4.6.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA – José Fanha


GRITO 

De ti que inventaste

a paz

a ternura

e a paixão

o beijo

o beijo fundo intenso e louco

e deixaste lá para trás

a côncava do medo

à hora entre cão e lobo

à hora entre lobo e cão.

 

De ti que em cada ano

cada dia cada mês

não paraste de acender

uma e outra vez

a flor eléctrica

do mais desvairado

coração.

 

De ti que fugiste à estepe

e obrigaste

à ordem dos caminhos

o pastor

a cabra e o boi

e do fundo do tempo

me chamaste teu irmão.

 

De ti que ergueste a casa

sobre estacas

e pariste

deuses e linguagens

guerras

e paisagens sem alento.

 

De ti que domaste

o cavalo e os neutrões

e conquistaste

o lírico tropel

das águas e do vento.

 

De ti que traçaste

a régua e esquadro

uma abóboda inquieta

semeada de nuvens e tritões

santidades e tormentos.

 

De ti que levaste

a volupta da ambição

a trepar erecta

contra as leis do firmamento.

 

De ti que deixaste um dia

que o teu corpo se cansassse

desta terra de amargura e alegria

e se espalhasse aos quatro cantos

diluido lentamente

no mais plácido

silente

e negro breu.

 

De ti

meu irmão

ainda ouço

o grito que deixaste

encerrado

em cada pétala do céu

cada pedra

cada flor.

O grito de revolta

que largaste à solta

e que ficou para sempre

em cada grão de areia

a ressoar

como um pálido rumor.

O grito que não cansa

de implorar

por amor

e mais amor

e mais amor.

José Fanha, in "Breve tratado das coisas da arte e do amor" Edições Ulmeiro, 1995. 1ª Edição

* Pintura de Augusto Pinheiro