Eram 300. Será difícil acreditar que um número tão elevado pudesse
passar despercebido. Ao presidente da Câmara, passou. Jorge Ricardo admitiu
surpresa com a dimensão do caso e manifestou preocupação com as condições
encontradas. Mas uma dirigente da Associação Ajuda Animais Amarante disse a um
jornal local que a proprietária da casa onde os animais eram alvo de
maus-tratos geria o negócio havia vários anos e já tinha sido alvo de
fiscalização, o que não a impediu de continuar a criá-los naquelas condições. A
mulher foi constituída arguida e provavelmente não haverá mais responsáveis. O
sofrimento dos yorkshires, pinschers, buldogues-franceses, cavaliers, entre
outras raças da moda, só terminou porque um homem que pretendia comprar um cão
suspeitou e denunciou o caso.
Acresce que o negócio operava online desde 2018, o que também revela
total impunidade, especialmente das plataformas que alojam anúncios. Em
Portugal, só criadores registados, estabelecimentos autorizados e associações
podem fazê-lo e cumprindo requisitos muito específicos, regulamentados desde
2017.
Mais uma vez, o problema não é a inexistência de leis. É a falta de
fiscalização, de ação. Basta fazer uma simples pesquisa em qualquer site de
compra e venda, para encontramos largas centenas de animais à venda. O desfecho
deste caso é, infelizmente, igual a outros. Uma operação policial tardia,
imagens chocantes e a promessa de que "agora será diferente". Assim
fosse.
Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 26 de junho, 2026
