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4.3.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - José Luís Peixoto


A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram

flores novas na terra do jardim, quero dizer

que estás bonita.

 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,

abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio

de ouro.

 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como

se tocasse a pele do teu pescoço.

 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

 

estás tão bonita hoje.

 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

 

estás dentro de algo que está dentro de todas as

coisas, a minha voz nomeia-te para descrever

a beleza.

 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,

estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

 

* José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

** Desenho de Cipriano Dourado


24.1.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXI) - António José Belo


Ser mulher 

P´ra mulher ser infeliz

Basta-lhe só ser mulher

Sempre nas línguas do Mundo

Esteja ela onde estiver.

 

Se não fala tem presunção

E passa por indecente

Se fala para toda a gente

Não conhece a posição...

Se ela vai a um serão,

Há uma língua que diz:

Ela vai lá porque quis

Aparecer ao seu encanto...

Tudo isto é bastante,

P´ra mulher ser infeliz.

 

Se vai à dança, é devassa

Se não vai é orgulhosa

Se quer ser religiosa

Dizem que é beata falsa

Se vai para a rua vai descalça

Ela ainda assim porque quer

Faça ela o que fizer,

Ou passe por quem passar

Para o mundo dela falar

Basta-lhe só ser mulher.

 

Se vai à missa engomada,

Há quem se atreva a dizer:

Não ganha para comer

Mas tem para andar asseada.

Se vai triste ou mal trajada

É bandalho sem segundo...

Se vai calçada, gasta tudo,

È pobre e desprevenida

Assim passa a triste vida,

Sempre nas línguas do mundo.

 

Se fica em casa é senhora,

É fidalga, sem ter renda

Se trabalha na fazenda

É tida como impostora...

Não tem a triste uma hora

Que a desgraça a não espere

Faça ela o que fizer

A favor do seu bom porte...

Falam dela até à morte,

Esteja ela onde estiver.

* António José Belo

** Desenho de Cipriano Dourado

2.5.21

POEMA PARA O DIA DA MÃE

 


Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada?

Que todo o teu perfil se endureceu

Numa linha severa e desenhada?


Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura,

Assim tu me pareces no teu leito.

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.


Chamo aos gritos por ti — não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres.

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!


Miguel Torga, in 'Diário IV'

Gravura de Cipriano Dourado (1954)

13.12.15

DO ALTO DO TALEFE (4) – O meu menino é de ouro

 Ó meu menino da rua
Só, com uma chave na mão:
Quem é que brinca contigo?
Quem é que pede perdão?
O meu menino é de ouro. Pai, mãe, avó ou avô para cada um o seu menino é de ouro.
Quando nasce, aquele choro lindo, aquele sorriso lindo.
Quando gatinha, que lindo é. Quando palra, que lindo é o menino.
Quando faz tem-tem, e dá os primeiros passos que lindo é o menino.
E o menino cresce. Vai à escola o nosso menino, que lindo é o menino.
Que emoções desperta, na mãe que o adora, no pai que nele se revê, na avó e no avô que choram só de olhar para o seu menino.
Quando for grande o nosso menino vai ser... porque o nosso menino é de ouro.
Que emoções desperta o menino adolescente, que até há quem dele se apaixone.
Desperta emoções o menino. Mas, e as suas emoções?
O menino, os nossos meninos têm emoções, e crescem com elas, e constroem-se com elas.
As suas emoções surgem em cada instante, no contacto com os familiares e com o mundo que o rodeia. Mundo que começa por ser o berço e o colo da sua mãe, mas que rapidamente se alarga a um espaço muito para além da casa, da rua, da vila, da cidade.
Porque gosto disto ou daquilo? Porque me sensibilizo a ver isto? Porque me irrito ao presenciar aquilo? Porque me culpabilizo? Emoções, não se aprendem na escola. Mas quando reagimos desta ou daquele maneira, são as emoções que nos comandam.
Quando os meninos crescem e se tornam homens e mulheres, lá continuam as emoções a surgirem e a mostrarem-se em atitudes sensíveis ou insensíveis muitas vezes não controladas pelo lado racional, socializado pela vida em colectivo.
O nosso menino é de ouro mas vive num mundo de lata, que lhe desperta as mais desencontradas emoções.
A lata que nos dá a informação do mundo, mostra-nos diariamente cenas de guerra depois de discursos falando de paz e bem-estar.
A lata que nos mostra o mundo diz-nos que a vida colectiva deve ser solidária. Mas mostra-nos que a sociedade que vende em supermercados latas de comida para cães e gatos é a mesma sociedade que convive com gente que morre de fome e doença.
As latas que nos mostram o mundo, dizem-nos que milhões de meninos e de homens que não puderam ser meninos vivem do lixo, ao mesmo tempo que outros milhares correm para estádios para aplaudir méis dúzia de homens ou mulheres que fazendo algumas habilidades ganham fortunas.
As latas que nos mostram o mundo, exibem despudoradamente o lado feio da vida dos meninos de ouro sem nada, ao mesmo tempo que mostra o lado bonito de outros meninos de ouro com tudo.
As latas que nos mostram o mundo, apresentam concurso em que a ignorância é recompensada com carros, ouro e milhares de contos e depois informa que quem estudou está desempregado.
As latas que mostram o mundo, exibem festas de gente habilidosa que engana, trapaceia, ludibria e enriquece e a seguir mostra-nos bairros desgraçados com meninos a brincar em esgotos.
As latas que nos mostram o mundo, mostram alarvemente carnes apetitosas de mulheres, depois das moscas pousadas nos lábios de meninos a morrerem à fome e antes de cenas de matanças de homens esventrados e decepados.
As latas que mostram o mundo, mostram tudo isto à hora das refeições. Com a família reunida. Com os nossos meninos de ouro à mesa.
Que emoções despertam?
Todos nós temos ou tivemos os nossos meninos de ouro, que cresceram com as suas emoções.
Uns aprendem a conviver com as emoções, outros não.
E, quando alguns meninos não racionalizam as suas emoções e se tornam uma ameaça para a sociedade, lá estão as latas que mostram o mundo a fazer discursos sobre o porquê, depois de uns anúncios de detergentes e antes de um filme violento com direito a bola vermelha no canto superior direito.
Os nossos meninos de ouro têm emoções e nós também.
Saibamos viver com elas na sociedade que, para o bem e para o mal, vamos construindo...
Zé de Nisa – Jornal de Nisa – nº 73 – 20 Dez. 2000

8.3.15

8 Março - Dia Internacional da Mulher

Desenho de Cipriano Dourado
Teresa Torga - Canção de José Afonso do LP "Com as minhas tamanquinhas" (1976

As Mulheres do Monte
As mulheres do monte
Vão a pé à vila,
Descansam na fonte.
As mulheres da vila
Vêm cá ao monte,
Trazem a rodilha
Que estava na fonte.

As mulheres do monte
É só trabalhar!
Têm que ir à fonte
À noite ao luar.
Se o escuro é forte
E lhe falta a lua
Lá está um pote
Partido na rua.

Cachopas da aldeia
Correi para a cidade!
A bonita e a feia
Arranja namorado
Com os braços em cruz...
Acabou-se a mágoa,
Na cidade há luz
Cinema e água.
Ti Zé do Santo in “Terra Pousia” - 1996