua preciosa montada, deliciados com tanta felicidade! Era assim, com este ambiente fraterno que começavam de facto, os preparativos para aqueles dias que se avizinhavam.
Hoje, alguns meninos de antigamente que eram transportados por aqueles pobres animais, voltarão um papel importantíssimo no desenrolar das cerimónias religiosas, estacionando as suas viaturas fora das ruas por onde passa a procissão porque, se há coisas que não podem fugir à actual conjuntura (os tempos são outros) neste caso, basta apenas boa vontade para pelo menos, neste aspecto, tudo voltar a ser como dantes.
Sabemos que as touradas à vara larga com as “carretas” a fazer de trincheiras nunca mais voltarão à praça; sabemos que os forcados improvisados, mas de enorme valor, tanto valor que poderiam ser colocados entre os mais afamados da nossa região, nunca mais farão levantar a Praça e, sabemos também, que os nossos vinte anos (que saudades!) nunca mais voltarão.
E o coreto? E aqueles “ordinários” que eram tocados pela fantástica Banda de Póvoa e Meadas?
Tantas coisa boas que ficaram pelo caminho e tantas desilusões que entretanto foram acontecendo ao longo das nossas vidas... Mas a nossa terra está de pé, a nossa terra ainda está viva, apesar de ter perdido alguns dos seus filhos que hoje, mais do que nunca, serão lembrados com imensa saudade, pelas suas famílias e pelos seus amigos.

Quando passa um ano e vem Setembro
De tanta coisa eu me lembro
Que fico completamente extasiado
E no tempo em que o tempo não contava
Toda a gente cantava e bailava
Naquela praça de tão glorioso passado

Vem-me à memória os valentes forcados
De Amieira e de outros lados
Que muitas vezes fizeram levantar a praça
Lembro-me da banda no coreto
Que adorava o tinto e o palheto
E tudo o que tocava tinha graça.

Lembro-me daquele recinto todo aberto
E o Castelo ali tão perto
Apadrinhando todo aquele alarido
E quando o povo nas trincheiras vibrava
Ninguém dali se afastava
Sem saber se algum dos seus saía ferido.

Lembro-me do fogo preso e do ar
E dos balões a voar
Rasgando o infinito lentamente
E num troar de palmas vibrantes
Seguia na direcção de Abrantes
Quando o vento soprava para poente.

Lembro-me das ruas bem engalanadas
Com pinheiros e palmeiras enfeitadas
Porque o povo assim o exigia
E quando passava a procissão
Sentia no meu coração
Um misto de emoção e alegria.

Lembro-me do homem do torrão
Que nos adoçava o coração
Apenas por cinco tostões
Hoje está tudo mudado
Encontramos tudo fechado
Só restam recordações.
Jorge Pires
in Do Alto da Torre – “O Amieirense” – Setembro 2006