5.4.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXX) - Padre Alfredo Magalhães


Enganaram-se no número da porta

 Não me procures onde não estou:

na música e nas festas de salão,

nos votos formalistas dum cartão,

na iluminação feéricas das ruas e das praças,

nas prendas valiosas que te dão

e avaramente sobraças.

Aí não me procures!

Estou algures,

mas não aí.

 

Não me procures:

no calor das brasas incendidas,

no calor das famílias reunidas

se apenas as juntam sangue e tradição,

nas mesas bem sortidas

de iguarias, de doces e de vinho,

nem mesmo num presépio lindo, maneirinho,

se não palpita nele um coração.

 

Procura-me onde na verdade estou:

naquela inóspita, lúgubre choupana

igual aquela cabana

onde nasci.

Estou aí.

 

Naquela chaga nojenta,

naquela pobreza muda,

naquela tortura lenta,

naquela cruz ignorada,

naquela alma desnuda,

naquela dor que não chora,

naquela vida parada

que uma doença devora.

Aí me encontrarás a toda a hora.


* Pe. Alfredo Magalhães