22.9.26

Portalegre acolhe a primeira biografia de Orlando Neves


É a primeira biografia de Orlando Neves (1935-2005), poeta, ficcionista, dramaturgo, jornalista, tradutor, diretor literário, programador e animador cultural, cineclubista e dono de um sem-fim de outras facetas culturais. Embora licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa em 1958, optou por seguir o rumo das letras e do jornalismo cultural, tendo publicado 107 livros de todos os géneros literários e traduzido mais de 150.

RESPONDO POR MIM”, título do estudo biográfico de 342 páginas da autoria do jornalista Rui Bondoso, editado sob a chancela das Edições Esgotadas e prefaciado por António Cândido Franco (escritor, investigador e ex-professor da Universidade de Évora), vai ser oficialmente apresentado no próximo dia 26 de setembro, às 16 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre. Foi nesta cidade que Orlando Neves nasceu, a 11 de setembro de 1935, vindo a falecer no Porto, a 24 de janeiro de 2005.

Figura central da resistência cultural durante a ditadura, marcou o espaço público pela sua intervenção cívica. Assinou críticas literárias e teatrais em jornais de referência como o República, A Capital, Expresso, Diário de Notícias e A Luta. Foi vice-presidente do Clube de Jornalistas e da Casa da Imprensa, diretor literário do Círculo de Leitores e da Portugália Editora, criou a editora DiAbril e as livrarias Divulgação (no Porto) e Opinião (em Lisboa). Na televisão, foi autor e apresentador de vários programas, entre eles ‘Manta de Retalhos’ da RTP. Na rádio, cofundou o icónico ‘Pão com Manteiga’ na Rádio Comercial, um dos programas mais célebres da história da rádio em Portugal, que mudou de modo radical a forma de fazer humor no país. No teatro, assumiu a encenação em palcos consagrados como o Teatro Nacional D. Maria II e a Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido também diretor do Teatro Experimental do Porto (TEP).

Como poeta, galardoado dez vezes, foi muito elogiado por escritores e críticos literários renomados como João Gaspar Simões, Fernando Namora, Lídia Jorge, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Natália Correia, Mário Cláudio, entre muitos outros. Alguns, como Carlos Garcia de Castro, defendem mesmo que "seria já tempo de se fazer um estudo aprofundado e abrangente deste escritor, ou em ensaio de especialista, de académicos, ou em seminário dos cursos de Português nas Faculdades, ou tese para outras provas de conclusão universitária”.No livro, o autor lamenta que quase toda a obra de Orlando Neves viva atualmente numa névoa difícil de explicar nos tempos que atravessamos. “Hoje, a força que submerge a criação já não usa o lápis azul da ditadura, mas sim o manto invisível da indiferença mercantil. Se a ponta visível do icebergue de Orlando Neves ainda flutua através dos seus admiráveis dicionários e obras de consulta, a sua densa produção ficcional, poética e teatral permanece injustamente submersa”, escreve Rui Bondoso, alertando que “esta amnésia cultural priva as novas gerações de um olhar satírico, humanista e profundamente livre sobre a nossa história contemporânea. Resgatar a sua genialidade multifacetada não é, por isso, um mero exercício de nostalgia; é um ato de resistência contra a homogeneização do pensamento”.

Esta é a segunda biografia assinada por Rui Bondoso, que em abril de 2024 publicou “O editor esquecido: Eduardo Salgueiro e a Editorial Inquérito”, obra muito aclamada pela crítica e pelos leitores, e que alcançou recentemente a 5ª edição.