A redução da mulher a objeto de avaliação estética é
universal, constante e ainda mais rotineira a partir do momento em que uma
fotografia é comentada em simultâneo por milhões de pessoas. Momentos como a
gravidez agudizam, ainda assim, a perceção de que há um conjunto de normas
sobre o que deve ou não ser mostrado. Não se trata (só) de estética, mas de
silêncios e vigilâncias que acabam frequentemente por ser autoimpostos e
assumidos, de tal forma a mulher se habitua a encará-los.
Claro que estes temas são quase sempre reduzidos à categoria
de detalhes sem importância, até com o argumento benigno de que a desigualdade
de género tem coisas bem mais importantes com que se preocupar. Acontece que a
raiz dos problemas é exatamente a mesma, ainda que revestida de trivialidade.
Aliás, muitos mecanismos de controlo e discriminação tornam-se mais sólidos
precisamente por minimizarem ou tratarem como humor afirmações e comportamentos
de consequências sérias. É muito ténue a fronteira entre piadas e situações de
discriminação laboral que a gravidez origina em empresas e organizações. Como
de humor não têm nada as brincadeiras sobre tensão pré-menstrual ou menopausa,
muito comuns nos locais de trabalho. A desigualdade tem muitas capas, mas
nenhuma veste com elegância.
Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 12 de agosto, 2026
