Há, na paisagem topográfica mas também emocional portuguesa, um tipo de
aldeia, vila ou cidade com a habilidade de produzir filhos da terra. Nisa, pelo
menos no Alentejo de Carlos Rayo, é uma dessas vilas. Em Urânio! - Intriga
Internacional no Alentejo, o autor apresenta-nos a sua filha da terra: Natércia
Colete – ou Naty para quem a conhece desde que nasceu –, que é advogada. Filha
pródiga, vai regressar a Nisa depois de receber a pior notícia sobre os pais
(”.. num desastre de viação na estrada para Portalegre”) e vai ver-se enredada
num grande mistério.
À chegada, a advogada (que traz na bagagem experiência no Instituto
Camões e em Angola) começa por inteirar-se dos negócios dos pais (a criação de
ovelhas e a produção de queijo) mas também do que terá mudado na terra que a
viu nascer.
Numa conversa com o presidente da Câmara (recém-eleito, sob uma
candidatura intitulada “Nisa Importa”), diz que, sendo preciso, está à
disposição da câmara. A resposta chega pronta: “Esta terra necessita de gente
qualificada, tenho muitos projetos em curso, com financiamento europeu e até
privado, quero quebrar o ciclo do fatalismo resignado da pobreza do interior e
todos somos poucos.”
Num retrato fiel do interior, Carlos Rayo dá então um banho de
realidade à sua protagonista: as oportunidades escasseiam, até para os filhos
pródigos. Subitamente, porém, um telefonema no final de mais um dia de (pouco)
trabalho transforma-se numa proposta: um homem de fora, Alberto Salcedo, tinha
tido uma avaria no carro e quando abordado pela polícia teria mostrado um
cartão de identificação falso. Para o defender perante a justiça, um outro
homem, Rui Aires, propõe-se a pagar-lhe 10 mil euros. Naty, mesmo desconfiada,
sente-se tentada.
Salcedo, o homem que tem de defender surge, contudo, associado a uma
suspeita: o aumento de ignições de fogos na região, somado ao apoio de gente
poderosa e com pressa de o retirar de Nisa, local do crime.
Chamada a reunir-se com essa gente poderosa, fica então a saber mais:
que Sacedo são águas passadas e o que a leva ali é que uma das maiores jazidas
de urânio em Portugal fica em Nisa e que a Melalmint, a empresa de exploração
mineira que a pretende contratar(feita da mesma massa humana que a tinha
contratado para impedir Salcedo de ser preso) chegou “à conclusão de que era de
toda a conveniência ter alguém in situ, que conhecesse as pessoas e as suas
sensibilidades e que pudesse fazer a ligação às equipas técnicas e de
comunicação” – Naty sendo o encaixe perfeito para este quebra-cabeças. “Para
uma saloia do Alto Alentejo, pensou interiormente, aquele era um desconhecido
mundo novo que se abria.”
Mas quem estaria realmente atrás desta empresa, que intenções teria e o que teria a perder a população de Nisa com a entrada da Metalmint na vida de todos os filhos da terra?
· * Carlos Rayo é o pseudónimo literário do advogado
e comentador de futebol da Medialivre , Carlos Cruz
Pedro Ferreira
