Até há
poucos meses, conduzia todos os dias e fazia as compras com a mulher, com quem
vive de forma independente. Agora para ao fim de cem metros, inclinado sobre o
carrinho do supermercado, à espera de que a dor nas pernas lhe dê tréguas.
Começou a perguntar-se não apenas se voltará a andar como antes, mas se os dois
conseguirão continuar a viver sozinhos. A ressonância mostra uma estenose
lombar. Antes de chegar à minha consulta, já ouviu a frase: “na sua idade, é
melhor não mexer”.
E então
pergunta-me: “Doutor, com a minha idade, ainda vale a pena?”
Não sei
ainda se António precisa de uma cirurgia. Para decidir isso, preciso de saber
muito mais do que mostra a ressonância. Mas há uma coisa que sei antes de o
examinar: 82 anos não são um diagnóstico.
A medicina
sempre gostou da idade. É objetiva, está disponível e cabe facilmente num
algoritmo. Em populações, é útil: à medida que envelhecemos, aumentam a
fragilidade, a doença e o risco de complicações. O problema começa quando uma
verdade estatística sobre milhares de pessoas se transforma numa conclusão
sobre quem temos à nossa frente.
Dois doentes
com 82 anos podem ter vivido o mesmo número de anos e estar biologicamente
separados por décadas. Um conserva força, equilíbrio, cognição e autonomia.
Outro pode ser frágil, sarcopénico e dependente. É por isso que hoje olhamos
cada vez mais para aquilo que a idade não mede: reserva fisiológica,
mobilidade, massa muscular, saúde óssea, cognição e capacidade de recuperação.
Na cirurgia
da coluna, esta diferença importa muito. Aos 80 anos, as ressonâncias estão
quase sempre cheias de palavras assustadoras — degeneração, artrose, estenose,
deformidade. Mas não operamos palavras. E também não devemos recusar
tratamentos por causa de um número.
A idade
conta, naturalmente. Um doente de 82 anos não enfrenta uma grande cirurgia como
um de 42. Mas considerar a idade é diferente de deixar que ela decida. Há
idosos robustos que recuperam bem de tratamentos exigentes; há pessoas vinte
anos mais novas cuja fragilidade obriga a muito mais cautela.
Talvez a
pergunta mais importante na consulta não seja “quantos anos tem?”, mas “o que
deixou de conseguir fazer?”. Às vezes, não é correr uma maratona. É conduzir.
Ir às compras com a mulher. Conseguir permanecer na casa onde sempre viveram
sem depender dos filhos. É aí que a doença da coluna deixa de ser uma imagem e
passa a ser aquilo que verdadeiramente nos interessa tratar: perda de função,
de autonomia e, por vezes, da própria vida que a pessoa reconhece como sua.
Mesmo em
idades avançadas, o músculo adapta-se, a força pode melhorar, a mobilidade pode
ser recuperada e a saúde óssea pode ser protegida. Envelhecer muda o que é
possível; não torna tudo inevitável.
Voltemos ao
António.
Quando me
pergunta “com a minha idade, ainda vale a pena?”, percebo o que está realmente
a perguntar. Não é se vale a pena tratar uma ressonância. É se ainda vale a
pena lutar pela vida que ele e a mulher construíram e que agora receiam perder.
A idade
diz-me há quanto tempo António vive. Não me diz como vive, de que é capaz,
quanto pode recuperar ou aquilo que ainda espera dos anos que tem pela frente.
Talvez a
medicina deva responder-lhe com outra pergunta:
“O que é que
ainda vale a pena para si?”
Para mais
informações sobre patologia da coluna vertebral, visite https://sppcv.org/.
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Artigo de Opinião de Ricardo Rodrigues Pinto,
Ortopedista e cirurgião de coluna. Professor Universitário.
Membro da
Direção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV)