7.6.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA... - António Borrego


 IA"..."yá,yá,yá"

Compactação e alienação no doce descanso da preguiça ou da lavagem cerebral.

Quando regressei da terra...(Tolosa)...

senti remorsos da minha insignificância e da minha ignorância...

quando de lá saí, buscando vida noutras terras...

(terras de multidões anónimas)

ainda não havia o "bicho computador" nem a "IA"...

à qual podemos fazer perguntas e, resposta pronta no imediato...

quem sabe, podia ajudar-me nessa coisa de "ter que sair"...

deixar família e amigos para trás...as raízes que me acompanharam

foram as saudades e as memórias...

a pergunta seria!!

como faço para não ir...não ter que partir...

(o meu mundo ruiu, colapsou)

na altura, menino sem voto na matéria...não obtive respostas...

só lágrimas que me acompanharam por demasiado tempo

(mas que raio, um Homem não chora rapaz, dizia o meu Pai, com os olhos também marejados)...

nem os bondosos pastores de batina, guardaram o borrego...

nem os catequistas, sempre prontos a puxar as orelhas

a quem não sabia os primeiros passos de uma religião (imposta)...

(mais tarde percebi, porque os seminários e os conventos, abarrotavam de tantos cristãos e irmãs, a verdade é que se colam a nós, desde o batismo até à extrema unção, onde conduzem o "moribundo pró céu")

foi nessa altura que, soube que...o meu anjo da guarda...

bateu as asas e tirou férias...

pelos vistos nesses tempos, a ordem era, ensinar a bater...

tanta violência, ainda por cima...com o aval dos pais...

já sabe Srº Professor...se ele se portar mal "chegue-lhe!!"...

esta coisa de ensinar religião à bofetada, era como na escola...

reguadas e canadas que ferviam...

felizmente o cérebro cria as "enzimas do esquecimento"...

a verdade é que...nunca vi na catequese os filhos dos

"donos da vila" (os ricos)...os filhos deles, eram os meninos e nós os cachopos...pelos vistos, eles já tinham ensinamentos à parte...

nem bebiam óleo de fígado de bacalhau na cantina...

com uma colher de pau apontada ao nariz e a recomendação...

ai de ti se vomitas...engole e depois podes chorar à vontade...

só mais tarde me apercebo que os filhos dos ricos, não sofriam de raquitismo, nem de repressão autorizada...

acho que percebi a coisa à minha maneira...

aos "meninos" assistiam-lhes os "santos de primeira"...

aos cachopos, serviam muito bem os "santos de segunda"...

foi esta a conclusão que cheguei mais tarde...

com o meu grande amigo e companheiro da primeira à quarta classe...o João Salgado...(falámos sobre isto, e coincidimos na análise)

depois, o tempo e as condições, destronaram os ricos...

a emigração retirou-lhes os escravos, e a mão de obra barata que...

havia com fartura, dá para pensar...como é que...

um "meguélhe" de pão e um pedaço de toucinho amarelo já a roçar o rançoso, com umas azeitonas pretas, davam "tanto sustento"...pior?! é andarem por aí uns saudosistas a dizer que...

dantes é que era bom...

conto sempre!!

com o poder da alegria reposta...mesmo que o corpo envelheça...

ao ritmo do tempo que...passa rápido...

a carne, já não delira?!

o ardor?!..só me cria pranto e nenhum espanto...

em que possa dizer...as minhas asas ainda são fortes...

vou usando as folhas da memória...como testemunho...

daqueles que já se esqueceram...

ou então as enzimas deles, são tão fortes que...

criam o encanto de mudar o passado...num filme adulterado...

visto e revisto por sensores, com automatismos de defesa...

que ilibam..."meninos e família" e os verdugos que, mais uma vez...

tentam aparecer...na orla do poder...

ou estamos no mundo de forma digna...

ou estamos no mundo de forma infame...

urge arriscar horizontes que tenham...o cunho da liberdade...

ou então perecemos, na inação...e na ganância dos inumanos...

os algozes bem tentam dar...outro nome às coisas...

só que, ainda há...quem não esqueça...

agora?!

os dias serão uma prova de fundo para vencer...

cantemos e venceremos...nós sabemos sofrer a alegria...

urge cantar a alegria...mesmo que tenhamos vontade de chorar...

esta escada "cá de dentro"...custa tanto a subir, como a descer...

meus amigos, um dia subiremos à luz mais branca de todas...

e, veremos o mar passar...entre as estrelas...

estaremos reunidos outra vez...iremos nadar no "poço da velha"...

e, ouviremos soar o azul cá de dentro...

entretanto, saboreemos as migalhas de dor que...ainda nos restam.

a leitura da vida, não encerra nenhum sentido oculto...

está tudo no útero da eternidade...ou melhor...

no útero das nossas Mães...e aqueles que se atrevem a desobedecer...e a sair do rebanho...pois que...

inventam até conspirações cósmicas, e mais aquilo que vos/nos vier à cabeça e "prontes".

A.B. 2026. 

* Pintura de Augusto Pinheiro