28.7.26

OPINIÃO: A Polícia sob suspeita


Após os erros de casting Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, o primeiro-ministro tirou um coelho da cartola. Foi buscar para ministro da Administração Interna o diretor nacional da principal polícia de investigação. Visto o acanho de Maria Lúcia Amaral na crise da tempestade Kristin, que obrigou Luís Montenegro a dispensá-la e a assumir a pasta, Luís Neves era o homem providencial. Com provas dadas a prender bandidos, mexia-se bem entre polícias e bombeiros e sabia estar nos salões da corte, encontrava-se do lado humanista da História na candente problemática das migrações e tinha boa imprensa.

Entre os partidos, o Chega destoou. Não pela crónica anemia da PJ no combate ao crime de colarinho branco - isso, sim, merecia um reparo, não fosse a converseta do partido de André Ventura sobre corrupção um mero instrumento de propaganda -, mas por ter visto Luís Neves a desmontar a associação entre criminalidade e imigração, a ficção em que assenta a principal narrativa do Chega, e a falar da atividade criminosa de grupos de extrema-direita.

E, no entanto, havia outras objeções. Levantadas por vozes isoladas, em registo cifrado ou sem palco mediático. O Governo da AD servia-se de alguém que trazia consigo informação sigilosa sobre os podres de meio-país e que deixara a sua gente bem colocada na PJ. Menos expectável era o problema agora posto em cima da mesa, com as histórias do empreiteiro que fez obras na PJ e no monte de Neves e que levou para Barcelos um atrelado apreendido a traficantes: sendo necessário investigar o ministro, quem o faria? A PJ começou por fazê-lo (na parte do atrelado), mas o Ministério Público avocou a investigação. Naturalmente, não confia na Judiciária para investigar quem a dirigiu nos últimos oito anos.

O Chega viu a brecha e, à boleia do atrelado, anunciou uma comissão parlamentar de inquérito "para saber o que aconteceu na PJ durante os mandatos de Luís Neves". São oito anos de uma história de 80. Não se sabe como vão os deputados investigar a Polícia e é duvidoso que daí resulte alguma melhoria numa instituição que, com todos os seus defeitos, será das mais respeitadas pelos portugueses. Mas isso pouco importa a um limícola que, apesar de ter chegado aos 60 deputados, continua a não conseguir encontrar alimento senão no lodo. The show must go on.

Nelson Morais- Jornal de Notícias - 27 de julho, 2026