18.7.26

MEMÓRIAS: Resta-me escrever o seu nome: “Jorge Gordo Miguéns”


 A morte. Sempre à espreita. Matreira, quase sempre a surpreender. Jamais a esperamos. Ainda que certa, parece-nos sempre distante e impotentes é-nos difícil aceitá-la.

Conheci o Jorge em Salavessa, já lá vão uns anos. Estive com ele na sua casa, ainda a mãe era viva. Fomos ver uns livros, ou coisa parecida. Entrámos e chamou a mãe. “Venha cá mãe - veja lá se conhece este primo!”. A mãe, Maria Gordo, prima em primeiro grau do meu avô, era uma dessas pessoas de sorriso doce e olhar terno. Apesar das agruras da vida, transmitia uma sensação de paz e tranquilidade. Ali mesmo me encheu os bolsos de pacotes de bolachas e rebuçados, os quais fui obrigado a aceitar. São estes quadros que me recordam a sua nobreza de carácter, pobre mas sempre disponível para dar.

O texto que se segue foi escrito pelo Jorge em 1999 e coincide com a sua saída de Salavessa para residir em Nisa.

Conta-nos parte do seu percurso. Uma vida de desencontros com a felicidade. A guerra colonial. A maldita guerra que tantos traumas originou na vida dos portugueses, tantos amores perdidos, desencontros, esperanças sem esperança. Depois da guerra, foi a morte prematura do pai, a morte da mãe e tantos outros percalços que sofreu. Eis a sua história, contada pelo próprio:

“Nasci numa casa humilde da Rua do Canto, em Salavessa, no dia 28 de Dezembro de 1951. Os meus pais eram trabalhadores rurais, nascidos e criados nesta terra, fazendo o mesmo que toda a gente fazia; durante a semana trabalhando do nascer ao pôr-do-sol, e nos domingos cultivavam umas pequenas hortas que nós possuíamos. Até aos sete anos, brinquei como todas as crianças da minha idade. Em 1958 entrei para a Escola Primária, tendo sido sempre um dos melhores alunos. (…) Fiz o exame da 4ª classe em 1962. Estes anos da minha infância foram os mais felizes da minha vida. Em 1963 fiz o exame de admissão ao Liceu e à Escola Industrial e Comercial de Castelo Branco, tendo ficado aprovado em ambos; como tinha um primo que estudava no liceu, optei pelo ensino liceal.

No 1º e no 2ºanos fui o melhor aluno da turma, tendo ficado no Quadro de Honra no 1ºano. Era o melhor aluno e ao mesmo tempo o mais mal vestido. É neste momento que começam as minhas primeiras interrogações sobre a sociedade e o mundo.

(…) Em 1968, no 5º ano – foi o deslumbramento. Era o namoro que começava, os bailes, as festas, o bilhar, o cinema e, para minha desgraça, a bebida e a política. (…) As noitadas sucediam-se. Eram os ventos que sopravam da Europa. O Maio de 68 irradiava em todas as direcções. O movimento hippie alastrava. Salazar caía. (…) Lia todos os dias o jornal “República”. As minhas “sebentas” eram a Seara Nova, o Tempo e o Modo, a revista Vértice e o Comércio do Funchal. O meu cérebro fervilhava de ideias. A tropa aproximava-se. Só pensava numa coisa – fugir!

Em 69, Marcelo permite as primeiras eleições “livres”. (…) Colocavam-se cartazes que a Polícia rasgava. (…) Nesse ano chumbei por faltas, no ano seguinte tirei Letras e em 71 fugi para Lisboa, onde trabalhei nas obras durante um mês. (…) Fui obrigado a regressar a casa. Estive vários meses praticamente sem fazer nada. (…) 4 de Janeiro de 72. Tropa. Tirei a recruta e a especialidade de escriturário. Neguei-me a fazer provas para cabo miliciano. Nada me importava. Continuava a pensar em desertar.

(…) Estive 10 dias preso por me ter ausentado sem licença. (…) Fui mobilizado para a Guiné. Quando cheguei à Guiné – “morri!”

Estava nas fileiras do inimigo. Como é que eu podia estar de arma na mão defendendo aquilo que mais detestava? Foram 20 meses duríssimos (…). Falar sobre o tempo que estive na guerra é doloroso e inútil. Só quem lá esteve pode saber o que se sente. (…) Chegou finalmente o 25 de Abril! Tinha 15 meses de Guiné. (…) Regressei finalmente a Portugal no dia 27 de Agosto de 1974. Durante esse tempo muita coisa tinha mudado. Pessoas que nunca abriam a boca, agora pareciam filósofos gregos. (…) Em 75 casou-se a rapariga que eu sempre tinha namorado. Apareceu um cancro ao meu pai, do qual viria a falecer em 76. Desde essa altura, e até entrar para a Câmara, a minha vida foi uma espécie de hibernação dolorosa. Trabalhava esporadicamente com os pedreiros, na apanha da azeitona e nas paragens da Celulose do Tejo. Em 82 fiz uma desintoxicação no Centro de Recuperação de Alcoólicos de Coimbra. Não resultou. A minha vida não tinha qualquer esperança. Em Maio de 84 entrei para a Câmara de Nisa, onde graças à boa camaradagem e ao bom relacionamento com o Presidente, consegui sobreviver até ao momento actual. Em 95 faleceu a minha mãe.

Estava “orgulhosamente” só. Abandonei definitivamente a bebida, desta vez sem qualquer tratamento.

A partir deste momento, encontrando a casa sempre vazia e fria, comecei a pensar em abandonar a Salavessa e fixar residência em Nisa.

Nada me prende à terra que me viu nascer. (…) Não tenho irmãos. Tenho um tio com 80 anos e três tias com 77, 80 e 82. Nos cafés onde raramente vou, ouço as mesmas conversas de há trinta anos; o único tema diferente é a reforma.

(…) As pessoas transpuseram as suas esperanças e economias para os seus descendentes – não vivem as suas vidas – vivem os sucessos dos filhos. É uma espécie de vingança ao passado de sacrifícios que fizeram na juventude. Eu compreendo perfeitamente as suas atitudes porque assisti à sua luta pela sobrevivência.

É um Outono perpétuo – sem esperança de Primavera!

(…) Dito isto – o que pode pensar e fazer um homem de 48 anos? Eu já não sou propriamente um jovem, mas ainda não sou suficientemente velho para viver neste Lar de 3ª idade (Salavessa). Dou-me bem com todas as pessoas, e sinto que sou estimado por toda a população, só que isto não é suficiente para manter o meu cérebro em funcionamento.

Parto. Sem saudade!

Resta-me escrever o meu nome: JORGE GORDO MIGUÉNS.”

 Jorge!

Eras realmente estimado por todos.

Restou-te escrever o teu nome! Não. Associaremos sempre ao teu nome à lembrança de um homem bom.

 * Luís Mário Correia Bento in Jornal de Nisa nº 213 - 23.08.2006