28.7.26

OPINIÃO: O verão perfeito


Eram 9.54 horas quando o solstício de verão, a 21 de junho, ocorreu em Portugal Continental. A hora e o dia marcam o início de uma das estações do ano mais amadas. Isto se seguirmos as diretrizes do verão astronómico, que é quando o Hemisfério Norte está na sua inclinação máxima em direção ao Sol. Para os meteorologistas, todavia, o verão começa a 1 de junho, o primeiro dia dos três meses mais quentes. O cenário é imbatível para a maioria de nós: a luz natural dura até às 21 horas, a pele fica mais bronzeada, a roupa que vestimos é mais leve e colorida, chega o tempo das tão desejadas férias e a rotina aborrecida e cansativa tem uma pausa.

Há até quem defenda (sim, há estudos) que os dias longos trazem mais otimismo, vontade de socializar, uma sensação de bem-estar e a melhoria do humor. A frase da canção de Dino Meira sobre o mês de agosto nunca fez tanto sentido: "Por ti levo o ano inteiro a sonhar". É assim com o verão. Mas num tempo em que as redes sociais e o telemóvel parecem ser uma extensão das mãos, braços e da vida, também as férias viraram performance e montra para likes. Onde estivemos, com quem e o que fizemos são perguntas a que parecemos obrigados a responder - ou a publicar - para mostrar que as nossas férias foram muito interessantes.

É bom lembrar que nem todos apanhamos um avião nas férias de verão, não temos histórias rocambolescas para contar, nem experimentamos um restaurante ou um bar novo todos os fins de semana. Alguns porque não querem, outros porque as circunstâncias sociais ou financeiras não o permitem. Um verão "sem fazer nada" não é menos significativo. Aliás, se as férias são uma espécie de botão de "reiniciar", tal como fazemos com os computadores quando estão a bloquear, porque haveríamos de encher os dias de descanso com sucessivos compromissos, como se de reuniões se tratasse?

A Internet mostra-nos um mundo onde até nas férias temos de ser produtivos, de fazer mais e melhor. Para provar à nossa bolha, seja ela digital ou não, que este verão foi tudo menos aborrecido. Entramos numa era em que até o "descanso" é performativo, em que publicamos a foto no Instagram a dizer offline, mas estamos online a publicá-la. Depois, percorremos o scroll aditivo, que nos diz mais uma atividade que não podemos deixar de fazer.

Eu recordo-me bem do tempo em que os algoritmos não atulhavam os dias. Agora, tenho muitas saudades dos verões em que as minhas únicas preocupações eram comer um gelado todos os dias e chegar a tempo a casa para ver o último episódio dos "Morangos com açúcar".

Rita Neves Costa – Jornal de Notícias - 20 de julho, 2026