Luís Neves usou o legado de 30 anos na Polícia Judiciária
para justificar a excessiva informalidade demonstrada no tempo em que exerceu
funções na Polícia Judiciária. Como se os fins (a comprovada competência e os
resultados apresentados na liderança da investigação criminal) justificassem os
meios (a leviandade com que tomou algumas decisões, sobretudo as que misturaram
as esferas profissional e pessoal). Apesar da expectativa criada, foram poucas
as novidades desta longa conferência de Imprensa. Luís Neves apenas pode
queixar-se de si próprio e das suas imprudências. Mas não pode ignorar que a
dimensão dos cargos (do anterior e do atual) comporta um conjunto explícito de
exigências legais e éticas. Por mais que queiramos acreditar que os erros
cometidos pelo ministro enquanto diretor da Polícia Judiciária foram produto de
imprudência e não de incompetência, e que tudo foi feito para resolver
problemas de forma pragmática, quem aplica as leis
não pode alegar o seu desconhecimento.A honra e a probidade de Luís Neves são
certamente importantes para o exercício mediático da gestão de danos ("Não
poupei nem ganhei um cêntimo"; "Nem sempre acertei, mas estive sempre
do lado do bem"), mas não são valores definitivos e únicos quando estão em
causa as condições necessárias para um titular de um cargo político de elevada
importância poder fazer o seu trabalho. Mesmo que Luís Neves nunca tenha sido,
como enfatizou, "um homem de papéis", há demasiadas nebulosas e
pontas soltas. Na decisão tomada por si de desviar o atrelado com material
apreendido numa operação contra o tráfico de droga e cuja exigência de prova
remeteu agora para os serviços da PJ; na excessiva bonomia com que o
empreiteiro que fez obras em várias sedes da PJ e na sua casa no Alentejo acolheu,
sem contrapartidas, esse material perigoso nas instalações da sua empresa em
Barcelos; no expediente encontrado para lhe pagar essas obras domésticas,
através da empresa da mulher e em numerário; no desconhecimento que disse ter
sobre a obrigação de apresentar a declaração de rendimentos; e, por fim, na
forma pouco ortodoxa como um tanque na sua propriedade no Alentejo se
transformou, contra a sua vontade, numa piscina sem licença camarária. Por mais
que não haja dolo, um ministro precisa de ter paz política e autoridade pública
para cumprir a sua missão. Nem uma nem outra saíram a ganhar depois destes
esclarecimentos públicos.
Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias
- 30 de julho, 2026
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