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23.6.26

CRATO: Mulher encontrada morta junto a barragem na zona de festival de música


Uma mulher com idade aparente entre os 20 e os 25 anos foi encontrada sem vida, na segunda-feira, junto às margens de uma barragem no concelho do Crato, distrito de Portalegre, onde decorre um festival de música eletrónica, confirmaram à Lusa fontes da GNR e da Proteção Civil.

Segundo fonte do Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil do Alto Alentejo, o alerta para a ocorrência foi dado às 17h45. O caso foi inicialmente classificado como doença súbita e ocorreu na Estrada Municipal 532-1, junto à Barragem das Nascentes, na União de Freguesias de Crato e Mártires.

Fonte da GNR adiantou à Lusa que o corpo da jovem foi encontrado junto a uma das margens da barragem por pessoas que passavam no local, as quais iniciaram manobras de reanimação. No entanto, os esforços de socorro revelaram-se infrutíferos.

O óbito foi declarado no local e a GNR mantém a investigação em curso para apurar as circunstâncias da morte e proceder à identificação da vítima.

Não foi possível confirmar, até ao momento, a identidade da mulher nem as causas exatas da morte.

Nas operações de socorro estiveram envolvidos quatro operacionais, apoiados por uma ambulância e pela Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) de Portalegre.

lusa/HN - 23 de Junho 2026

8.3.26

8 DE MARÇO - Dia Internacional da Mulher


Calçada de Carriche

Luísa sobe,

sobe a calçada,

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe

sobe a calçada.

 

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

Na mão grosseira,

de pele queimada,

leva a lancheira

desengonçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Luísa é nova,

desenxovalhada,

tem perna gorda,

bem torneada.

Ferve-lhe o sangue

de afogueada;

saltam-lhe os peitos

na caminhada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Passam magalas,

rapaziada,

palpam-lhe as coxas,

não dá por nada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu da sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o homem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


 Na manhã débil,

sem alvorada,

salta da cama,

desembestada;

puxa da filha,

dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,

desengonçada;

anda, ciranda,

desaustinada;

range o soalho

a cada passada;

salta para a rua,

corre açodada,

galga o passeio,

desce a calçada,

desce a calçada,

chega à oficina

à hora marcada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga;

toca a sineta

na hora aprazada,

corre à cantina,

volta à toada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regressa a casa

é já noite fechada.

Luísa arqueja

pela calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada. 

António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'


4.3.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - José Luís Peixoto


A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram

flores novas na terra do jardim, quero dizer

que estás bonita.

 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,

abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio

de ouro.

 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como

se tocasse a pele do teu pescoço.

 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

 

estás tão bonita hoje.

 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

 

estás dentro de algo que está dentro de todas as

coisas, a minha voz nomeia-te para descrever

a beleza.

 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,

estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

 

* José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

** Desenho de Cipriano Dourado


6.3.24

ÉVORA: Memórias no Feminino | Dia Internacional da Mulher 2024

Com este dia, a Organização das Nações Unidas pretende homenagear as mulheres de todas as nações, que viram o seu papel na sociedade menorizado e os seus direitos transgredidos por terem nascido mulheres e que lutaram por direitos de cidadania, iguais aos direitos reconhecidos aos homens. Neste sentido, serão ouvidas as histórias de vida e sonhos de Maria Sarmento e de Zulima Gaspar numa conversa intimista sobre as memórias destas duas mulheres.
8 março 2024 - 18h00
Convento dos Remédios, av. S. Sebastião, Évora
Entrada livre
Organização: Município de Évora em parceria com a Unidade Local de Saúde do Alentejo Central (ARS Alentejo).

8.3.20

A Mulher na Poesia Alentejana

DESENGANO 
Nasci mulher, sonhei, sorri à vida.
O arco-íris pintei no horizonte
Que a minha fresca e sonhadora fronte,
Idealizou, esp´rançosa, embevecida.

Fui jardineira alegre e jovial
No viçoso jardim da mocidade,
Onde as rosas secaram; e a saudade,
Arroxeou de todo o meu rosal.

Tombou-me a fronte, aos poucos, já vencida,
Nevaram-me os cabelos na subida
Gelada e estreita dum destino infausto.

E arrefeceu-me o peito num viver
Que me põe n´alma um triste anoitecer,
A frieza sombria dum claustro.

Mariana da Conceição Abraços Lança Bexiga
(Os meus Filhos de Alma, Serpa, 1984)
Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

19.3.15

M de Março e de Mulher

Retrato de Mulher
Tem noventa anos. És velha dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o Sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdia: “O mundo é tão bonito!”

José Saramago