E se as juntas de freguesia também se convertessem em
bancos? A premissa foi lançada ontem pelo ministro da Economia e da Coesão
Territorial, Castro Almeida, e encerra a bondade de procurar resolver um
problema que se agrava ano após ano: o acesso a caixas Multibanco. Há mais de
1200 freguesias do país sem equipamentos para levantar dinheiro e fazer outras
operações essenciais, como pagamentos de serviços. A Banca, que, em Portugal,
soma lucros milionários, foi abandonando os territórios que se despovoavam e os
poucos resistentes - muitas vezes, idosos isolados e vulneráveis - são forçados
a percorrer quilómetros para colocar a mão nos seus euros. Primeiro, fecharam
balcões, despediram trabalhadores e pouparam milhões. Depois, retiraram
máquinas Multibanco e continuam a somar. E agora, até em grandes cidades do
Litoral, é cada vez mais difícil encontrar estes equipamentos. A proposta,
avançada pelo ministro, de converter o funcionário da Junta em caixa de banco
assemelha-se a uma rendição do Governo face à incapacidade do Banco de Portugal
de traçar linhas vermelhas e impedir que a busca do lucro continue a delapidar
os serviços públicos essenciais. O empregado da Junta - e há muitas freguesias
no Interior que nem sequer abrem a porta todos os dias - não tem de ser
tesoureiro nem distribuir dinheiro a quem dele precisa. E os moradores do
Interior não têm de ser obrigados a guardar o dinheiro debaixo do colchão nem a
alinhar o calendário de compras com o horário de funcionamento da freguesia. Na
falta de bom senso, a lei deve exigir consciência social aos banqueiros e que,
também eles, contribuam para um país menos desigual. Passo a passo, as juntas
transformaram-se em canivetes suíços, acumulando serviços essenciais que os
privados deixaram de cumprir por gula.
Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 18 de junho, 2026
