11.7.26

OPINIÃO: O problema nunca esteve nela


 Há notícias que nos chocam. Outras deveriam envergonhar-nos coletivamente.

A morte de uma jovem de 16 anos, alegadamente assassinada pelo namorado em Odivelas, não é apenas mais um crime. É também o retrato de um fracasso coletivo na prevenção da violência nas relações afetivas, particularmente entre os mais jovens.

Continuamos a associar a violência doméstica a relações longas, casamentos ou uniões de facto. No entanto, a realidade mostra-nos algo diferente. Os comportamentos de controlo, os ciúmes obsessivos, o isolamento social e as diversas formas de agressão surgem cada vez mais cedo, muitas vezes durante a adolescência.

Muitos jovens crescem rodeados de mensagens que confundem amor com posse e afeto com controlo. A vigilância constante, a exigência de acesso ao telemóvel, o controlo das redes sociais, a limitação das amizades ou a necessidade de saber permanentemente onde o outro está são frequentemente apresentados como sinais de amor. Não são.

A violência raramente surge de forma repentina. Instala-se gradualmente. Começa com o controlo, evolui para as humilhações, para as ameaças e para a agressão psicológica e, em alguns casos, culmina na violência física.

O mais inquietante é que estes sinais são, muitas vezes, visíveis. São observados por amigos, familiares, colegas de escola e até por adultos responsáveis. Ainda assim, continuam frequentemente a ser desvalorizados como "coisas da idade", "problemas de namorados" ou simples manifestações de ciúme. Não são.


E quando a tragédia acontece, a atenção continua demasiadas vezes a ser direcionada para a pessoa errada. Pergunta-se porque não terminou a relação mais cedo. Porque não contou a alguém. Porque não denunciou. Porque ficou.

Mas a questão essencial é outra: porque agride alguém quem diz amar? Porque sente alguém que tem o direito de controlar, humilhar, ameaçar ou destruir a vida de outra pessoa? Porque continua a existir quem encare a autonomia do outro como uma afronta e a rejeição como uma ofensa intolerável?

A violência nunca encontra a sua causa na liberdade da vítima. Encontra-a sempre na decisão do agressor de exercer poder, domínio e controlo.

Enquanto continuarmos a procurar respostas nos comportamentos de quem sofreu a violência, estaremos a desviar o olhar do verdadeiro problema. Nenhuma forma de vestir, nenhuma amizade, nenhuma mensagem ou nenhuma decisão de terminar uma relação explica ou justifica uma agressão. A responsabilidade pertence sempre a quem a pratica.

Talvez por isso seja tão importante mudar o foco da prevenção.

Não basta ensinar as potenciais vítimas a reconhecer sinais de perigo e a proteger-se. É necessário ensinar os potenciais agressores a reconhecer sinais de abuso nos seus próprios comportamentos e a pôr cobro aos mesmos.

Nenhum jovem nasce agressor. Nenhum jovem nasce preparado para ser vítima. Estas realidades constroem-se através de contextos familiares, sociais e culturais que importa compreender e transformar. A educação para a igualdade, para o respeito mútuo e para a gestão saudável dos conflitos não é um luxo ideológico, é uma necessidade de segurança pública.

As escolas têm aqui um papel fundamental, mas não podem estar sozinhas. As famílias, os serviços de saúde, as estruturas de proteção de crianças e jovens, as forças de segurança e toda a comunidade têm de assumir que a prevenção da violência começa muito antes da primeira agressão. Começa na forma como educamos para lidar com a rejeição. Começa na forma como ensinamos a reconhecer sinais de perigo. Começa, sobretudo, na mensagem clara de que ninguém pertence a ninguém.

Sempre que uma jovem perde a vida às mãos de quem dizia amá-la, repetem-se as mesmas perguntas: "Como foi possível?", "Ninguém percebeu?", "Não havia sinais?". Talvez a pergunta mais importante seja outra: o que estamos verdadeiramente a fazer para impedir que isto volte a acontecer?

Uma jovem de 16 anos deveria estar a fazer planos para o futuro. Deveria estar a escolher um curso, a sonhar com amizades, projetos e oportunidades. Não deveria transformar-se numa estatística

O verdadeiro escândalo não é apenas que este crime tenha acontecido. É que, perante tantos casos semelhantes, continuemos a reagir como se fossem imprevisíveis.

Enquanto confundirmos controlo com amor e posse com afeto, continuaremos a chegar tarde. E quando chegamos tarde já não há prevenção possível. Há apenas luto.

E permanece uma pergunta incómoda, mas indispensável: até quando continuaremos a perguntar às vítimas o que poderiam ter feito de diferente, em vez de perguntarmos a quem agride porque acredita ter o direito de destruir uma vida alheia?

Porque quando uma rapariga de 16 anos morre às mãos de quem dizia amá-la, não morre apenas uma vida.

Morre a filha de alguém. A neta de alguém. A irmã de alguém. A sobrinha de alguém.

Mas morre também uma parte da nossa capacidade coletiva de reconhecer uma verdade simples e essencial:

O problema nunca esteve nela.

Esteve sempre em quem escolheu a violência.


·         * Mariana Roque Caetano - Juíza de Direito ~16 de junho, 2026