24.6.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - Eugénio Tavares

 


                            Canção ao Mar - Mar Eterno 

Oh mar eterno sem fundo sem fim

Oh mar das túrbidas vagas oh! Mar

De ti e das bocas do mundo a mim

Só me vem dores e pragas, oh mar

 

Que mal te fiz oh mar, oh mar

Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar

Quebrando as ondas tuas

De encontro às rochas nuas

 

Suspende a zanga um momento e escuta

A voz do meu sofrimento na luta

Que o amor ascende em meu peito desfeito

De tanto amar e penar, oh mar

 

Que até parece oh mar, oh mar

Um coração a arfar, a arfar

Em ondas pelas fráguas

Quebrando as suas mágoas

 

Dá-me notícias do meu amor

Que um dia os ventos do céu, oh dor

Os seus abraços furiosos, levaram

Os seus sorrisos invejosos roubaram

 

Não mais voltou ao lar, ao lar

Não mais o vi, oh mar

Mar fria sepultura

Desta minha alma escura

 

Roubaste-me a luz querida do amor

E me deixaste sem vida no horror

Oh alma da tempestade amansa 

Não me leves a saudade e a esperança

 

Que esta saudade é quem, é quem

Me ampara tão fiel, fiel

É como a doce mãe

Suavíssima e cruel

 

Nas mágoas desta aflição que agita

Meu infeliz coração, bendita!

Bendita seja a esperança que ainda

Lá me promete a bonança tão linda

 

Eugénio Tavares - Poeta caboverdiano