A morte. Sempre à espreita. Matreira, quase sempre a surpreender. Jamais a esperamos. Ainda que certa, parece-nos sempre distante e impotentes é-nos difícil aceitá-la.
Conheci o Jorge em Salavessa, já lá vão uns
anos. Estive com ele na sua casa, ainda a mãe era viva. Fomos ver uns livros,
ou coisa parecida. Entrámos e chamou a mãe. “Venha cá mãe - veja lá se conhece
este primo!”. A mãe, Maria Gordo, prima em primeiro grau do meu avô, era uma
dessas pessoas de sorriso doce e olhar terno. Apesar das agruras da vida, transmitia
uma sensação de paz e tranquilidade. Ali mesmo me encheu os bolsos de pacotes
de bolachas e rebuçados, os quais fui obrigado a aceitar. São estes quadros que
me recordam a sua nobreza de carácter, pobre mas sempre disponível para dar.
O texto que se segue foi escrito pelo Jorge
em 1999 e coincide com a sua saída de Salavessa para residir em Nisa.
Conta-nos parte do seu percurso. Uma vida de
desencontros com a felicidade. A guerra colonial. A maldita guerra que tantos
traumas originou na vida dos portugueses, tantos amores perdidos, desencontros,
esperanças sem esperança. Depois da guerra, foi a morte prematura do pai, a
morte da mãe e tantos outros percalços que sofreu. Eis a sua história, contada
pelo próprio:
“Nasci numa casa humilde da Rua do Canto, em
Salavessa, no dia 28 de Dezembro de 1951. Os meus pais eram trabalhadores
rurais, nascidos e criados nesta terra, fazendo o mesmo que toda a gente fazia;
durante a semana trabalhando do nascer ao pôr-do-sol, e nos domingos cultivavam
umas pequenas hortas que nós possuíamos. Até aos sete anos, brinquei como todas
as crianças da minha idade. Em 1958 entrei para a Escola Primária, tendo sido
sempre um dos melhores alunos. (…) Fiz o exame da 4ª classe em 1962. Estes anos
da minha infância foram os mais felizes da minha vida. Em 1963 fiz o exame de
admissão ao Liceu e à Escola Industrial e Comercial de Castelo Branco, tendo
ficado aprovado em ambos; como tinha um primo que estudava no liceu, optei pelo
ensino liceal.
No 1º e no 2ºanos fui o melhor aluno da turma, tendo ficado no Quadro de Honra no 1ºano. Era o melhor aluno e ao mesmo tempo o mais mal vestido. É neste momento que começam as minhas primeiras interrogações sobre a sociedade e o mundo.
(…) Em 1968, no 5º ano – foi o deslumbramento. Era o namoro que começava, os bailes, as festas, o bilhar, o cinema e, para minha desgraça, a bebida e a política. (…) As noitadas sucediam-se. Eram os ventos que sopravam da Europa. O Maio de 68 irradiava em todas as direcções. O movimento hippie alastrava. Salazar caía. (…) Lia todos os dias o jornal “República”. As minhas “sebentas” eram a Seara Nova, o Tempo e o Modo, a revista Vértice e o Comércio do Funchal. O meu cérebro fervilhava de ideias. A tropa aproximava-se. Só pensava numa coisa – fugir!
Em 69, Marcelo permite as primeiras eleições “livres”. (…) Colocavam-se cartazes que a Polícia rasgava. (…) Nesse ano chumbei por faltas, no ano seguinte tirei Letras e em 71 fugi para Lisboa, onde trabalhei nas obras durante um mês. (…) Fui obrigado a regressar a casa. Estive vários meses praticamente sem fazer nada. (…) 4 de Janeiro de 72. Tropa. Tirei a recruta e a especialidade de escriturário. Neguei-me a fazer provas para cabo miliciano. Nada me importava. Continuava a pensar em desertar.
(…) Estive 10 dias preso por me ter ausentado
sem licença. (…) Fui mobilizado para a Guiné. Quando cheguei à Guiné – “morri!”
Estava nas fileiras do inimigo. Como é que eu
podia estar de arma na mão defendendo aquilo que mais detestava? Foram 20 meses
duríssimos (…). Falar sobre o tempo que estive na guerra é doloroso e inútil.
Só quem lá esteve pode saber o que se sente. (…) Chegou finalmente o 25 de
Abril! Tinha 15 meses de Guiné. (…) Regressei finalmente a Portugal no dia 27
de Agosto de 1974. Durante esse tempo muita coisa tinha mudado. Pessoas que
nunca abriam a boca, agora pareciam filósofos gregos. (…) Em 75 casou-se a
rapariga que eu sempre tinha namorado. Apareceu um cancro ao meu pai, do qual
viria a falecer em 76. Desde essa altura, e até entrar para a Câmara, a minha
vida foi uma espécie de hibernação dolorosa. Trabalhava esporadicamente com os
pedreiros, na apanha da azeitona e nas paragens da Celulose do Tejo. Em 82 fiz
uma desintoxicação no Centro de Recuperação de Alcoólicos de Coimbra. Não
resultou. A minha vida não tinha qualquer esperança. Em Maio de 84 entrei para
a Câmara de Nisa, onde graças à boa camaradagem e ao bom relacionamento com o
Presidente, consegui sobreviver até ao momento actual. Em 95 faleceu a minha
mãe.
Estava “orgulhosamente” só. Abandonei definitivamente
a bebida, desta vez sem qualquer tratamento.
A partir deste momento, encontrando a casa
sempre vazia e fria, comecei a pensar em abandonar a Salavessa e fixar
residência em Nisa.
Nada me prende à terra que me viu nascer. (…)
Não tenho irmãos. Tenho um tio com 80 anos e três tias com 77, 80 e 82. Nos
cafés onde raramente vou, ouço as mesmas conversas de há trinta anos; o único
tema diferente é a reforma.
(…) As pessoas transpuseram as suas
esperanças e economias para os seus descendentes – não vivem as suas vidas –
vivem os sucessos dos filhos. É uma espécie de vingança ao passado de
sacrifícios que fizeram na juventude. Eu compreendo perfeitamente as suas
atitudes porque assisti à sua luta pela sobrevivência.
É um Outono perpétuo – sem esperança de Primavera!
(…) Dito isto – o que pode pensar e fazer um
homem de 48 anos? Eu já não sou propriamente um jovem, mas ainda não sou
suficientemente velho para viver neste Lar de 3ª idade (Salavessa). Dou-me bem
com todas as pessoas, e sinto que sou estimado por toda a população, só que
isto não é suficiente para manter o meu cérebro em funcionamento.
Parto. Sem saudade!
Resta-me escrever o meu nome: JORGE GORDO
MIGUÉNS.”
Eras
realmente estimado por todos.
Restou-te
escrever o teu nome! Não. Associaremos sempre ao teu nome à lembrança de um
homem bom.