Mesmo
que não haja indicadores tão evidentes para fenómenos mais políticos, há também
aí razões para profunda preocupação. Este domingo, nas eleições regionais do
estado da Saxónia-Anhalt, a dúvida é se a Alternativa para a Alemanha (AfD), a
Direita mais extrema, conseguirá ou não uma maioria absoluta, derrubando uma
barreira que se mantinha firme desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Um
partido que quer mudar os manuais de História e retirar peso ao estudo do
regime nazi (certamente influenciado pelos elementos neonazis nas suas
fileiras); que defende a "remigração", ou seja, a expulsão de
imigrantes e de cidadãos alemães cujo passado não seja suficientemente puro;
que propõe a segregação de crianças refugiadas em escolas separadas; que
promove as "famílias normais" em detrimento dos "desvios sexuais
e os estilos de vida não reprodutivos". Um manual tão extremista que, nas
últimas europeias, boa parte da extrema-direita europeia (incluindo o Chega)
achou por bem afastar-se da AfD, embora tenha sido um afastamento mais tático
do que ideológico.
Os
alemães do Leste poderão ser os primeiros a colocar a extrema-direita no poder
na Alemanha. E provavelmente contaminarão a política alemã e a europeia. Mas
não vale a pena culpar eleitores supostamente ignorantes. A responsabilidade
será sempre dos partidos que dominaram a política nas últimas décadas. Quando a
CDU (centro-direita) e o SPD (centro-esquerda), somados, não conseguem atrair
mais do que um terço dos votos (na Saxónia e nas sondagens ao nível nacional),
isso significa que não estão a ser capazes de resolver os problemas dos
cidadãos. Convém aprender a lição, antes que seja demasiado tarde. Na Alemanha,
na Europa, em Portugal.
Rafael
Barbosa – Jornal de Notícias - 6 de setembro, 2026
