22.7.26

OPINIÃO: Testamento cívico de Luís Represas


"Há sempre alguém que nos faz falta". Luís Represas será, seguramente, um deles.

Durante cinquenta anos, Luís Represas ajudou a escrever uma parte da história da música portuguesa. Primeiro com os Trovante, que reinventaram a música popular portuguesa ao cruzar tradição e modernidade, depois numa carreira a solo onde os seus temas passaram a fazer parte da vida de várias gerações

Morreu aos 69 anos, vítima de doença prolongada. Partiu um dos artistas mais acarinhados do país, mas permanece um legado que nunca se limitou às canções. Porque Luís Represas nunca acreditou que a música existisse apenas para entreter. Acreditava que podia despertar consciências, preservar memórias e aproximar pessoas. Foi isso que aconteceu com "Timor", uma canção que ultrapassou rapidamente o universo musical para se transformar num símbolo da solidariedade portuguesa para com o povo timorense.

Num tempo em que Timor-Leste permanecia ocupado e distante dos olhares do mundo, a voz de Luís Represas ajudou a manter viva uma causa. O compromisso prolongou-se muito para além da música. Depois da independência, Jorge Sampaio convidou-o a integrar a visita oficial presidencial a Timor-Leste. Mais tarde, seria distinguido pelo presidente Taur Matan Ruak com a Medalha da Ordem de Timor-Leste, um reconhecimento pelo papel que desempenhou na divulgação daquela luta.

Também "Saudade" ganhou um significado que ultrapassou o palco. A canção foi escolhida para uma campanha nacional de segurança rodoviária, lembrando que, por detrás de cada acidente, ficam vidas interrompidas e famílias marcadas pela ausência. A sua música transformava-se, uma vez mais, numa linguagem capaz de servir uma causa pública.

Nunca fez da política uma profissão. Mas nunca foi indiferente ao país.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, deixava uma reflexão que continua atual: "A democracia, sendo o melhor de todos os males, tem um problema soporífero." E acrescentava outra ideia que dizia muito sobre a forma como via os portugueses: "Fomos capazes de dizer basta sem ninguém com uma caneta a instigar-nos." Acreditava numa cidadania ativa, participativa e exigente. Preferia construir pontes através da cultura a alimentar divisões através da política.

Essa forma de olhar o mundo repetia-se nas entrevistas.

Perante Ana Sousa Dias, dizia ser "um homem tranquilo e inquieto". Ao jornalista José Cândido Sousa recusava rótulos para a música e defendia que a identidade portuguesa nunca precisou de imitar ninguém. A João Gil explicava que nunca quis repetir fórmulas de sucesso, preferindo continuar a descobrir novos caminhos. Falava muitas vezes do mar, onde encontrava silêncio e liberdade, e da língua portuguesa como um património comum que merecia ser protegido.

Talvez por isso tenha aceite, já nos últimos anos, apresentar "Língua Mãe", programa da Sociedade Portuguesa de Autores na CMTV. Parecia um destino natural. Conversava com escritores, músicos, atores e criadores de todo o espaço lusófono, celebrando a língua portuguesa e defendendo os direitos de autor com a mesma serenidade com que sempre falou da música.

Pelo caminho recebeu algumas das mais importantes distinções da carreira. Em 2005 foi feito Comendador da Ordem do Mérito pelo Estado português. Em 2019 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio Pedro Osório pelo álbum "Boa Hora". Publicou ainda o livro infantil "A Coragem de Tição", integrado no Plano Nacional de Leitura, revelando uma curiosidade que nunca conheceu fronteiras.

Colaborou com José Afonso, Fausto Bordalo Dias, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Jorge Palma, Pablo Milanés, Ivan Lins, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Simone, Compay Segundo, Carlinhos Brown e Phil Collins. Nunca colecionou nomes. Colecionou encontros.

No fundo, Luís Represas deixou muito mais do que uma discografia. Deixou uma ideia de país. Um país onde a cultura é memória, a música pode mudar consciências e a língua portuguesa continua a ser um lugar de encontro.

Há artistas que deixam canções. Luís Represas deixa um pedaço da identidade de Portugal. E esse dificilmente conhecerá silêncio.

Catarina Ferreira – Jornal de Notícias - 22 de julho, 2026