24.9.26

OPINIÃO: O prazer da estrada


Há poemas que merecem ser bebidos devagar. E acordes quase impossíveis. Uma espessura a justificar que se invoque a genialidade. Mas há depois, em Jorge Palma, tudo o resto. Os passos inquietos, a ousadia, os excessos e o que ele próprio aprendeu com eles, a generosidade invocada pelos amigos, uma vontade de saber que lhe abriu os olhos. Do mestre Ary dos Santos aos poetas franceses, dos clássicos e poemas épicos aos artistas contemporâneos, bebeu avidamente do que tinham para lhe ensinar. É preciso correr-se mundo para nos vermos melhor a nós mesmos.

Se é tão fácil pessoas de diferentes gerações apontarem músicas e estrofes que se tornaram banda sonora para a vida, é porque Jorge Palma encontra palavras certeiras para traduzir a complexidade. Os lugares incertos onde nalgum momento acabaremos por nos descobrir. As horas junto à tempestade, a vida no fio da navalha. A solidão e o riso. A esperança ou, como ele insistentemente referia, a resistência de continuar a andar e, melhor ainda, de sentir prazer na estrada. Ele canta a fragilidade sem azedume - e que bálsamo, em tempos de tremenda acidez.

A música permanece e convida à plena liberdade. Não necessariamente a liberdade gritada e que a todo o momento se faz anunciar, mas a escolha permanente de uma forma de estar que não teme as margens. A liberdade que não receia a imperfeição. E de quem acredita que a cultura é um caminho essencial para a ação, inspirado e inspirador. Que nos faz acreditar e querer habitar na terra dos sonhos, onde toda a gente trata a gente toda por igual.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 23 de setembro, 2026