30.11.11

ESCRITORES DO CONCELHO (2)

CHÁVENAS DE CAFÉ QUASE AMARGO
- Cruz Malpique
AGIR
Agir é operar sucessivos golpes de Estado. Quem se dispõe a sair da indiferença ou da neutralidade tem que vibrar um cerce e nítido golpe à oposição, como quem diz às ideias ou aos sentimentos que se oponham ao seu pontapé de saída.
E para agir não basta ter límpida ideia do caminho a seguir. É preciso que a ideia se forre de intenso sentimento. Quando o poeta pagão dizia que via o bem que adorava e seguia o mal que detestava -- talvez não dissesse uma verdade psicológica. Aquele ver o bem era ideia pura, desimpregnada de poderoso sentimento dinâmico. Aquele adorava era puramente literário, platónico, aéreo, porque, se fosse um adorar de fé -- da tal fé que move montanhas--, venceria, provavelmente, o pendor para o mal.
Conhecer o bem é dispormos da luz que nos ilumina o caminho que lá vai dar. Mas como sair da nossa inércia, se esse conhecimento não for propelido pelo sentimento?
A não ser que se diga, como Fouillée, que toda a ideia é uma força e que, portanto, contém em si própria a soma de sentimento necessária para se efectivar.
Não afirmamos que uma ideia seja inteiramente limpa de afectividade, e que um sentimento não possua algo de ideia. O que nos parece verdadeiro, em todo o caso, é que há ideias debilmente sentimentais, e daí a grande inércia em que elas nos deixam.
BILHETE DE IDA E VOLTA PARA A REFORMA
Alguns amigos encontraram o escultor chorando junto da sua estátua, e perguntaram-lhe se não estava satisfeito com a sua obra.
-- Satisfeito estou. E é justamente por isso que choro. Se não encontro sombra de defeito na minha estátua é, forçosamente, porque já entrei em decadência. Artista que não anseia ultrapassar-se, está tirando bilhete de ida e volta para a reforma...
SUBIR, CAIR...
A respeito do poeta inglês João Dryden, escreve um dos seus biógrafos:
"Não se deve negar que tropeçou frequentemente em seu caminho, na juventude e na velhice; que muitas vezes caiu abaixo de seus próprios ideais; que deu até a impressão de contradizer-se e que foi, na verdade, inconsequente. Os admiradores de Dryden mais de uma vez lamentaram tais extravagâncias."
E Dryden, sabendo que lhe reparavam nestas contradições, que dizia? Respondia como homem de carne e osso: "Sou homem, devo ser variável; às vezes, mesmo os homens mais sérios o são, em circunstâncias até ridículas. As nossas inteligências são perpetuamente afectadas pela disposição dos nossos corpos, o que me faz suspeitar que a inteligência e o corpo estão mais intimamente unidos do que os nossos filósofos e teólogos o querem admitir.
Um pesadelo ou um dia anuviado têm o poder de modificar esta desgraçada criatura, tão orgulhosa de possuir uma alma racional, e de fazê-la pensar o que ontem não pensava."
Assim falou o poeta, e sem rebuços se exprimiu. Falou por si, e por boa maioria das humanas criatura. Na verdade, assim somos: ora prendemos o nosso destino a uma estrela, ora nos afundamos nos abismos da torpeza; ora fazemos altos programas de perfeição, ora atiramos os mesmos programas às malvas; afirmamos, agora, um peremptório sim, ditado do fundo da alma, e logo o negamos, arrastados pelas misérias do nosso corpo.
Em muitíssimos casos, a nossa alma põe, mas vem o corpo, com o seu peso de toneladas, -- e dispõe. Somos agora pó levantado em nossos superiores desígnios, e logo pó caído em nossos desfalecimentos.
A alma humana seria a perfeição das perfeições, se o corpo de carne e osso nunca tivesse existido, nem mesmo na... tradição oral.

AREZ: Caminhada alertou para a Violência contra as Mulheres



A ASAA – Associação Sociocultural os Amigos de Arez promoveu no sábado, 26 de Novembro, uma Caminhada destinada a assinalar o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, efeméride que se evoca, desde 1999, no dia 25 de Novembro.
Dezasseis caminheiros responderam ao convite da ASAA, concentrando-se, a partir das 9 horas junto à sede da Associação, local onde teve início a Caminhada.
Durante a manhã e ao longo de 5 quilómetros, os participantes puderam contactar com a natureza, visitar a ermida de Santo António e lembrar as principais dificuldades que as mulheres, actualmente, ainda têm que enfrentar, entre elas, a violência de género.
A manhã era, no entanto, de convívio e por caminho de terra batida até à estrada de Amieira, e depois até à sede, em passada alegre e descontraída, concluíram o passeio pedestre circular, numa dia de temperatura suave e outonal que convidava ao convívio e à fruição do campo.

29.11.11

NISA: ENCONTRO DE AUTARCAS SOCIALISTAS DE FREGUESIA

“PS não aceita uma Reforma Administrativa feita a régua e esquadro”
-Cândido Moreira, vice-presidente da ANAFRE
Tendo em vista a apreciação e discussão da proposta de Reforma da Administração Local, o Secretariado da Federação Distrital de Portalegre do Partido Socialista organizou no sábado, dia 26 de Novembro no auditório da Biblioteca Municipal de Nisa um Encontro Distrital de Juntas de Freguesia do PS, iniciativa presidida pelo vice -presidente da ANAFRE, Cândido Moreira e que juntou na mesa, Jorge Martins, presidente da Federação Distrital e António Ramos Preto, deputado e presidente da Comissão do Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local.
Participaram no Encontro três dezenas de eleitos do Partido Socialista em Juntas e Assembleias de Freguesia, entre estes, os presidentes das Juntas de Freguesia de Gáfete (Crato) e de Alagoa (Portalegre), as vozes que de entre os eleitos se fizeram ouvir, mostrando a sua indignação com a anunciada extinção das freguesias a que presidem e avançando com argumentos que, na sua opinião, contrariam os critérios explanados no “livro verde” , tendo justificado a existência das mesmas freguesias, como um serviço público de proximidade e de garantia da qualidade de vida das populações.
Num Encontro que chegou a ser monocórdico, com os principais oradores na mesa, a monopolizarem os trabalhos, Cândido Moreira sustentou a posição da ANAFRE – Associação Nacional de Freguesias, de crítica aos critérios contidos no “livro verde”, defendendo que “ a escala de freguesia é adequada à função e ao serviço que presta às populações, não precisando de ter milhares de habitantes para atingir essa escala”.
O vice-presidente da ANAFRE considerou um erro colossal juntar sete ou mais freguesias rurais para atingir a dita escala, onde, por ser grande, numa freguesia ninguém se conhece nem sabe qual o papel a desempenhar na administração de vizinhança.”.
Defendendo que qualquer reforma necessita de tempo e espaço, Cândido Moreira, salientou que a esmagadora maioria dos eleitos de freguesia, na situação actual, “exerce funções de quase voluntariado e os valores auferidos a título de compensação para despesas quase não têm expressão”.
“O PS não aceita uma Reforma Administrativa teleguiada do Terreiro do Paço e feita a régua e esquadro”, disse, a finalizar.
“PS é contra a extinção das freguesias rurais”
- Jorge Martins – Presidente da Federação Distrital
Jorge Martins, autarca do Gavião e presidente da Federação Distrital de Portalegre do PS explicou que os objectivos do Encontro era informar e suscitar a apreciação crítica construtiva sobre um documento que tem gerado alguma polémica.
Salientou que os eleitos do PS não reconhecem “eficácia a esta Reforma porque ela não vai resolver o problema da proximidade e nem sequer o problema das contas públicas”.
O autarca gavionense reafirmou que “somos contra a extinção das freguesias rurais, pois com esta medida o Governo está a estimular a fuga destes territórios e a provocar uma acelerada desertificação”.
Questionado sobre o facto do Partido Socialista ter assinado o acordo com a troika, Jorge Martins defendeu que “há objectivos e caminhos diferentes para atingir determinadas metas. Nós manifestamos discordância sobre uma Reforma que não aponta para uma maior eficácia, não respeita as relações de proximidade e não tem em conta os inestimáveis serviços que as freguesias prestam às populações”
Nesse sentido e de acordo com o autarca socialista, o PS irá continuar “a promover reuniões e a agitar fisicamente questões tão importantes como são as do poder local”.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 30/11/2011

27.11.11

COZINHA ALENTEJANA: Espargos bravos à minha moda

INGREDIENTES
● Espargos bravos
● Ovos
● Miolo de pão duro, ou pão ralado
● Chouriço
● Azeite
● Alhos
● Louro
PROCEDIMENTOS DE CONFECÇÃO
Depois de bem lavados, picar pequenino os espargos, dando-lhe seguidamente uma leve entaladela para amaciar. Fatiar os alhos, em quantidade e grossura a gosto. Cortar o chouriço em fatias finas. Deitar numa frigideira um fio de azeite (um pouco mais do que a quantidade habitualmente usada para mexer ovos). Juntar ao azeite os alhos e uma pequenina folha de louro. Pouco depois deitar os espargos começando-se de imediato a mexer tudo. Seguidamente, após mais um pequeno lapso de tempo, adicionar o miolo de pão e as rodelas de chouriço, mexendo sempre, devagar. Por último, sempre mexendo, deitar os ovos. Retirar do lume quando os ovos tiverem o habitual tom dourado dos ovos mexidos.
BOM APETITE!
Notas - A quantidade dos ingredientes, especialmente os ovos, varia de acordo com o tamanho do molho de espargos, devendo, pois, prevalecer o bom senso.

23.11.11

ESCRITORES DO CONCELHO (1)

MAFRA – 61
Março fora um mês enorme para muitos, acordara sobressaltado o país com o “Angola é nossa!”, o estremeção da catanada era o começo do cansaço febril das noites frias de Assafora, talhava-se enfim, na forja dos quartéis, a carne que iria apodrecer no ventre mártir do sertão longínquo.
Os homens olhavam-se com o mal disfarçado desespero de quem, por mais que queira, não consegue acordar do acorrentamento imposto por uma realidade viva e ao mesmo tempo morta, que domina sem empolgar, que escraviza sem persuadir, que resigna sem convencer.
“Lá vamos que o sonho é lindo, torres e torres erguendo, rasgões, clareiras abrindo...”
A Juventude estava ali, emparedada, naquele monstro de alvenel batido pela canícula de Julho – Mafra!
A banda formava, na manhã fresca, ao render da parada. E tocava-nos em ondas marciais, retumbantes, os belos hinos que elevaram Patton aos páramos da gesta que rasgara as entranhas da Tunísia e o fizera parar só em Berlim.
Porém, os homens que ali estavam, metidos entre muros que queimavam no sol da tarde, não eram já os mesmos que acompanharam Patton nessa hora grandiosa de libertação de uma boa parte da humanidade, embora fossem feitos da mesma massa.
Eram seres acorrentados que discutiam coisas estéreis sem falar uns com os outros, sem tempo sequer para mijar, correndo às formaturas, areando fivelas, limpando armas, fazendo camas, comendo grão com massa e argamassa de feijão entremeado de serapilheira; correndo sempre, subindo e descendo escadarias longas, percorrendo os largos e profundos corredores, na mira de ganhar, à tardinha, uma breve dispensa de recolher... para sublimar um naco de tranquilidade e poder respirar um pouco.
À noite, a 4ª Companhia de Atiradores formava no corredor “Marracuene”. E, passada meia hora, após o toque de silêncio, uma quietude inquietante pairava no ar pesado das abóbadas, estremecia e rasgava-se nos espaçados brados de alerta, as tímidas lâmpadas pendentes dos ângulos dos tectos faziam rebrilhar baionetas, enquanto, enfarpelados nos capotes, na madrugada húmida, transiam de frio os corpos extenuados das mórbidas sentinelas.
O Monstro avançava, cada vez mais perto. Ouviam-se já, ao longe, os primeiros roncos de “vitória” – Pedra Verde!, Nambuangongo!, Maçanita e Spínola!...
Era a hora. Mas o momento de avançar, para nós, ainda não chegara. O sol e o frio de Assafora moldavam-nos os ossos e os músculos. E a impaciência daqueles homens, feita agressividade inconsciente, contrastava com a soturna passividade sólida daqueles muros que não davam qualquer sinal de vida, ou liberdade.
Luanda, Fevereiro de 1965
Carlos Franco Figueiredo

22.11.11

AREZ: Festa do 1º Aniversário da ACESA

Foi com muita alegria e boa disposição que a ACESA – Associação da Cultura e Saberes de Arez, festejou o seu primeiro aniversário no dia 22 de Outubro de 2011.
O evento decorreu na sua sede, antiga EB1/JI de Arez (lado Nascente), recentemente cedida pela Câmara Municipal de Nisa, pelo que também se efectuou a sua inauguração, embora por motivo de urgente necessidade de apoio social à família a algumas crianças, o “ATL” da ACESA tenha iniciado o seu funcionamento (logo que recebeu a chave) no passado dia 26 de Setembro.
Das várias actividades desenvolvidas na festa de aniversário da ACESA destacamos a “Exposição dos Saberes de Arez” que encantou os presentes. Foi um privilégio apreciar várias peças de “enxoval” confeccionadas por “Seres” de Arez que orgulhosamente mostraram os seus “Saberes” onde algumas das habilidosas mãos contam mais de setenta anos.
A visita ao ATL da ACESA foi prova real das suas intenções sociais, uma vez que de segunda a sexta-feira das dezasseis horas e trinta minutos, às dezoito horas e trinta minutos, tem as suas portas abertas, para que as crianças cujos pais estejam a trabalhar e não tenham quem as receba quando o transporte escolar chega a Arez (por volta das dezassete horas), aí permaneçam, num ambiente acolhedor e seguro. Também nos vários eventos planeados ao longo do ano está este espaço à disposição dos associados e visitantes mais novinhos para que se divirtam confortavelmente.
Os presentes tiveram ainda oportunidade de observarem registos de algumas actividades, em textos, fotografias e DVDs, desenvolvidas no projecto local da encerrada “Escola”, que desenvolveu um exaustivo “Projeto Cultural em Arez” (com a duração de sete anos escolares: 1999-2006) e que deu origem à ACESA, assim como documentos de divulgação do porquê da criação desta Associação apenas em Setembro de 2010 e não aquando da implementação do referido Projeto Cultural. Entre outras explicações é referido que a mola impulsionadora foi o facto, da “Escola” ter sido encerrada (Julho de 2010) e só então ter surgido um espaço devoluto com condições adequadas para sede de uma associação com as características da ACESA, assim como a vontade de colmatar o vazio educativo que o encerramento da “Escola” originou. Daí o nome desta Associação “ACESA”, cujo fio condutor é “Manter Viva a Chama Cultural de Arez”.
O início deste agradável convívio teve início pelas dezasseis horas e trinta minutos, prolongando-se para além das vinte e quatro horas. Foram oferecidos aos presentes os maravilhosos “Sabores” e “Sons” de Arez e a bela voz de uma convidada muito especial a Professora Célia Soares, uma verdadeira fadista que não sendo de Arez a todos cativou com os fados entoados.
Além da nossa convidada actuaram os “Poupas” Marco Paulino, Antónia Vaz, Antónia Silva, José Sêco, António Costa, Ricardo Costa e Dulce Ribeiro (com apenas quatro anos). Todos cantaram muito bem e foram valiosas prendas oferecidas à ACESA. De realçar que três dos actuantes são mãe, filho e neto.
Em termos de avaliação consideramos esta actividade muito positiva, pois proporcionou à ACESA divulgar um pouco das suas origens… o seu estar e sentir cultural presente… assim como perspectivar as suas actividades futuras. Num espaço físico digno (depois de um ano sem sede), com os seus associados e amigos confortavelmente a conviverem, a partilharem opiniões, a avaliarem e planearem... Ou seja, finalmente a desenvolverem dignamente o seu Plano Anual de Actividades. Muito importante para um crescimento harmonioso da ACESA o clima de entreajuda entre todos os elementos dos seus órgãos sociais, na limpeza, arrumo e decoração da sua sede. Uma grande alegria as t-shirts da ACESA com o respectivo logótipo e uma linda “Poupa”.
Para concluir um bem-haja muito grande a todos os que nos acompanharam neste dia, quer fisicamente, quer em pensamento (e foram muitos que por motivos vários não conseguiram estar presentes). Um agradecimento especial à vogal da Direcção e ao Presidente do Conselho Fiscal que apesar de muitas vezes estarem ausentes de Arez, sempre apoiaram e incentivaram o crescimento da ACESA.
A Presidente da Direcção da ACESA
Rosa Metelo

21.11.11

MEMÓRIA: Ana Zacarias - Mestra boleira de Nisa

É um daqueles poços de sabedoria e de memória, senhora de uma arte perfeita.
Ana Curado Melato Zacarias, 79 novos joviais e bem conservados anos, casou com 17 anos num dia 2 de Abril e «não sabia fazer nada». «Era uma rainha» a filha do taberneiro Ti Adelino Sapateiro que era senhor da «taberna mais limpa de Nisa e melhor afreguesada», onde se apresentavam petiscos como bacalhau frito ou sardinhas assadas no forno e o café era feito em cafeteira de zinco.
Ana foi viver com o marido e teve uma grande mestra. «Maria da Cruz Basso Dias, a “Malhadinha”, era a melhor cozinheira dos Viscondes de Nisa e ela é que me ensinou». «Primeiro fazia à minha frente e depois se eu não fizesse bem, ela zangava-se comigo».
Entretanto Ana não queria ligação com a taberna do sogro, que era inferior à do pai e, com a aprendizagem de cozinha já sabia cozinhar muito bem. Então «a minha prima Maria Dinis “Sapateira”, que vendia leite porta a porta, disse-me para fazer bolos que ela os vendia e foi um sucesso».
Com esse sucesso e com o tempo «inventei as Nisas, parecidos com os pastéis de Tentúgal mas com amêndoa dentro».
Entretanto «o meu marido fez um restaurante, o Nisa Sol, que era aqui» na Estrada das Amoreiras, junto à Praça da República, e «foi o primeiro restaurante de Nisa» que se manteve a funcionar durante cerca de 20 anos.
Para além do trabalho normal do restaurante «fazia 48 refeições por dia para a Barragem do Fratel durante uns 12 ou 15 anos», fornecendo assim o almoço aos técnicos, vários estrangeiros, que trabalhavam, primeiro na montagem e depois na exploração da Barragem, e que depois vinham jantar ao restaurante. «Mas nas quintas-feiras eram 67 com os estrangeiros» e por isso «ganhámos muito dinheiro».
D. Ana lembra algumas curiosidades, como os estrangeiros querem as galinhas só com manteiga por não estarem habituados ao azeite (que diziam que era só para esfregar a barriga), ou de misturarem as frutas com leite e de comerem muito queijo.
Ao longo de uma intensa vida de trabalho teve mais de 70 empregadas e um caderno aprumado contém esse registo e muito mais da história da sua vida, numa letra bem desenhada e numa escrita escorreita das quartas classes de quando se aprendia a ler, a escrever e contar.
Começou também a fazer gelados e «tinha carrinhos a vender gelados pela vila».
Com o 25 de Abril «disseram que os empregados tinham de ficar com parte do restaurante» e as coisas a partir daí começaram a ser difíceis de gerir, de modo que o restaurante acabou por encerrar.
Na ampla cozinha de sua casa e que é a cozinha do antigo restaurante, onde na mesa central de mármore nos deliciámos com as melhores empadas do mundo e os melhores barquinhos de Nisa – isto tendo entrado a convite de outra pessoas e sem sermos esperados ou sequer conhecidos – ficámos a conhecer um pouca da história de vida de D. Ana, que se cruza com a história de Nisa e do seu património imaterial que é a cozinha tradicional.
As empadas, os barquinhos, os bolos de amêndoa, «dizem que são os melhores de Nisa», e se não há melhor é porque «a manteiga dos folhados não é vendida», ou seja, só é em quantidades que impede que seja usada em termos domésticos, pois hoje a D. Ana só faz as suas especialidades para algum amigo que lhe peça e para oferecer.
Não é por acaso que Manuel Luís Goucha tem uma grande veneração pela D. Ana e de cada vez que ouve falar em Nisa fala sempre no seu nome.
Manuel Isaac Correia in "Alto Alentejo" - nº 151

20.11.11

NISA - Uma das mais lindas vilas do Alentejo *

“Nisa uma das mais lindas vilas do Alentejo, rincão glorioso cujos filhos mantêm acrisoladamente o culto fervoroso do trabalho, e que ao trabalho deve o seu florescente progresso, apresenta ao forasteiro, sempre ávido de novos horizontes e nótulas inéditas, um belo aspecto de moderna civilização.
O seu interessantíssimo parque, que Jacinto de Matos gizou e executou com engenhoso saber dando-lhe uma agradabilíssima configuração, o seu casario moderno e alinhado na parte nova da vila, a contrastar flagrantemente com o panorama arcaico da vila antiga, para lá das muralhas, todo branquinho de cal, cenogràficamente branco e lindo, as suas muralhas de linhas elegantes e atraente recorte, a fidalguia do trato dos seus naturais, tudo, soberbamente, nos delicia o olhar e o espírito.
Terra abençoada de trabalho, onde os vádios não pululam, centro de arrojadas iniciativas, todos quantos por Niza passam, verificam a ânsia nervosa do seu labor intenso, através dos mais variados aspectos.”
In “Expansão Portuguesa”. Número extraordinário – 6 (1935)
* Texto e foto cedido por José Manuel Lopes

17.11.11

Opinião: República e “republicanos”

A Associação Nisa Viva realizou, no espaço de quinze dias, duas interessantes iniciativas, nas instalações da Biblioteca Municipal de Nisa.
No dia 29 de Outubro, uma Palestra subordinada ao tema “Um olhar sobre o 1º ano da República em Niza” e tendo como orador José Dinis Murta, historiador, ex-vereador da Cultura do município nisense.
José Murta produziu uma excelente palestra, uma lição de história local que “guiou” o público presente desde os primórdios da nacionalidade até ao alvorecer da revolução republicana, detendo-se neste período, no “antes e depois” relativo ao concelho de Nisa.
Foi, já o dissemos, uma lição viva e bem documentada, sobre o nosso passado próximo, seguida atentamente por quem se sentiu interessado e atraído pelo tema.
Uma “lição” de história local, de borla, que, nem mesmo assim, foi aproveitada pelos nossos governantes locais – presidente e vice-presidente da Câmara – pessoas que, como se sabe, são amplamente versadas no assunto.
Nem um nem outro se dignaram comparecer, mandando às urtigas o insubstituível dever de representar o município.
No passado sábado, dia 12, a Nisa Viva homenageou, por ocasião dos 50 anos da sua morte, o Engº José Custódio Nunes, com uma palestra conduzida por dois historiadores nisenses, Sara Silva e José Joaquim Carmona, para além da inauguração de uma importante exposição sobre o ilustre cidadão alentejano e a sua obra no arranque da produção e distribuição de energia eléctrica em Portugal.
O município de Nisa, um dos primeiros a beneficiar da acção empreendedora e dinâmica do Engº Custódio Nunes, “marcou pontos”, negativamente, a exemplo da iniciativa anterior, não se fazendo representar e, o que é tanto ou mais grave, sem justificar a lamentável ausência.
Bem sabemos que, à mesma hora, se realizava uma sessão de cariz político e reivindicativo pela manutenção da freguesia de Tolosa, evento onde a presidente da Câmara marcou presença, situação que, no entanto, não obstava a que a edilidade se fizesse representar pelo vice-presidente e vereador da Cultura, na referida sessão de homenagem.
Os vereadores do PS e do PSD, o presidente da Assembleia Municipal - este vindo propositadamente de Lisboa - fizeram questão de honrar com a sua presença, um evento evocativo de uma personalidade que, sem “declarações de amor platónico” fez da sua vida, um devotado acto de amor à sua terra (Póvoa e Meadas), a Nisa e a toda a região norte alentejana.
A Câmara, ao primar pela ausência, mostrou um completo desrespeito pela associação que dinamizou a iniciativa e esqueceu o seu dever institucional e indeclinável de lembrar um dos homens que no século passado mais contribuíram para o desenvolvimento do concelho de Nisa e tornaram conhecida esta terra que, hoje, ironicamente, ostenta no seu logótipo, a água que dá mais vida ao seu slogan promocional.
Que tristes “republicanos” servem a República em Niza...
Mário Mendes

Mercado dos Santos em Nisa - Poema de Ruy Belo

Pintura de Augusto Pinheiro - naif nisense
O tempo é outro nas terras pequenas
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano

E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas

Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples
[biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!

Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
Ruy Belo

IN MEMORIAN: Morreu a senhora Ana Zacarias

Em Nisa todos a conheciam pela senhora Ana Zacarias ou Ana do Miguel Póvoa. Faleceu no domingo, aos 81 anos de uma vida de trabalho e de inúmeras ocupações.
Amália Rodrigues numa das suas passagens por Nisa, deixou-lhe um postal com dedicatória: À Ana dos Bolos, dois beijinhos doces”.
Nem a propósito. Doces e bolos, mais estes que aqueles, sempre foram a especialidade da ti Ana Zacarias, em receitas próprias, originais, ou de outra autoria. No que fazia, esmerava-se a preceito. Tão a preceito que Manuel Luís Goucha, num dos seu programas, em directo, ficou rendido aos bolos da ti Ana de Nisa.
Esta foi, no entanto, uma das suas últimas facetas. Mulher dinâmica metia mãos ao trabalho em todas as actividades. O café Nisa Sol, na Estrada das Amoreiras, antes uma taberna e depois transformado em café restaurante, foi um dos primeiros em Nisa.
A estrada nacional entre Lisboa e as Beiras passava ali, ao pé da porta e toda a gente conhecia a ti Ana, tanto como o ti Adelino Rascão, mais abaixo.
Eram casas de comida e quantas vezes de abrigo. Em vésperas de feiras, Nisa fervilhava de gente e ali atracavam pessoas de todas as procedências e condições sociais.
Quantas viagens clandestinas para França não foram combinadas, em sussurro, com os passadores, às mesas do Nisa-Sol, entre um copo e outro para disfarçar e despistar algum “mirone”?
Eram tempos de brasa, de negrume, o silêncio era de ouro, mas havia uma solidariedade, uma cumplicidade tácita, que permitiu que centenas e centenas de nisenses, se fizessem a caminho de França, sem qualquer receio.
Ao quintal da ti Ana Zacarias, recolhiam-se os estudantes do Externato Durões Correia, nos intervalos ou folgas de alguma aula. Jogavam aos matraquilhos e, quantas vezes, esqueciam-se dos professores e dos deveres escolares.
No Verão, a “frota” da casa saia para o trabalho e os rapazes, com os seus carrinhos-fábrica, percorriam as ruas de Nisa, enquanto anunciavam: Quem quer gelados fresquinhos!
Gelados de 3, 5 e 15 tostões. Uma festa, quando se conseguia juntar os tostões e satisfazer o desejo.
Eram actividades sazonais. Noutras épocas do ano, outras ocupações haveriam de surgir. Com muito trabalho, arrojo, determinação e capacidade, a tia Ana conseguiu fazer uma casa. Uma casa e um nome que algumas gerações de nisenses tão depressa não esquecerão: Nisa Sol.
E, por triste ironia do destino, foi num dia cinzento e de chuva, que Ana Curado Melato Zacarias foi a sepultar no cemitério da vila que ela tanto amou. Da vila a que ela tanto se esmerou para fazer brilhar o nome.
Partiu a ti Ana Zacarias, uma figura popular de Nisa, na diversidade do seu carácter, com os altos e baixo que caracterizam a alma humana, mas na bondade do seu espírito.
Que na terra para onde partiste possa sempre brilhar o sol de Nisa. Aquele que tu ajudaste a tornar mais cintilante.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" -15/11/2011

16.11.11

NISA: Engº Custódio Nunes, homenageado nos 50 anos da sua morte

O homem, a vida e a obra do Engº José Custódio Nunes (1887 – 1961) foram o pretexto para uma sessão pública de homenagem, a título póstumo, realizada no passado sábado na Biblioteca Municipal de Nisa e promovida pela Associação Nisa Viva com o apoio da Câmara Municipal de Nisa, Juntas de Freguesia de Nossa Senhora da Graça e Espírito Santo (Nisa), Póvoa e Meadas (Castelo de Vide) e da Fundação EDP.
Simultaneamente foi inaugurada uma exposição sobre alguns dos principais projectos levados a cabo pelo ilustre cidadão e técnico português, nascido em Póvoa e Meadas e um dos principais precursores da produção de energia eléctrica e da electrificação do país, na qualidade de fundador e responsável técnico da empresa Hidro Eléctrica do Alto Alentejo (HEAA), em meados dos anos vinte do século passado.
No auditório da Biblioteca Municipal, lotado, podiam ver-se antigos trabalhadores da HEAA e da EDP empresa em que a primeira se integrou após a nacionalização do sector eléctrico português, autarcas de Nisa e de Castelo de Vide, familiares e amigos do homenageado.
Na mesa da sessão António Montalvo, presidente da Nisa Viva, Sara Silva, ex-conservadora do Museu da Electricidade e José Joaquim Carmona, historiador.
Todos evidenciaram a vida e a obra do engº José Custódio Nunes, o primeiro destacando o seu pioneirismo e a sua ligação à terra e à região, a preocupação com o desenvolvimento dos seus conterrâneos e o sonho de transformar a Ribeira de Nisa num projecto inovador e de fonte de riqueza nos aproveitamentos hídricos para a produção de energia eléctrica. António Montalvo, propôs que fosse dado o nome do Engº José Custódio Nunes a uma rua de Nisa, tendo em conta todo o esforço e trabalho no engrandecimento dos concelhos de Castelo de Vide e de Nisa, assim como do Norte Alentejano.
Sara Silva, baseou a sua intervenção, na leitura de inúmeras actas da empresa Hidro Eléctrica do Alto Alentejo, nos seus primórdios e das quais, disse, ressalta a importância das intervenções de José Custódio Nunes, a sua visão estratégica, muito avançada no tempo, dando como exemplos, os projectos que apresentou na década de 30 e que não foram considerados pelo Governo, para o aproveitamento hidro-eléctrico do Fratel e do Alvito, o primeiro implementado a partir dos finais dos anos 60 e o segundo actualmente em projecto de execução.
As preocupações de carácter social por parte do Engº Custódio Nunes, informou Sara Silva, eram também uma constante das actas, muito anos antes de haver por parte das empresas essa noção de responsabilidade social.
José Joaquim Carmona falou da importância da criação da HEAA nos anos vinte e da sua contribuição para o desenvolvimento do concelho e região, não apenas na construção de equipamentos, infra-estruturas, vias de comunicação, na fase inicial, como também na de construção de transporte e de distribuição de energia eléctrica, possibilitando trabalho a muitas centenas de pessoas numa época de crise económica e social bastante grave.
O orador destacou também o papel cívico de José Custódio Nunes, um dos fundadores e dinamizadores da Casa do Alentejo e do espírito regionalista, que se tornou numa estrutura de apoio, de convívio e lazer, para tantos alentejanos chegados à capital.
A voz de um antigo trabalhador da HEAA, João Carrilho da Graça, fez-se ouvir, comovida e sentidamente, para realçar a justeza da homenagem e lembrar o importante legado patrimonial do Engº José Custódio Numes, não apenas nas obras que projectou e ergueu, mas no seu trato afável, na bondade do seu carácter e na amizade com que distinguia todos os trabalhadores.
A homenagem pública teve o seu epílogo com a cerimónia de descerramento de uma placa evocativa do Engº José Custódio Nunes, num dos edifícios, na rua Alexandre Herculano, em Nisa, onde funcionou durante muitos anos a Hidro Eléctrica do Alto Alentejo.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 15/11/2011

15.11.11

Arez em festa na inauguração da sede dos Amigos

Em Arez, no dia 4 de Novembro de 2010
Criou-se uma Associação
Que é uma mais valia para a nossa aldeia
Que precisa de desenvolvimento e animação
- Luzia Almeida
Houve festa em Arez, no passado sábado, com a celebração do 1º aniversário da Associação Sociocultural “Os Amigos de Arez” e a inauguração da sede social, que passa a funcionar em parte do edifício onde funcionou até há pouco tempo a Escola Primária.
A abertura da sede contou com a presença do vereador da cultura da Câmara de Nisa, Manuel Bichardo, do presidente da Junta de Freguesia, Artur Dias e do provedor da Santa Casa da Misericórdia de Arez, José Fazendas, entre outros.
Num acto simples e que envolveu grande parte dos 212 sócios da Associação, reafirmaram-se os objectivos que nortearam a fundação dos Amigos de Arez, agradeceu-se a colaboração e apoio de diversas entidades e num ambiente de grande entusiasmo foi partido e distribuído o bolo de aniversário.
A festa continuou durante a tarde e pela noite fora, não faltou a animação musical e por fim teve lugar o tradicional bailarico, a lembrar os tempos em que os arezenses se juntavam nos dias festivos, no salão, para poderem divertir-se.
Um objectivo comum: Arez
Em dia de festa e comemoração, João Arménio Pires, 34 anos, presidente da direcção dos “Amigos”, em conversa com o repórter do “Alto Alentejo” falou dos objectivos que estiveram na origem da Associação e fez um balanço do primeiro ano de actividade.
“ A Associação Sociocultural “Os Amigos de Arez” foi criada por escritura pública realizada em Nisa, no dia 4 de Novembro de 2010 e pretende responder, com iniciativas que agreguem todos os amigos de Arez – naturais, residentes, ausentes – ao crescente isolamento e desertificação das aldeias do interior, como é o caso da nossa, tentando que a inércia não leve ainda mais ao abandono e degradação destas comunidades.
Temos, pois, como objectivo central da nossa actividade, a animação recreativa, social e cultural, com iniciativas regulares nas quais pretendemos envolver todos os amigos de Arez.”
Primeiro ano muito positivo
João Pires enaltece e classifica como muito positivo, o primeiro ano de actividade da associação a que preside.
“Primeiro que tudo tenho que enaltecer o espírito de participação dos sócios e não sócios da colectividade. As pessoas precisavam de algo que as motivasse, que as juntasse para partilharem ideias, uma simples conversa, e para começarem a perceber e a valorizar todo o potencial que a freguesia dispõe, a nível do património natural e construído, a história, os usos e costumes, as tradições, numa palavra, um valioso conjunto patrimonial que marca a identidade arezense e que de outra forma estaria condenado a cair no esquecimento."
Reavivámos algumas tradições
"Durante o ano tivemos uma média de duas actividades por mês, com a participação de cerca de 30 pessoas em cada iniciativa, num ano de actividade que culminou no tradicional “Almoço das Migas” no dia 1 de Novembro e que juntou 62 pessoas.
Até aqui dispúnhamos de um local para reunir na sede da Junta de Freguesia, hoje, com esta sede que acabámos de inaugurar, temos mais espaço e motivação para desenvolver outras actividades”.
Edifício da Escola volta a ter vida
Alvo de importantes obras de restauro e remodelação, realizadas há três anos pela Câmara de Nisa, o edifício da Escola do 1º ciclo de Arez foi, entretanto, desactivado, e desde logo se colocou a questão do seu reaproveitamento.
Sem dispor, desde há 40 anos, de uma associação recreativa, cultural e desportiva, Arez viu nascer num curto espaço de meses duas associações: a ASAA e a ACESA, com fins idênticos, ambas sedeadas no mesmo edifício, em alas diferentes. Poderíamos dizer, a propósito, “não há fome que não dê em fartura”.
João Pires escusou-se, diplomaticamente, a comentar esta situação, antes reforçando a importância do novo espaço para os Amigos.
“A Escola encerrou o ano passado e achámos que seria um bom local para a sede da Associação. Contactámos a Câmara que nos cedeu este espaço, composto por esta sala de entrada, a sala de aulas, bastante espaçosa e na qual poderemos realizar exposições, conferências, debates, reuniões, etc., a sala onde vamos festejar o 1º aniversário, também com muito espaço e depois há ainda os espaços exteriores, alpendre, as zonas recreativas e de jogos que serão partilhadas em comum com a outra associação.
Acima de tudo esperamos que a sede seja a casa de todos os sócios, de todos os amigos de Arez.”
Apoio dos sócios é fundamental
Sendo ainda uma “criança”, a Associação Sociocultural “Os Amigos de Arez tem nos associados a sua principal base de sustentação financeira, um apoio insuficiente e que a direcção procura colmatar com as ajudas de outras entidades, nomeadamente, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia.
“ A associação vive dos sócios e para os sócios. São eles em Assembleia Geral que definem as linhas de orientação e as iniciativas que programamos no Plano de Actividades. Temos 212 sócios que pagam seis euros por ano, ou seja 50 cêntimos por mês. A Câmara cedeu-nos o espaço da sede e vai subsidiar-nos com 500 euros, de acordo com as iniciativas que apresentámos. A Junta de Freguesia deu-nos um apoio de 500 euros, verba que será aplicada na remodelação da instalação eléctrica e tem-nos cedido o pavilhão da Junta onde realizamos iniciativas que envolvam maior número de participantes. Para além disso temos alguns fundos obtidos nalgumas actividades.”
João Pires aproveita para divulgar algumas das iniciativas que irão integrar o Plano de 2012, um calendário cheio de projectos de animação, onde não falta a reactivação de algumas tradições locais, como o “Cantar as Janeiras”, a tradição do Santo Amaro, o “Reviver a Via Sacra” e até um “Desfile de Vestidos de Chita”.
“ O ano passado fizemos 1 Paddy Paper que teve uma boa participação e agora vamos organizar, a pedido dos sócios, um Rally Paper, estando também previsto a realização de uma Noite de Fados e a feira Mostra de Produtos e Sabores de Arez.”.
A terminar e em jeito de balanço, o nosso entrevistado, reforça a ideia de que “valeu a pena”.
“Arez estava um pouco adormecida em termos de associativismo. Com a criação da Associação conseguimos não só cativar as pessoas como chamá-las a participar em iniciativas diversas, a darem opiniões, a sentirem-se activas e integrantes de uma comunidade viva.
Aproveito para agradecer a todos os sócios e entidades, à população em geral, todo o apoio que nos têm dado e o estímulo para continuarmos a fazer mais e melhor, em benefício de Arez e do seu desenvolvimento.”
ÓRGÃOS SOCIAIS PARA O BIÉNIO 2011/2012
Assembleia Geral
Ricardo Reis (Presidente); Ana Leitão (1º Secretário); Olga Ferreira (2º Secretário); Andreia Barata e Rui Rovisco (Suplentes)
Direcção
João Arménio Pires (Presidente) Fátima Tomé (Vice-Presidente); Graça Cruz (Secretário-Geral); Cláudia Silva (Tesoureira); Paulo Felício, Ana Cristina Semedo, Sónia Faiões António e André Miranda (Vogais)
Rita Nunes e Ana Patrícia Mandeiro (Suplentes)
Conselho Fiscal
João Tomé (Presidente); Ana Rovisco (Relator); António Albino (Secretário); Diogo Mendes e Luís António (Suplentes).
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 9/11/2011

11.11.11

SAÚDE: .. E não se pode exterminá-los?

A ULSNA – Unidade de Saúde Local do Norte Alentejano, numa decisão extemporânea e ditatorial do seu Conselho de Administração, decidiu, de uma penada, encerrar 13 Extensões de Saúde em cinco concelhos do distrito: Avis, Campo Maior, Crato, Marvão e Nisa.
O concelho de Nisa é o mais afectado por esta medida, tomada - como seria exequível e indispensável num regime democrático digno desse nome – sem prévia consulta às autarquias envolvidas e, consequentemente, sem se precaver a existência ou não de medidas alternativas.
Tal atitude da ULSNA que contempla ainda a redução dos horários dos Centros de Saúde, que passarão a funcionar aos sábados, domingos e feriados, apenas da parte da manhã, é prepotente e contrária aos valores do Estado de Direito, porque as directrizes emanadas do Ministério da Saúde determinam que sejam “elencadas medidas no sentido da racionalização e controlo das despesas” e não que estas medidas sejam o “cortar a torto e direito” atingindo as populações mais fragilizadas.
Aliás, a circular da ULSNA nem sequer foi dada a conhecer às Juntas de Freguesia cujas Extensões de Saúde foram atingidos por este despacho imoral e prepotente de um Conselho de Administração habituado ao “quero, posso e mando”.
Levantar e fazer cair o cutelo sobre as cabeças das populações idosas, de magros recursos e vivendo longe da cidade, foi a decisão do CA da ULSNA, tomada e justificada, hipocritamente, com o objectivo de “melhorar os cuidados de saúde prestados á população”.
A cumprirem-se as directrizes da ULSNA – e há quem, corajosamente e na defesas das populações e da justiça, as conteste - fechariam as extensões de saúde em 5 freguesias do concelho e que iriam penalizar, fortemente, os utentes de 10 povoações, já de si postergados para o “sótão das inutilidades” após uma vida de trabalho.
A estas medidas “economicistas” vem juntar-se a redução do horário de funcionamento do Centro de Saúde, nos sábados, domingos e feriados.
Os administradores da ULSNA, certamente, não têm a “experiência, própria ou de algum dos seus familiares de passaram dez e mais horas no banco de Urgências do Hospital de Portalegre. Acham que o serviço funciona bem, ao nível de qualquer país africano e por funcionar de forma tão exemplar, querem “entupi-lo” ainda mais, transferindo os doentes de quase todo o distrito para uma unidade hospitalar que rebenta pelas costuras e não dispõe de todos os meios para fazer face a esta autêntica calamidade.

Ao mesmo tempo que pretendem a concentração de serviços de saúde, negam aos utentes, mesmo àqueles a quem, por imperativos económicos, sociais e humanos deveria ser assegurado, o direito ao transporte em ambulâncias, tudo em nome do sacrossanto objectivo de melhoria dos “cuidados de saúde prestados à população”.
Como é que se melhora a prestação de serviços, fechando extensões de saúde, reduzindo horários, negando o transporte, querendo canalizar e centralizar todos os meios complementares de diagnóstico no Hospital de Portalegre, que não dispõe, manifestamente, de capacidade de resposta, em tempo e qualidade?
Que mal fizeram ao país e aos gestores da ULSNA os habitantes de muitas aldeias do concelho de Nisa (e de outros concelhos), a maior parte idosos, alguns residindo a 50 quilómetros de Portalegre, para serem tão mal tratados?
Será esta a recompensa, por parte de serviços ditos públicos - lembro que Portugal tem um Serviço Nacional de Saúde “tendencialmente” gratuito – a quem trabalhou uma vida inteira e se vê no declinar da vida, quando mais precisa de apoio, afecto e carinho, ser assim marginalizado, ferido na sua dignidade, de forma tão brutal e demolidora?
A partir dos anos 20 do século passado, quando as câmaras municipais viviam à míngua de recursos, os cuidados de saúde e a presença do médico em todas as freguesias do concelho estavam assegurados. Não havia estradas, os caminhos eram péssimos, transportes nem era bom sonhar, mas os médicos, os João Semanas deste país, mal pagos, mas com uma dedicação abnegada e humana ao serviço público, não deixavam que as populações, a viver na miséria e com grandes dificuldades, padecessem para além do que era admissível.
Havia humanidade, embora faltassem os gestores hospitalares. Havia sempre uma carroça ou um burro, mais tarde o automóvel, para levar o clínico do “partido médico” da freguesia, a percorrer os caminhos mais íngremes e pedregosos para dar alívio, conforto e ânimo aos doentes. Havia uma constante disponibilidade, de noite ou de dia, a noção e o dever de serviço público, para acudir a quem precisasse, embora não houvesse Conselhos de Administração, nem “frotas automóvel” de topo de gama e muito menos ordenados escandalosos para pagar a quem tão mal nos quer “tratar” da saúde.
Há tempos numa sessão pública de um órgão autárquico, alguém se lembrou da definição do “tratador de maleitas”. Podíamos juntar-lhe a dos “sangradores”, referidos em muitos documentos do século 18.
O mundo evoluiu, as ciências médicas tiveram um desenvolvimento notável a todos os níveis, melhoraram-se as infra-estruturas de saúde, formaram-se mais médicos e especialistas em diversas áreas, mas para o comum dos cidadãos, num país onde a população é, sensivelmente, a mesma de há 20 ou 30 anos atrás, não se percebe como a nível da prestação dos cuidados de saúde estejamos a regredir de forma tão assustadora, e como de uma penada, se quer aniquilar o Serviço Nacional de Saúde, envolvendo nessa liquidação os médicos e outros profissionais de saúde, funcionários públicos que, sujeitos às ordem do “Estado”, assistem, pesarosos e contrariados, ao desmoronar deste belo edifício que António Arnault ajudou a construir.
Que significará para a Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano, “melhorar os cuidados de saúde (que não são) prestados á população”?
Pagar o táxi ou a ambulância de cada vez que se adoece, para a ida a uma simples consulta, ou para fazer exames? Passar 10 ou mais horas nas “Urgências” do Hospital de Portalegre, na sala de espera ou deitado numa cama de um qualquer corredor? Não seria melhor e mais "económico" deixá-los à sua sorte?
Os gestores da ULSNA não podiam começar a racionalizar por eles próprios, dando o exemplo? Os gestores da ULSNA não conhecem o “manual de boas práticas” e o “código de ética” da sua profissão, na parte em que aconselha o bom senso e a humanidade nas decisões, principalmente, a partilha de informação e a discussão com os principais interessados?
Os gestores da ULSNA terão pensado que, por haver uma “troika” e um governo mais papista que o papa, os habitantes dos concelhos de Marvão, Avis, Campo Maior, Nisa e Crato serão todos “troikanos” e não portugueses abrangidos pelos direitos e deveres constitucionais da República Portuguesa?
Os gestores da ULSNA julgam que têm a “faca e o queijo na mão” e que o direito à saúde e o próprio Serviço Nacional de Saúde são letra morta e dispensável?
Não haverá quem ponha os gestores da ULSNA na ordem?
Mário Mendes

10.11.11

À FLOR DA PELE - Homenagem singela a José Curado Lopes da Silva

Partiu recentemente do nosso convívio, esta figura veneranda da cidade de Portalegre, de Nisa – terra onde nasceu há quase 100 anos – e do Norte Alentejano.
O texto que se publica é uma homenagem singela a um “homem do século” e cidadão do mundo, figura simples, trato afável e conversador nato. Com ele, o tempo passava veloz e ficava sempre a sensação de termos aprendido mais alguma coisa.
Reconhecido pela sua amizade, deixo expresso à família, sentidas condolências e a certeza de que Curado da Silva à imagem de Pablo Neruda poderia dizer: Confesso que vivi!
Mário Mendes
OS CASAMENTOS DE OUTRORA NA NOSSA TERRA (*)
- Curado da Silva
(...) Vejamos como eu vi na minha infância e alguns anos depois, os casamentos na nossa terra, porventura muito diferentes dos de hoje.
Os convites e as prendas
Aprazada a data do casamento, faziam-se os habituais convites, sempre na ordem de algumas dezenas nas classes mais pobres e de algumas centenas nas mais abastadas.
Muito curioso o facto de, ao contrário do que acontecia em qualquer outra parte, as prendas oferecidas aos noivos não serem constituídas por quaisquer objectos, mas antes por cereais, trigo ou centeio, um alqueire (15 litros) ou pelo seu valor em dinheiro, prendas a que se dava o nome de "serviço".
O local da boda (Quintal da Festa)
Dois os locais da boda: para os convidados em geral, um quintal amplo, devidamente atapetado com fetos ou juncos, para evitar o pó. A este quintal se dava o nome de "Quintal da Festa" no decorrer dos dias da boda. Neste quintal se abatia o gado, cabritos e borregos, se cozinhava em grande caçarolas de barro, assentes sobre pedras colocadas paralelamente a fazer de fornalha, junto de uma parede, quintal em que também se comia e confraternizava.
As mesas, sempre muito longas, eram por vezes formadas por escadas de mão assentes nos extremos sobre grandes pedras ou madeiros, com tábuas por cima, sobre as quais se estendiam as toalhas.
O outro local da boda, o da chamada "mesa grave", era em casa dos pais de um dos noivos ou já na futura residência dos mesmos. Nesta mesa apenas tinham assento os nubentes, seus pais e irmãos, os padrinhos e alguns parentes ou pessoas mais íntimas.
A ementa
Muito curiosa e original ela era. Na véspera do casamento, ao almoço, batatas ou feijão frade, guisados, e ao jantar grão de bico ou feijão de cor guisados também.
No dia do casamento ao almoço, as conhecidas sopas de sarapatel, manjar feito com o fígado, bofe, coração e sangue dos cabritos e borregos.
Ao jantar, as chamadas sopas de afogado, prato a que também se dá o nome de ensopado mas, neste caso, não com batatas mas antes com grandes sopas de pão sobre as quais se deita o caldo e a carne.
Todas as referidas refeições eram servidas no quintal da festa em grandes bacias de louça colocadas sobre as mesa, distanciadas umas das outras de forma a que, de cada uma delas, pudessem comer grupos de quatro a seis pessoas.
Uma pessoa se encarregava de servir o vinho, em volta da mesa, bebendo todos pelo mesmo copo. Também muito curioso o facto de os convidados, os do quintal da festa, terem de levar o respectivo talher, aliás uma colher apenas. Na chamada "mesa grave" outros pratos podiam ser servidos para além dos atrás enunciados.
Quanto a bolos, doces, e algumas bebidas, ausentes do quintal da festa, eram servidos na mesa grave, mas em geral antes e depois do casamento em casa dos pais dos noivos.
As vestes dos noivos
O noivo envergava um fato normal que apenas poderia ser diferente nos casos de se tratar de um trabalhador do campo ou de um dos chamados artistas, isto é, de qualquer outra profissão que não a do campo.
Quanto às noivas, não envergavam elas o tradicional vestido branco nem o véu com flor de laranjeira, o que aliás não significava que fossem menos puras que a de outras terras, ostentando tais símbolos de virgindade.
O traje de então era constituído por saia rodada ou plissada, blusa (ou roupinha), lenço estampado ao pescoço e um grande xaile não preto, com grossas e compridas franjas. Em tempos mais recuados, porém, as noivas apresentavam-se totalmente de preto, com saia, blusa e mantilha.
A cama dos noivos
Uma grande excentricidade neste aspecto. Na véspera do casamento a cama era feita com todos os lençóis, colchas e cobertores do enxoval da noiva e exposta para quantos (ou melhor, para quantas...) a quisessem apreciar. Duas pessoas, que podiam ser a noiva e uma das madrinhas, se encarregavam, uma à cabeceira e a outra aos pés da cama, de mostrar e contar todas as peças que a compunham.
Mas ainda outra excentricidade, esta bastante insólita, a registar neste capítulo: na primeira noite os noivos dormiam no chão, em improvisada cama. Isto porque a primeira ainda se encontrava feita, como na véspera, com todos os lençóis, cobertores e colchas do enxoval da noiva. A propósito disto não fujo à tentação de narrar um pequeno episódio passado com um casal conhecido e amigo e que os próprios com muita graça contavam.
Na noite do casamento estavam dormindo sossegadamente (no chão, claro...) quando, de súbito, se desprende da parece um grande tacho metálico, o qual, caindo em cima da cabeça do noivo, lhe provocou um grande galo na testa. No dia seguinte, (era de esperar...) tiveram os noivos grande dificuldade em fazer-se acreditar sobre o que na realidade se havia passado, sendo por isso alvos, por parte de alguns convidados mais galhofeiros, de inofensivos mas espirituosos comentários.
O destino do enxoval da noiva
Ao contrário do que acontecia em qualquer outro ponto do país, as noivas de Nisa desfaziam-se de grande parte do enxoval após o casamento. Era adquirido, por futuras candidatas a noivas, as quais, por sua vez, chegada a sua altura, procediam de igual modo. Assim, muitas das peças vistas em determinado casamento, já haviam sido vistas em casamentos anteriores.
Não se julgue, porém, que a alienação de tais bens era feita de ânimo leve e portanto sem qualque finalidade. O dinheiro apurado, somado com o das prendas, era de imediato investido na construção da sua casa, importância que, aliás, por vezes apenas dava para levantar as quatro paredes e pôr-lhes o telhado em cima. Mas era um bom princípio. O resto, com muitos sacrifícios, viria (e vinha mesmo) mais tarde.
Como seria diferente o problema da habitação em Portugal se todos os jovens portugueses tivessem igual espírito de sacrifício.
Mal os noivos adormecem,
São forçados a acordar
Por um grupo de amigos
Que à porta lhes vai cantar
* O espaço temporal deste artigo de Curado da Silva, refere-se à década de 20 do século passado.
O Descante
Entende-se, na terminologia popular de Nisa, que o descante é um canto de homenagem aos noivos, de louvor ao casamento e de felicitações para a vida futura.
É um costume muito antigo, em Nisa, diríamos, mesmo original e a ele faz referência o Dr. Motta e Moura, na sua Memória de Nisa. As quadras que seguem são da autoria de Maria da Graça Pinto e foram cantadas num casamento (descante) ocorrido nos anos 60, do século passado.
O Descante (num casamento dos anos 60) *
Adeus Maria Isabel
Parabéns te venho dar
Deus queira que teu marido
Sempre te saiba estimar

Isabel, hoje já és noiva
Já chegou hoje o teu dia
Deus queira que no teu lar
Sempre se encontre alegria

O teu vestido de noiva
Tão branquinho como a prata!
Já puseste a mão em cruz
Só por morte se desata.

Isabel, o teu marido
Dizem que é boa pessoa
Leva-te daqui p´ra fora
Vão viver para Lisboa.

Cá deixas os teus paizinhos
A estranhar a companhia
Vais nova vida tomar
Deus te dê sempre alegria

Tens sido boa menina
Com boa disposição;
António é teu marido
Já lhe deste a tua mão.

Tanta gente a acompanhar-te,
A comer com apetite
Tudo alegre e satisfeito
Isto assim é que é bonito.

Adeus António da Cruz
Deus te dê felicidade;
Isabel é tua mulher,
Ama-te com lealdade.

António, repara bem
No que te estou a dizer
Faz um lindo casamento,
Estima a tua mulher.

António, estás no teu dia,
Um dia tão desejado
Segue sempre bom caminho,
Que já és um homem casado.

António, já hoje é tua
A mulher que mais amavas;
Vai correndo p´ra seis anos
Que já tu a namoravas.

Deus queira que o bem-querer
Aumente cada vez mais;
Um casamento bonito
É alegria dos pais.

Tens uma casa tão linda,
Com tanta coisa bonita
Deus te dê saúde e sorte
E muitos anos de vida.

Vim aqui incomodar-vos,
Desculpem esta maçada.
Se não quiserem dar vinho,
Dêem uma cigarrada.

Acabados o descante,
Vai-se o noivo levantar
Pra copinhos de licor
E bolos a todos dar.
* tá Mari Pinto (poeta popular, falecida)
Mário Mendes - À Flor da Pele - Alto Alentejo - 8/11/2011

9.11.11

Empresa de Rio Maior quer explorar caulinos na Lage da Prata

A empresa Sifucel – Sílicas S. A com sede em Rio Maior requereu à Direcção Geral de Energia e Geologia, a atribuição de direitos de prospecção e pesquisa de depósitos minerais de caulino, numa área “Laje da Prata”, localizada nos concelhos de Nisa e Crato, distrito de Portalegre, delimitada pela poligonal cujos vértices se indicam seguidamente, em coordenadas Hayford-Gauss, DATUM 73, (Melriça), numa área total de 9,150 km2, de acordo com o aviso publicado num jornal local e que pode ser consultado, bem como outros elementos do processo no site da DGEG em www.dgge.pt
De acordo com o Aviso já publicado no Diário da República nº 210 de 2/11/ 2011 está a decorrer desde esta data, o prazo de 30 dias para que os interessados possam apresentar reclamações, ou a manifestarem preferência.
O pedido está patente para consulta, dentro das horas de expediente, na Direcção de Serviços de Minas e Pedreiras da Direcção-Geral de Energia e Geologia, sita na Avª 5 de Outubro, 87-5º Andar, 1069-039 LISBOA, entidade para quem devem ser remetidas as reclamações.
NR Situando-se a maior área alvo do pedido de prospecção no concelho do Crato, não parece fazer sentido que a publicação do Aviso tenha sido feita num jornal de dimensão local, tanto mais que a zona onde se pretende pesquisar depósitos de minerais de caulinos, está situada na proximidade de áreas residenciais e sensíveis (Gáfete e Tolosa), pelo que as populações e os seus representantes deverão conhecer em toda a amplitude os fundamentos desta pretensão.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 8/11/2011

NISA> PSD e as Alterações dos serviços de Saúde no Concelho

A Comissão Política Concelhia de Nisa do PSD na sequência das posições tomadas pelos seus órgãos superiores sobre as alterações de funcionamento do Centro de Saúde e o encerramento das respectivas extensões de saúde reitera o seguinte:
“Não existiu por parte do Ministério da Saúde, a imposição de qualquer medida concreta, somente uma orientação, de carácter genérico, no sentido de uma gestão mais racional, rigorosa e eficiente dos recursos disponíveis.
Acima de tudo, é preciso adequar a despesa aos fundos disponíveis para assegurar a sobrevivência do Serviço Nacional de Saúde, garantindo a prestação de cuidados de qualidade a todos.
Às diversas entidades integrados no Ministério da Saúde (entre os quais a ULSNA), e aos respectivos dirigentes, cabe, neste contexto e tendo em conta as realidades locais, implementar medidas que concorram para esse objectivo comum.
É essencial, independentemente das medidas que foram ou venham a ser postas em prática, garantir a equidade no acesso aos cuidados de saúde, em particular no que se refere a sectores mais desfavorecidos da população do Distrito.
Por outro lado, os Autarcas devem ser vistos como interlocutores privilegiados da Administração Central, e devem ser ouvidos e envolvidos, em qualquer processo de mudança que ocorra a nível dos respectivos Municípios.
No que concerne às alterações de funcionamento dos centros e extensões da saúde, tal não aconteceu; pelo que registamos de forma crítica a actuação da ULSNA, esperando que ainda venha a ser possível estabelecer uma plataforma de entendimento com os Autarcas, na procura de contributos úteis para a transposição dos obstáculos surgidos.”
Nisa, 8 de Novembro de 2011
A Comissão Política Concelhia de Nisa do PSD

8.11.11

O 1º ANO DA REPÚBLICA NO CONCELHO DE NIZA

Uma lição de história que deixou “água na boca”
A associação Nisa Viva promoveu no sábado, dia 29 de Outubro, no auditório da Biblioteca Municipal de Nisa, uma Conferência intitulada “Olhar sobre o 1º ano da República no concelho de Niza”, tendo como conferencista convidado o Dr. José Dinis Murta.
Feita a apresentação do orador, este deliciou os presentes não com um “olhar” sobre o primeiro ano da República no concelho, mas com uma verdadeira lição de história, dinâmica e bem fundamentada com o auxílio de numerosos documentos mostrados através de diapositivos.
  As mais de duas dezenas de pessoas presentes puderam apreciar o curso histórico de Nisa, desde a sua fundação, deter-se nos aspectos do municipalismo e das principais diferenças entre a Monarquia e a República, alguns de natureza prática, esses sim, focados mais em detalhe quando o conferencista analisou o ano inicial do regime republicano e as suas repercussões no concelho.

José Dinis Murta, por mais de uma vez, salientou a extrema dificuldade na obtenção de informações e de documentos, não deixando, todavia, de focar alguns dos principais traços distintivos entre os dois regimes políticos, nomeadamente os relacionados com a distribuição dos diversos poderes, o papel da igreja, o direito ao voto, o acesso à educação e a sociedade em geral, uma sociedade estigmatizada pela fome e miséria e por um analfabetismo elevado.
Um e outro retrato que espelhava o antes e o depois do 5 de Outubro de 1910 e que, naturalmente, não poderiam, num tão curto espaço de tempo ter alterações significativas, a não ser, como bem afirmou o conferencista, nas declarações de intenções e de princípios dos novos detentores do poder político.
A conferência deixou nos presentes uma certeza: é de que é preciso continuar estas iniciativas que contribuem para fazer alguma “luz” sobre a história das nossas terás e dos nossos concelhos.
E esta, a história local, é parte fundamental da história do país.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 1/11/2011

6.11.11

OPINIÃO: O PCP e a liberdade de informação

Nisa, 24 de Outubro, auditório da Biblioteca Municipal, 10,45h.
Iniciara-se a sessão extraordinária da Câmara Municipal, tendo como principal ponto da Ordem de Trabalhos, o seguinte: Parceria ADN. Assim mesmo, laconicamente.
A presidir a sessão, o vice-presidente da autarquia, Rosmaninho Bichardo, simultaneamente presidente da direcção da ADN. Incompatibilidade? Nada consta na minuta da sessão.
Presente na sessão pública, procuro, em silêncio, o melhor ângulo para fotografar a dirigente da ADN, Ermelinda Martins, ex-funcionária da Câmara, no uso da palavra.
É então que o inverosímil acontece. Quando passo junto ao vereador Rosmaninho Bichardo, este, quase num sussurro, questiona-me, dizendo: Quem é que lhe deu autorização para tirar fotos?”
O “caldo” entornou-se. Perguntei-lhe se estava a brincar comigo e disse-lhe em voz plena de indignação que ele era vereador e não polícia. Mais, convidei-o a chamar a GNR caso considerasse que estava a perturbar a sessão.
Continuei a tirar as fotos que entendi, o vereador Rosmaninho deve ter percebido, pelo silêncio geral, de reprovação, que tinha “metido a pata na poça” e calou-se.
Mas eu não calo e denuncio, publicamente, a tentativa de censura ao direito de informar e ser informado, tentativa essa que não é virgem e que remete para a natureza ou tipologia de alguns eleitos que em nome do PCP/CDU ocupam cargos políticos nos órgãos do poder local.
Colaboro há mais de trinta anos, gratuitamente, com diversos órgãos da imprensa regional e até nacional, inclusive, com alguns dos mais prestigiados títulos que se publicam no país.
Fundei e dirigi durante quase 11 anos, o quinzenário “Jornal de Nisa”, jornal “amaldiçoado” pelo poder municipal vigente, tão visceralmente odiado que, após o seu fecho, a presidente da Câmara, servindo-se de uma associação local, a ADN, resolveu adquirir o título pagando por ele uma soma exorbitante, na ordem dos 20 mil euros.
Parece caricato e um paradoxo, mas não é, atendendo ao modus operandi da autarca que diz ter feito um “pacto de sangue” com Nisa, mas não sabe – porque ninguém a ensinou, nem ela procurou saber – por que ostenta Nisa o título de “Notável”.
Até hoje, passados quase três anos, nem Câmara nem ADN – presidida pela primeira – deram quaisquer explicações aos vereadores que as solicitaram, nomeadamente, o custo do título, a procedência da verba, e a cabimentação orçamental que a sustenta, curiosamente, questões que foram evocadas na sessão supracitada.
Relembro, que, enquanto director do “Jornal de Nisa” e no rescaldo dos incêndios de 2003, a senhora Tsukamoto moveu um processo judicial contra a minha pessoa e um colaborador do jornal, queixa baseada numa expressão popular “lágrimas de crocodilo”, expressão essa devidamente contextualizada num artigo crítico e que se provou ser verdadeiro, acerca de determinada actuação da Câmara face a um pedido de auxílio de agricultores.
A presidente da Câmara, perante o ridículo de uma acusação que não tinha pés nem cabeça, nem beliscava, sequer, com os princípios do direito de crítica, de informar e ser informado, não conseguiu, como pretendia, que os dois “acusados” fossem, ao menos, pronunciados. A sua raiva e falta de bom senso – como tem evidenciado, aliás, bastas vezes no actual mandato – foi mais forte. Recorreu, uma e outra vez, das decisões do Ministério Público e viu-se, finalmente, confrontada com a decisão do Tribunal da Relação de Évora que clarificava, de forma a não deixar dúvidas, o papel e o dever da crítica num estado de direito, ao mesmo tempo que reiterava que os políticos, enquanto figuras públicas, não estavam imunes ao poder dessa crítica.
O Município pagou, uma vez mais, as custas do processo e a pretensa “verticalidade” da senhora presidente. Do seu bolso não saiu um cêntimo. Sentiu-se, sem razão, “ofendida” por uma expressão inócua que ela própria legitimara, enquanto, agora, parece ter “ouvidos de mercador” quando é – como tem sido ultimamente – de facto, gravemente ofendida tanto na sua honra pessoal, como na de eleita de um cargo público.
Os alhos e bugalhos, os palavrões que ecoam por diversas salas dos Paços do Concelho em dias de atendimento, são expressões menores de ofensas consideravelmente maiores, que a autarca tem suportado sem qualquer sinal de indignação ou constrangimento.
Não se percebe, por isso, quer num quer noutro caso, o comportamento disforme de eleitos locais alcandorados ao poder municipal em listas do PCP/CDU, por coincidência ou triste ironia, o partido que em Portugal, durante cerca de meio século, pagou a maior “factura” da luta contra a opressão e pelo restabelecimento das liberdades democráticas.
E, das duas uma: ou o PCP deu “carta branca” a esta gente, sem princípios ideológicos de “esquerda”, para fazerem o que quiserem em seu nome (o do partido e da coligação que representa), ou então estamos perante uma clara contradição e que nos remete para o adágio popular: faz como eu digo, mas não como eu faço!
Por mim e por muito que custe aos czares, czarinas, bichos, bicharocos e rosmaninhos, continuarei atento, a escrever e a intervir civicamente sobre todas as questões que julgue de importância para o nosso porvir colectivo.
Só assim a liberdade tem sentido!
Mário Mendes