Na vida, há quem herde «propriedades», quem herde «apelidos»
e outros há que herdam «uma coisa mais rara: o conhecimento profundo da
condição humana».
É aqui que se insere Lídia Jorge, escritora multipremiada,
algarvia de coração e de convicção, alguém que «nunca escreveu para conquistar
o mundo».
Antes, «para o compreender», nas palavras de Dino d’Santiago, também cantor multipremiado, também algarvio de coração e de convicção – e, circunstancialmente, “padrinho” da atribuição da Medalha de Mérito Cultural a Lídia Jorge.
Aconteceu ontem, 8 de Junho, em Loulé, perante uma plateia
lotada – Lídia haveria de confessar, com a sua íntriseca bondade, que estava
entre amigos. De tal forma que quase «podia enunciar o nome de cada um dos
rostos».
Eles eram imensos: Margarida Balseiro Lopes, ministra da
Cultura, Juventude e Desporto (“culpada” desta homenagem à escritora algarvia),
Telmo Pinto, presidente da Câmara de Loulé, Vítor Aleixo, ex-presidente da
Câmara de Loulé, Carlos Albino, companheiro de décadas de Lídia, responsáveis
autárquicos, gente ligada à cultura.
E Dino d’Santiago, a quem coube um género de laudatio à
escritora que lhe ensinou que o dia 18 de Junho nunca mais terá o mesmo
significado.
«Deixou de ser uma data para ser um lugar: onde a
literatura, a esperança e as memórias resistem. E onde uma mulher de Boliqueime
continua a lembrar-nos de que escrever não é só o ato de organizar as
palavras», disse.
Nas suas obras – elas são tantas, desde o inicial “Dia dos
Prodígios” (e já lá vamos) -, julgamos estar a olhar para «personagens» para,
de forma súbita, entender que «estamos a olhar para nós próprios».
Talvez seja essa a magia da literatura. «Compreender é um
dos gestos mais revolucionários que o ser humano pode realizar. Num tempo em
que tantos escolhem o ruído, ela escolheu escutar. Talvez seja por isso que a
sua obra permanece. Porque não nasceu da ideologia, mas da compaixão», disse,
antes do abraço final à escritora, que o escutou comovida.
Assim se manteve também quando Margarida Balseiro Lopes lhe
agradeceu – num registo mais pessoal – a «simplicidade, a simpatia, a
generosidade, a humanidade e a humildade». Todas «absolutamente desconcertantes».
A escritora, considerou a ministra, já num tom mais
institucional, construiu «um percurso singular, com uma obra que atravessa
grandes géneros e formas de escrita». Mas que nunca se desligou da «memória, da
condição humana» e da «forma como olhamos o país e o mundo que nos rodeia».
O seu percurso começou «aqui, no Algarve», que sempre se
manteve «na paisagem da sua escrita». O tal “Dia dos Prodígios” [e lá
voltaremos a ir] foi «uma das obras mais marcantes da literatura portuguesa no
pós-25 de Abril».
«Tratou-se de uma obra que abriu novas possibilidades à
narrativa portuguesa contemporânea, construindo uma leitura profundamente
original do país, da transformação social e da realidade portuguesa saída da
ditadura», disse.
Outras se seguiram, como “Costa dos Murmúrios” ou a mais recente “Misericórdia”, mas a própria Lídia Jorge mantém com o primeiro livro que publicou uma relação que não escondeu, no seu discurso.
Já de medalha ao peito, depois de longos agradecimentos, a
escritora confessou a «surpresa» de que se revestiu a publicação da sua
primeira obra.
Com «palavras típicas de um lugarejo perdido no barrocal
algarvio», essa história tinha tudo para ser um «livro completamente fora de
moda». Tornou-se num clássico da literatura portuguesa contemporânea.
«Escrevi-o a seguir à Revolução, convicta de que a sociedade
portuguesa se ia modernizar de um momento para o outro. E eu, sem qualquer tipo
de saudosismo, desejava que não fosse esquecido o Portugal primitivo que a
maior parte de nós, na altura, tinha conhecido», confessou.
Para que a memória não se perdesse – ela que é um dos
elementos primordiais na escrita de Lídia, uma escritora hoje atormentada com
os desafios das novas tecnologias, que foram o mote para uma reflexão durante a
tarde, em Tavira, também com a ministra da Cultura.
Há a inteligência artificial, uma «incógnita à qual ainda
não sabemos dar verdadeiramente os adjetivos», mas também uma certeza bem
vincada pela autora algarvia.
«A literatura e a poética representam o lugar último de
resistência à robotização do pensamento, à artificialidade, à
despersonalização. Nenhuma máquina poderá rivalizar com a capacidade criativa
que nós, os seres humanos, temos», vincou.
Tudo isto foi dito, vivido e contado, em Loulé, no Algarve, na terra dela, na «primeira pátria» de uma escritora que continua a fazer o céu sorrir.
· Texto e Fotos: Pedro Lemos | Sul
Informação - Junho
9, 2026


