O INE trabalhou estes dados a partir de profunda revisão
metodológica do apuramento das estimativas da população. A nova estimativa
assentou "na integração e utilização de dados de fontes administrativas e
na aplicação de métodos de indícios de residência", enquanto os valores
até 2020 são estimados a partir dos recenseamentos da população, com uma
metodologia preponderante e até exaustiva de inquérito. O INE deve esclarecer
as limitações da nova metodologia e as melhorias que poderão ser adotados. A
estimativa da população residente influencia indicadores demográficos e fixa
dados imprescindíveis para o apuramento do PIB e de indicadores do mercado de
trabalho e da economia, todos eles imprescindíveis para o planeamento de
políticas públicas.
Nos dados divulgados, o INE assinala que "o
envelhecimento demográfico em Portugal continuou a acentuar-se". É caso
para dizermos: ai de nós, se os imigrantes não tivessem vindo. Temos de os
tratar bem, até porque, como regista o INE, o saldo migratório está em queda.
Isto, num contexto em que se acentua a baixa qualidade de emprego, se agrava o
custo da habitação e outras dimensões fulcrais do custo de vida, fatores que
tendem a acelerar essa queda.
Os nossos governantes, deste e de governos anteriores,
repetiram discursos de celebração da convergência do nosso PIB (produto interno
bruto) per capita com o da União Europeia, quando afinal isso não terá
acontecido. Teremos tido crescimento acima da média, porque tivemos muitas mais
pessoas a trabalhar. Se assim foi, a produtividade até pode ter sido mais baixa
do que até agora se estimava. E talvez seja hora de se saber como anda a
economia paralela.
Os dados revelam que precisamos de imigrantes e somos
capazes de os atrair. Compete ao país, no seu todo, forçar a mudança do perfil
da economia e não abdicar de um verdadeiro Estado social para que eles venham e
muitos se fixem com as suas famílias. Os imigrantes, devidamente acolhidos,
vivem como qualquer português todas as dimensões da vida: habitam, consomem,
geram atividade económica e receitas públicas, revitalizam os sistemas de
segurança social, de saúde e de ensino, dão dinâmicas novas a atividades
culturais, sociais, recreativas e desportivas.
Os números dizem-nos que o aumento populacional é, por agora, muito menos uma viragem demográfica estrutural e, bem mais, o espelho de um ciclo de crescimento pós-pandemia, muito intensivo em mão de obra.
Manuel Carvalho da Silva – Jornal de Notícias - 27 de junho,
2026