Sucede que o futebol, o original, o que se joga no relvado, onze contra onze, impõe-se de vez em quando ao outro, o dos milhões, o das manipulações políticas de bastidores e do exibicionismo dos medíocres senhores do Mundo. O futebol resgata-se a si próprio e volta a ser o espaço das emoções, da valentia, da técnica, do virtuosismo, de um patriotismo saudável, porque multicultural, quando assistimos a jogos como o Bélgica-Senegal, o Portugal-Croácia ou essa inacreditável aventura que foi o Argentina-Cabo Verde.
Apesar
do repugnante Infantino, o vassalo de Trump, omnipresente nas bancadas e nos
ecrãs de televisão; apesar da pausa para hidratação, que serve apenas para
hidratar com milhões os mesmos de sempre; apesar do preço dos bilhetes, que fez
com que fosse mais fácil encontrar uma agulha num palheiro, do que alguém que
tivesse pagado menos de mil euros para ver Portugal em Toronto; apesar do
racismo evidente no veto à entrada de um árbitro nos EUA, só porque era somali,
ou do abuso da lei do mais forte, que obrigou os iranianos a jogarem nos EUA e
a pernoitarem no México...
Apesar
disso, tudo parece esbater-se perante o génio bipolar de um Leão e a garra de
um Ramos; perante o virtuosismo inacreditável de Messi ou a força tranquila de
um Vozinha que, para citar uma crónica no "The Guardian", joga
futebol por amor e a troco de tostões. São onze contra onze, mas a Alemanha não
ganha sempre. Ontem, vendo e emocionando-me com o sonho cabo-verdiano,
esqueci-me dos facínoras que colonizaram o futebol e recordei o pequeno
restaurante da Rua de São Pedro, que descobri recentemente junto ao Porto de
Leixões. Voltarei ao "El Gaúcho Criolo", para uma cachupa e um vinho
argentino e brindar ao que o futebol tem de bom.
Rafael
Barbosa – Jornal de Notícias - 5 de julho, 2026
