A morte de uma jovem de 16 anos, alegadamente assassinada
pelo namorado em Odivelas, não é apenas mais um crime. É também o retrato de um
fracasso coletivo na prevenção da violência nas relações afetivas,
particularmente entre os mais jovens.
Continuamos a associar a violência doméstica a relações
longas, casamentos ou uniões de facto. No entanto, a realidade mostra-nos algo
diferente. Os comportamentos de controlo, os ciúmes obsessivos, o isolamento
social e as diversas formas de agressão surgem cada vez mais cedo, muitas vezes
durante a adolescência.
Muitos jovens crescem rodeados de mensagens que confundem
amor com posse e afeto com controlo. A vigilância constante, a exigência de acesso
ao telemóvel, o controlo das redes sociais, a limitação das amizades ou a
necessidade de saber permanentemente onde o outro está são frequentemente
apresentados como sinais de amor. Não são.
A violência raramente surge de forma repentina. Instala-se
gradualmente. Começa com o controlo, evolui para as humilhações, para as
ameaças e para a agressão psicológica e, em alguns casos, culmina na violência
física.
O mais inquietante é que estes sinais são, muitas vezes, visíveis. São observados por amigos, familiares, colegas de escola e até por adultos responsáveis. Ainda assim, continuam frequentemente a ser desvalorizados como "coisas da idade", "problemas de namorados" ou simples manifestações de ciúme. Não são.
E quando a tragédia acontece, a atenção continua demasiadas
vezes a ser direcionada para a pessoa errada. Pergunta-se porque não terminou a
relação mais cedo. Porque não contou a alguém. Porque não denunciou. Porque ficou.
Mas a questão essencial é outra: porque agride alguém quem
diz amar? Porque sente alguém que tem o direito de controlar, humilhar, ameaçar
ou destruir a vida de outra pessoa? Porque continua a existir quem encare a
autonomia do outro como uma afronta e a rejeição como uma ofensa intolerável?
A violência nunca encontra a sua causa na liberdade da
vítima. Encontra-a sempre na decisão do agressor de exercer poder, domínio e
controlo.
Enquanto continuarmos a procurar respostas nos
comportamentos de quem sofreu a violência, estaremos a desviar o olhar do
verdadeiro problema. Nenhuma forma de vestir, nenhuma amizade, nenhuma mensagem
ou nenhuma decisão de terminar uma relação explica ou justifica uma agressão. A
responsabilidade pertence sempre a quem a pratica.
Talvez por isso seja tão importante mudar o foco da
prevenção.
Não basta ensinar as potenciais vítimas a reconhecer sinais de perigo e a proteger-se. É necessário ensinar os potenciais agressores a reconhecer sinais de abuso nos seus próprios comportamentos e a pôr cobro aos mesmos.
Nenhum jovem nasce agressor. Nenhum jovem nasce preparado
para ser vítima. Estas realidades constroem-se através de contextos familiares,
sociais e culturais que importa compreender e transformar. A educação para a
igualdade, para o respeito mútuo e para a gestão saudável dos conflitos não é
um luxo ideológico, é uma necessidade de segurança pública.
As escolas têm aqui um papel fundamental, mas não podem
estar sozinhas. As famílias, os serviços de saúde, as estruturas de proteção de
crianças e jovens, as forças de segurança e toda a comunidade têm de assumir
que a prevenção da violência começa muito antes da primeira agressão. Começa na
forma como educamos para lidar com a rejeição. Começa na forma como ensinamos a
reconhecer sinais de perigo. Começa, sobretudo, na mensagem clara de que
ninguém pertence a ninguém.
Sempre que uma jovem perde a vida às mãos de quem dizia
amá-la, repetem-se as mesmas perguntas: "Como foi possível?",
"Ninguém percebeu?", "Não havia sinais?". Talvez a pergunta
mais importante seja outra: o que estamos verdadeiramente a fazer para impedir
que isto volte a acontecer?
Uma jovem de 16 anos deveria estar a fazer planos para o
futuro. Deveria estar a escolher um curso, a sonhar com amizades, projetos e oportunidades.
Não deveria transformar-se numa estatística
O verdadeiro escândalo não é apenas que este crime tenha
acontecido. É que, perante tantos casos semelhantes, continuemos a reagir como
se fossem imprevisíveis.
Enquanto confundirmos controlo com amor e posse com afeto,
continuaremos a chegar tarde. E quando chegamos tarde já não há prevenção
possível. Há apenas luto.
E permanece uma pergunta incómoda, mas indispensável: até
quando continuaremos a perguntar às vítimas o que poderiam ter feito de diferente,
em vez de perguntarmos a quem agride porque acredita ter o direito de destruir
uma vida alheia?
Porque quando uma rapariga de 16 anos morre às mãos de quem
dizia amá-la, não morre apenas uma vida.
Morre a filha de alguém. A neta de alguém. A irmã de alguém.
A sobrinha de alguém.
Mas morre também uma parte da nossa capacidade coletiva de
reconhecer uma verdade simples e essencial:
O problema nunca esteve nela.
Esteve sempre em quem escolheu a violência.
· * Mariana Roque Caetano - Juíza de
Direito ~16 de junho, 2026
.jpg)

