A vertigem da inovação exige passos certeiros e governar bem
não rima com precipitação nem com experimentalismo. E não tem faltado
experimentalismo e achismo na Educação em Portugal, com consequências danosas
para os alunos. Este Governo e o seu Ministério da Educação, Ciência e [de
pouca] Inovação cometeram o pecado capital de avançar para um processo de
correção digital generalizado dos exames nacionais sem uma avaliação cabal do
projeto-piloto realizado no ano passado. Quem o diz é o antigo presidente do
Júri Nacional de Exames, a quem nunca terá sido pedido um balanço da
experiência problemática de Filosofia. Se o tivesse feito - garante Luís Duque
de Almeida -, dificilmente Fernando Alexandre teria arriscado o caminho da
total digitalização e a trapalhada que se seguiu. Falta conhecer quais foram os
dados irrefutáveis que convenceram o ministro, de peito cheio, a dar este passo
em falso que abalou a confiança dos estudantes. O facto de a palavra
"suspenso" ir dando lugar a notas nas pautas não faz esmorecer a
suspeita de que a classificação afixada pode reproduzir, com erro, o trabalho
apresentado nas provas. A fiabilidade na avaliação nacional dos exames está
ferida de morte. Embora justa, é grave que exista desconfiança no processo de
correção e é certo de que este sistema, lançado com um otimismo infundado,
promoveu desigualdade entre os estudantes. Basta uma décima para ruir um
trabalho árduo de três anos, para ficar aquém no acesso ao curso sonhado. Creio
que não será a taxa moderadora de 25 euros a travar a avalanche de
reapreciações de exames. Muitos não arriscarão a reapreciação, com receio de
que o sistema volte a falhar e não tenham resultados a tempo de concorrer à
primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior.
Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 21 de julho, 2026