11.7.26

OPINIÃO: Cachupa e vinho para brindar ao futebol


Neste espaço é raro falar-se de futebol, que é cada vez menos um espetáculo emocionante e cada vez mais um negócio dominado por elites política e desportivamente corruptas. A degradação do ecossistema é ainda mais evidente quando o que está em causa é um Mundial, como o que por estes dias decorre no México, Canadá e EUA.

Sucede que o futebol, o original, o que se joga no relvado, onze contra onze, impõe-se de vez em quando ao outro, o dos milhões, o das manipulações políticas de bastidores e do exibicionismo dos medíocres senhores do Mundo. O futebol resgata-se a si próprio e volta a ser o espaço das emoções, da valentia, da técnica, do virtuosismo, de um patriotismo saudável, porque multicultural, quando assistimos a jogos como o Bélgica-Senegal, o Portugal-Croácia ou essa inacreditável aventura que foi o Argentina-Cabo Verde.

Apesar do repugnante Infantino, o vassalo de Trump, omnipresente nas bancadas e nos ecrãs de televisão; apesar da pausa para hidratação, que serve apenas para hidratar com milhões os mesmos de sempre; apesar do preço dos bilhetes, que fez com que fosse mais fácil encontrar uma agulha num palheiro, do que alguém que tivesse pagado menos de mil euros para ver Portugal em Toronto; apesar do racismo evidente no veto à entrada de um árbitro nos EUA, só porque era somali, ou do abuso da lei do mais forte, que obrigou os iranianos a jogarem nos EUA e a pernoitarem no México...

Apesar disso, tudo parece esbater-se perante o génio bipolar de um Leão e a garra de um Ramos; perante o virtuosismo inacreditável de Messi ou a força tranquila de um Vozinha que, para citar uma crónica no "The Guardian", joga futebol por amor e a troco de tostões. São onze contra onze, mas a Alemanha não ganha sempre. Ontem, vendo e emocionando-me com o sonho cabo-verdiano, esqueci-me dos facínoras que colonizaram o futebol e recordei o pequeno restaurante da Rua de São Pedro, que descobri recentemente junto ao Porto de Leixões. Voltarei ao "El Gaúcho Criolo", para uma cachupa e um vinho argentino e brindar ao que o futebol tem de bom.

Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 5 de julho, 2026