Recuemos a 2021. O atual vice-presidente do Chega partilhou,
no Twitter (hoje, X), um vídeo de uma jovem que afirmava ter sido vítima de
atos sexuais não consentidos por um indivíduo igado ao BE. A acompanhar esse
vídeo, escreveu: "Já não há Pureza no Bloco de Asquereza? #MeToo". E,
num comentário à própria publicação, perguntou: "Quem será o nojento de 62
anos?". A suspeita estava lançada. O algoritmo fez o resto.
José Manuel Pureza tinha, na altura, 62 anos e era
vice-presidente do Parlamento. Pedro Frazão negou. Na primeira sessão de
julgamento disse estar "perfeitamente inocente" e que não se lembrava
se a publicação tinha sido da sua autoria ou feita por alguém que geria as
redes sociais, embora também tenha afirmado que utiliza, em várias ocasiões, a
palavra "pureza" e que a mesma é usada em homilias e atos litúrgicos:
"Estava a falar da virtude humana da pureza. Eu tenho formação
cristã", argumentou.
Não serão precisas explicações para entendermos o que se
passou. Aquele post é apenas o exemplo de uma estratégia assente na
confrontação permanente, procurando rentabilizar o alcance de mensagens através
da discussão e da polarização. E é aqui que vale a pena ter em conta um
pormenor. O tribunal valorizou o facto de a publicação de Pedro Frazão ter sido
colocada numa rede social acessível a um público heterogéneo, não exigindo
provas de que tivesse atingido um número concreto de utilizadores. Ou seja, não
foi necessário demonstrar que a publicação foi viral, bastou que a mensagem
tivesse sido divulgada numa rede social.
Ainda bem que os tribunais o lembram.
Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 17 de julho, 2026
.jpeg)