30.9.26

OPINIÃO: Uma Polícia a arder em lume brando


As suspeitas levantadas nos últimos meses sobre a ação de Luís Neves enquanto diretor da Polícia Judiciária são uma nódoa no prestígio da instituição que pode alastrar-se com as investigações abertas e a comissão parlamentar de inquérito. Em cima disto, ver o diretor em funções, Carlos Cabreiro, ser alvo de buscas do Ministério Público (MP) no seu gabinete - porque um inspetor coordenador o acusou de autorizar uma escuta ilegal no caso Football Leaks e de mentir em tribunal - é algo que não lembrava ao Diabo. Tentar normalizar a situação, como fez a ministra da Justiça ao renovar a confiança em Cabreiro, é um caminho perigoso para a instituição, mais importante do que as pessoas que a dirigem ou dirigiram num dado momento.

Pode achar-se que o MP foi irresponsável ao avançar com as buscas, ou até que se moveu por razões espúrias. Pode alegar-se que a denúncia é acompanhada de documentos que não provam que os alvos do Football Leaks foram escutados sem autorização judicial. Pode mesmo supor-se que o denunciante perdeu a lucidez ao tentar safar a mulher - uma inspetora da equipa que investigou aquele caso e que está a ser julgada por falso testemunho, depois de admitir em tribunal que assinou "de cruz" o relatório de uma diligência em que os colegas dizem ter escutado os suspeitos, numa estação de serviço da A5, sem gravação de som.

Pode achar-se o que se quiser e, por princípio, deve reconhecer-se a Cabreiro o direito à presunção de inocência, mas não se pode perder de vista o inimaginável até há uma semana - magistrados a devassarem o gabinete e o computador do diretor nacional da PJ -, nem ignorar o contexto. Carlos Cabreiro foi nomeado pelo Governo em que pontifica, como ministro, o anterior diretor da Judiciária; e, por arrasto, a vida desta vai ser enlameada numa comissão de inquérito durante meses.

Manter tudo como está será um fator de desgaste adicional, que o Governo deveria evitar. A reputação da PJ, conseguida graças ao profissionalismo de muitos, levou décadas a consolidar-se e não pode ficar refém, anos a fio, do desfecho de processos individuais de quem quer que seja. Isso é deixar a casa a arder em lume brando. Mais: para o apagar, talvez já não baste substituir Cabreiro por um par. No ponto a que se chegou, muito propício a divisões internas, seria sensato dar um passo atrás e entregar o leme a um magistrado judicial ou do MP.

* Nelson Morais – Jornal de Notícias - 29 de setembro, 2026