Entre os
partidos, o Chega destoou. Não pela crónica anemia da PJ no combate ao crime de
colarinho branco - isso, sim, merecia um reparo, não fosse a converseta do
partido de André Ventura sobre corrupção um mero instrumento de propaganda -,
mas por ter visto Luís Neves a desmontar a associação entre criminalidade e
imigração, a ficção em que assenta a principal narrativa do Chega, e a falar da
atividade criminosa de grupos de extrema-direita.
E, no
entanto, havia outras objeções. Levantadas por vozes isoladas, em registo
cifrado ou sem palco mediático. O Governo da AD servia-se de alguém que trazia
consigo informação sigilosa sobre os podres de meio-país e que deixara a sua
gente bem colocada na PJ. Menos expectável era o problema agora posto em cima
da mesa, com as histórias do empreiteiro que fez obras na PJ e no monte de
Neves e que levou para Barcelos um atrelado apreendido a traficantes: sendo
necessário investigar o ministro, quem o faria? A PJ começou por fazê-lo (na
parte do atrelado), mas o Ministério Público avocou a investigação.
Naturalmente, não confia na Judiciária para investigar quem a dirigiu nos
últimos oito anos.
O Chega viu
a brecha e, à boleia do atrelado, anunciou uma comissão parlamentar de
inquérito "para saber o que aconteceu na PJ durante os mandatos de Luís
Neves". São oito anos de uma história de 80. Não se sabe como vão os
deputados investigar a Polícia e é duvidoso que daí resulte alguma melhoria
numa instituição que, com todos os seus defeitos, será das mais respeitadas
pelos portugueses. Mas isso pouco importa a um limícola que, apesar de ter
chegado aos 60 deputados, continua a não conseguir encontrar alimento senão no
lodo. The show must go on.
Nelson Morais-
Jornal de Notícias - 27 de julho, 2026
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