30.7.26

OPINIÃO: O legado e o atrelado


Luís Neves usou o legado de 30 anos na Polícia Judiciária para justificar a excessiva informalidade demonstrada no tempo em que exerceu funções na Polícia Judiciária. Como se os fins (a comprovada competência e os resultados apresentados na liderança da investigação criminal) justificassem os meios (a leviandade com que tomou algumas decisões, sobretudo as que misturaram as esferas profissional e pessoal). Apesar da expectativa criada, foram poucas as novidades desta longa conferência de Imprensa. Luís Neves apenas pode queixar-se de si próprio e das suas imprudências. Mas não pode ignorar que a dimensão dos cargos (do anterior e do atual) comporta um conjunto explícito de exigências legais e éticas. Por mais que queiramos acreditar que os erros cometidos pelo ministro enquanto diretor da Polícia Judiciária foram produto de imprudência e não de incompetência, e que tudo foi feito para resolver problemas de forma pragmática, quem aplica as leis não pode alegar o seu desconhecimento.A honra e a probidade de Luís Neves são certamente importantes para o exercício mediático da gestão de danos ("Não poupei nem ganhei um cêntimo"; "Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem"), mas não são valores definitivos e únicos quando estão em causa as condições necessárias para um titular de um cargo político de elevada importância poder fazer o seu trabalho. Mesmo que Luís Neves nunca tenha sido, como enfatizou, "um homem de papéis", há demasiadas nebulosas e pontas soltas. Na decisão tomada por si de desviar o atrelado com material apreendido numa operação contra o tráfico de droga e cuja exigência de prova remeteu agora para os serviços da PJ; na excessiva bonomia com que o empreiteiro que fez obras em várias sedes da PJ e na sua casa no Alentejo acolheu, sem contrapartidas, esse material perigoso nas instalações da sua empresa em Barcelos; no expediente encontrado para lhe pagar essas obras domésticas, através da empresa da mulher e em numerário; no desconhecimento que disse ter sobre a obrigação de apresentar a declaração de rendimentos; e, por fim, na forma pouco ortodoxa como um tanque na sua propriedade no Alentejo se transformou, contra a sua vontade, numa piscina sem licença camarária. Por mais que não haja dolo, um ministro precisa de ter paz política e autoridade pública para cumprir a sua missão. Nem uma nem outra saíram a ganhar depois destes esclarecimentos públicos.

Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias - 30 de julho, 2026