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8.3.23

8 de Março: DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 
Menina e Moça
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

  Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

 Outras vezes valsando, e seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

 Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.

  Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

  Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

  Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

  Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, exceptuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

  Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

  Ah! se nesse momento alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás-de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

  É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher! 

 * Machado de Assis 
IMAGEM : Manuel Ribeiro de Pavia


8.3.20

A Mulher na Poesia Alentejana

DESENGANO 
Nasci mulher, sonhei, sorri à vida.
O arco-íris pintei no horizonte
Que a minha fresca e sonhadora fronte,
Idealizou, esp´rançosa, embevecida.

Fui jardineira alegre e jovial
No viçoso jardim da mocidade,
Onde as rosas secaram; e a saudade,
Arroxeou de todo o meu rosal.

Tombou-me a fronte, aos poucos, já vencida,
Nevaram-me os cabelos na subida
Gelada e estreita dum destino infausto.

E arrefeceu-me o peito num viver
Que me põe n´alma um triste anoitecer,
A frieza sombria dum claustro.

Mariana da Conceição Abraços Lança Bexiga
(Os meus Filhos de Alma, Serpa, 1984)
Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

5.5.19

DIA DA MÃE: Mulher Alentejana

Mulher alentejana és coragem
Símbolo do trabalho e do amor
Fizeram de ti a linda imagem
Que saiu do talento do pintor

Tu és cozinheira e professora
E guardas o gado lá no monte
Sempre à procura de um horizonte
Que te faz ainda mais sedutora
Percebes de bordados e de lavoura
Lavada pelo vento e pela aragem
Tens no pensamento uma miragem
Que te eleva a espaços siderais
Sempre admiraste os teus pais
Mulher alentejana és coragem.

És esposa, és mãe, és namorada
Pedaço de terra que te criou
És a maravilha que deixou
O ventre da mulher imaculada
És mulher de agulha e de enxada
És a seiva da terra e da flor
Tanto ao frio Inverno como ao calor
Esvoaçam teus cabelos com ternura
Mulher alentejana tu és pura
Símbolo do trabalho e do amor.

Desde longos tempos recuados
Angariaste o pão para comer
Fizeste da labuta o teu dever
Nas terras de herdades e condados
Sempre os teus passos foram dados
Como quem dá uma homenagem
E quando as amarguras são miragem
Nas trevas de um imenso mar profundo
Mulher alentejana em todo o mundo
Fizeram de ti a linda imagem.

Passas por caminhos tortuosos
Por estradas velhas e veredas
As tuas vestes parecem sedas
Que fazem teus passos maravilhosos
Dos sentimentos nobres, poderosos
Sorrindo para a desgraça e para a dor
Mulher alentejana tens valor
Mulher alentejana tu és bela
Está fixada no espaço a tua tela
Que saiu do talento do pintor.

Manuel Luís Nunes Caeiro
Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia 

19.4.17

DEZ POEMAS PARA O 25 DE ABRIL (4)

Trabalho na agricultura
Trabalhei na agricultura
Sem apoio da nação
Cavando na terra dura
Só enriquei o patrão

Tinha apenas oito anos
Comecei gado a guardar
Meu avô fui ajudar
Foram estes os meus planos
Os meus primeiros exames
Foi esta a minha leitura
Digo a qualquer criatura
Que muito tenho passado
Até eu ser reformado
Trabalhei na agricultura.

Em tempos de Salazar
Tanto que eu trabalhei
Sabe Deus o que eu passei
P´ra nunca nada arranjar
Quando era ao pegar
Logo cedo de manhã(o)
Até à noite ao serão
Sem nenhuma regalia
Trabalhava noite e dia
Sem apoio da nação.

Quinze anos de hortelão
Com pomares de laranjeiras
Eu tive grandes canseiras
Em terras de Montalvão
Mas aquela gente, então
Ali ninguém me censura
Viram a minha amargura
A minha tão grande lida
Ainda ando na vida
Cavando na terra dura.

Treze anos a trabalhar
Para Arnaldo da Luz Pereira
No monte da Falagueira
Tudo para ele aumentar
E quando eu ia ceifar
E a debulhar o pão
Na Herdade do Cotão
Tanto que eu trabalhei
E no fim nada arranjei
Só enriquei o patrão.

José António Faustino 

18.4.17

DEZ POEMAS PARA O 25 DE ABRIL (3)


Catarina Eufémia
 O punho ergueste
em haste
de coragem

os pés fincaste
na terra
com ternura

e só de paz falavam
os teus olhos
quando tombaste dobrada
p´la cintura.

À tua frente souberas a resposta
na arma pronta
a morte no teu ventre

mas nem um filho
ao colo
te calou a fala

grito de água
no Alentejo ardente
Maria Teresa Horta

Ponto de Vista
 Aqui defronte ao mar português
aventuro-me de novo em caravelas
apalpo as veias das marés
sigo a colmeia das estrelas

defronte ao mar estoiro o enguiço
de ser cidade e rua e casa
sou descoberta onde me atiço
em vendaval que tudo arrasa

uma baleia um albatroz
uma alga rubra no corpo fundo
são a minha voz
e minha fuga dentro do mundo

defronte ao mar nada detém
a tempestade da minha ideia
surgem esqualos vêm tentáculos
capam-me os nervos em alcateia

dentam-me o dorso de ser o nome
no calendário na conta a giz
submarino-me na exacta fome
que todos remam mas ninguém diz

defronte ao mar jogo-e ao fundo
desta piranha chamada terra
vestido de água sou limbomundo
desfaço-me milhas de paz e guerra

sou o infante o que partiu
o que ficou o desejado
deste país que nunca riu
meu cemitério engalanado

dentro dum mar onde não ousam
novos infantes rumar aos becos
onde as esperanças ainda repousam
meu cemitério de polvos secos
Eduardo Olímpio (Alvalade Sado - 1983)