Pode
achar-se que o MP foi irresponsável ao avançar com as buscas, ou até que se
moveu por razões espúrias. Pode alegar-se que a denúncia é acompanhada de
documentos que não provam que os alvos do Football Leaks foram escutados sem
autorização judicial. Pode mesmo supor-se que o denunciante perdeu a lucidez ao
tentar safar a mulher - uma inspetora da equipa que investigou aquele caso e
que está a ser julgada por falso testemunho, depois de admitir em tribunal que
assinou "de cruz" o relatório de uma diligência em que os colegas
dizem ter escutado os suspeitos, numa estação de serviço da A5, sem gravação de
som.
Pode
achar-se o que se quiser e, por princípio, deve reconhecer-se a Cabreiro o
direito à presunção de inocência, mas não se pode perder de vista o
inimaginável até há uma semana - magistrados a devassarem o gabinete e o
computador do diretor nacional da PJ -, nem ignorar o contexto. Carlos Cabreiro
foi nomeado pelo Governo em que pontifica, como ministro, o anterior diretor da
Judiciária; e, por arrasto, a vida desta vai ser enlameada numa comissão de
inquérito durante meses.
Manter tudo
como está será um fator de desgaste adicional, que o Governo deveria evitar. A
reputação da PJ, conseguida graças ao profissionalismo de muitos, levou décadas
a consolidar-se e não pode ficar refém, anos a fio, do desfecho de processos
individuais de quem quer que seja. Isso é deixar a casa a arder em lume brando.
Mais: para o apagar, talvez já não baste substituir Cabreiro por um par. No
ponto a que se chegou, muito propício a divisões internas, seria sensato dar um
passo atrás e entregar o leme a um magistrado judicial ou do MP.
* Nelson
Morais – Jornal de Notícias - 29 de setembro, 2026
