3.9.26

Opinião: Juntas não são canivetes suíços


E se as juntas de freguesia também se convertessem em bancos? A premissa foi lançada ontem pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, e encerra a bondade de procurar resolver um problema que se agrava ano após ano: o acesso a caixas Multibanco. Há mais de 1200 freguesias do país sem equipamentos para levantar dinheiro e fazer outras operações essenciais, como pagamentos de serviços. A Banca, que, em Portugal, soma lucros milionários, foi abandonando os territórios que se despovoavam e os poucos resistentes - muitas vezes, idosos isolados e vulneráveis - são forçados a percorrer quilómetros para colocar a mão nos seus euros. Primeiro, fecharam balcões, despediram trabalhadores e pouparam milhões. Depois, retiraram máquinas Multibanco e continuam a somar. E agora, até em grandes cidades do Litoral, é cada vez mais difícil encontrar estes equipamentos. A proposta, avançada pelo ministro, de converter o funcionário da Junta em caixa de banco assemelha-se a uma rendição do Governo face à incapacidade do Banco de Portugal de traçar linhas vermelhas e impedir que a busca do lucro continue a delapidar os serviços públicos essenciais. O empregado da Junta - e há muitas freguesias no Interior que nem sequer abrem a porta todos os dias - não tem de ser tesoureiro nem distribuir dinheiro a quem dele precisa. E os moradores do Interior não têm de ser obrigados a guardar o dinheiro debaixo do colchão nem a alinhar o calendário de compras com o horário de funcionamento da freguesia. Na falta de bom senso, a lei deve exigir consciência social aos banqueiros e que, também eles, contribuam para um país menos desigual. Passo a passo, as juntas transformaram-se em canivetes suíços, acumulando serviços essenciais que os privados deixaram de cumprir por gula.

Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 18 de junho, 2026