29.8.15

NISA: A peça do mês

Os Bombeiros Voluntários de Nisa estão prestes a comemorar 100 anos de vida. A Associação foi fundada em Outubro de 1916, meses depois de se terem iniciado os treinos de Bombeiros ministrados por pessoal da Corporação de Portalegre.
Ao longo dos anos, sempre a Câmara dedicou atenção aos Bombeiros de Nisa, de acordo com as suas limitadas capacidades financeiras e nos anos 30 do século passado, face à crise administrativa por que passava a Associação, tomou mesmo a iniciativa de torná-los "Municipais" ficando a pertencer à autarquia a responsabilidade pela gestão dos nossos bombeiros.
A carreta reboque que escolhemos para a "peça do mês" é quase um ex-libris da prestigiada corporação e pode ser admirada na entrada principal do quartel. Damos a notícia da sua aquisição, há 70 anos, deste importante equipamento, hoje convertido em peça museológica. 
Sessão da Câmara de 11 Janeiro de 1945  - Carreta reboque para os Bombeiros Municipais 
"A Câmara deliberou adquirir à Casa H. Vaultier uma carreta reboque pela quantia de 5 mil escudos a fim de se poder utilizar uma moto-bomba já anteriormente comprada."
Já antes, em sessão de 28 de Setembro de 1944, a Câmara mostrava-se preocupada com o facto de os Bombeiros não disporem ainda de uma sirene (sereia, como vem designada na acta da sessão), situação que procuraram, de imediato, resolver.
" Em virtude de se verificar que ainda não foi ratificada a deliberação da Câmara de adquirir uma sereia (sirene), já paga pelas ordens nº 632/637 para alarme em caso de incêndio ou outro qualquer sinistro, deliberou por unanimidade ratificar tal decisão."
Uma carreta reboque e uma sirene, coisa pouca, quase insignificantes nos tempos de hoje e de extraordinária importância em meados do século passado.
Mário Mendes

28.8.15

Comemorações do 3º Dia Nacional das Bandas Filarmónicas

Junto envio a cronologia das comemorações do IIIº Dia Nacional das Bandas Filarmónicas que irá ser levada a cabo por várias bandas filiadas na Federação das Bandas Filarmónicas do Distrito de Portalegre.
Relembro que o Governo decretou em agosto de 2013 o dia 1 de setembro de cada ano como Dia Nacional das Bandas Filarmónicas.

Nomes das Bandas:
- ASSOCIAÇÃO DE RECREIO MUSICAL 1º. DE DEZEMBRO DE CAMPO MAIOR;
- BANDA MUNICIPAL ALTERENSE E BANDA JUVENIL;
- BANDA 14 DE JANEIRO - ELVAS
- BANDA UNIÃO ARTÍSTICA DE CASTELO DE VIDE;
- FILARMÓNICA DO CRATO;
- SOCIEDADE MUSICAL NISENSE;
- SOCIEDADE RECREATIVA MUSICAL ALEGRETENSE;

- SOCIEDADE RECREATIVA E MUSICAL DE PÓVOA E MEADAS

27.8.15

NISA: Francisco Ceia apresenta o livro “Terra da Paciência” e interpreta canções suas

O Auditório da  Biblioteca Municipal de Nisa acolhe, no  dia 5 de Setembro, sábado, às 11H30,  a apresentação do  romance de Francisco Ceia “Terra da Paciência”.
Natural de Portalegre, Francisco Ceia inicia, em 1976, a sua carreira no teatro, primeiro como ator no CENDREV, em Évora, e depois como encenador e ator no Teatro do Semeador, companhia que funda em 1980, em Portalegre. A par do teatro, dedica-se à música, compondo, interpretando e apresentando espetáculos no país e no estrangeiro. Colabora ainda em vários programas da RTP como ator e músico, destacando-se a sua participação na série "A Casa do Mocho Sábio". A partir dos anos 80, dedica-se sobretudo à música, com participações no Festival Internacional “Womad” e no Festival RTP da Canção, tendo editado 14 trabalhos discográficos.
No plano literário, Francisco Ceia publicou em 2012 “Jogo de Janelas” e edita agora “Terra da Paciência” com o mesmo propósito de agitar e despertar consciências através da palavra e da leitura, embora com uma forma estilística bem diferente. A partir da observação atenta da humanidade e da realidade circundante, o autor extrai retratos que interpelam o leitor e o convidam à reflexão crítica da história social de ontem e de hoje.
Francisco Ceia refere que este livro é para ser interpretado através dos diferentes olhares e vivências de cada leitor. “O livro pretende mexer com as pessoas, contar-lhes histórias que despertem um espírito interventivo e as afaste de uma atitude conformista em relação às coisas. Vivemos numa sociedade em que, muitas vezes, andam a tratar-nos como imbecis e é importante que não nos deixemos resignar e tratar dessa maneira”. A mensagem está aliás subjacente no título “ Terra da paciência” que, de acordo com o autor, acaba por ser uma metáfora daquilo que é, ou deve ser, a postura do ser humano que “deve ter capacidade e paciência para resistir quando confrontado com as diversas adversidades que se apresentam ao longo da vida”.
À semelhança de “ Jogo de Janelas ”, Raul Ladeira foi o responsável pelo design da capa, que nos remete para figuras bíblicas de pantomina, medievais tentações, marionetas alentejanas e terras de paciência sobre fundo negro.

Durante a apresentação, Francisco Ceia interpretará algumas das canções de que é compositor e intérprete.
CMNisa

USNA repudia atitude de retaliação do presidente da Câmara do Crato

A União dos Sindicatos do Norte Alentejano (USNA) repudia a atitude de retaliação do Sr. Presidente da Câmara do Crato face ao justo processo de luta levada a cabo pelos professores e seu sindicato de classe, o Sindicato dos Professores da Zona Sul (SPZS), contra a Municipalização da Educação.
Os trabalhadores da escola EB/JI Professora Ana Maria Ferreira Gordo do Crato foram os únicos trabalhadores desta autarquia que não foram pagos esta segunda-feira mas não estão sozinhos! O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas (STFPSSRA) bem como o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (STAL) rapidamente se dirigiram à escola prestando a sua solidariedade e encetando os meios juridicos necessários para que a situação se resolva o mais rapidamente possível. Estes trabalhadores, como já afirmaram o STFPSSRA e o STAL, estão afectos à autarquia desde 2009 e nada têm a ver com a justa providencia cautelar intreposta pelo SPZS que suspende o processo de Municipalização da Educação! O não pagamento dos seus vencimentos não tem a menor base legal, é crime, e foi a única forma de retaliação encontrada pelo Sr. Presidente da Câmara do Crato contra a luta que vem sendo desenvolvida pelos trabalhadores e seu movimento sindical de classe, a CGTP-IN.
A USNA quer mais uma vez reafirmar a necessidade de travar o processo de municipalização da educação que está em curso sem que nenhuma das partes envolvidas fosse ouvida excepto os que estão já comprometidos com a politica de destruição do estado social. A municipalização da educação significará mais professores sem colocação, menos funcionários a apoiarem as actividades lectivas, a concentração dos alunos em centros escolares, em turmas sobrelotadas e consequente encerramento de escolas um pouco por todo o país mas sobretudo nas aldeias do interior, a determinação de um currículo mais pobre, na prática mais um passo rumo à efectivação de um país a várias velocidades.
Só a luta dos trabalhadores e das populações pode travar esta e outras ofensivas de destruição do que foi construído com a revolução de Abril!

A Comissão Executiva da USNA/cgtp-in

Já abriram as inscrições para o II Trail Running Vila de Nisa

II TRAIL RUNNING VILA DE NISA
8.NOVEMBRO.2015
Mais informações:
http://trailviladenisa.blogspot.pt/
Trail Longo 30KM | Trail Curto 15KM | Caminhada

INSCRIÇÕES ABERTAS

26.8.15

NISA: Exposição de pintura em acrílico de Maria José Rita


Até final de setembro está patente na Biblioteca Municipal de Nisa uma exposição de pintura em acrílico de Maria José Rita
Maria José Louro André, nascida em 1956, é natural de Nisa. A pintura em tela foi um sonho que realizou ao longo da vida, iniciando com António Maria Charrinho a aprendizagem das técnicas de pintura, que culminou em 2006 com a participação numa exposição coletiva, seguindo-se a presença num Circuito Cultural Transfronteiriço. No ano seguinte voltou a estar representada na exposição coletiva “Pintores de Nisa”.

Na continuação do percurso artístico, de aperfeiçoando e de o domínio da técnica pictórica, Maria José Rita marca agora presença na Biblioteca Municipal de Nisa com esta exposição de trabalhos em acrílico.

25.8.15

PEREIRO (Mação):Festa das Ruas Enfeitadas até domingo

A aldeia do Pereiro, em Mação, que se apresenta como "capital das ruas enfeitadas", aguarda mais de 20 mil pessoas entre terça-feira e domingo para admirarem as ruas todas enfeitadas com flores.
A Festa das Ruas Enfeitadas, que decorre anualmente naquela aldeia do distrito de Santarém, em Honra de Nossa Senhora da Saúde, vai contar este ano com vinte ruas e largos enfeitados com as mais variadas flores, tendo a organização destacado à Lusa a "novidade da montagem de uma gigante flor da esteva", com seis metros de altura e 30 de largura, no Largo do Arraial, o maior do Pereiro de Mação.
Em declarações à agência Lusa, o vice-presidente da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa do Pereiro, António Maia, disse que a envolvência popular "foi enorme" e que este ano "serão muitas as novidades".
Diz ainda António Maia que aldeia de somente 150 habitantes, recebe nesta altura a população ausente que vem participar nas festas, e visitar familiares e amigos.
"Contamos ter este ano cerca de 20 mil visitantes para a nossa Festa das Ruas Floridas, uma iniciativa cultural e religiosa que a associação quer que seja classificada como Património Cultural Imaterial Nacional, estando a recolher documentos e testemunhos de suporte ao processo".
Para isso, estão a ser recolhidos documentos e testemunhos, com o apoio e a colaboração da Câmara de Mação e do Museu Municipal de Mação. O objectivo é a classificação não só das ruas enfeitadas, como também da romaria em honra de Nossa Senhora da Saúde.
"Depois de obtermos o estatuto de "capital das ruas enfeitadas", publicado oficialmente no dia 10 de Maio de 2013, se conseguirmos o reconhecimento desta manifestação religiosa e cultural, como sendo um Património Cultural Imaterial Nacional, teremos oportunidade de recorrer a outros apoios que nos permitam assegurar a continuidade de uma tradição secular", defendeu Maia.
Com a festa, a aldeia vai ter, a partir de terça-feira, "jardins suspensos", numa tradição que remonta à época em que vivia da recolha da resina e dos pinheiros.
As festas terminam no domingo com a secular romaria a Nossa Senhora da Saúde, cuja procissão tem a particularidade de o andor ser transportado por 16 pessoas que, em momentos difíceis da vida, fizeram essa promessa, contou António Maia.

 Zita Ferreira Braga in www.hardmusica.pt

NISA: Sabe onde mora? (4)

 Rua 31 de Janeiro, a antiga Rua das Videiras
Falamos, hoje, da actual Rua 31 de Janeiro, antigamente designada por Rua das Videiras e que faz a ligação entre a Rua Dr. José Falcão (Rua do Mártir) e a Rua Padre José Ribeirinho (Devesa), separando a antiga Rua do Curral (Lourenço Dinis) da Rua da Travessa.
A antiga Rua das Videiras tinha esta designação até ao cruzamento com os dois arruamentos anteriormente citados. Das esquinas das ruas da Travessa e Lourenço Dinis até à Rua da Devesa era conhecida por Rua de Santo António por ligar ao Canto e depois Rua de Santo António até à actual designação de Rua da Hidro Eléctrica do Alto Alentejo.
Sobre o que representa a data de 31 de Janeiro de 1891, a placa toponímica existente nada diz. Como devia informar, entre parêntesis, a anterior designação de Rua das Videiras. A data de 31 de Janeiro está incompleta pois devia acrescentar-se nela o ano de 1891. Aqui ficam estas sugestões para serem tidas em conta por quem de direito.
A revolta de 31 de Janeiro de 1891
A Revolta de 31 de Janeiro de 1891 foi o primeiro movimento revolucionário que teve por objectivo a implantação do regime republicano em Portugal. A revolta teve lugar na cidade do Porto.
No dia 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto, registou-se um levantamento militar contra as cedências do Governo (e da Coroa) ao ultimato britânico de 1890 por causa do Mapa Cor-de-Rosa, que pretendia ligar, por terra, Angola a Moçambique.
A 1 de Janeiro de 1891 reuniu-se o Partido Republicano em congresso, de onde saiu um directório eleito constituído por: Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Homem Cristo, Jacinto Nunes, Azevedo e Silva, Bernardino Pinheiro e Magalhães Lima.
Estes homens apresentaram um plano de acção política a longo prazo, que não incluía a revolta que veio a acontecer, no entanto, a sua supremacia não era reconhecida por todos os republicanos, principalmente por aqueles que defendiam uma acção imediata. Estes, além de revoltados pelo desfecho do episódio do Ultimato, entusiasmaram-se com a recente proclamação da República no Brasil, a 15 de Novembro de 1889.
As figuras cimeiras da "Revolta do Porto", que sendo um movimento de descontentes grassando sobretudo entre sargentos e praças careceu do apoio de qualquer oficial de alta patente, foram o capitão António Amaral Leitão, o alferes Rodolfo Malheiro, o tenente Coelho, além dos civis, o dr. Alves da Veiga, o actor Miguel Verdial e Santos Cardoso, além de vultos eminentes da cultura como João Chagas, Aurélio da Paz dos Reis, Sampaio Bruno, Basílio Teles, entre outros.
 * Gravura da época e que representa a Proclamação da República no edifício da Câmara Municipal do Porto

POETAS NISENSES : Carlos Franco Figueiredo

Ode ao Perdigueiro
Tens a inércia das fragas no porte
E bruxedos do vento
Nas narinas frias
Meu nobre companheiro das manhãs esguias
Onde a vida pulsa em saltos de morte

Do ventre dos tojos, em silvos de agonias
Voam as rufas doiras ao sabor da sorte
E tu, meu herói
Estás pronto para o corte
Que o chumbo fenderá nas altaneiras guias

Há odores de pólvora na manhã silvestre
E o Sol vem nos beijar e às frescas ramarias
O mundo cabe ali
O universo
Os dias

E tu, altivo herói
Alheio a fantasias
E em arte a transformar os dons da Natureza
Vais-me oferecendo ao cerne dos sentidos
Os milionários tons
Da mágica beleza.
Carlos Franco Figueiredo - 1995

24.8.15

COMENDA: Festas em honra da Senhora das Necessidades


NISA: IV Passeio de Canoagem da Inijovem realiza-se a 29 de Agosto


DO ALTO DO TALEFE (2) - Peripécias na pesca

 A assada, o fotógrafo, o ferrador e um cágado
A pescaria estava aprazada há vários dias. Naquele sábado de madrugada, ala que se faz tarde. Apetrechos vários, da função e outros que mais tarde se viriam a revelar tão ou mais úteis que os primeiros.
A falta do hábito madrugador, cedo me obrigou a uma sonolência semi-acordada, através da qual me chegavam ecos de conversas indistintas de parceiros, que falavam dos pesqueiros, dos pegos mais ou menos fundos, das correntes, dos iscos e até do antecipado prazer que, seria a visão dos barbos a dourar sobre as grelhas.
Um solavanco mais brusco despertou-me para a realidade, bem no interior de uma reserva de caça do Pimparel, a tempo de vislumbrar duas corças que corriam pela encosta fronteira. Duas curvas depois, eis-nos junto ao Sever.
Após uma breve inspecção ao local, sugerem-me um pesqueiro já anteriormente experimentado, instalo-me e começo a função. Os outros parceiros rapidamente tomam posições noutros locais.
Engodado a preceito o pesqueiro, é tempo para trincar uma maçã, que fica presa nos dentes, quando a bóia é arrastada repentinamente. Um Bordalo de respeito já cá canta. Esquece-se a maçã e esquece-se tudo o resto. Qual Expo 98, qual crise governamental, quais referendos, quais crises, quais problemas? Tudo se esquece perante o gozo de outro e outro e ainda outro Bordalo.
É tempo de cortar um pouco de erva para o fundo do mingacho, para que os bordalos se mantenham frescos. O cheiro a poejos fica-me nas mãos.
Algum tempo depois, uma vaia amiga alerta-me para a bucha.
Debaixo de uma imponente azinheira, já se encontravam outros amigos, que em grande azáfama arrumavam acessórios vários para a função que se avizinhava: a assada. Copos de cores várias, alinhados em torno de um cocho de cortiça, sugeriam a prova antecipada dos néctares que cada um levara.
Em cima de uma mesa improvisada com pedras, paios, presunto, azeitonas e queijo traziam para a discussão acesa as virtualidades da Falagueira, do Chão da Velha ou do Pé da Serra.
Um dos pescadores, fotógrafo de profissão, artista de colocar gravatas, lenços, colares e até mesmo malinhas de senhora em retratos de quem não os possuía no momento da pose para a posteridade, transformara-se em artífice de monumental salada.
Outro, ferrador e conhecedor de mezinhas várias para tratamento de animais doentes, servia pequenas doses de diferentes vinhos com a presteza de um escanção rotinado em mil e uma recepções.
E um cágado, que chegara vergado ao peso de um mingacho quase cheio de bordalos, abria com mil cuidados a barriga de vários barbos, onde após uma incisão cirúrgica, procedia a uma remoção das vísceras e introduzia um pouco de poejos. Vários golpes de canivete ao longo do dorso completavam a preparação do peixe.
O braseiro, obtido de chamiços ali mesmo cortados, resplandecia e o odor do peixe assado inundava de prazer as narinas daqueles velhos mestres das pequenas coisas.
Empanturrei-me com o pão, com o peixe, com a salada e molhei vezes sem conta a goela com um néctar dos deuses. Os dichotes, a conversa despretensiosa, a amizade sã que transparece nos ditos e nas pequenas ajudas, só no Alentejo.
Não digo que não exista noutros locais. Mas que raio! Debaixo de uma azinheira, juntinho ao Sever, uma assada divinal com um fotógrafo artista, um ferrador com artes de cura e um cágado pescador, só mesmo comigo e no Alentejo.
Abençoados barbos e bordalos, que me ofereceram esta crónica, que eu revejo vezes sem conta no alto do talefe.

Zé de Nisa - in "Jornal de Nisa" nº 12 – 1 Julho 1998

NISA: 2º Desfile Etnográfico - 17 Maio 2009















23.8.15

Quercus alerta: Herbicidas usados em zonas urbanas e regiões vitícolas provocam danos na saúde em Portugal

Aumenta a contestação ao uso de herbicidas, e outros pesticidas. Ordem dos Médicos defende a proibição do glifosato, o principal herbicida utilizado em Portugal, e em todo o mundo
O tema dos impactes negativos dos herbicidas não teria nada de novo se não fosse o editorial do n.º 161 da Revista da Ordem dos Médicos, assinado pelo seu Bastonário, Prof. José Manuel Silva. Segundo o editorial publicado pela Ordem dos Médicos: "abundam os cancros de origem indeterminada, e parte decorre certamente da sociedade altamente industrializada e química em que vivemos”. Para o Bastonário já há possibilidade de evitar a maior parte dos cancros e, por isso, “a inação governativa é inaceitável".
Há menos de três meses, a Quercus, integrando a "Plataforma Transgénicos Fora", divulgou uma nota de imprensa onde denunciou o facto de o glifosato (substância ativa da maior parte dos herbicidas) ter sido considerado pelo painel de investigadores especialistas mais credível do mundo, como sendo o causador mais provável de doenças oncológicas. Os cancros podem ter origem nos pesticidas que são vendidos pelas empresas do ramo e aplicados indistintamente por entidades públicas que afirmam que a sua utilização e a sua existência nas ruas e nos produtos agrícolas não trazem problemas para a saúde das pessoas.
A IARC – Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro – já tinha classificado o glifosato como agente cancerígeno provável. Os fortes impactos no ambiente tinham já sido descritos e comprovados pelos cientistas. Acrescem ainda as críticas apresentadas por estudiosos da ecologia, que desde sempre levantaram grandes objeções aos danos causados na biodiversidade, dado que as ervas nunca foram daninhas e desempenham um papel primordial na biodiversidade e equilíbrio dos ecossistemas.
A agricultura biológica há muitos anos que defende a saúde pública, ao promover uma produção agrícola sem recurso a produtos químicos de síntese, como o glifosato. É um exemplo bem prático de que é possível produzir alimentos de qualidade sem o recurso a pesticidas de síntese que, sendo produzidos para matar uma grande diversidade de seres vivos, aniquilam muita da nossa flora microbiana e entram também na nossa circulação sanguínea.
A utilização do glifosato é particularmente grave nas Regiões Vitícolas, com especial destaque para a Região Demarcada do Douro, onde é vulgar a prática da aplicação indiscriminada desta substância ativa, sendo a região do país com maior consumo deste químico. Acrescida a esta utilização claramente excessiva de uma substância com impactes negativos na saúde e no Ambiente, junta-se a prática usual e incorreta de se aplicar em muitos casos os pesticidas sem o devido equipamento de proteção.
Para proteger a saúde das pessoas e dos ecossistemas, a Quercus está a implementar, desde 2014, a Campanha contra Herbicidas em Espaços Públicos em que desafia as autarquias locais a aderir ao Manifesto "Autarquia Sem Glisofato”. É uma campanha nacional que espelha bem, pelo pequeno número de autarquias que aderiram, a falta de cuidado dos eleitos locais e nacionais pela saúde dos cidadãos. No entanto, os Municípios de Braga, Castelo de Paiva, S. Vicente e Vila Real de Trás-os-Montes, e as Freguesias de Carvalheira (Terras de Bouro), Estrela (Lisboa), Cinfães, Oliveira do Douro, S. Cristóvão de Nogueira e Tarouquela (todas de Cinfães), Matriz (Ribeira Grande, São Miguel, Açores), - Praia do Norte (Faial, Açores) e União de Freguesias de Tavira, a que se juntou mais recentemente os municípios de Sintra e Ferreira do Alentejo, são bons exemplos de autarquias que optaram por diferentes métodos (monda manual e mecânica)que não colocam em causa a saúde das pessoas, dos animais e o ambiente. A entrada de estruturas ligadas à saúde convencional na contestação aos pesticidas de síntese é um marco que a Quercus quer assinalar. O reconhecimento do editorial da revista da maior organização profissional dos médicos em Portugal que "a sustentabilidade do planeta Terra e as doenças ligadas ao meio ambiente são o grande desafio vital e ético da humanidade e da medicina" é um passo gigante para que outros setores da sociedade se mobilizem e obriguem os governos a defenderem a saúde das pessoas e do planeta.
Lisboa, 7 de agosto de 2015

22.8.15

OPINIÃO: Festa dos Artistas/festa de "artistas"

 À hora em que escrevo, Campo Maior fervilha, estou certo, com a alegria dos homens e mulheres que mostram finalmente o resultado de milhares de horas de trabalho.
A alegria da noite de enramar as ruas só é "travada" pelas dificuldades funcionais que a presença dos "mirones" acaba por impor.
A visão do que estará a ser essa noite faz-me retornar aos tempos em que, ainda criança, visitei pela primeira vez a Festa dos Artistas. Com os meus pais, junto a alguns outros arronchenses, envergando os fatos guardados para as grandes ocasiões, lá tomámos assento na "caminete da carrera" e rumámos a Campo Maior.
Recordo o deslumbramento em que me colocaram quer a multidão onde me integrei, quer a beleza que emoldurava a vila que eu já conhecia mas despida de papel.
Era um tempo em que a festa se realizava de sete em sete anos. Um interregno enorme mas que se justificava quer pelo custo das festas, em gente e em materiais, quer pela necessidade de não a banalizar.
Por razões perfeitamente compreensíveis: a entrada em cena dos meios de comunicação que a proximaram do mundo, uma maior facilidade de angariar os meios económicos necessários, a afirmação do poder local democrático e a manutenção da vontade dos e das campomaiorenses entre outros, levaram à diminuição desse tempo de espera entre uma e outra edicção.
Recordo algumas das sessões em que o mau tempo conseguiu num único dia destruir toda a ornamentação feita e a vontade inquebrantável daquele povo que teimava em repor nas ruas a beleza saída das suas mãos.
Era esta a Festa dos Artistas. A festa feita pelo querer da população organizada rua a rua, a força da tradição e cultura de um povo de antes quebrar que torcer.

Nos últimos anos a FESTA mantendo os mesmos níveis estéticos e artísticos, e o envolvimento das populações acabou por "mudar".
A periodicidade que passou a estar ligada aos ciclos eleitorais e aos interesses partidários de quem pode decidir da sua realização, a "profissionalização" da sua gestão e promoção, começam a enredá-la em teias de interesses que extravasam a tradição e a cultura de um povo e, na minha modesta opinião, deixaram de ser a Festas dos Artistas para passarem a ser festas de "artistas".
E no entanto, continuam lindas!

Diogo Serra

ALPALHÃO (Nisa):Incêndio seguido de explosão provoca um morto

Um homem morreu hoje de madrugada num incêndio, seguido de explosão, numa habitação em Alpalhão, concelho de Nisa.
Segundo o Comando Distrital de Operações e Socorro (CDOS) de Portalegre, o homem de 60 anos de idade, era o único habitante da habitação situada na Rua da Fonte Nova.
O alerta para o incidente foi dado às 5.06, e para o local deslocaram-se 27 elementos dos bombeiros de Nisa, apoiados por 10 viaturas e a GNR.
As causas do incêndio estão a ser investigadas pelas autoridades.
Susana Mourato in "Rádio Portalegre"

20.8.15

NISA: A morte de um professor respeitado

Um dia chegará a Primavera!
Um dia em qualquer lugar, ou em todos os lugares,
Como um novo Maio,
Haverá entendimento dos homens e dos deuses,
O fluir fácil da vida e do trabalho,
E harmonia entre o que se deseja e as mãos já constroem.
Um dia seremos todos crianças maravilhadas.
Um dia seremos inocentes,
E nus.
Maria Rosa Colaço
(Professora e escritora, natural do Torrão – Alcácer do Sal)
A morte de um professor respeitado
Era quinta-feira e dia de festa em Nisa. O primeiro de quatro dias de animação e de convívio entre residentes e ausentes. O Rossio fervilhava de gente e o coreto vestira-se de gala para o concerto da banda. José Bruno, na juventude dos seus 63 anos, ostentava, orgulhoso, a farda da filarmónica nisense. Chegara um pouco mais cedo, o tempo para beber um café e uma água mineral que lhe atenuasse a má disposição que sentira após o jantar.
Passou pelo coreto, mandou guardar o instrumento e dirigiu-se a casa. O fogo interior, o aperto, transformara-se quase num sufoco. Chamou pela Graça, a esposa e entrou quase de rompante na habitação. Um nó apertava-lhe a garganta, os membros, o corpo todo. Queria gritar, libertar-se daquelas grilhetas invisíveis que o apertavam e comprimiam.
Não conseguiu. Caiu no chão, fulminado, por um ataque cardíaco.
A notícia da sua morte depressa se espalhou pela vila, causando grande surpresa, indignação e tristeza. O saxofone esperou, em vão, pelo dono e o concerto foi suspenso.
Não haveria “Música” no coreto. A banda tocaria uma vez, outra, e outra, na manhã de sábado, no percurso entre a Praça do Município e o cemitério. Trajecto silencioso, sentido, só interrompido, a espaços, pelos acordes emotivos dos músicos da banda que se juntavam, assim, às centenas de amigos que se despediram do José Bruno.
José Luís Tomás Bruno, o engenheiro Bruno como era popularmente conhecido, alentejano do Torrão (Alcácer do Sal), nisense por adopção, partia, assim, sem tempo para um adeus, para a derradeira viagem que todos temos de fazer...
No calor da Revolução
José Bruno veio para Nisa com os pais aquando da construção da Barragem do Fratel, inaugurada em 1973. Formou-se no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, num tempo de febril agitação revolucionária. O Técnico e a Faculdade de Direito eram, na época, os maiores alfobres de jovens estudantes que se digladiavam com ideias e teorias para transformar a sociedade e o mundo.
A primeira imagem que tenho dele situa-se no Café Nisa-Sol da senhora Ana e Miguel Póvoa. O Bruno e outros jovens defendiam, a “revolução a todo o vapor” e a sua contribuição para a mudança consistia um pouco naquilo que viria a ser a campanha de dinamização cultural do MFA. Era preciso instruir o povo, “recompensá-lo” por quase meio século de escuridão, medo e fantasmas. O Zé Bruno trazia de Lisboa sacadas de livros e nos parapeitos das montras e nalgumas mesas do café, estendia a sua livraria, com títulos e autores até então proibidos, onde avultavam as obras de filosofia, economia e política, nomes como Althusser e editoras como a Prelo.
Pouco tempo depois vou encontrá-lo no MDM – Movimento Democrático de Nisa, na antiga leitaria e hoje sede da União de Freguesias de Nisa, na rua Direita.
Era ali que se juntavam todos os dias, à tarde e à noite, principalmente, nos fins-de-semana, jovens e menos de jovens de todas as tendências políticas, ainda não totalmente enraizadas. O Bruno e outros estudantes, politicamente mais esclarecidos, pretendiam agitar as pessoas, lutar contra o marasmo e um caciquismo que, embora dissimulado, continuava a reinar.
O Zé Bruno participou nos primeiros comícios em Nisa. Lembro-me dele no palco do velhinho Cine Teatro, corpo algo franzino mas com genica, a questionar:
“Que raio de governo era aquele...” E a cada frase incisiva, as cadeiras de madeira rangiam, o povo agitava-se e em concordância, respondia: “É assim mesmo! Fascismo nunca mais!
A fase revolucionária passou. O Zé Bruno continuou a interessar-se e a participar na política local, agora com uma postura mais crítica e moderada. Socialista, procurava resolver os conflitos, através do diálogo e do consenso. Foi eleito presidente da Assembleia Municipal em 1982, em representação do PS, no mesmo ano em que a APU, liderada por José Manuel Basso conquistava pela primeira vez a Câmara, até aí de maioria socialista.
Fiz parte da AM nesse mandato e, garanto, as relações entre a mesa da Assembleia e o executivo, não sendo de excelência, nunca travaram o normal funcionamento da Câmara e das principais obras que esta desenvolveu.
Foi o último mandato de três anos nas autarquias locais. No seguinte (1985-1999), José Bruno quer acabar com hegemonia comunista. Funda um jornal, em Dezembro de 1984, “O Concelho de Niza” onde escrevem, maioritariamente, militantes e simpatizantes socialistas. O mensário acaba em 1987. Pelo meio, em 1985, José Bruno consegue reunir na mesma lista, apoiantes do PS e PSD, e com esse capital de confiança concorre à presidência da Câmara. Os resultados são-lhe desfavoráveis e a APU com Basso à cabeça conquista a primeira maioria absoluta. José Bruno assume o cargo de vereador, da oposição, mas com uma postura colaborante.
A partir desse mandato, José Bruno afasta-se, paulatinamente, da política. É ainda o militante interveniente, mas os seus interesses focam-se na educação e na cultura, principalmente, no ensino, com a transferência e a colocação como professor efectivo no quadro da Escola C+S de Nisa.
O militante da escola aberta


Depois de um percurso como professor na Escola Preparatória de Mira Sintra, E. Secundária Sebastião e Silva (Oeiras), E. Secundária de Queluz e Escola C+S do Cadaval, José Bruno ingressa na Escola C+S de Nisa no lectivo de 1988/1989. Passa a integrar o Conselho Directivo da escola a partir do ano lectivo 1995/96 como vice-presidente e até final do presente ano escolar não mais deixou de pertencer à direcção da Escola, tanto como presidente do Conselho Directivo, da Comissão Executiva, do Conselho Executivo, da Comissão Executiva Instaladora, do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas de Nisa e, desde 2009, Director do AE de Nisa.
É um “lobo da educação” como lhe chama, apropriadamente, o seu colega Miguel Baptista.
Desde os finais dos anos oitenta, José Bruno, à frente da escola de Nisa, conheceu diversos ministros, secretários de Estado, directores regionais, políticas e concepções educativas, “revoluções” de programas e currículos, o ensino em Portugal andou numa verdadeira girândola, aos sabor dos interesses políticos de circunstância.
Ainda não se falava da “escola aberta” ou da “escola inclusiva” (que cada vez exclui mais e isto é uma ideia minha) já o José Bruno punha em prática esses conceitos.
A construção do hipódromo ou “picadeiro”, marcou ao mesmo tempo o início da colaboração (ou parceria, como está na moda) com a GNR, tal como a disponibilização de um muro para a execução de graffitis, as festas populares no recinto da escola envolvendo toda a comunidade (outro conceito que ele já utilizava antes de constar nos manuais), o arranjo dos espaços exteriores, o monumento ao Prof. Mendes dos Remédios. A própria escolha do nome do patrono da escola não foi feita arbitrariamente. Envolveu a auscultação de diversas pessoas e sensibilidades locais.
Cidadãos de Nisa, a convite do Prof. Bruno foram à Escola e falaram a alunos do 11º e 12º anos, sobre a figura e a obra de Mendes dos Remédios.
A colaboração prática, efectiva, com as colectividades, instituições sociais, autarquias, forças de segurança, imprensa local e regional, estava no terreno muito antes de se tornar um “chavão institucional” no plano educativo.
A Escola de Nisa a que o José Bruno pertencia não descurava a memória dos que lhe deram origem. Senti a sua alegria e entusiasmo quando acolhi e pusemos em marcha a elaboração de um suplemento no “Jornal de Nisa” sobre os 30 anos da Escola EB 2,3 +S 
Prof. Mendes dos Remédios. Do mesmo modo, senti o carinho, apoio e colaboração quando publicámos um outro suplemento sobre o centenário do nascimento do Dr. Cruz Malpique.
José Bruno fervilhava de ideias que resultavam de um conhecimento dos problemas, da experiência, da leitura e da reflexão. Tinha consciência que muitas delas sendo exequíveis e correctas, seriam de difícil aplicação num meio rural onde os censores sociais são mais que as mães. Inspirou o seu “modelo de escola” na sua conterrânea Maria Rosa Colaço, de que falava amiúde e me ajudou a conhecer.
O José Bruno vivia intensamente, apaixonadamente, a “sua” escola. Uma paixão avassaladora, tão profunda e constante, quase sufocante, que mal lhe deixou tempo e espaço para outras paixões como a caça, a vida social e, por último, a música, enquanto instrumentista, cuja beleza e grandeza só muito tarde descobrira.  
O militante da cultura, o homem solidário
José Bruno fez de Nisa a sua terra de adopção. Aqui casou e lhe nasceram os filhos e os netos. Aqui plantou árvores e flores, semeou a palavra e o conhecimento entre tantos e tantos alunos. Sementes de futuro. Foi dirigente de colectividades, desde o Nisa Futsal ao seu Sporting. Deu benevolamente o seu sangue enquanto a idade e a saúde lho permitiram. Criou o seu próprio jornal, que também era de Nisa, escreveu para outros jornais, da “Rabeca” ao “Notícias de Nisa”, passando pelo “Jornal de Nisa” onde as suas crónicas sob pseudónimo de Zé de Nisa e intituladas “Do Alto do Talefe” tinham sempre fiéis leitores. Eu era um deles. Lia-as duas vezes. A primeira quando “batia” os textos e a segunda já impressos. Eram crónicas saborosas, reveladoras de um espírito sagaz, de um “fotógrafo” visual da paisagem, das tradições e dos costumes, possuidor de um poder de observação meticuloso e profundo. Agora, vou lê-las mais vezes e vou dá-las a conhecer, a quem tiver gosto e paciência para as saborear.  
Escritos que vão perdurar ao longo dos anos e de gerações e poderão, quem sabe, ser tema de estudos e dissertações.
O José Luís Tomás Bruno morreu na quinta-feira. É um facto que não podemos alterar, nem tampouco suavizar. A morte é a dor da ausência. O vazio. Do corpo, da presença, do espírito. Escrever sobre ele, apesar de doloroso, não é um exercício vão, muito menos, um livro acabado, com abertura e epílogo. A memória de uma vida não se esgota num escrito. Há-de haver mais páginas, outros episódios, contados noutro contexto e circunstância e sem o fardo, pesado, da angústia da morte ainda tão próxima.
A Notícia : Faleceu o Engenheiro Bruno
José Luís Tomás Bruno, 63 anos, engenheiro técnico electrotécnico, professor, director do Agrupamento de Escolas de Nisa, faleceu no passado dia 13 de Agosto, cerca das 22 horas, vitimado por doença cardíaca.
O funeral do popular professor, que fez de Nisa a sua terra de adopção, realizou-se na manhã de sábado, dia 15 de Agosto, saindo o cortejo fúnebre da Igreja da Misericórdia, acompanhado pela banda da Sociedade Musical Nisense e por centenas de pessoas que quiseram tributar-lhe a derradeira homenagem.
Por este meio endereçamos a toda a família enlutada, especialmente à esposa Graça Bruno e aos filhos Nuno e Isabel, as nossas sentidas condolências.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 19/8/2015

Inijovem promove IV Passeio de Canoagem entre Amieira e o Alamal


DO ALTO DO TALEFE (1): O carpinteiro Filósofo

Um dos meus prazeres é a caça. A caça entendida como desporto e como tempo e espaço de convívio. Não tenho companheiros fixos, hoje vou com um, amanhã com outro. A conversa com cada um torna-se tão importante como ver o trabalho dos cães, ou o entusiasmo de ver saltar a peça de caça.
No último dia que cacei e conversei tive por parceiro o Rijo. E que Rijo é, este carpinteiro por sobrevivência, homem dos sete ofícios por dádiva da natureza, lebreiro por convicção, filósofo sem o saber.
Manhã cedo, bornal às costas, a FN de três tiros na sacola e a cadela de pêlo cerdoso a saltitar aos meus pés, lá me encontro com o parceiro.
Pequeno de estatura, grande de coração, basta olhar para ele para constatar que o nome condiz com a figura. Junto dele a Diana, uma poderosa perdigueira, grande, preta e branca, merecedora de um pedaço de bolo de azeite pelas lebres que recuperou, quando atingidas superficialmente tentavam escapar. A Flica é a segunda cadela, pequena, toda negra, de ruim dente, um pouco tola no campo mas mestra na arte de peúgar, dona de um par de ventas capaz de seguir uma peça ferida do Patalou aos Agrões.
Por sugestão do mestre lebreiro, a caçada começava no Cadete e prolongava-se pelas Fontainhas, as alterações ao previsto aconteceriam em função da intuição e das chamadas das cadelas. Logo na primeira tapada, ao olhar do amigo Rijo, não escapou a cama recente de uma lebre.
- Deve ser grande pela cama que fez! Devagar e olhe bem para estes pastos.
Sem responder, avancei mais uns passos e, ela que salta. Um tiro, um prego. Um sobressalto, as cadelas ladram, correm. Segundo tiro, um pouco atrasado e a lebre a distanciar-se cada vez mais.
- Lá vai ela a escapar-se! Gritei eu, desiludido, olhando para o local onde se encontrava o parceiro.
De arma à cara, o Rijo acompanhava a corrida da lebre, segundos depois um estrondo, o animal é atingido. A pirueta que dá é a prova disso. A Diana, mais possante, abocanha a peça e vaidosamente trá-la ao dono.
- Tem de deixar endireitar-se na corrida -, diz-me ele, enquanto com movimentos experientes a empeúgava oferecendo-ma de seguida, para a pendurar na cartucheira.
Fingindo-me distraído afastei-me para recusar a oferta e gritei:
- Pesa muito. É melhor você levá-la no bornal.
Ainda insistia, quando eu me afastava do local.
A caçada continuava, mas cerca das onze horas, sem termos visto nada mais, uma sombra apelativa de sobreiro lembrou-me o farnel. Sentei-me a saborear o costado frito e uma golada de água da Fonte do cego, que providenciara matinalmente. Descanso curto, porque minutos depois já ouvia:
- Vamos embora a caminho da Marofeira!
Passos curtos, olhar pregado ao terreno, na meia encosta, o sol a aquecer, a espingarda a pesar cada vez mais, na tapada ao lado dois companheiros:
- Bom dia, então e essa caçada?
- Má, ainda não vimos nada. Isto vai de mal a pior, não se vê nada semeado como é que há-de haver caça?!, respondem do outro lado da parede.
Começo a pensar que comigo vai suceder o mesmo, tanto andar e no fim do dia não vejo as orelhas da lebre.
Nisto, o Rijo sussurra-me:
- Zé, faz atenção, elas são muito certas por aqui.
As folhas secas de um carvalho estalam, é a lebre!
Desta vez, espero que a corrida estabilize, aponto calmamente para as orelhas e puxo o gatilho. O animal dá uma cambalhota sobre si mesmo e imobiliza-se. Corro e levanto-a pelas patas traseiras afastando-a das cadelas que a tentam lamber.
- Eu não dizia? E é um lebrachão, olha lá os tomates que ele tem! – diz-me a sorrir, ao mesmo tempo que acariciava a Diana, que se mostrava insatisfeita por não ter posto os dentes na peça.
Com o prazer que os caçadores conhecem, penduro a lebre na cartucheira e ala para o carro, o dia estava feito.
Já no carro ao chegarmos ao alcatrão do Patalou, desabafo:
- Agora, alcatrão até casa. Estou farto de pisar terra.
Semi-cerrando os olhos argutos, responde-me ele:
- Em França, durante anos ia de casa para a usine, e da usine para casa, sempre em alcatrão. Quando ia ao café andava no alcatrão. Os tipos de Lisboa, também só andam no alcatrão. Mas, em Nisa, quando saio de casa, piso terra. Se sujo os sapatos de lama, estou no Inverno, se piso “ caramelo” é porque fez um frio de rachar, se levanto pó é porque a mãe Natureza nos dá calor de Verão.
Cansado de tanto andar, não lhe respondo. Mas, as palavras dele ressoam na minha caixa craniana, onde o cérebro indolente preguiça.
Lentamente, as palavras como que flutuando, juntam-se de novo. Os neurónios agitam-se, o cérebro desperta e uma torrente de ideias inunda a cabeça deste vosso amigo, até à pouco adormecida.
O homem, o Rijo, lembrou-me o Agostinho da Silva, que ele não faz ideia de quem seja. E que importa isso? Este Rijo é livre à maneira dele, profita a vida e ainda como quem não quer a coisa, filosofa.
O carro pára na Devesa, junto ao café do Marquês. O Rijo pede cebolas, tomate, dois copos de tinto e começa a esfolar a lebre:::
- É melhor telefonar à mulher, petiscamos aqui!
E bebemos, comemos, explicámos aos amigos os pormenores da caçada. Mas... o jantar dava para outra crónica. Talvez um dia...
Nota: Usine e profita são termos que o Rijo usa mercê dos anos vividos em França, aliás como muitos outros nossos conterrâneos. A zona da caçada é a descrita, mas o local exacto do encontro com as lebres não divulgo, porque se o fizesse esteva a ser mentiroso.
Zé de Nisa – Do Alto do Talefe – in “Notícias de Nisa” – nº 15 – 2ª série- 12/11/1997

19.8.15

ARNEIRO (Nisa): Quercus alerta para centenas de quilos de lagostins mortos no rio Tejo

A associação ambientalista Quercus alertou hoje para a existência de centenas de quilos de lagostins mortos no Tejo, na zona do Arneiro, Vila Velha de Ródão, e garantiu que a água do rio se encontra "preta" devido à poluição.
"A água está com uma cor preta, escura, e os lagostins que estavam nas armadilhas dos pescadores estão todos mortos. São centenas de quilos", disse hoje à agência Lusa Samuel Infante, da Quercus.
Segundo o ambientalista, o alerta foi dado pelos próprios pescadores da zona, cerca das 10:00. Adiantou também que o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da Guarda Nacional Republicana (GNR) de Castelo Branco e de Nisa já está a caminho de Vila Velha de Ródão.
"Infelizmente, apesar dos alertas e das denúncias, estas situações continuam a ocorrer. Sabemos que o Ministério Público está a tomar algumas diligências e a Quercus está também a preparar uma ação judicial".
Samuel Infante sublinha que o crime compensa: "Pagar multas não resolve a situação, têm que ser tomadas outras medidas mais eficazes".
O ambientalista disse ainda que "continuam a fazer-se descargas e os resultados estão aí, com a agravante de que se está num período de seca e que há um caudal menor [no rio Tejo] vindo de Espanha".
Nestas condições, as fontes de poluição "atingem ainda níveis de concentração mais elevados. Se o caudal do rio fosse maior, o impacto não seria tão grave", concluiu.
In LUSA – 19/8/2015

NISA: Mensagens sobre a morte de José Luís Tomás Bruno

Para ti José Bruno
Não é fácil escrever quando estamos em choque com a tua partida José Bruno!
Tu, José Bruno, um grande cidadão, um grande homem, professor, diretor e amigo, um ser humano excecional, deixaste-nos sem aviso, assim, à pressa, a roubar tempo à morte para descansares nos braços do teu amor, a tua Gracinha!
Quem não te conheceu, quem não teve o privilégio de aceder ao intramundo onde muitas vezes te resguardavas, não conheceu a diversidade, a riqueza, a beleza, a humildade e o humanismo da tua pessoa!
A dor da tua partida, querido amigo, perdurará para sempre nos nossos corações e as nossas vidas ficarão mais vazias sem ti.
Sem ti, perde a tua família, que amavas profundamente e perdemos nós, os teus amigos, a Escola e o concelho de Nisa.
O Neto, o Veríssimo, a Mendes e a Almeida, era assim que nos tratavas, não deixarão que a tua memória se apague nas salas, nos corredores, em cada recanto do Centro Escolar porque o Centro, és tu!
Até já querido amigo!
(Mensagem da Escola Prof. Mendes dos Remédios, lida na cerimónia fúnebre)
A “descoberta” da música aos 60 anos
Estive hoje na despedida precoce deste "Lobo" da educação, o professor Bruno era um homem muito respeitado no meio escolar.
Quanto à música, sei que iniciou aos 60 anos a aprendizagem do saxofone, com muita carolice dele e desse "grande homem" - António Charrinho, seu dedicado professor...Não é fácil ensinar música a alguém com idade sénior, está provado cientificamente que já não temos demasiadas qualidades para este tipo de aprendizagens e a carreira do Engº Bruno foi uma luta árdua mas gratificante. Foi progredindo lentamente, sempre com muita força de vontade, guiado pelo sonho de ser músico filarmónico. Tocava horas... E quando o Homem sonha, acontece. O Bruno estreou-se no 25 de abril de 2014 e foi notícia pois não é todos os dias que alguém com 62 anos se estreia a tocar numa banda filarmónica. Serviu de exemplo a muita gente. Com paixão e determinação, tudo é possível.
O percurso musical deste nosso amigo foi curto, mas vai repleto de felicidade. A sua cara era toda sorrisos quando se fardava e juntava com mais bandas. Adorava ver os miúdos a tocarem tão bem ou melhor do que ele. Era muito modesto, qualquer coisa que para os outros músicos era banal, para o Bruno tinha um significado imenso, era um deslumbre. Não me posso esquecer da alegria e da vontade de aprender que demonstrou numa formação que fez este ano com o saxofonista Miguel Monteiro, Foi um aluno embevecido com o professor e ávido pelo conhecimento, curiosamente, melhorou muito a sua qualidade e projeção de som... Por último, teve a honra de participar em vários ensaios públicos da FISENA, que se estreou no Andanças, por acaso sem o colega Bruno, mas esteve presente nos seus dois últimos ensaios públicos em Arronches e Gáfete, respetivamente.
O Bruno viveu os seus últimos dois anos numa completa felicidade por ter cumprido este sonho da idade sénior. Há outra coisa de que não me esqueço...o Bruno ficava pasmado com o espírito de amizade que via entre todos os músicos das várias bandas do nosso distrito e dizia que se tivesse sido possível, tinha sido músico muito mais cedo.
Partiu um bom Homem, é um exemplo que deve ser dado a todas as pessoas que se acomodam com a idade. Atenção que o Bruno, com 63 anos, ainda era um jovem e não merecia ter-nos deixado tão cedo, logo agora que estava finalmente preparado para "beber" tudo o que da música se pode aproveitar.
Em meu nome, de toda a Direção e órgãos sociais da Federação de Bandas e de todas as filarmónicas e orquestras do distrito, só me resta dizer: "Obrigado, Engº Zé Luís Bruno, por ter sido um colega empenhado, dedicado e amigo e por ter dado um enorme exemplo a todas as comunidades das nossas terras. A música fica mais pobre sem pessoas como o Bruno. Paz à sua alma e condolências à família, à Soc. Musical Nisense e ao Agrupamento de Escolas de Nisa".
Muito obrigado,
Prof. Miguel Baptista - Pres Dir FBFDP e colega na FISENA
Nisa perdeu um Nisense e um amigo
Foi com uma profunda tristeza que soube do falecimento do Eng. Bruno.
Fizemos percursos de vida semelhantes, nos anos 70 lá fomos para Lisboa estudar engenharia, ficando hospedados na mesma casa. Assim, houve um estreitar de relações que se manteve sempre até á sua prematura partida.
A Escola de Nisa perdeu um responsável que lutou para que o seu desempenho fosse digno. Recordo a análise que o Eng. Bruno apresentou sobre a execução dos objectivos que a sua escola, Agrupamento de Escolas de Nisa, se proponha.
A última conversa que mantivemos foi no início deste Agosto, onde ele me manifestou a sua alegria em participar na Sociedade Musical Nisense. Que força de vontade e de exemplo de vida para todos nós!
João Santana