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14.9.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXXII) - António Borrego


 Hoje há concerto 

Vou até ao bar

sem me embriagar

projecto nas paredes

os sonhos (in)concretizados

sempre "tomam" o brilho

do néon...

enquanto bebo um copo

absorvendo o som

sorvendo o gin tónico

tenho "tudo" presente

surgem as memórias

à velocidade de um

supersónico

a moça sozinha

na mesa do canto

está quase a entrar em pranto

está tão só...

hesito...

nunca tive êxito

no "contacto"

não se trata de engate

também estou só...

só sobram as memórias

surge a coragem

como "a" das pessoas que agem

os temas que interiorizo são vários

olá moça...

como estás?

queres ir ao concerto

do Roberto Carlos?

Vem daí...vem!

viver, sorrir...

sentir...

"esse cara"

o cara sou eu...

anda, vem daí...

enquanto a magia

está suspensa no ar

como "bolas de sabão"

anda, vem daí...

dá-me a mão...

chamas te Laura?

então és uma Lady

anda, vem daí...

tenho o "Calhambeque"

lá fora...

vem!

vem viver

enquanto as baleias

ainda cruzam os oceanos

enquanto nos amamos

neste momento lindo

consegues ver?

   JESUS  

ESTÁ RINDO.

A.B.

29.6.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXXI) - António Borrego


À beira mar

Ah...

se estas palavras

fossem os teus lábios

poderia escrever...

os contornos do teu corpo

enlaçar-te pela cintura

arder na tua pele

e sentir...

a tua sede de pomba e de corça

nesse dia...(esse dia, será o dia)

os músculos irão estalar

as veias irão doer...

não, não sonhei...(eu vi)

formosas figuras...

em todo o seu esplendor

a pisar a espuma

que o mar depositava na areia

........mansamente........

não conhecia ninguém

estava só, no areal

a brisa trazia o cheiro intenso da maresia

foi o delírio das narinas

de vaga em vaga

a espuma das ondas

chega à praia

.......mansamente.......

sempre alivia a espuma dos dias

deprimentes...

à beira do nulo...

talvez o mar

me (re) anime

sei da delicada força

nas dunas, um vento pobre

sopra por ali

e tu...não estás ali...

nem te consigo "inventar"

invoco todas as forças

do meu sentir

e, que as labaredas

desta paixão

beijem todos os poros da tua pele

é noite na página branca

é noite na mão que escreve

e as pombas brancas...

quedam-se no peito.

A.B.---2017

19.4.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXXI) - António Borrego


Malditos tiranos 

Para além de sobreviver

pouco mais fazemos!

tantas vezes oscilamos...

como as bolsas...manipuladas!

por poderosos que, nas sombras...controlam tudo!

até as guerras!

também elas lhes servem de negócio

o que mais utilizam?! é o medo!

enchem os canhões de carne, mas, os filhos deles...

não morrem na guerra?

(só os filhos dos sacrificados morrem, e vão para o céu, embalados pela canção das armas...(atestado por um capelão!)

oh infância, ecoada pela velhice voraz...

das raízes que enlaçam a memória que

viaja desde ontem...até agora...

em que me vejo em ausência presente...

estes muros acesos pelas estrelas do crepúsculo

cada vez mais ultrapassáveis...

cada vez mais infames...

andam as depressões persistentes

e os deuses moribundos...orquestrados...

por dementes que...impuseram o medo divino...

o entardecer da vida...traz este cansaço...

esta saudade do jovem que sonhava

este medo...do último sopro...

onde a angústia e a ansiedade...imperam!

nos minutos finais, neste curto tempo...vacilante...

vão surgindo as imagens de contemplação

da miséria adivinhada...

estanho pranto este que tento criar...

para me recriar...nas tempestades que existem em mim.

A.B. 2026.

5.4.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXX) - Padre Alfredo Magalhães


Enganaram-se no número da porta

 Não me procures onde não estou:

na música e nas festas de salão,

nos votos formalistas dum cartão,

na iluminação feéricas das ruas e das praças,

nas prendas valiosas que te dão

e avaramente sobraças.

Aí não me procures!

Estou algures,

mas não aí.

 

Não me procures:

no calor das brasas incendidas,

no calor das famílias reunidas

se apenas as juntam sangue e tradição,

nas mesas bem sortidas

de iguarias, de doces e de vinho,

nem mesmo num presépio lindo, maneirinho,

se não palpita nele um coração.

 

Procura-me onde na verdade estou:

naquela inóspita, lúgubre choupana

igual aquela cabana

onde nasci.

Estou aí.

 

Naquela chaga nojenta,

naquela pobreza muda,

naquela tortura lenta,

naquela cruz ignorada,

naquela alma desnuda,

naquela dor que não chora,

naquela vida parada

que uma doença devora.

Aí me encontrarás a toda a hora.


* Pe. Alfredo Magalhães

2.3.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXIX) - António Borrego


Febre alta

Por vezes...

insurge-se o medo e tremo

acredito na absolvição

e na "caminhada de cada um"

o infinito existe...

e, supõe-se que, o eterno é suave...

que verdade?

que mentira?

que sombras?

que coragem?

o sopro do vento...a luz do sol...

diz-me!

por favor diz-me...que vida temos?...

a amargura instala-se, dentro de nós...em todas as veias...

o cérebro, busca soluções...mas a vida...

morde...como um choque elétrico...

temos que ousar...ir, seguir...

ver bolas coloridas, e os seus movimentos lindos...

sentir o que fascina...e o que fere...

lembro-te em tantas coisas...umas minhas...outras não...

a dor é silenciosa...e, nenhuma peregrinação a retira...

em fogueiras de vento...ardem pensamentos, e desejos...

o agora, é este medo...esqueci as palavras...

delas não retiro nada...não me localizo...não sei quem sou...

o teu rosto, dança-me na alma...e, este medo, que busca perdão

e esta solidão que sufoca...

não há plenitude, na beleza das palavras...

que se irão dissolver, na superfície...de um azul imaculado...

só então vibraremos, e chamaremos a nós...todos os direitos...

os deuses silenciosos, ofereceram-nos o silêncio...

será no silêncio...em silêncio...

que O encontramos...

depois, temos a arte que nasce do caos...

aceitar as metamorfoses...

e o "nosso caos"...pulveriza-se, e será luz...

na conspiração dos porquês.

A.B. 2018.

21.2.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXVIII) - Carlos Tomás Cebola

 

RUA DOS ALMOCREVES 
Almocreve - "al-mukari" -

o que leva, o que traz,

o que recolhe e semeia

mil e um sonhos, à mão cheia,

em cada viagem que faz;

o que espalha ilusões

(tudo o que só tem p´ra dar!)

que promete a lua cheia,

uma tenda sobre a areia

ou uma ilha sobre o mar;

o que anuncia a aurora,

quando ´inda noite é de breu

e não há vestígios dela;

o que põe mais uma estrela

no manto negro do céu;

o que, em troca de um encanto,

promete o encantamento

e jura que um momento

de sonho vale mil anos

e, sem alguém que o acredite,

diz que o fim não é limite

desta vida curta e breve.

 

Nesta jornada em que vou,

por vezes julgo que sou

o derradeiro almocreve...

* Carlos Tomás Cebola

14.2.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXVI) - Maria Dinis Pereira

 


O RELÓGIO PARADO

O relógio da minha terra

De velho, não quer andar

Não pagam ao relojoeiro

Ele não o quer arranjar.


Já não sei às quantas ando

Trago a cabeça à roda

Estou como o relógio da torre

Já se lhe partiu a corda.

 

Trago a cabeça à roda

E o sentido desvairado

Estou como o relógio da torre

Está velhinho e cansado.

 

Se o viver do passado

Fossem os momentos de agora

Não fossem os relógios de pulso

Andávamos todos à nora.

 

Minha terra que tristeza

Tudo te vão tirando

O relógio não dá horas

Já nem sei às quantas ando…

 * Maria Dinis Pereira

 

 

 

7.2.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXV) - A. T.

 


O ROSSIO

O Rossio da nossa terra

É a sua sala de visitas

Muitas variedades encerra

E algumas bem esquisitas.


Ele tem uma escola oficial

Para meninos e meninas

Um jardim prós pequeninos

Uma nova Caixa Geral

Tem um lago com peixinhos

E um eucalipto colossal

Que dá sombra aos velhinhos

De lá se avista a serra

Tem pois muito de original

O Rossio da nossa terra.

 

Tem a igreja do Espírito Santo

Dos correios tem a estação

A briosa corporação

Tem do Ultramarino o banco

A Guarda, o Grémio, a pensão

E um jardim que é um encanto

Quando chove de Verão

E que a muitos dá nas vistas

Faz-se aqui o mercado franco

É a sua sala de visitas.

 

Tem o Palácio da Justiça

Com as suas repartições

Um coreto para audições

O turismo com bordados e cortiça

Tem loja de televisões

Com base sólida e maciça

Um cinema p´ra sessões

Uma oficina onde ferra

Cafés que metem cobiça

Muitas variedades encerra.

 

Tem o Félix a drogaria

Com uma cabeleireira ao lado

Está o Ferreira afamado

O Sô Carlos a barbearia

Vende o Condeça calçado

Tem o Pina ourivesaria

A Goya faz bom mercado

Em fatos feitos e chitas

Tem guloseimas a pastelaria

E algumas bem esquisitas. 

A. T. - Out. 1985

2.2.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXIV) - Joaquim Maurício

 


DÁ O MEU NOME 

Dá o meu nome

ao teu último desejo de amor.

Procura o sabor dos meus beijos

e a suave carícia dos meus dedos

Quando nas noites mais escuras

o coração não te couber no peito

procura no meu corpo

a paz para o teu.

 

Se algum dia

os olhos te doerem

queimados pelo sal das lágrimas

mergulha nos meus...

 

Quando o espírito já cansado

te mandar parar

te disser que o amor

não é quase nada

pensa em tudo isto

e ganharás forças

para acreditar.

  • Joaquim Maurício

30.1.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXIII) - Carlos Alberto Lucas da Silva


 CAMINHA 

Despe a manhã

e levanta-te.

Abraça o dia

Agarra o sonho

e caminha!

 

Dança na areia

dos resíduos do tempo

caído da ampulheta

que desnuda as horas

suspensas no azul

de um sorriso

e caminha pelo amor.

 

Caminha pelo tempo

sem nuvens

e ilumina a viagem

que galopa

sobre as estrelas

agarrando a madrugada

e navega pelo rio

que é apenas teu

porque mais ninguém o viu.

 

Mergulha na alvorada

e não tenhas frio.

caminha pela cidade

e risca o silêncio

do vento sem idade

que sopra nas margens

as lágrimas do tempo.

 * Carlos Alberto Lucas da Silva

24.1.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXI) - António José Belo


Ser mulher 

P´ra mulher ser infeliz

Basta-lhe só ser mulher

Sempre nas línguas do Mundo

Esteja ela onde estiver.

 

Se não fala tem presunção

E passa por indecente

Se fala para toda a gente

Não conhece a posição...

Se ela vai a um serão,

Há uma língua que diz:

Ela vai lá porque quis

Aparecer ao seu encanto...

Tudo isto é bastante,

P´ra mulher ser infeliz.

 

Se vai à dança, é devassa

Se não vai é orgulhosa

Se quer ser religiosa

Dizem que é beata falsa

Se vai para a rua vai descalça

Ela ainda assim porque quer

Faça ela o que fizer,

Ou passe por quem passar

Para o mundo dela falar

Basta-lhe só ser mulher.

 

Se vai à missa engomada,

Há quem se atreva a dizer:

Não ganha para comer

Mas tem para andar asseada.

Se vai triste ou mal trajada

É bandalho sem segundo...

Se vai calçada, gasta tudo,

È pobre e desprevenida

Assim passa a triste vida,

Sempre nas línguas do mundo.

 

Se fica em casa é senhora,

É fidalga, sem ter renda

Se trabalha na fazenda

É tida como impostora...

Não tem a triste uma hora

Que a desgraça a não espere

Faça ela o que fizer

A favor do seu bom porte...

Falam dela até à morte,

Esteja ela onde estiver.

* António José Belo

** Desenho de Cipriano Dourado

15.1.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LX) - Antório Borrego


Chama que chama

Um leve sabor de flor oclusa

com perfume entranhado...salgado...

oh ténue mistério, só captado por quem urdiu

o trama num céu estrelado

delineando horizontes nos espasmos

selvagens, serenos, mágicos e mansos

oh química, torrente vertiginosa...nas veias...

oh Sacrário de hóstias apaziguadas...

(consagradas por um possível pedófilo)

fogueira proibida da Inquisição

onde há oferendas...jamais vítimas...

Catedral de todos os génios

porta aberta, a todos os gritos que apelam à liberdade...

deixem escorrer!

todos os clamores...

todos os amores...

todos os hinos...

que fervam as pedras do coração

que venha o menino que trago na alma...

onde estou?!

se vejo as estrelas cá de cima?...do cimo astral...

onde a lógica do amor é intemporal!

beijo (ou mordo?) a tua boca...furiosamente....

esquecer as faturas da luz, do gás, da água e dos impostos que

a corja inventa...

arremessar a calculadora contra a parede...estilhaçá-la

em mil bocados...

acendo um cigarro, peço pizza pelo telefone...

(penso num ramo de flores para a jarra)

ainda me lembro do teu perfume "Chanel nº 5"

mas tu?!

nem estás aqui!

como poderias estar?! se és pura imaginação?!

mas sei, que és esse corpo que adivinhei e, bebo sorvo a sorvo

porque és água da minha sede...

para redescobrir-te? já é tarde!

para te perder...é muito cedo!

A.B. 2026

10.1.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LVIII) - António Borrego


Safra da Moura

Torces o sol que apareceu

entre o suspiro profundo

uma estranha atração...toma conta de nós

emoção no coração das crianças

inútil perguntar...

por palavras que disse...

memórias vãs...coisas da saudade

sol do passado...

começo mais além...onde tudo acaba...

e é solidão...

em redor da memória

dançam borboletas brancas e amarelas

esvoaçam pássaros coloridos

campos floridos

não me perguntes onde estive...é inútil...

andei por aí, à tua procura...

ai doce mágoa

ver o futuro passar

e este azul que dorme redondo

num sonho de encantar

a moura...

levanta da sua tenda/gruta..

uma colcha de esmeraldas e safiras...

vives o sonho...

cada qual, navega no seu mar...no seu sonho..(de encantar)...

e o sonho persiste...a moura existe!...

e, a criança ainda lá está

com suspiros de exilio...

deixai-me nascer de novo.

A.B.2018.