7.9.26

OPINIÃO: O espirro de extrema-direita na Alemanha


Quando a Alemanha espirra, a Europa constipa-se. Uma expressão popularizada pela força motora da sua economia e a sua influência em todos as países europeus, mesmo os periféricos, como Portugal. Se na sede da Volkswagen se começa a discutir a redução da força de trabalho e o fecho de fábricas, há por cá arrepios de espinha, tal é o peso da Autoeuropa nas exportações e no ecossistema industrial do nosso país.

Mesmo que não haja indicadores tão evidentes para fenómenos mais políticos, há também aí razões para profunda preocupação. Este domingo, nas eleições regionais do estado da Saxónia-Anhalt, a dúvida é se a Alternativa para a Alemanha (AfD), a Direita mais extrema, conseguirá ou não uma maioria absoluta, derrubando uma barreira que se mantinha firme desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Um partido que quer mudar os manuais de História e retirar peso ao estudo do regime nazi (certamente influenciado pelos elementos neonazis nas suas fileiras); que defende a "remigração", ou seja, a expulsão de imigrantes e de cidadãos alemães cujo passado não seja suficientemente puro; que propõe a segregação de crianças refugiadas em escolas separadas; que promove as "famílias normais" em detrimento dos "desvios sexuais e os estilos de vida não reprodutivos". Um manual tão extremista que, nas últimas europeias, boa parte da extrema-direita europeia (incluindo o Chega) achou por bem afastar-se da AfD, embora tenha sido um afastamento mais tático do que ideológico.

Os alemães do Leste poderão ser os primeiros a colocar a extrema-direita no poder na Alemanha. E provavelmente contaminarão a política alemã e a europeia. Mas não vale a pena culpar eleitores supostamente ignorantes. A responsabilidade será sempre dos partidos que dominaram a política nas últimas décadas. Quando a CDU (centro-direita) e o SPD (centro-esquerda), somados, não conseguem atrair mais do que um terço dos votos (na Saxónia e nas sondagens ao nível nacional), isso significa que não estão a ser capazes de resolver os problemas dos cidadãos. Convém aprender a lição, antes que seja demasiado tarde. Na Alemanha, na Europa, em Portugal.

Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 6 de setembro, 2026