27.6.26

OPINIÃO: Trezentos cães e ninguém viu


O caso dos cães resgatados de uma "fábrica de animais" em Amarante revela que o sistema falhou. Ou, pior, fechou os olhos.

Eram 300. Será difícil acreditar que um número tão elevado pudesse passar despercebido. Ao presidente da Câmara, passou. Jorge Ricardo admitiu surpresa com a dimensão do caso e manifestou preocupação com as condições encontradas. Mas uma dirigente da Associação Ajuda Animais Amarante disse a um jornal local que a proprietária da casa onde os animais eram alvo de maus-tratos geria o negócio havia vários anos e já tinha sido alvo de fiscalização, o que não a impediu de continuar a criá-los naquelas condições. A mulher foi constituída arguida e provavelmente não haverá mais responsáveis. O sofrimento dos yorkshires, pinschers, buldogues-franceses, cavaliers, entre outras raças da moda, só terminou porque um homem que pretendia comprar um cão suspeitou e denunciou o caso.

Acresce que o negócio operava online desde 2018, o que também revela total impunidade, especialmente das plataformas que alojam anúncios. Em Portugal, só criadores registados, estabelecimentos autorizados e associações podem fazê-lo e cumprindo requisitos muito específicos, regulamentados desde 2017.

Mais uma vez, o problema não é a inexistência de leis. É a falta de fiscalização, de ação. Basta fazer uma simples pesquisa em qualquer site de compra e venda, para encontramos largas centenas de animais à venda. O desfecho deste caso é, infelizmente, igual a outros. Uma operação policial tardia, imagens chocantes e a promessa de que "agora será diferente". Assim fosse.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 26 de junho, 2026