22.4.26

OPINIÃO: Não basta oferecer o passe


A redução do preço de passes intermodais que cobrem as áreas metropolitanas foi decisiva para mudar o paradigma. Hoje, uma percentagem elevada dos passageiros do Grande Porto e da Grande Lisboa prefere o título mensal ao bilhete ocasional, denunciador de uma superior fidelidade ao transporte público, embora a esmagadora maioria dos movimentos pendulares nas metrópoles teime em ser feita ao volante do automóvel. Para alguns, a alternativa será penosa por obrigar a sucessivos transbordos e a trajetos que roubam horas ao tempo em família. No entanto, dada a cobertura cada vez mais alargada do transporte coletivo, não será o caso da grande massa de condutores, que entra solitária no bólide para se lamentar das estradas engolidas por viaturas, da escassez de estacionamento e do fiscal que espreita a multa. A gratuitidade do transporte público, uma realidade há vários anos em Cascais e uma promessa cada vez mais terrena em alguns concelhos, com o Porto à cabeça, será importante para convencer alguns automobilistas a desertarem das filas intermináveis e a trocarem a chave do carro pelo Andante ou pelo Navegante. Mas a regulação não se faz só de medidas benignas e é preciso coragem política para, de uma vez por todas, travar o automóvel no coração das cidades, criando os prometidos - ainda muito minguados - parques de estacionamento junto às paragens e às estações à porta das metrópoles. Exigem-se canais dedicados para a passagem imperturbada de autocarros, para que não fiquem a penar entalados nas filas. Só com via livre será possível cumprir horários e aumentar a velocidade de circulação, conferindo-lhe uma qualidade de serviço semelhante à reconhecida ao metro do Porto. Se as esperas forem curtas e o trajeto acelerado até casa, haverá mais carros nas garagens.

Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 20 de abril, 2026