24.7.26

OPINIÃO: Dos exames ao protesto nas ruas, sem influencers


A polémica dos exames afetou centenas de milhares de jovens. Houve folhas que se perderem, erros na digitalização, problemas com agrafadores, falhas na leitura de QR codes, dificuldades com as plataformas informáticas, provas trocadas, prazos ultrapassados, calendários alterados. Um caos.

Para aumentar a confusão, considerou-se imprudente que as famílias tivessem marcado férias para esta altura, criticou-se a "resistência" de alguns professores ao processo de digitalização e também se pediram desculpas aos docentes pelos constrangimentos causados no processo de correção. Naturalmente, com o acesso ao Ensino Superior em causa, os níveis de ansiedade dos estudantes e das suas famílias dispararam.

Hoje, os estudantes vão sair à rua para mostrar o seu descontentamento com o processo. Irão denunciar os "erros políticos e logísticos" do Governo, pedir a demissão do ministro e contestar a taxa de 25 euros, exigida para a reapreciação das provas. Têm legitimidade para o fazer. Mas há outra lição que também aprenderam ou devem aprender.

Os grandes nomes das redes sociais, aqueles que concentram milhões de seguidores, estiveram praticamente ausentes da discussão pública. Além dos políticos, o debate ficou, sobretudo, nas mãos de professores, alunos e jornalistas. Não é que um influencer tenha obrigação de comentar política ou educação. Não tem. Mas muitos deles dizem que lutam por causas, que são a voz da geração Z. Neste caso, não o foram.

Percebe-se porquê. Há assuntos que dividem audiências, afastam marcas e não geram engagement. Portanto, quando o tema não é rentável, o conteúdo deixa de ser interessante para partilhar.

Hoje os estudantes não ficam a protestar em frente aos computadores ou com os smartphones na mão. Nem esperam que os algoritmos ampliem a insatisfação. Dão a cara e saem à rua, porque, afinal, a influência não se mede no número de seguidores.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 24 de julho, 2026