24.6.26

OPINIÃO: Não é só futebol


Herói improvável num empate histórico, "Vozinha" emocionou-se ao recordar os avós, com quem cresceu, e a mãe impedida de ver ao vivo os momentos de glória do guarda-redes da seleção de Cabo Verde, devido a um problema com o visto. Também guarda-redes, Mahmoud Abunada chorou compulsivamente no relvado ao ser eleito o melhor jogador em campo, no primeiro ponto obtido pelo Catar num Mundial. O treinador mais velho de sempre em campeonatos do Mundo, Dick Advocaat, de 78 anos, não escondeu as lágrimas com o golo de Curaçao perante a gigante Alemanha. O mexicano Raul Jimenez estreou-se a marcar na mais importante competição de futebol e celebrou com a emoção de quem em 2020 fintou a morte.

Todas diferentes, são histórias e imagens que correm o mundo. Não se trata, de todo, de procurar vitórias morais ou a emotividade que marca percursos de superação. Acontece que o esforço e a surpresa causada pelas seleções de quem pouco se espera ganham particular interesse num Mundial mais do que nunca rendido ao dinheiro, ao poder e à política no que tem de menos nobre. Sabemos que nem todas as seleções partem do mesmo ponto - seja em termos desportivos, financeiros ou de contexto social e político. Por muito que os programas de inteligência artificial combinem estatísticas e informações detalhadas para tentarem afinar prognósticos, é motivador confirmar que dentro de campo há guiões que não estão escritos.

Se é verdade que o futebol, negócio e máquina trituradora infernal, consegue encerrar em si muitos dos piores vícios dos tempos modernos, tem igualmente a potencialidade de ultrapassar barreiras e de se assumir como verdadeira linguagem universal. Não é só de futebol que falamos quando falamos de futebol. Para o pior e, felizmente, também para o melhor.

·         Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 17 de junho, 2026