29.6.26

OPINIÃO: Os números pregam partidas


No início desta semana, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou dados em que estima a população residente em Portugal em 11,4 milhões a 31/12/2025. Este valor traduz um aumento de 824 914 pessoas entre 2021 e 2025, tendo os anos de 2022, 2023 e 2024 registado "fluxos migratórios excecionalmente elevados", confirmando uma significativa retoma de atividade no período pós-pandemia. Naquela data, a população estrangeira seria 1 597 539 pessoas (14,0% do total).

O INE trabalhou estes dados a partir de profunda revisão metodológica do apuramento das estimativas da população. A nova estimativa assentou "na integração e utilização de dados de fontes administrativas e na aplicação de métodos de indícios de residência", enquanto os valores até 2020 são estimados a partir dos recenseamentos da população, com uma metodologia preponderante e até exaustiva de inquérito. O INE deve esclarecer as limitações da nova metodologia e as melhorias que poderão ser adotados. A estimativa da população residente influencia indicadores demográficos e fixa dados imprescindíveis para o apuramento do PIB e de indicadores do mercado de trabalho e da economia, todos eles imprescindíveis para o planeamento de políticas públicas.

Nos dados divulgados, o INE assinala que "o envelhecimento demográfico em Portugal continuou a acentuar-se". É caso para dizermos: ai de nós, se os imigrantes não tivessem vindo. Temos de os tratar bem, até porque, como regista o INE, o saldo migratório está em queda. Isto, num contexto em que se acentua a baixa qualidade de emprego, se agrava o custo da habitação e outras dimensões fulcrais do custo de vida, fatores que tendem a acelerar essa queda.

Os nossos governantes, deste e de governos anteriores, repetiram discursos de celebração da convergência do nosso PIB (produto interno bruto) per capita com o da União Europeia, quando afinal isso não terá acontecido. Teremos tido crescimento acima da média, porque tivemos muitas mais pessoas a trabalhar. Se assim foi, a produtividade até pode ter sido mais baixa do que até agora se estimava. E talvez seja hora de se saber como anda a economia paralela.

Os dados revelam que precisamos de imigrantes e somos capazes de os atrair. Compete ao país, no seu todo, forçar a mudança do perfil da economia e não abdicar de um verdadeiro Estado social para que eles venham e muitos se fixem com as suas famílias. Os imigrantes, devidamente acolhidos, vivem como qualquer português todas as dimensões da vida: habitam, consomem, geram atividade económica e receitas públicas, revitalizam os sistemas de segurança social, de saúde e de ensino, dão dinâmicas novas a atividades culturais, sociais, recreativas e desportivas.

Os números dizem-nos que o aumento populacional é, por agora, muito menos uma viragem demográfica estrutural e, bem mais, o espelho de um ciclo de crescimento pós-pandemia, muito intensivo em mão de obra.

Manuel Carvalho da Silva – Jornal de Notícias - 27 de junho, 2026