12.8.26

OPINIÃO: O que diz uma barriga de grávida


Na sessão de estreia do seu mais recente filme, Anne Hathaway apresentou-se com uns jeans de cintura descaída e um crop top que deixava à vista a barriga proeminente de grávida. As redes sociais encheram-se, de imediato, de juízos violentos sobre a aparência da atriz, que culminaram em considerações de que a barriga seria falsa. O que parece um simples coro de vozes tontas mostra como os estigmas em torno da gravidez e do corpo das mulheres continuam enraizados.

A redução da mulher a objeto de avaliação estética é universal, constante e ainda mais rotineira a partir do momento em que uma fotografia é comentada em simultâneo por milhões de pessoas. Momentos como a gravidez agudizam, ainda assim, a perceção de que há um conjunto de normas sobre o que deve ou não ser mostrado. Não se trata (só) de estética, mas de silêncios e vigilâncias que acabam frequentemente por ser autoimpostos e assumidos, de tal forma a mulher se habitua a encará-los.

Claro que estes temas são quase sempre reduzidos à categoria de detalhes sem importância, até com o argumento benigno de que a desigualdade de género tem coisas bem mais importantes com que se preocupar. Acontece que a raiz dos problemas é exatamente a mesma, ainda que revestida de trivialidade. Aliás, muitos mecanismos de controlo e discriminação tornam-se mais sólidos precisamente por minimizarem ou tratarem como humor afirmações e comportamentos de consequências sérias. É muito ténue a fronteira entre piadas e situações de discriminação laboral que a gravidez origina em empresas e organizações. Como de humor não têm nada as brincadeiras sobre tensão pré-menstrual ou menopausa, muito comuns nos locais de trabalho. A desigualdade tem muitas capas, mas nenhuma veste com elegância.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 12 de agosto, 2026