19.7.26

OPINIÃO: O preço da insinuação nas redes sociais

Não vale tudo nas redes sociais. Esta é a conclusão óbvia, e feliz, que se pode retirar da sentença do Tribunal Criminal de Lisboa, que condenou Pedro Frazão ao pagamento de uma multa e de uma indemnização por difamar José Manuel Pureza, atual coordenador do BE.

Recuemos a 2021. O atual vice-presidente do Chega partilhou, no Twitter (hoje, X), um vídeo de uma jovem que afirmava ter sido vítima de atos sexuais não consentidos por um indivíduo igado ao BE. A acompanhar esse vídeo, escreveu: "Já não há Pureza no Bloco de Asquereza? #MeToo". E, num comentário à própria publicação, perguntou: "Quem será o nojento de 62 anos?". A suspeita estava lançada. O algoritmo fez o resto.

José Manuel Pureza tinha, na altura, 62 anos e era vice-presidente do Parlamento. Pedro Frazão negou. Na primeira sessão de julgamento disse estar "perfeitamente inocente" e que não se lembrava se a publicação tinha sido da sua autoria ou feita por alguém que geria as redes sociais, embora também tenha afirmado que utiliza, em várias ocasiões, a palavra "pureza" e que a mesma é usada em homilias e atos litúrgicos: "Estava a falar da virtude humana da pureza. Eu tenho formação cristã", argumentou.

Não serão precisas explicações para entendermos o que se passou. Aquele post é apenas o exemplo de uma estratégia assente na confrontação permanente, procurando rentabilizar o alcance de mensagens através da discussão e da polarização. E é aqui que vale a pena ter em conta um pormenor. O tribunal valorizou o facto de a publicação de Pedro Frazão ter sido colocada numa rede social acessível a um público heterogéneo, não exigindo provas de que tivesse atingido um número concreto de utilizadores. Ou seja, não foi necessário demonstrar que a publicação foi viral, bastou que a mensagem tivesse sido divulgada numa rede social.

Ainda bem que os tribunais o lembram.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 17 de julho, 2026