31.12.13

CRÓNICAS DO REGABOFE (12): A origem do mal ou de como as nossas vidas foram tomadas por mafiosos sem escrúpulos

Ao longo da história da humanidade nunca se produziu tanto com tão poucos meios. De fato a industrialização, os progressos tecnológicos permitem que atualmente se produza mais que as necessidades humanas exigem.
Acompanhando esse desenvolvimento, os direitos sociais e humanos tem retrocedido. Por um lado, são necessários menos trabalhadores, muito menos, para desempenhar as tarefas que hoje são efetuadas por máquinas, supervisionadas por computadores e até por robôs, aumentando em consequência o desemprego, a instabilidade e o mau estar geral. Por outro lado, este aumento de produção e consequente criação de riqueza, concentra-se cada vez em menor número de mãos e essas não estão dispostas a abrirem-se para deixarem cair os cêntimos que seriam necessários para manter um bom nível de vida, vá pelo menos um nível de vida satisfatório a toda a população.
Numa dimensão de geoestratégica política, este estado de coisas leva a que países mais pequenos ou de menor influência política, sejam obrigados a reduzir, ou até mesmo a deixar por completo, de produzir para que os seus produtos não compitam com os das multinacionais, perdendo assim, a sua independência económica e política, passando a depender da “caridade” dos países economicamente mais fortes, aqueles onde as multinacionais estão sediadas.
As economias e as políticas nacionais são hoje, graças a este sistema económico, uma farsa, mesmo nos países considerados potencias, E.U.A., Alemanha, Grã-Bretanha, etc., só por ironia podemos pensar que os seus governantes tomam decisões pela sua cabeça e a bem do povo. Toda esta gente trabalha para o polvo que é o grande capital financeiro, constituído em multinacionais da economia, da especulação, do tráfico (de pessoas, de armas, de droga). numa palavra: estamos nas mãos de mafiosos sem escrúpulos que se servem de nós a seu belo prazer.
O velho ditado de que “quem não trabalha, não come” já não é aplicável aos dias que correm, pois o trabalho perdeu o seu valor moral e deixou de ser considerado um direito e um dever para passar a ser considerado um privilégio, ao qual apenas alguns abençoados têm acesso, mas acesso condicionado a um contrato altamente desvantajoso para o trabalhador que praticamente lhe retira todos os direitos e lhe aumenta os deveres.
Mas se é assim, se a produção, a nível mundial, é a maior de sempre, então de onde vem a famigerada crise que a todos nos atira para a depressão e o stresse, para a miséria?
Vem essencialmente de dois lados: dos mercados financeiros especulativos, os capitalistas na sua ganância sem tréguas, recusam-se a pagar os impostos devidos e que deveriam mesmo ser aumentados por uma questão de solidariedade para com as pessoas que vão ficando sem emprego em nome do progresso, portanto o desaparecimento do sentido de solidariedade e cujo é fator agregador de uma sociedade, preferindo dar vazão à sua ganância e aplicando esse dinheiro (muitos milhões) em jogos especulativos e que não criam riqueza real, assim desbaratando fortunas e o dinheiro que deveria constituir o fundo de solidariedade social. Por outro lado, a propaganda que todos somos sujeitos a cada milésimo de segundo através dos mídia, todos nas mãos dos mesmos grupos económicos, encomendada pelos especuladores da finança, leva-nos a acreditar que a crise existe, que está tudo muito difícil, os coitadinhos dos patrões têm que pagar o seu dinheirinho todo em impostos, o estado é um ladrão que rouba e não paga as suas dividas para com os empresários. A “Laranja Mecânica”, de Kubrick ou o “Big Brother”, de Orwell há muito que foram ultrapassados e vivemos a época dourada do “triunfo dos porcos”. Nunca o popular dito “uma mentira muita vez repetida passa a ser verdade”. De fato a mentira continua a sê-lo, apenas devido à sua difusão pela mídia, acaba por intoxicar a “opinião pública” que passa a engolir como verdade o que de fato é mentira. A mentira assim espalhada é uma peste, como dizia Wilhem Reich, que alastra e toma conta das nossas vidas, limita os nossos movimentos, condiciona as nossas decisões.
E assim, todos passamos a crer e a adorar uma nova divindade: a crise.
A mentira económica e financeira que hoje é espalhada por todo o mundo, a base falsa em que assentaram os mercados: especulação financeira, em detrimento do reinvestimento, da solidariedade e da criação e aumento da riqueza enquanto bem comum a toda a humanidade, mas a sua privatização e concentração em cada vez menor número de mãos: eis senhores, a origem do mal!
Jaime Crespo

29.12.13

OPINIÃO: Um novo olhar sobre Nisa…

QUE DIAGNÓSTICO A EXTRAIR  DOS LAÇOS, SENTIMENTOS E AFECTOS…QUE NOS LIGAM À NOSSA TERRA?
…Saudade ?...Amor?...Paixão?....Alegria ?...-só pode ser  de amor... esta declaração germinada pelos gestos  que me ofertaram a beleza da sua gente…o desvelo com que  o  sr.Luís Jardineiro e meu avô Chaves guardavam   generosamente. As passas em que se  transformavam os abrunhos do jardim público, e que carinhosamente vinham para mim, ornando de felicidade a minha infância em Nisa.
Os meus pais... a santidade enormíssima das suas vidas.
Silêncio…tanta gente…tanta gente…!
Em quadro da mais venerável honra debruada a ouro… a melhor amizade… o meu bom e estimado  companheiro de carteira da primeira à quarta classe…,o António Maria Pereira Bicho… meu  bom, meu querido companheiro, e no mesmo plano o igualmente muito querido José Maria de Oliveira  Marquês, um ser tão bom, companheiro de carteira do 1.º ao 5.º ano do colégio de Nisa…as nossas lealdades pessoais tornam-nos verdadeiros irmãos.
Mas acima de tudo…a figura incomparável, que eu não mereço, do meu único primo da parte de meu pai,..- a figura humana brilhantíssima de meu padrinho de baptismo…. o exmo senhor professor Castanho, homem   despido de qualquer vaidade, bom como meu pai…”O meu  amiguinho como vai" ?... Como ele já generosamente me tem tratado, fruto da sua evidente e superior formação moral e  cívica, … extrema bondade.
Minha madrinha Narcisa que  há pouco nos deixou, um círio aceso nas nossas vidas…(ás vezes não  queria incomodá-la…tantos gestos de bondade que eu não merecia… na sua partida  o rigor da gratidão do Henrique…” Ai primo João como há-se ser?... foi-se-nos embora o ângulo, a base de tudo, as festas sempre já organizadas…as férias acauteladas…o motor de tudo….como vai ser?”…
Os sentimentos profundos de justiça  e da maior gratidão do Henrique…também a minha de afilhado muito grato… a sua bondade continuará Henrique…!
Nisa colada aos nossos ilustres antepassados: Jaime  de Almeida, Ana Barros Camões, José Francisco Figueiredo…e tantos, tantos !...
E a grandeza espiritual da  nossa padroeira,...a sempre soleníssima, Nossa Senhora da Graça….nosso amparo e guarda, nossa rainha valiosa....a rasgar  com a sua intensíssima luz  o nosso espaço  humano e espiritual, perfume da maior  graça...património valiosíssimo do nosso universo nisense, salvaguarda permanente  da nossa terra…da nossa gente.
Nisa tão louçainha…?
Que diagnóstico…? Que definição….? Para compreender este texto e os sentimentos e conceitos  nele  expressados…?
Só pode ser… só pode configurar uma declaração de amor... um tal sentimento maior…de justiça para com Nisa!..
(Com toda a esperança… e o desejo de um Bom Ano Novo).
Do sempre vosso

João Castanho

Restituição de Cauções: Prazo alargado até 2015

RECLAME A DEVOLUÇÃO DO QUE É SEU!
O processo de restituição de cauções dos contratos de fornecimento de serviços públicos essenciais - água, eletricidade e gás canalizado - aos consumidores, encontra-se a cargo da Direção-Geral do Consumidor, organismo responsável pela defesa dos consumidores, por via do Decreto-Lei n.º 100/2007, de 2 de abril que procedeu à alteração do Decreto-Lei n.º 195/99, de 8 de junho.
Foi estabelecido, através do referido diploma, um regime aplicável à devolução das cauções que não tendo logo sido restituídas por transferência bancária aos consumidores poderiam, num prazo de 180 dias a contar da data da afixação dos editais ou da publicitação do anúncio da lista de consumidores a quem a caução não foi restituída, reclamar o montante da caução junto da entidade prestadora do serviço. Não o tendo feito, em tempo, os consumidores deveriam então recorrer à Direção-Geral do Consumidor, para reclamar estes montantes.
O processo de devolução das cauções, a cargo da Direção-Geral do Consumidor, está ainda a decorrer, pelo que deverá consultar o site www.consumidor.pt para, em caso de interesse, esclarecer todas as suas dúvidas.

Vem aí o Norte Alentejano O' Meeting 2014


Gueorgiou é cabeça de cartaz em Castelo de Vide
Prova maior do calendário nacional de Orientação Pedestre, o Norte Alentejano O' Meeting prepara-se para a realização da sua 8ª edição. Castelo de Vide será em 2014 o palco de todas as emoções, num evento que pontuará para o ranking mundial da modalidade e que conta já com a presença confirmada do número 1 do mundo, o francês Thierry Gueorgiou.
Foi em 2007 que o Norte Alentejano O' Meeting apresentou as suas credenciais pela primeira vez. Partindo duma aposta do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, logo nesse ano se percebeu que o potencial da região para a prática da Orientação encontrava um paralelo perfeito na ambição do clube nortenho em avançar com a proposta dum projeto intermunicipal de grande envergadura e que colocasse esta vasta região no mapa da Orientação mundial. Ao município de Nisa juntaram-se, sucessivamente, Castelo de Vide, Alter do Chão, Crato, Portalegre e Marvão, transformando o sonho inicial nessa realidade indesmentível: o Norte Alentejano O' Meeting é, nos dias de hoje, um evento dos mais destacados a nível mundial, atraindo ano após ano todos os grandes especialistas ligados à modalidade.
Com o programa distribuído por três etapas, o NAOM 2014 terá lugar nos dias 25 e 26 de janeiro, integrando o calendário da Taça de Portugal de Orientação Pedestre 2014. A Barragem de Póvoa e Meadas receberá a etapa inaugural – uma prova de Distância Média -, seguindo-se da parte da tarde, no coração de Castelo de Vide, uma etapa de Sprint pontuável para o ranking mundial e para o Circuito Nacional Urbano 2014. No último dia de provas, regresso a Póvoa e Meadas para nova prova de Distância Média que encerrará o evento. Aos atletas é oferecida ainda a oportunidade de participarem no Model Event que terá lugar no dia 24 e servirá de adaptação aos mapas e terrenos da competição “pura e dura”.
Com as inscrições a decorrer a bom ritmo - são já 141 os atletas em representação de 9 países que confirmaram a sua presença -, o Grupo Desportivo dos Quatro caminhos tem para oferecer percursos de grande qualidade técnica em magníficos terrenos, para dois dias da melhor orientação. A par dos melhores atletas nacionais e de Thierry Gueorgiou, o líder do ranking mundial e vencedor do NAOM em 2011, irão estar igualmente presentes em Castelo de Vide o nº 2 do mundo, o suiço Daniel Hubmann, o seu irmão Martin Hubmann (nº 9 do mundo) e ainda a grande revelação da temporada que agora termina, o russo Leonid Novikov, Campeão do Mundo de Distância Média e de Estafetas em título.
Tudo para acompanhar em http://www.gd4caminhos.com/naom2014/.
Joaquim Margarido

28.12.13

CRÓNICAS DO REGABOFE (11) - Orhan Phaniuk: Vermelho

Finalmente, devido a contingências várias, completei a leitura desta obra, quase três anos após ter iniciado a leitura.
Um dos fatores que terá atrasado esta leitura e não displicente foi o fato de ter mais tempo para saborear a intriga, o romance, a trama, as frases, palavra a palavra do manancial escrito.
De fato, para mim, foi uma das melhores obras que me foi dado ler nos últimos tempos.
e sobre ela o que poderei dizer mais que é uma delícia?
Pouco ou nada, tudo o que acrescentar venha só lhe retirará valor…
Poderei dizer que estamos perante uma obra que representará para a turquia e o oriente o que representou para o cânone literário ocidental "o nome da rosa" de Umberto Eco. e as afinidades são algumas. Apenas afinidades. Também esta obra coloca em confronto duas visões do mundo: a (pretensa) visão de deus e o modo de ver profano, humano.
Quando todo o ocidente europeu vivera o choque renascentista, se humanizou e se prepara já para enfrentar as luzes, temos uma Istambul, capital do império otomano, que se prepara para as celebrações do milénio (em anos lunares) da Hégira e cujos pintores se encontram perante o desafio a aceder a uma nova pintura, humana, como se
pratica no ocidente e lhes chegam notícias sobretudo através dos contactos com Veneza, e o apelo da tradição que manda pintar do mesmo modo, a visão de deus, as coisas mundanas.
É um conflito duro, de levar à morte e perante o qual ninguém pode ter certezas sobre nada.
E é quanto a mim a principal dádiva que este romance fresco nos oferece: a dúvida.
Dúvida de como devemos dirigir a nossa vida, dúvida nas escolhas culturais a fazer, dúvida até perante o objeto do amor e que se ama.
Alegremo-nos, os tempos dos bons romances estão de regresso.
Jaime Crespo
NR: Ferit Orhan Pamuk, conhecido apenas como Orhan Pamuk (Istambul, 7 de Junho, 1952), é um romancista turco. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 2006. É professor de literatura da Universidade Columbia. Pamuk é um dos mais proeminentes escritores da Turquia, e seus trabalhos foram traduzidos em mais de cinquenta línguas. Ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais. Em 12 de outubro de 2006, tornou-se a primeira pessoa da Turquia a receber um Prémio Nobel.
in wikipédia

27.12.13

OPINIÃO: O roubo do presente

Há pelo menos uma década e meia está a ser planeada e experimentada quer a nível do nosso país, quer na Europa e no mundo uma nova ditadura- não tem armas, não tem aparência de assalto, não tem bombas, mas tem terror e opressão e domesticação social e se deixarmos andar, é também um golpe de estado e terá um só partido e um só governo- ditadura psicológica.
"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro. 
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu. O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho. O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias border-/ine enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens). O presente não é uma dimensão abstracta do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direcções. 
Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público. Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil. Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si. Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria­-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."
José Gil
* Imagem faz parte do filme "Terra em Transe" de Glauber Rocha e mostra o silenciamento, à bruta, de um manifestante, durante o período da ditadura do Brasil, 1964.

AINDA NATAL - O Natal e o pardal: Que saudades, ai! ai!

O búzio tocou repetidas vezes. meia hora mais tarde, na taberna do "ti Júlio", em frente à sacristia, foi feita a contagem do pessoal e verificada a presença de elementos chave.
Pegámos em duas carretas de bois, mas puxadas e empurradas pela rapaziada, até ao Azinhal, em busca de duas azinheiras e um sobreiro, previamente pedidos ao dono, para o lume de Natal.
Naquela época ainda não havia moto-serras. Toca a puxar pelo serrote e com machadadas desordenadas, lá fomos transformando as velhas árvores secas em compridos toros que o lume havia de devorar.
O lume foi feito, aliás como sempre, no pequeno largo em frente da igreja. Toda a tarde choveu e a noite previa-se ainda pior. Enquanto as mulheres e as moças em casa faziam as filhós e as azevias, era tradição e ainda é, os rapazes nascidos no mesmo ano juntarem-se, para à volta do braseiro, assar qualquer coisa e aconchegar o estômago, pois as couves com o azeite por cima, em plena juventude, com tripa de pato, já tinham ido barroca abaixo e a noite era longa.
Uma linguiça e um copo de três vinham mesmo a calhar. Na pequena taberna não se conseguia lá entrar, a chuva caía a cântaros, o lume ia-se apagando lentamente e a barriga a dar horas. Podia lá ser uma noite tão especial, depois de um esforço hérculeo, nem lume nem petisco.
 Dê o mal por onde der, sem petisco é que não pode ser - disse o magricela do "Espiga".
- Ir à procura de uma galinha, ou melhor ainda, de uma galo é que vinha mesmo a calhar.
- Aqui bem perto está um na oliveira da Fonte da Bica - disse o "Mangas". O pardal desapareceu da taberna, voltando pouco depois com um enorme "galarous" debaixo do casaco.
Entretanto o lume tinha-se apagado por completo. Pela cabeça de todos nós passou a mesma ideia. Só faltava mais esta! E agora?
O "Galhofas" encontrou a solução: - Calma, rapaziada! Na casinha semi-abandonada onde a minha mãe guarda as velharias, talvez a gente se desenrasque.
Foi uma excelente ideia, aprovada por unanimidade. Lá fomos mais ligeiros que um sargento de infantaria. Mas um galo assado, mesmo grande como era aquele, para tanta malta, com dezassete anos e cheios de apetite, não chegava, só se o fizéssemos guisado, assim jáchegava.
As trempes, caçarola, lenha, batatas, cebolas, louro e alhos, havia ali, mas o azeite, àquela hora da noite?
- Desse assunto trato eu! - disse o "Pardal", convictamente. Passado pouco tempo apareceu com uma almotolia quase cheia. Foi o delírio.
Já com a barriguinha cheia, o "Clarinete" perguntou ao Pardal:
- Onde diabo foste tu arranjar o azeite que tem um gosto esquisito?
- Á igreja - respondeu o Pardal.
- Não tens raça de vergonha! Roubar a igreja, vejam bem...
- Estás enganado, não roubei nada. Com o lume do Natal apagado, vi que dentro da igreja havia uma luz muito fraquinha, quase a apagar-se. Resolvi entrar e pôr mais azeite nas lamparinas, para que os santos ficassem alumiados durante toda a noite.
O São Simão até sorriu e a Nossa Senhora de Fátima, com o seu bondoso olhar, autorizou-me a trazer o resto, mas eu prometi-lhes que a minha avó, amanhã, manda repor o que se gastar hoje. Afinal, não é ela quem lá põe o azeite durante todo o ano? E este sempre foi bom ser gasto, pois já tem alguns anos.
Entretanto, deixara de chover, a noite tornou-se mais acolhedora, cada um foi à procura do "vale dos lençóis", já a pensar no baile, à noite, no salão do "ti Reizinho".
José Hilário - 1 Dez. 2005

26.12.13

NISA: Albergaria Penha do Tejo (continua) ao abandono

QUE RESPONSABILIDADES APUROU A ASSEMBLEIA MUNICIPAL?
Há mais de um ano, a 24 de Setembro de 2012, a Assembleia Municipal de Nisa aprovou um documento no qual tecia diversas considerações sobre a situação de abandono, incúria e desleixo, a que fora votada a Albergaria Penha do Tejo, a "triste entrada norte do Alentejo" como a definiu e bem, a jornalista Ana Pires, em artigo de fundo publicado no extinto semanário "O Distrito de Portalegre".
No mesmo documento, a Assembleia Municipal prometia a denúncia da situação e o apuramento de responsabilidades que permitiram que empreendimento tão vultuoso e considerado, na altura, como uma das "âncoras de desenvolvimento do concelho" chegasse ao estado degradante a que chegou.
Passou-se mais de um ano e as responsabilidades ou a falta delas, devem ter sido de tal monta que a Assembleia Municipal nunca mais se sentiu na obrigação de dizer o que quer que fosse sobre assunto de tanta importância para o concelho.
Um ano após a transcendente tomada de posição do órgão autárquico dito fiscalizador do município, os munícipes nada sabem - e, porventura, jamais ficarão a saber - que medidas concretas, que diligências efectuou e que resultados apurou no sentido de dar sequência legal e institucional ao que ela própria, Assembleia, deliberou.
Sinceramente, acho "normal" e não estranho este comportamento dos eleitos e do órgão a que pertencem.
Quem precisou de um ano para discutir e aprovar uma mera acta de reunião, vai precisar, no mínimo, de dez, para produzir algo de substancial sobre a Albergaria Penha do Tejo. A anterior ocupante da cadeira presidencial da Praça do Pelourinho, em doze anos, não "mexeu uma palha" para inverter a situação.
Prometeu mundos e fundos, "montes" de empresários interessados na recuperação do complexo turístico, deixou passar o prazo de validade dos três mandatos e a Albergaria Penha do Tejo lá continuou entregue à sua (má) sina, servindo de abrigo e de curral para ovelhas e cabras de "importantes" agricultores da região. 
O documento aprovado a 24 de Setembro de 2012 na Assembleia Municipal serviu, apenas,  no meu entender, para dar força e razão ao aforismo popular: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma!
Mário Mendes

ALPALHÃO: Exposição de Pintura de Maria João Charrinho


25.12.13

Opinião: NATAL PARA SEMPRE

NATAL PARA SEMPRE… A IMEDIATIVIDADE DE JESUS, NÃO UMA MERA REFERÊNCIA…MAS FILHO DE DEUS… COMO UM DE NÓS… A ESCOLHA DE JESUS… ESCOLHEU-NOS…ESCOLHAMOS NÓS OS QUE SOFREM, OS QUE ESTÃO SÓS, OS IDOSOS MAIS TRISTES MAIS SÓS, MAIS  POBRES… DEMOS EXPRESSÃO A ESTA DIMENSÃO PRÓXIMA DO FILHO DE DEUS… PUXEMOS-LOS PARA CIMA…QUE NINGUÉM PERMANEÇA SÓ, ABANDONADO…
Afinal o Papa Francisco, Nosso Pontífice torna tudo simples no seu discurso.
E  torna-se apreensível a imediaticidade  de Jesus hoje junto de nós.
Como um de nós. Podemos, se o nosso coração for capaz de cultivar o bem e a paz descobri-lo nos mais tristes… levando-lhes a alegria, nos mais pobres, nos idosos amparando-os, levando-lhes o  nosso melhor.
Sempre numa atitude de serviço, de “abaixamento” para com os outros.
Numa atitude de serviço a que estamos obrigados, não de dádiva… mas no exercício do cumprimento de um dever que nos cabe.
Não perder olho sobre o apoio a prestar aos mais pequenos.
Se tivermos estes gestos traduziremos por certo sentimentais expressos de que Jesus é uma evidência para sempre, não morreu, e  nós próprios temos motivos para acreditar na vida, confiança e esperança… jamais incerteza ou pessimismo… Natal para sempre.
Doutrina de dois mil anos…sem que a mudança coarcte a imediaticidade de Jesus e do Natal, hoje e para sempre.
Oportunidade  para nos  dedicarmos de  modo afincado, melhor com os idosos, os mais pequenos, onde houver um indício de solidão…que ocorra a nossa presença discreta, autentica , fraterna....puxarmos os nossos idosos para cima para que a nossa vida expresse o verdadeiro sentido de Natal, e não o contrário, e prepararmos o passo para defender o direito ao alimento de subsistência.
Natal é mais prece que consumo, mais reflexão, mais análise, mais crítica interior, conhecermos-nos melhor…não  podemos pois continuar a desvalorizar Jesus…evoluir sempre nem que seja aos poucos porque Jesus veio para ficar connosco ….para sempre.
Se tivermos estes gestos traduziremos por certo os sentimentos de que Jesus é uma evidência, não morreu…e nós próprios procuramos o sentido certo do Natal.
João Castanho
NOTA: A foto que ilustra este texto de João Castanho foi retirada do Sapo em "A Foto do Dia" e tem a seguinte legenda: Um cidadão prepara uma lanterna gigante em forma de estrela pare celebrar o Natal na em Typhoon, nas Filipinas. A região foi arrasada recentemente pela passagem de um tufão mas os filipinos, um dos povos que mais celebram o Natal, lançaram um concurso para eleger a melhor decoração natalícia na cidade de Tacloban. Um sinal de otimismo mesmo no meio da tragédia.

24.12.13

O NATAL "visto" pelos poetas do concelho de Nisa (11)

Em cada canto do mundo, Belém
Nasceste, aqui, entre nós,
p´ra que pudessem nascer,
erguer, forte, a sua voz,
reafirmar-se, viver:
gorados sonhos de amor,
anseios de liberdade, doridos gritos de paz,
de justiça e de verdade,
libertação do pavor
pavor que tudo desfaz.

Nasceste homem como nós,
Para que pudessem erguer,
O homem, as sua voz,
Quebrar algemas e ser.

Pessoa dignificada
P´los direitos que lhe deste,
Direitos fundamentais.
Foi assim que o fizeste:
Pessoa dignificada,
E não precisa de mais.

Pessoa, homem, menino,
 Não sendo tratado a esmo,
E livre de opressão,
Para agarrar o destino
Antes de mais, por si mesmo,
E nunca por coacção.

O direito de viver,
Que a todo o homem advém,
Com tudo o que importa ter,
Para que, enfim, possa ser,
Ser mais e ir mais além.

Tudo, porém, às avessas,
Neste mundo em confusão:
Ameaças ou promessas,
Conforme as horas e pressas,
Da grande coligação,
Em que os homens são peças,
Manejadas à pressão.

Nasceste, assim, entre nós,
Mas tudo anda ao invés,
Pelo que a nossa voz
Te pede: Vem outra vez.

Mas já estás, afinal,
No meio de nós, aqui.
Assim só será Natal,
Se o homem, sendo leal,
Nascer e viver por ti.
Pe Alfredo Magalhães in “Ainda Natal”

ALPALHÃO: Uma exposição a não perder!




Meia centena de presépios, simbolizam a fé e a criatividade de crianças e adultos
No mês de Novembro as monitoras do ATL de Alpalhão, que pertence ao Centro Social e Paroquial da mesma vila ao pensar nas atividades que iriam concretizar com as crianças que frequentam a instituição, lembraram-se de organizar uma exposição de presépios feitos com materiais recicláveis. Como já é habitual na instituição, todos os anos aquando da época natalícia fazer-se um presépio com todas as crianças que frequentam o ATL e como já são alguns os que temos guardados existia a vontade de os expor. Contudo não eram suficientes para organizar uma exposição. Desta forma foram reunidos esforços e mobilizadas as crianças e suas famílias para que esta exposição ganhasse forma.
Foi solicitado nas escolas de Alpalhão, nomeadamente na Creche “A Ternura dos Pequeninos”, no Jardim de Infância, na Escola Básica, no ATL e a todos os que quisessem, independentemente da idade, que construíssem um presépio. Mas esse deveria ter uma particularidade, deveria ser construído com materiais recicláveis. A ideia foi bem aceite junto da população e os presépios começaram a chegar ao ATL de Alpalhão. O número de presépios superou, e muito, as nossas expectativas, pois temos cerca de 50 presépios na exposição. Temos as mais variadas obras de arte com os mais diversos materiais. Desde os mais compostos até aos mais clássicos. Foram utilizados materiais como cortiça, madeira, borracha, plástico, papel, tecidos, capsulas de café, rolhas, bolotas, cortiça, ovos, talheres, pedra, cartão, latas, pinhas, conchas, cabaças, garrafas, rendas, nozes…. cada um imaginou e não há nenhum igual…. nem mesmo parecido, pois os materiais são os mais diversificados e a imaginação não teve limites. Os presépios em exposição são sobretudo de crianças desde os 0 aos 16 anos, não só residentes em Alpalhão, mas também de outras localidades. Há também alguns elaborados por adultos.
A exposição está patente no Centro José Maria Moura em Alpalhão até dia 11 de Janeiro de 2014, todos os dias (dias uteis das 10:00h às 12:30h e das 14:00h às 18:00h, sábados das 10:00h às 12:30h e nos domingos das 15:00h às 17:00h).
Agradecemos a colaboração de todos os que quiseram participar com os seus dotes criativos nesta exposição, esperando que para o próximo ano consigamos subir um pouco mais o número de presépios.
Marlene Sequeira, Paula Varela e Irmã Teresa

23.12.13

O NATAL "visto" pelos poetas do concelho de Nisa (10)

Presentes de Natal
Ofereço-te o meu sorriso
E o meu abraço fraternal
Peço-te Jesus, por ser preciso
Que o espírito de Natal

Além de beijos e presentes
Com ceias, cheias de iguarias
Que haja paz... Todos os dias!
E cessem as guerras pungentes.

Avareza, ódio e arrogância
São o tempero da ganância
Esta vil vida é uma contenda

Onde impera a desigualdade
Dá-lhe, paz, amor e fraternidade
Não dês a miséria como prenda.
José Hilário 

CRÓNICAS DO REGABOFE (10): O escriba

 Conheci o Jakim faz já tanto tempo que se me confunde nos cafundós da memória.
Quando foi também não interessa para o caso que aqui me traz.
O que deveras importa é que desenvolvemos uma amizade e durante anos uma constância feita de cumplicidades, éramos o que se diz unha com carne, de tal forma que pelos cafés e tabernas de Portalegre não poucos eram os que nos faziam de irmãos.
Agora que já sabem que conheci o rapaz em Portalegre, saibam também que eu andaria pelo 8º ou 9º anos do então chamado ensino unificado, resquícios da Revolução de Abril e maneirismos de forma que não levaram a nenhuma unidade e muito menos promoveram a igualdade, antes fizeram milagres pelo seu oposto.
O que primeiro me chamou a atenção naquele zangalhão todo gingão e garganeiro mas com um certo ar desprotegido, rodeado de garinas que lhe acoitavam as bocas, na sala de convívio da escola industrial, foi a braçada de livros que todos os dias ele transportava debaixo do braço.
Logo ali aprendi que trazer pelo menos um livro à mão foca em nós a atenção do mulherio que se sente atraído pelo ar intelectual que o livro confere ao seu portador.
Não sei bem como chegámos à fala, eu sempre tímido não me devo ter atrevido a meter conversa e no meio escolar ele era um “winner” e eu um genuíno “loser”. Deve ter sido motivado por algum livro, objeto que também a mim já me atraía e, normalmente, quinzenalmente requisitados na biblioteca ambulante Calouste Gulbenkian.
Sei é que estabelecido o contacto tornámos-nos inseparáveis por amor aos livros que líamos e trocávamos entre nós e sobre eles falávamos.
Habitualmente, eu chegava mais cedo ao Café Facha e habituei-me a reconhecer-lhe o ticataca das botas ortopédicas a calcorrear a calçada.
Entre dois cafés púnhamos a converseta em dia e quando resolvíamos fazer gazeta íamos até ao Café Central, nas manhãs gélidas de Janeiro e Fevereiro mas de céu limpo e sol, abancávamos numa janela a dar para a rua e deleitávamo-nos com o passear das cachopas afriorentadas enquanto nós, gatos ao sol, espreguiçávamos. Nos dias sem sol, íamos até ao Café Alentejano onde sempre nos podíamos refastelar nos antigos bancos corridos com ar de sofás. As tardes, essas eram certinhas, passadas no Tarro a olhar o jardim ou quando havia disponibilidade financeira em fartas comezainas e ainda mais bem regadas a tintol no Marchão, David ou Escondidinho.
Destas cumplicidades nasceu o momento alto das nossas vidas de estudantes: o manifesto anti-Relvas, baseado no original do mestre Almada, bandarilhámos com categoria um sujeito sem categoria que fez sua vida como professor. A demonstrar o que digo, ainda hoje quando passa por mim no Rossio, seus olhos contorcem-se num esgar de ódio, quando lerpar que a terra lhe seja leve.
Destes tempos remonta ainda a nossa militância política, a qual por toparmos muito bem os desígnios do PCP e melhor ainda os dos mariquinhas pé de salsa do PS, PPD e CDS, optámos pela UDP, em Portalegre éramos 3 os militantes, ainda assim, desabrochámos um comunicado dos estudantes em solidariedade com os trabalhadores em greve da Finicisa, o qual nós próprios distribuímos à porta da fábrica, o que fez com que esses trabalhadores moralizados pelo comunicado cumprissem mais um dia de greve e nos tivessem pago uns valentes bagaços, no seu bar de convívio.
Nesse dia fomos a formiguinha ao contrário no carreiro mas que por breves instantes faz mudar a direção deste.
Nestes tempos, o nosso solstício de verão, apesar de estar já a viver o seu equinócio do Outono, era a avó do Jakim que se havia de tornar avó de ambos.
Ela era a nossa conselheira na sempre difícil passagem da adolescência à idade adulta. Contava-nos histórias populares, aconchegava-nos os estômagos em dias de ressaca, com os seus pratos da tradição alentejana, frugais mas apetitosos.
Mas o interesse comum era a literatura, ler muito e tentar escrever mais. Líamos tudo o que nos vinha à mão. Filosofia, psicanálise, política, mas acima de tudo, poesia, contos, romances, os surrealistas portugueses, o movimento Dada e muito policial, ao contrário de mim, o Jakim também devorava ficção científica, havia de se tornar especialista na área.
Dos autores, recordo-me sobretudo de Marx, Engels, Lenine, Trotsky, Che Guevara, Fidel, todos sem relevância para nós, ao contrário de Sartre, Boris Vian, Marguerite Yourcenar, Borges, Arrabal, todos os poetas e mais algum.
Convergíamos e divergíamos conforme o autor ou o momento, mas penso não errar que de todos aqueles em que mais fomos unânimes foram afinal Fernão Lopes, Gil Vicente, Bocage, Herculano, Eça, sobre todos, Camilo, mais Camões que Pessoa e muito pouco Régio, o que em Portalegre era quase sacrílego, e no topo da pirâmide os contos de Trindade Coelho, Branquinho da Fonseca e lá no cimo, tal estrela brilhante o espantoso “Romance da Raposa”, esse romance quase juvenil ou para a infância, obra fabulástica do grande mestre Aquilino.

Ao fim e ao cabo, continuamos dois salta-pocinhas entre as borrascas da vida, dizendo “o que disse Molero” e falando como só “assim falava Zaratustra”.
Obras que lhe fortaleceram a imagética literária portuguesa no qual fundou um domínio manuelino e único da língua portuguesa que iria ao longo dos textos produzidos apurando numa linguagem e estilo próprios e únicos na literatura portuguesa, criando o seu estilo inconfundível de escrever e contar histórias. 
A partir de determinada altura, apenas o conseguia ir acompanhando nas leituras, pois na escrita, ele começou a escrever cada vez mais e cada vez melhor.
Estava possesso pelo puro deleite de escrever compulsivamente.
Foi aqui que os trilhos da vida nos separaram fisicamente, mantendo a amizade, troca de leitura e sobretudo de escrituras.
Ambos saímos da órbita portalegrense quase na mesma altura, meados finais de 1989, eu para Macau recompondo a minha carreira de professor e, sem o saber na altura, comprometer definitivamente as aspirações literárias.
O Jakim, sem dizer nada, já na altura estava ciente que não podemos vender a alma ao diabo, ao contrário de mim, mudou-se para as Caldas da Rainha e por lá deu continuidade à sua verve literária e refinou ainda mais o seu estilo e vocabulário conseguindo sintetizar nas influências clássicas um modo de fazer, de escrever, de libertar as suas pulsões literárias num voo livre de formas, frases e temas hodiernos, ou mesmo, “avant le temps”.
Para as editoras, parece haver escritores que de tão prenhes de qualidade, para elas tornam-se impublicáveis. Com o que passa o jakim muito bem, pois com a evolução informática ele escreve cada vez mais e com a ajuda do computador, da impressora e da fotocópia, lá vai publicando com arrojo, satisfação e desfaçatez as suas brochuras cheias da arte de bem escrever em toda a linha montando qualquer égua, com ou sem sela, e as vai espalhando pelos amigos, em Portalegre e por todo o mundo, pois a escrita do Jakim já se tornou universal.
E às editoras diz nada, ou rindo às gargalhadas faz-lhes o gesto habitual do Zé Povinho, manda-os à fava. Ainda por cima tem tomates, o gajo.
E ainda pode glosar: escritor, eu? Não, isso é o José Rodrigues dos Santos. Eu não passo de simples escriba. (A frase é minha mas ajusta-se).
De Joaquim Castanho li:
XIV Contos Disparates;
A Carta Esquecida e outros contos;
O Escriba e as Bonecas;
Expectativa e outros milagres;
Euclasia (poemas)
E poemas, muitos poemas, sendo que em minha opinião o Jakim é um excelente prosador mas um poeta que apenas consegue esse nível em poemas raros, nos demais é apenas aceitável, mas esta é a minha opinião.
Jaime Crespo

NISA: Reaberto o trânsito na EN364 (Nisa-Arez)



Travessia da ponte deve ser feita com cuidado
O trânsito na EN364 (Nisa-Arez), impedido desde o passado dia 18, por força da realização de obras de reabilitação da ponte do Porto de Arez, sobre a Ribeira de Figueiró, foi hoje reaberto.
As obras não se encontram ainda concluídas, existindo um estreitamento da faixa de rodagem e faltando asfaltar o tabuleiro da ponte, que resulta na existência de um desnível assinalável entre o tabuleiro e a estrada, a recomendar que se circule a baixa velocidade, obedecendo à sinalização existente no local. O facto de a estrada se encontrar bastante suja e, devido às atuais condições atmosféricas, a previsível formação de lençóis de água no tabuleiro,  pede cautelas redobradas, principalmente durante períodos de menor visibilidade. Não temos indicação da data em que será asfaltado o tabuleiro da ponte.
Texto e fotos de José Carlos Monteiro in http://maladeporao.blogspot.pt

22.12.13

Domínio Público Hídrico: Quercus contra facilitação de regras de reconhecimento da propriedade privada

 Foi recentemente alargado o prazo, de 1 de Janeiro para 1 de Julho de 2014, para que os cidadãos possam recorrer aos tribunais para obter o reconhecimento da propriedade sobre parcelas de leitos e margens das águas do mar ou de quaisquer águas navegáveis ou flutuáveis. Todavia, o recurso aos tribunais requer provas documentais que comprovem a legitimidade do requerente sobre as parcelas antes de 31 de Dezembro de 1864 ou, no caso de arribas alcantiladas, antes de 22 de Março de 1868.
Tratando-se de um assunto de interesse estratégico para a salvaguarda do bem público, e conhecidas que são as dificuldades dos tribunais e as fragilidades dos serviços da Administração Pública, como tem sido demonstrado nos oito anos em que a Lei que estabelece a titularidade dos recursos hídricos está em vigor, parece consensual que o prazo de 1 de Julho é insuficiente para que o processo de reconhecimento decorra adequadamente.
Pese embora estas condicionantes, a Quercus exige que deve ser salvaguardado, sem qualquer margem para equívocos, o princípio de que os cidadãos que intentem acções judiciais continuarão a ter que, obrigatoriamente, fazer prova documental de que as parcelas que são objecto de reclamação eram propriedade particular antes de 31 de Dezembro de 1864 ou, no caso de arribas alcantiladas, antes de 22 de Março de 1868. Assim, qualquer tentativa de antecipar a data para que os proprietários privados possam fazer prova documental da posse dos terrenos anterior apenas a 5 de Novembro de 1971, ou de permitir a aceitação do usucapião, é inaceitável e constituirá um retrocesso na prossecução do interesse público.
Deve-se pois aproveitar a revisão da Lei, a qual deverá ocorrer até 1 de Julho do próximo ano, para alargar o prazo por mais cinco anos, mas estabelecendo também a obrigatoriedade do Estado em implementar, nesse período, um cadastro do domínio público hídrico, e também de repor a legalidade em todas as situações de ocupação ilegal de parcelas por interesses privados que se perpetuam sem que existam dúvidas quanto ao reconhecimento da propriedade e que colocam em causa a autoridade do Estado, sendo o caso mais paradigmático o das edificações situadas nas ilhas-barreira da Ria Formosa.
A Quercus considera ainda que, passados quase 150 anos sobre a implementação de uma legislação, inovadora à época, de salvaguarda dos interesses colectivos com um alcance estratégico que perdura até aos nossos dias, é tempo de se esclarecerem todas as dúvidas sobre a delimitação dos imóveis do domínio público e de se afastar a insegurança jurídica que continua a persistir sobre a aplicação da lei, quer para a Administração, quer para os particulares, pelo que se apela aos Deputados da Assembleia da República que façam uma reflexão profunda sobre esta problemática e apresentem uma solução equilibrada que garanta o interesse público.
Numa altura em que os cenários apontam para que as consequências mais importantes das alterações climáticas sobre o domínio público hídrico serão a subida do nível médio do mar, a modificação no regime de agitação marítima, da sobrelevação meteoroló́gica, da temperatura e da precipitação, com impactes esperados ao nível do balanço sedimentar, na intensidade da erosão, bem como pela modificação da frequência e intensidade de inundações e ainda alterações na qualidade da água, a resolução desta situação deve ser encarada como uma prioridade do legislador para os próximos meses.
Lisboa, 16 de dezembro de 2013
A Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

O NATAL "visto" pelos poetas do concelho de Nisa (9)


POEMA DO AMOR
Amor
É com os pobres repartir
E sabermos definir
O que é um grande amor:
É dos pobres não fugir
É dar um pouco de si,
Cumprir a lei do Senhor!

Visitar um doentinho,
Dar-lhe um pouco de carinho,
À criança dar a mão:
É proteger um amigo,
E livrá-lo do perigo,
Quando tem uma aflição.

É procurar a pobreza,
E sentar à nossa mesa,
Aquele que nada tem:
É ensinar quem não sabe,
P´ra não ser um desgraçado,
É praticar sempre o bem.

É tratar com indulgência,
Quando temos uma ofensa,
E sabermos perdoar:
Não atirar com pedras aos ninhos
Dar liberdade aos passarinhos
Para poderem voar.

É tratarmos dum velhinho
Acalentar um menino,
Quando tiver de dormir:
Dar a mão a um ceguinho,
Ampará-lo no caminho,
P´ra não chegar a cair.

Não esquecer que há Deus,
E uma alma p´ra salvar.
Ter que amá-lo com fervor:
É não parar de rezar,
E mesmo sacrificar,
Cumprindo as leis do Senhor!
Maria Sampaio Freire Temudo 

OPINIÃO: Natal(idade) em Nisa


De madrugada, antes do sol raiar, espreitando pela janela, vejo o manto branco da geada que cobre os campos da vila, cheira a azinho, que se consome lentamente nas lareiras das casas, fazendo fumegar algumas chaminés, e no ar ainda se sentem os aromas intensos de alguns ingredientes usados, durante a noite da consoada, na confeção das filhoses, das rabanadas, dos sonhos ou das azevias.
Aqui nesta terra, na minha terra natal, cheira e sentem-se os valores desta quadra. E as memórias regressam sempre às origens neste tempo de família e de união, que é o natal.
E sabendo, que o natal não é quando um homem quiser, mas quando as campanhas publicitárias decidirem, que devemos refletir nos propósitos desta época de consumo desenfreado e, por vezes paranóico. Por isso, o artigo de opinião desta semana, vai para uma ideia e uns números que não me largam há uns dias, e que me fizeram refletir, neste tempo em que celebramos o nascimento de Jesus, que é a força da natalidade. 
Na semana passada, o Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgou o Anuário Estatístico da Região Alentejo 2012, revelando nas suas 511 páginas, dados sobre o território, as pessoas, a atividade económica e o Estado, que expressam tão cruelmente a realidade deste interior esquecido pela centralidade das políticas elaboradas no Palácio de São Bento.
No que respeita aos dados da população, referentes ao concelho de Nisa, verificamos que, continuamos a caminhar na estrada do envelhecimento populacional, apresentado um índice de envelhecimento de 364,2 (dos mais elevados, a nível nacional). Nos últimos três anos (2010/2011/2012), nasceram no concelho de Nisa, um total de 107 indivíduos, 52 do sexo masculino e 55 do sexo feminino, apresentado o ano de 2012 o mais baixo número de nascimentos (apenas 22 indivíduos – 10 do sexo masculino e 12 do sexo feminino). Mas, como um mal não vem só,  esse envelhecimento da população é representado de forma clara, pelas suas altas taxas brutas de mortalidade, com 513 óbitos, nos três anos em análise, um saldo bastante negativo. É como se desaparecesse uma aldeia – de dimensão média, em cada três anos, neste concelho.
Mas, outros dados são nos revelados neste anuário de 2012, como o caso da diminuição dos casamentos no concelho de Nisa– em 2010 (18 casamentos), 2011 (11 casamentos) e 2012 (10 casamentos), reforçando-se, no entanto, a proporção de casamentos católicos, atingindo os 80%, em 2012. O que vem comprovar a veia tradicionalista e conservadora desta região.
Num outro registo, também ele muito importante, e que nos ajuda a compreender os movimentos populacionais no concelho de Nisa, é o aumento em 121%, nestes três anos, da população estrangeira com estatuto legal de residente, passando de 78 indivíduos em 2010, para 95 indivíduos em 2012. Comprovando-se aqui, a existência de um o fator de atratividade bastante alto nesta região, que consegue cativar indivíduos vindos do exterior para o seio da sua comunidade, tornando-a mais multicultural. No entanto, verifica-se uma nova realidade neste território, que deixa de ser um local só de partida (emigrantes), mas agora, também já é um local de chegada (imigrantes), e isto, pode ser visto, certamente, como um sinal positivo.
Á luz destes dados, devemos pensar em soluções, que possam dinamizar e alterar estes indicadores, criando politicas de incentivos à natalidade e de apoio ás famílias e, a par do que melhor se vai fazendo neste campo, em vários municípios. Um exemplo deste género de políticas positivas, podemos incluir a recente distribuição gratuita de manuais escolares aos alunos do 1º ciclo, pela autarquia de Nisa, como uma boa prática, a que se devem juntar outras de idêntico valor estratégico no plano da natalidade.
Por isso, nesta data tão simbólica e nestes tempos tão difíceis, felicito os pais corajosos dos 22 bebés que nasceram em Nisa, sem incentivos, durante o ano de 2012. Porque viver o natal é viver a vida, dando e recebendo em toda a sua plenitude, celebrando o presente da vida através do futuro nascimento. 
Cesso este meu artigo de opinião, o último deste ano, endereçando a todos os leitores e amigos, felicitações de um santo natal e um próspero ano novo de 2014.
JOSÉ LEANDRO LOPES SEMEDO

20.12.13

Sporting de Nisa entregou 30 cabazes de Natal no Agrupamento de Escolas

Nota de Imprensa
Para os fins que entenderem por convenientes, informamos que, no âmbito da Campanha de Solidariedade promovida pelo Sporting Clube de Nisa, foram angariados e entregues esta semana 30 Cabazes de Natal ao Agrupamento de Escolas de Nisa, para serem atribuídos a famílias de crianças e jovens carenciadas do concelho, e que contou também com a excelente colaboração da Associação de Estudantes da Escola EB 2/3 de Nisa.
Mais informamos que durante o dia de hoje, 20 de Dezembro, pelas 20 horas, irá decorrer o 1.º Jantar de Natal do Sporting Clube de Nisa, no empreendimento Tapada das Safras em Alpalhão, e que conta já com a inscrição de pelo menos 150 Sportinguistas.

O NATAL "visto" pelos poetas do concelho de Nisa (8)

Poema de Natal
A minha sede entrou com as mãos estendidas
Nesta Vila da província
Onde há esquinas e buracos e flores
E largos e Anabelas
E um liceu com bibe de menino

Pisei o chão da Avenida
Com luzes nos olhos
E o meu gosto de andar
A pintar o oxigénio com o pincel de Professor.

Chegou um Natal e outro e outro
E eu via postais na minha aldeia
Cada um trazia uma parcela de amor
Trazia sóis
E bocados de Lua cheia
Rasgos
Fogo-fátuo e uma boneca de azul
Cada um trazia um Menino brincando na chaminé.

(Uma vez lembrei-me do João Cardoso
Seus pés nasceram de lado
Suas botas de pequeno não as teve
Nem uma camioneta para brincar no largo
No largo da Velada
Onde a minha casa aponta o céu
Na labareda do tempo
Na mistura da planície.
Uma vez lembrei-me do João Cardoso
Nunca teve prendas nos sapatos...
Mas teve sorrisos de Jesus).

Natal
Canções de Amor na aguarela viva
Luz do alto, Luz do corpo, Luz da Fé, Luz
E a minha sede de mãos estendidas
Nesta vila da província
Onde encontrei Jesus.

Joaquim Semedo Toco – in Sinfonia das Flores em Azul