A redução do preço de passes intermodais que cobrem as áreas
metropolitanas foi decisiva para mudar o paradigma. Hoje, uma percentagem
elevada dos passageiros do Grande Porto e da Grande Lisboa prefere o título
mensal ao bilhete ocasional, denunciador de uma superior fidelidade ao
transporte público, embora a esmagadora maioria dos movimentos pendulares nas
metrópoles teime em ser feita ao volante do automóvel. Para alguns, a
alternativa será penosa por obrigar a sucessivos transbordos e a trajetos que
roubam horas ao tempo em família. No entanto, dada a cobertura cada vez mais
alargada do transporte coletivo, não será o caso da grande massa de condutores,
que entra solitária no bólide para se lamentar das estradas engolidas por
viaturas, da escassez de estacionamento e do fiscal que espreita a multa. A
gratuitidade do transporte público, uma realidade há vários anos em Cascais e
uma promessa cada vez mais terrena em alguns concelhos, com o Porto à cabeça,
será importante para convencer alguns automobilistas a desertarem das filas
intermináveis e a trocarem a chave do carro pelo Andante ou pelo Navegante. Mas
a regulação não se faz só de medidas benignas e é preciso coragem política
para, de uma vez por todas, travar o automóvel no coração das cidades, criando
os prometidos - ainda muito minguados - parques de estacionamento junto às
paragens e às estações à porta das metrópoles. Exigem-se canais dedicados para
a passagem imperturbada de autocarros, para que não fiquem a penar entalados
nas filas. Só com via livre será possível cumprir horários e aumentar a
velocidade de circulação, conferindo-lhe uma qualidade de serviço semelhante à
reconhecida ao metro do Porto. Se as esperas forem curtas e o trajeto acelerado
até casa, haverá mais carros nas garagens.
Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 20 de abril, 2026
