Há até quem defenda (sim, há estudos) que os dias longos trazem mais otimismo, vontade de socializar, uma sensação de bem-estar e a melhoria do humor. A frase da canção de Dino Meira sobre o mês de agosto nunca fez tanto sentido: "Por ti levo o ano inteiro a sonhar". É assim com o verão. Mas num tempo em que as redes sociais e o telemóvel parecem ser uma extensão das mãos, braços e da vida, também as férias viraram performance e montra para likes. Onde estivemos, com quem e o que fizemos são perguntas a que parecemos obrigados a responder - ou a publicar - para mostrar que as nossas férias foram muito interessantes.
É bom lembrar que nem todos apanhamos um avião nas férias de
verão, não temos histórias rocambolescas para contar, nem experimentamos um
restaurante ou um bar novo todos os fins de semana. Alguns porque não querem,
outros porque as circunstâncias sociais ou financeiras não o permitem. Um verão
"sem fazer nada" não é menos significativo. Aliás, se as férias são
uma espécie de botão de "reiniciar", tal como fazemos com os
computadores quando estão a bloquear, porque haveríamos de encher os dias de
descanso com sucessivos compromissos, como se de reuniões se tratasse?
A Internet mostra-nos um mundo onde até nas férias temos de
ser produtivos, de fazer mais e melhor. Para provar à nossa bolha, seja ela
digital ou não, que este verão foi tudo menos aborrecido. Entramos numa era em
que até o "descanso" é performativo, em que publicamos a foto no
Instagram a dizer offline, mas estamos online a publicá-la. Depois, percorremos
o scroll aditivo, que nos diz mais uma atividade que não podemos deixar de
fazer.
Eu recordo-me bem do tempo em que os algoritmos não
atulhavam os dias. Agora, tenho muitas saudades dos verões em que as minhas
únicas preocupações eram comer um gelado todos os dias e chegar a tempo a casa
para ver o último episódio dos "Morangos com açúcar".
Rita Neves Costa – Jornal de Notícias - 20 de julho, 2026
